Não Conte a Ninguém
Capítulo 22
22
OS DETETIVES ROLAND DIMONTE E KEVIN KRINSKY, da Divisão de Hom icídios da polícia de Nova York, foram os prim eiros a chegar à cena do crim e. Dim onte, um hom em de cabelos oleosos que gostava de botas de pele de cobra e m antinha um palito de dentes na boca, assum iu o com ando. Ele gritava ordens. O local do crim e foi im ediatam ente isolado. Alguns m inutos depois, peritos surgiram e se espalharam pelo local.
– Isolem as testem unhas – ordenou Dim onte.
Eram apenas duas: o m arido e o auxiliar de Rebecca. Dim onte notou que o m arido parecia atordoado, em bora pudesse estar fingindo. Mas prim eiro as providências iniciais.
Dim onte, ainda m ascando o palito, levou o auxiliar – seu nom e, pelo que constatou, era Arturo – para o lado. O rapaz estava pálido. Norm alm ente, Dim onte desconfiaria de drogas, m as o suj eito havia vom itado ao encontrar o corpo.
– Você está bem ? – perguntou Dim onte, com o se ele se im portasse.
Arturo assentiu com a cabeça.
Dim onte perguntou se acontecera algo de estranho com a vítim a recentem ente. Arturo respondeu que sim . O que aconteceu? Rebecca recebera um telefonem a no dia anterior que a perturbara. Quem telefonou? Arturo não tinha certeza, m as um a hora depois – talvez m enos, ele não sabia ao certo – um hom em viera ao estúdio ver Rebecca. Quando o hom em partiu, ela estava arrasada.
– Lem bra-se do nom e do hom em ?
– Beck – respondeu Arturo. – Ela o cham ou de Beck.
♦ ♦ ♦
Shauna colocou o lençol de Mark na m áquina de lavar. Linda veio atrás dela.
– Ele está fazendo xixi na cam a de novo – observou Linda.
– Você é observadora!
– Não sej a sarcástica. – Linda se afastou. Shauna abriu a boca para pedir desculpas, m as não disse nenhum a palavra. Quando ela saiu de casa pela prim eira vez – a única vez –, Mark reagira negativam ente. Passara a fazer xixi na cam a. Quando ela e Linda se reconciliaram , o xixi na cam a parou. Até aquele dia.
– Ele sabe o que está acontecendo – disse Linda. – Ele sente a tensão.
– O que você quer que eu faça, Linda?
– O que tiverm os que fazer.
– Eu não vou sair de casa de novo. Eu prom eti.
– Mas isso não é suficiente.
Shauna colocou um pouco de am aciante de roupas na m áquina. Seu rosto estava m arcado pela exaustão. Ela não precisava daquilo. Era um a m odelo cheia da grana. Não podia chegar ao trabalho com olheiras ou sem brilho nos cabelos. Estava cansada daquilo tudo. Cansada da vida dom éstica que não com binava com ela. Cansada da pressão dos m alditos bem -intencionados. Esquecer a intolerância era fácil. Mas a pressão sobre um casal de lésbicas com um filho – exercida por defensores supostam ente bem -intencionados – era m ais que sufocante. Se a relação desse errado, a falha seria do lesbianism o em si ou coisa que o valha, com o se casais heterossexuais nunca brigassem . Shauna não era idealista. Ela sabia disso. Egoísta ou não, sua felicidade não seria sacrificada no altar do “bem m aior”
Ela se perguntou se Linda sentia a m esm a coisa.
– Eu te am o – disse Linda.
– Eu tam bém te am o.
Elas olharam um a para a outra. Mark voltara a fazer xixi na cam a. Shauna não se sacrificaria pelo bem m aior. Mas por Mark, sim .
– Então o que vam os fazer? – perguntou Linda.
– Vam os tentar resolver o problem a.
– Será que vam os conseguir?
– Você m e am a?
– Você sabe que sim – respondeu Linda.
– Você ainda acha que sou a criatura m ais em polgante e m aravilhosa na face da Terra?
– Claro – respondeu Linda.
– Eu tam bém acho – Shauna sorriu para ela. – Eu sou um a chata de um a narcisista.
– É m esm o.
– Mas sou a sua narcisista.
– Com certeza.
Shauna se aproxim ou.
– Não estou destinada a um a vida de relacionam entos fáceis. Sou m uito volúvel.
– Você é supersexy quando está volúvel – disse Linda.
– E tam bém quando não estou.
– Cala a boca e m e dá um beij o.
O interfone soou. Linda olhou para Shauna, que deu de om bros. Linda apertou o botão e disse:
– Sim ?
– É Linda Beck?
– Quem é?
– Sou o agente especial Kim berly Green, do FBI. Estou com m eu colega, o agente especial Rick Peck. Gostaríam os de subir e fazer um as perguntas.
Shauna se aproxim ou de Linda antes que ela pudesse responder.
– A nossa advogada é Hester Crim stein – gritou ela ao interfone. – Vocês podem telefonar para ela.
– Vocês não são suspeitas de nenhum crim e. Só querem os fazer um as perguntas…
– Hester Crim stein – interrom peu Shauna. – Tenho certeza de que vocês sabem o telefone dela. Tenham um bom dia.
Shauna soltou o botão do interfone. Linda olhou para ela.
– O que eles estavam querendo?
– Seu irm ão está em apuros.
– O quê?
– Sente-se – disse Shauna. – Precisam os conversar.
♦ ♦ ♦
Raisa Markov, a enferm eira que cuidava do avô do Dr. Beck, ouviu a firm e batida na porta e atendeu. Os agentes especiais Carlson e Stone, trabalhando agora em conj unto com os detetives da polícia de Nova York Dim onte e Krinsky , lhe entregaram o docum ento.
– Mandado de busca federal – anunciou Carlson.
Raisa saiu da frente sem reagir. Tendo nascido na antiga União Soviética, estava acostum ada a arbitrariedades policiais.
Oito dos hom ens de Carlson invadiram a residência de Beck e se espalharam .
– Quero tudo gravado em vídeo – ordenou Carlson. – Nada de erros.
Eles estavam se apressando na esperança de perm anecer m eio passo à frente de Hester Crim stein. Carlson sabia que Crim stein, com o m uitos advogados de defesa espertalhões nesta era pós-O. J. Sim pson, se aferrava desesperadam ente a alegações de incom petência ou m á conduta policial. Carlson, um tira com petente, não deixaria que isso acontecesse com ele. Cada passo, m ovim ento ou respiração seria docum entado e corroborado.
Quando Carlson e Stone irrom peram no estúdio de Rebecca Schay es, Dim onte não ficou nada satisfeito em vê-los. Houve o costum eiro atrito entre a polícia local e os agentes federais. Poucas coisas conseguem unir o FBI às autoridades locais, especialm ente em um a m etrópole com o Nova York.
Mas Hester Crim stein era um a dessas coisas.
Am bos os lados sabiam que Crim stein era m estre em confundir e em atrair publicidade. O m undo estaria de olho. Ninguém se atreveria a com eter qualquer erro. Essa era a m otivação principal ali, de m odo que forj aram um a aliança tão sólida quanto um acordo de paz entre palestinos e israelenses, porque no fundo am bos os lados sabiam que precisariam coletar as provas rapidam ente – antes que Crim stein turvasse as águas.
Os federais conseguiram o m andado de busca. Para eles, bastava atravessar a Federal Plaza até o Tribunal Federal do distrito sul. Se Dim onte e a polícia de Nova York quisessem obter um , teriam de ir até o Palácio da Justiça em Nova Jersey – tem po longo dem ais com Hester Crim stein em sua cola.
– Agente Carlson!
O grito veio da esquina. Carlson correu para fora, seguido por Stone. Dim onte e Krinsky foram atrás. No m eio-fio, um j ovem agente federal estava ao lado de um a lata de lixo aberta.
– O que é isso? – perguntou Carlson.
– Pode não ser nada, senhor, m as… – O agente apontou para o que parecia ser um par de luvas de látex descartado às pressas.
– Recolha-as – disse Carlson. – Quero um teste de resíduos de pólvora im ediatam ente. – Carlson olhou para Dim onte. Hora de usar o velho truque da com petição. – Quanto tem po levará o teste no laboratório de vocês?
– Pelo m enos um dia – respondeu Dim onte. Ele tinha um palito novo na boca e não parava de m ascá-lo. – Talvez dois.
– Muito tem po. Vam os ter que enviar as am ostras de avião para o nosso laboratório em Quantico.
– Nada disso – reclam ou Dim onte.
– Concordam os em agir da form a m ais rápida possível.
– Fazer o teste aqui é m ais rápido – afirm ou Dim onte. – Deixe com igo.
Carlson concordou com um m ovim ento de cabeça. A coisa acontecera com o ele esperava. Se você quer que os tiras locais deem prioridade a um caso, am eace tirá-lo deles. Com petição. Sem pre funciona.
Meia hora depois, eles ouviram outro grito, dessa vez vindo da garagem . De novo, correram naquela direção.
Stone assobiava baixinho. Dim onte olhava. Carlson se inclinou para baixo para ver m elhor.
Ali, sob os j ornais em um a cesta de lixo reciclável, j azia um a pistola 9 m ilím etros. Um a rápida cheirada revelou que a arm a havia sido disparada recentem ente.
Stone se virou para Carlson. Certificou-se de que seu sorriso não estava sendo film ado.
– Peguei o cara – disse Stone tranquilam ente.
Carlson não disse nada. Ele observou o técnico guardar a arm a na bolsa. Depois, refletindo sobre o caso, fechou a cara.