Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 20 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 19

19

PERMANECI DIANTE DO COMPUTADOR e com ecei a beber com vontade. Tentei m e conectar ao site de 12 m aneiras diferentes. Usei o Explorer, depois o Netscape. Lim pei o cache, recarreguei a página, desconectei-m e do provedor e conectei-m e de novo.

Não adiantava. Continuava surgindo a m ensagem de erro.

Às 22 horas, Shauna voltou. Suas bochechas brilhavam de tanto beber. As m inhas tam bém deviam estar brilhando, im aginei.

– Nada ainda?

– Vá para casa – recom endei.

Ela assentiu com a cabeça.

– Sim , acho m elhor.

A lim usine chegou em cinco m inutos. Shauna cam baleou até o m eio-fio, sob o efeito de bourbon e cervej a. Eu estava no m esm o estado.

Shauna abriu a porta e se virou para m im .

– Algum a vez você se sentiu tentado a trair Elizabeth? Quer dizer, quando vocês estavam casados.

– Não – respondi.

Shauna fez um gesto de desapontam ento.

– Você é todo certinho!

Dei-lhe um beij o de despedida e entrei. Continuei olhando a tela com o se fosse algo sagrado. Nada m udara.

Chloe se aproxim ou lentam ente alguns m inutos depois. Ela cutucou m inha m ão com o nariz úm ido. Nossos olhos se encontraram através de sua floresta de pelos, e eu seria capaz de j urar que Chloe com preendeu o que eu estava sentindo. Não sou daqueles que atribuem características hum anas aos cães – até porque acho que isso os depreciaria –, m as acredito que eles tenham um a com preensão básica do que seus donos estão sentindo. Dizem que os cães conseguem farej ar o m edo. Seria exagero acreditar que eles tam bém possam farej ar a alegria, a raiva ou a tristeza?

Sorri para Chloe e afaguei sua cabeça. Ela pôs um a pata no m eu braço, em um gesto confortador.

– Quer dar um a volta, garota? – perguntei.

Chloe respondeu saltando com o um anim al de circo. Com o eu j á disse, são as pequenas coisas que contam .

O ar noturno invadiu m eus pulm ões. Tentei m e concentrar em Chloe – o passo saltitante, o rabo abanando –, m as eu estava um tanto quanto cabisbaixo.

Aquela hipótese de Shauna sobre m anipulação digital não tinha m e convencido totalm ente. Sim , alguém poderia m anipular um a fotografia e torná-la parte de um vídeo. E alguém poderia saber sobre a “hora do beij o”. E poderia até ter feito os lábios sussurrarem : “Sinto m uito.” E m eu desespero provavelm ente aj udou a tornar a ilusão real e m e deixou suscetível a um a m anipulação daquelas.

E o pior era que a hipótese de Shauna fazia m uito m ais sentido do que um retorno do túm ulo.

Mas havia dois detalhes que contrariavam tudo aquilo. Em prim eiro lugar, não sou dado a delírios. Sou um cara extrem am ente racional e, bem diferente da m aioria das pessoas, tenho os pés no chão. Segundo, o desespero poderia até ter obscurecido m eu raciocínio, e a fotografia digital poderia até ter feito m uitas coisas.

Mas não aqueles olhos…

Os olhos dela. Os olhos de Elizabeth. Era im possível que fossem antigas fotografias transform adas em vídeo digital. Aqueles olhos pertenciam à m inha esposa. Minha m ente racional tinha certeza disso? Não, claro que não. Não sou nenhum ingênuo. Mas, levando em conta o que vi e todas as perguntas que form ulei, acabei praticam ente descartando a dem onstração do vídeo de Shauna. Eu chegara em casa convencido de que receberia um a m ensagem de Elizabeth.

Agora eu j á nem sabia m ais o que pensar. A bebida devia estar contribuindo para m inha perplexidade.

Chloe parou para dar um a longa fungada. Aguardei sob um poste de luz e observei sua som bra alongada.

A hora do beijo…

Chloe rosnou ao perceber um m ovim ento em um arbusto. Um esquilo atravessou correndo a rua. Chloe fez m enção de correr atrás. O esquilo parou e se virou para nós. Chloe latiu, com o que dizendo: “Sorte sua eu estar presa na guia.” Na verdade, ela não faria nenhum m al ao esquilo. Chloe era incapaz de m atar um m osquito.

A hora do beijo…

Inclinei a cabeça, com o Chloe faz quando ouve um som estranho. Voltei a pensar no que vira no dia anterior no com putador – e no esforço que alguém fizera para m anter tudo aquilo em segredo. O e-m ail sem assinatura dizendo para eu clicar no link na “hora do beij o”. O segundo e-m ail criando um a conta em m eu nom e.

Estão observando…

Alguém estava se esforçando ao m áxim o para m anter aquelas com unicações em segredo.

A hora do beijo…

Se alguém – tudo bem , se Elizabeth – quisesse sim plesm ente m e m andar um a m ensagem , por que não m e telefonava ou escrevia um e-m ail? Por que tantos obstáculos?

A resposta era óbvia: segredo. Alguém – não direi Elizabeth novam ente – queria m anter tudo em segredo.

E, se você tem um segredo, conclui-se que existe alguém de quem você quer ocultá-lo. E talvez esse alguém estej a observando ou espreitando ou tentando descobrir seu segredo. Ou isso, ou você está paranoico. Geralm ente fico com a hipótese da paranoia, m as…

Estão observando…

O que aquilo significava exatam ente? Quem estaria observando? Os agentes federais? E, se os federais estivessem realm ente por trás dos e-m ails, por que m e alertariam daquela m aneira? Os federais queriam que eu agisse.

A hora do beijo…

Meu sangue gelou nas veias. Chloe virou a cabeça em m inha direção.

Meu Deus, por que não percebi antes?

♦ ♦ ♦

Eles nem se deram o trabalho de usar a fita isolante.

Rebecca Schay es j azia sobre a m esa agora, choram ingando com o um cão agonizante à beira da estrada. Às vezes, ela balbuciava algum as palavras, duas ou m esm o três de um a vez, m as j am ais form ava um a sequência coerente. Ela estava acabada dem ais para continuar gritando. As súplicas haviam cessado. Seus olhos continuavam arregalados e perplexos. Já não viam nada. Sua m ente havia se estilhaçado em m eio a um grito 15 m inutos antes.

Surpreendentem ente, Wu não deixara nenhum a m arca. Nenhum a m arca, m as ela parecia 20 anos m ais velha.

Rebecca Schay es não sabia de nada. O Dr. Beck a visitara por causa de um antigo acidente de carro que não foi bem um acidente de carro. Havia fotos tam bém . Beck supôs que ela as tirara. Mas não tinha sido ela.

A sensação de arrepio no estôm ago – que com eçara com o sim ples cócegas quando Larry Gandle soube dos corpos encontrados no lago – não parava de aum entar. Algo tinha dado errado naquela noite. Sem dúvida. Mas agora Larry Gandle tem ia que talvez tudo tivesse dado errado.

Estava na hora de trazer à luz a verdade.

Ele consultara seu espião. Beck estava levando o cachorro para passear. Sozinho. À luz dos indícios que Wu forj aria, aquele seria um péssim o álibi. Os agentes federais j am ais acreditariam nele.

Larry Gandle se aproxim ou da m esa. Rebecca Schay es ergueu o olhar e fez um ruído estranho, um m isto de gem ido agudo e riso m agoado.

Ele apertou o revólver contra sua testa. Ela fez aquele ruído novam ente. Ele disparou duas vezes e o m undo caiu no silêncio.

♦ ♦ ♦

Com ecei a voltar para casa, m as pensei naquela advertência.

Estão observando…

Por que m e arriscar? Havia um cibercafé três quadras adiante aberto 24 horas por dia. Quando cheguei à porta, entendi por quê. Era m eia-noite e o local estava lotado. Um m onte de hom ens e m ulheres de negócios bebericavam cappuccinos e navegavam na internet.

Esperei m inha vez num labirinto form ado por cordas de veludo. Lem brei-m e das visitas ao banco antes do advento dos caixas eletrônicos. A m ulher à m inha frente vestia um terninho social – em plena m adrugada – e tinha olheiras tão grandes que poderia ser confundida com um a coruj a. Atrás de m im , um hom em de cabelos encaracolados e roupa de m alha escura apanhou um telefone celular e com eçou a apertar os botões.

– Senhor?

Alguém com o uniform e do cibercafé apontou para Chloe.

– O senhor não pode entrar com o cachorro.

Quase contei a ele que j á havia entrado outras vezes, m as m e contive. A m ulher de terninho não reagiu. O suj eito de cabelos encaracolados e roupa de m alha escura m e olhou com o quem diz: “O que se há de fazer?” Saí rapidinho, prendi Chloe do lado de fora e retornei ao m esm o lugar. O hom em de cabelos encaracolados nem chiou.

Dez m inutos depois eu estava na frente da fila. O funcionário do cibercafé era j ovem e exuberante. Ele m e conduziu a um term inal de com putador e explicou calm am ente o sistem a de cobrança.

Concordei com a cabeça durante a explicação e m e conectei à internet.

A hora do beijo…

Percebi que aquele era o segredo. O prim eiro e-m ail se referira à “hora do beij o”, e não às 18h15. Por quê? A resposta era óbvia. Aquilo era um código – para o caso de pessoas erradas interceptarem o e-m ail. Quem quer que o tenha enviado levantara a possibilidade de isso acontecer; sabia que apenas eu conhecia o significado da “hora do beij o”.

Foi então que tive um estalo.

Prim eiro, o nom e da conta: Bat Street. Quando Elizabeth e eu éram os crianças, costum ávam os descer a Morewood Street de bicicleta a cam inho do cam po de beisebol. Um a velhota com cara de bruxa m orava num a casa am arela desbotada. Ela vivia sozinha e fazia cara feia para as crianças que passavam . Toda cidadezinha do interior tem essas velhas corocas. Elas costum am ter um apelido. No nosso caso, a cham ávam os de Bat Lady .

Entrei de novo no Bigfoot. Digitei Morewood na caixa do nom e do usuário.

Ao m eu lado, o funcionário do cibercafé repetia sua cantilena para o hom em de cabelos encaracolados e roupa de m alha escura. Apertei a tecla Tab, pulando para a caixa destinada à senha.

A pista Teenage era m ais fácil. Em nosso prim eiro ano de escola secundária, fom os um a sexta-feira à noite à casa de Jordan Goldm an. Éram os um grupo de m ais ou m enos 10. Jordan descobriu onde seu pai escondia um vídeo pornô. Nenhum de nós havia visto um antes. Assistim os ao vídeo, rindo desconfortavelm ente, fazendo as piadinhas de praxe e nos sentindo deliciosam ente indecentes. Quando precisam os de um nom e para nosso tim e de beisebol, Jordan sugeriu que usássem os o título idiota do film e:

Teenage Sex Poodles.

Digitei Sex Poodles com o senha. Prendi a respiração e cliquei em Login.

Olhei para o hom em de cabelos encaracolados. Ele estava concentrado num a pesquisa no Yahoo. Olhei de volta para a recepção. A m ulher de terninho franzia a testa diante de outro atendente do cibercafé.

Aguardei a m ensagem de erro. Mas desta vez ela não veio. Um a tela de boas-vindas apareceu. No alto, lia-se:

Oi, Morewood!

Em baixo estava escrito:

Há 1 mensagem em sua caixa postal.

Meu coração parecia um pássaro tentando fugir da caixa torácica.

Cliquei em Novas Mensagens, e m inha perna com eçou a trem er. Dessa vez Shauna não estava por perto para acalm á-la. Da j anela do cibercafé pude ver Chloe am arrada. Ela m e reconheceu e com eçou a ganir. Pus um dedo diante dos lábios, num sinal para que ela se acalm asse.

A m ensagem do e-m ail apareceu.

Washington Square Park. Encontre-me na esquina a sudeste.

Amanhã às 17 horas.

Você será seguido.

E no final:

Aconteça o que acontecer, eu te amo.

A esperança, aquele pássaro engaiolado que nunca m orre, se libertou. Relaxei. Lágrim as j orravam dos m eus olhos, m as, pela prim eira vez em m uito tem po, consegui sorrir de verdade.

Elizabeth continuava sendo a pessoa m ais esperta que eu conhecia.