Não Conte a Ninguém
Capítulo 46
46
ENTERRAMOS HOYT QUATRO DIAS DEPOIS. Milhares de policiais uniform izados vieram prestar sua últim a hom enagem . Os detalhes do ocorrido na propriedade de Scope ainda não tinham sido divulgados, e talvez nunca chegassem a ser. A própria m ãe de Elizabeth não insistira em obter respostas, talvez pelo fato de estar vibrando de alegria com a “ressurreição” da filha. Daí ela não sentir vontade de fazer m uitas perguntas ou de procurar incoerências. Era natural.
Por ora, Hoy t Parker m orrera com o herói. E talvez isso fosse verdade. Não sou o m elhor j uiz.
Hoy t escrevera um a longa confissão, basicam ente reafirm ando o que m e revelara no carro. Carlson a m ostrou para m im .
– Isto encerra o caso? – perguntei.
– Ainda tem os que abrir um processo contra Gandle, Wu e alguns dos outros – respondeu ele. – Mas, com Griffin Scope m orto, todos estão dispostos a colaborar agora.
O m onstro lendário, pensei. Não adianta cortar-lhe a cabeça. É preciso apunhalá-lo no coração.
– Você fez bem em m e procurar quando raptaram aquele m enino – disse Carlson.
– Que outra escolha eu tinha?
– É isso aí. – Carlson m e deu a m ão. – Cuide-se, Dr. Beck.
– Você tam bém .
Você deve estar querendo saber se Ty rese se m udou para a Flórida e com o andam TJ e Latisha. E m ais: se Shauna e Linda continuam j untas e se Mark está feliz. Mas não posso dizer, porque não sei.
Essa história term ina aqui, quatro dias após a m orte de Hoy t Parker e Griffin Scope. Já é tarde. Bem tarde. Estou deitado na cam a com Elizabeth, observando o m ovim ento de sua respiração enquanto ela dorm e. Eu a observo o tem po todo. Quase não fecho os olhos. Meus sonhos perversam ente se inverteram . Agora é neles que a perco, é neles que ela está m orta novam ente e eu estou sozinho. Por isso, estou sem pre segurando-a. Não desgrudo dela. Preciso desesperadam ente dela. E ela de m im . Mas nós vam os superar isso.
Com o se sentisse m eus olhos nela, Elizabeth rola na cam a. Sorrio para ela. Ela sorri de volta e sinto m eu coração nas nuvens. Lem bro-m e daquele dia no lago. Lem bro-m e de m im na balsa. E lem bro-m e de m inha decisão de contar a verdade.
– Precisam os conversar – digo.
– Não há necessidade.
– Esse negócio de guardar segredos não funciona conosco, Elizabeth. Foi o que causou essa confusão toda. Se tivéssem os contado tudo um para o outro… – interrom po a frase.
Ela concorda com um m ovim ento de cabeça. E percebo que ela sabe. Que ela sem pre soube.
– Seu pai – eu digo – sem pre achou que foi você quem m atou Brandon Scope.
– Foi o que eu disse a ele.
– Mas, no final… – faço um a pausa, para logo depois prosseguir – quando eu disse no carro que não foi você que o m atou, será que ele acreditou?
– Não sei – diz Elizabeth. – Gostaria de crer que sim .
– Então ele se sacrificou por nós.
– Ou tentou im pedir que você se sacrificasse – diz ela. – Ou talvez tenha m orrido ainda achando que fui eu que m atei Brandon Scope. Nunca saberem os, nem precisam os saber.
Olham os um para o outro.
– Você sabia – digo com grande esforço. – Desde o início, você…
Ela m e silencia colocando o dedo em m eus lábios.
– Tudo bem .
– Você pôs todas aquelas coisas no cofre – digo – por m im .
– Eu quis proteger você.
– Agi em legítim a defesa – digo, lem brando-m e novam ente da sensação da arm a em m inha m ão, o coice terrível quando apertei o gatilho.
– Eu sei – responde ela, colocando os braços em volta do m eu pescoço e m e puxando para j unto dela. – Eu sei.
Vej a bem , quando Brandon Scope invadiu nossa casa, oito anos antes, eu é que estava lá. Eu é que estava deitado sozinho na cam a quando ele se aproxim ou com a faca. Lutam os. Tentei pegar o revólver do m eu pai. Ele tentou m e esfaquear. Dei um tiro e o m atei. Depois, apavorado, fugi. Tentei ordenar os pensam entos, descobrir um a saída. Quando recobrei o controle, quando voltei para casa, o corpo havia sum ido. A arm a do crim e tam bém . Eu quis contar a ela. Eu ia fazer isso no lago. Mas só agora estou contando.
Com o eu j á disse, talvez, se eu tivesse contado a verdade desde o início…
Ela m e puxa para m ais perto.
– Estou aqui – sussurra Elizabeth.
Aqui. Com igo. Custa-m e acreditar que sej a verdade. Mas vou acabar acreditando. Nós nos abraçam os e adorm ecem os. Am anhã de m anhã acordarem os j untinhos. Depois de am anhã tam bém . Seu rosto será o prim eiro que verei todos os dias. Sua voz será a prim eira que ouvirei. E isso, sei bem , é tudo de que preciso.