Não Conte a Ninguém
Capítulo 5
5
NÃO DESGRUDEI OS OLHOS da tela do com putador.
Eu estava paralisado. Os m eus sentidos, m ais do que sobrecarregados. Cada parte do m eu corpo estava entorpecida.
Não era possível. Eu sabia. Elizabeth não caíra de um iate e fora considerada afogada, seu corpo nunca encontrado. Ela não havia sido queim ada a ponto de se tornar irreconhecível ou algo sem elhante. Seu corpo fora localizado em um a vala à m argem da Rodovia 80. Surrado, talvez, m as ela havia sido identificada.
Não por você…
Não por m im , m as por dois m em bros da fam ília: o pai e o tio. De fato, foi Hoy t Parker, m eu sogro, quem m e contou que Elizabeth estava m orta. Ele e o irm ão Ken foram ao m eu quarto no hospital pouco depois que recobrei a consciência. Hoy t e Ken eram parrudos, grisalhos e tinham feições pétreas. Um deles era policial em Nova York, o outro, agente federal, am bos veteranos de guerra. Eles tiraram os chapéus e tentaram dar a notícia com a em patia sem idistante de profissionais, m as não m e convenceram , e eles próprios não fizeram m uita força para isso.
Portanto, quem eu acabara de ver?
No m onitor, ondas de pedestres continuavam passando. Fiquei olhando, torcendo para que ela voltasse. Em vão. Que lugar seria aquele? Um a cidade m ovim entada, foi tudo o que consegui observar. Que eu saiba, poderia ser Nova York.
Então procure por pistas, seu idiota.
Tentei m e concentrar. Roupas. O.k., vam os exam inar as roupas. A m aioria das pessoas traj ava casaco ou j aqueta. Conclusão: tratava-se, provavelm ente, de algum local ao norte ou, pelo m enos, não m uito quente. Ótim o. Eu poderia descartar Miam i.
O que m ais? Exam inei as pessoas. Os penteados? Isso não adiantaria. Eu conseguia ver o canto de um prédio de tij olos. Procurei características identificáveis, algo diferente. Nada. Esquadrinhei a tela em busca de algo, qualquer coisa, fora do norm al.
Sacolas de com pras.
Algum as pessoas carregavam sacolas. Tentei ler o que estava escrito nelas, m as todos andavam rápido dem ais. Torci para que retardassem o passo. Não adiantou. Continuei olhando, concentrando-m e na altura de seus j oelhos. O ângulo da câm era não aj udava m uito. Aproxim ei tanto o rosto da tela que consegui sentir seu calor.
R m aiúsculo.
Essa era a prim eira letra em um a das sacolas. O resto era ilegível. O nom e parecia escrito com letras m eio rebuscadas. O.k., e o que m ais? Que outras pistas eu poderia…?
A cena da câm era sum iu.
Cacete. Apertei a tecla de recarregar. A tela de erro retornou. Voltei ao e-m ail original e cliquei no link. Outro erro.
A cena sum ira.
Olhei para a tela vazia, e a verdade m e atingiu novam ente: eu acabara de ver Elizabeth.
Poderia tentar argum entar que aquilo não era possível. Mas não foi um sonho. Eu tivera sonhos em que Elizabeth estava viva. Vários. Na m aioria, eu sim plesm ente aceitava aquilo com o um a breve visita do além , grato dem ais para questionar ou duvidar. Lem bro-m e de um sonho em particular em que estávam os j untos – não recordo o que estávam os fazendo nem m esm o onde estávam os – e aí, em m eio à alegria, percebi com certeza absoluta que estava sonhando, que logo acordaria sozinho. Lem bro-m e do sonho: eu estendia o braço e m e apoderava dela, atraindo-a para m im , num a tentativa desesperada de trazê-la de volta.
Sabia perfeitam ente o que era um sonho. O que eu vira no com putador não havia sido um deles.
Nem havia sido um fantasm a. Não que eu acredite neles, m as, na dúvida, convém ter a m ente aberta. Só que fantasm as não envelhecem , e a Elizabeth do com putador envelhecera. Não m uito, m as haviam -se passado oito anos. Fantasm as tam pouco cortam o cabelo. Lem brei-m e da longa trança caindo sobre as costas de Elizabeth ao luar. Pensei nos m odernos cabelos curtos que eu acabara de ver. E pensei naqueles olhos, para dentro dos quais eu olhara desde os 7 anos de idade.
Era Elizabeth. Ela estava viva.
Senti as lágrim as voltarem , só que dessa vez tentei contê-las. Engraçado. Sem pre chorei com facilidade, m as, após chorar a m orte de Elizabeth, era com o se eu não conseguisse m ais. Não que eu tivesse exaurido m eu choro ou gastado todas as m inhas lágrim as. Ou que a dor tivesse m e entorpecido, em bora esse possa ter sido um dos fatores. Acho que instintivam ente m e coloquei na defensiva. Quando Elizabeth m orreu, escancarei as portas e deixei o sofrim ento entrar. Não m e furtei a senti-lo integralm ente. E doeu. Doeu tanto que algo não deixava tudo aquilo acontecer de novo.
Não sei por quanto tem po fiquei sentado ali. Meia hora talvez. Tentei acalm ar a respiração e a m ente. Eu queria ser racional. Tinha de ser. Eu deveria estar na casa dos pais de Elizabeth naquela hora, m as não conseguia m e im aginar encarando-os.
Foi aí que m e lem brei de outra coisa.
Sarah Goodhart.
O xerife Lowell perguntara se esse nom e m e dizia algum a coisa. Dizia. Elizabeth e eu costum ávam os fazer um a brincadeira infantil. Você pega seu nom e do m eio e o transform a no prenom e, depois pega o nom e da rua onde cresceu e o coloca com o sobrenom e. Por exem plo, m eu nom e com pleto é David Craig Beck e eu cresci na Darby Road. Portanto, eu seria Craig Darby . E Elizabeth seria…
Sarah Goodhart.
Que diabo estava acontecendo?
Peguei o telefone. Prim eiro liguei para os pais de Elizabeth. Eles ainda m oravam na m esm a casa, na Goodhart Road. A m ãe atendeu. Avisei que chegaria m ais tarde. As pessoas aceitam isso dos m édicos. É um dos benefícios da profissão.
Quando liguei para o xerife Lowell, a secretária eletrônica atendeu. Pedi que ligasse para m eu bipe assim que pudesse. Não tenho celular. Sei que isso m e coloca na m inoria, m as o bipe j á m e prende o suficiente.
Reclinei-m e na cadeira, m as Hom er Sim pson arrancou-m e do transe com outro “Você recebeu um e-m ail!”. Proj etei-m e para a frente e agarrei o m ouse. O endereço do rem etente era estranho, m as o assunto era câm era de rua. Outro aperto no peito.
Cliquei no ícone pequeno e o e-m ail surgiu:
Amanhã, duas horas depois deste horário, em www.bigfoot.com.
Uma mensagem será deixada para você.
Seu nome de usuário: Bat Street
Senha: Teenage
Em baixo disso, no rodapé da tela, m ais seis palavras:
Estão observando. Não conte a ninguém.
♦ ♦ ♦
Larry Gandle, o hom em do penteado m edonho, observou Eric Wu cuidar tranquilam ente da lim peza.
Wu, um coreano de 26 anos com um sortim ento im pressionante de piercings e tatuagens, era o hom em m ais perigoso que Gandle j á conhecera. Tinha a constituição de um pequeno tanque de guerra, m as isso não significava grande coisa. Gandle conhecia um m onte de gente com o m esm o físico. Com frequência, m úsculos espetaculares significavam m úsculos inúteis.
Com Eric Wu era diferente.
Os m úsculos rochosos eram ótim os, m as o verdadeiro segredo de sua força m ortal residia nas m ãos calej adas – dois blocos de cim ento com dedos que pareciam garras de aço. Passava horas exercitando-as, esm urrando blocos de concreto, expondo-as ao calor e frio extrem os, fazendo flexões peitorais com um só dedo. Quando aqueles dedos entravam em ação, a devastação nos ossos e tecidos da vítim a era inim aginável.
Rum ores som brios cercavam hom ens com o Wu, na m aioria falsos, m as Larry Gandle o vira m atar um hom em enfiando os dedos nos pontos vulneráveis do rosto e abdom e. Ele vira Wu agarrar um hom em pelas orelhas e arrancá-las com um ligeiro puxão. Ele o vira m atar quatro vezes de m aneiras diferentes, sem usar nenhum a arm a.
Nenhum a das m ortes havia sido rápida.
Ninguém sabia ao certo a procedência de Wu, m as a versão m ais aceita fazia m enção a um a infância brutal na Coreia do Norte. Gandle nunca perguntara. Não convinha à m ente percorrer alguns cam inhos soturnos; o lado obscuro de Eric Wu – com o poderia haver um lado ilum inado? – era um deles.
Quando Wu term inou de em brulhar no plástico a m açaroca que havia sido Vic Letty, olhou para Gandle. Olhos sem brilho, pensou Larry Gandle. Os olhos de um a criança em um cenário de guerra.
Wu não se dera o trabalho de tirar o fone do ouvido. Seu walkm an não tocava a todo volum e hip hop, rap nem m esm o rock. Ele ouvia o tem po todo aqueles CDs com sons tranquilizantes e nom es com o Brisas do oceano e Córrego plácido.
– Devo levá-lo para o Benny ? – perguntou Wu. Sua voz tinha um a cadência lenta e estranha, com o a de um personagem de desenho anim ado.
Larry Gandle assentiu com a cabeça. Benny dirigia um crem atório. Pó retornando ao pó. Ou, naquele caso, escória retornando ao pó.
– E sum a com isso.
Gandle entregou o 22 a Eric Wu. O revólver parecia insignificante e inútil na m ão gigantesca de Wu. Este fez cara de reprovação, talvez desapontado porque Gandle preferira a arm a a seus talentos incom uns, e m eteu-a no bolso. Com um 22, raram ente havia feridas m ortais. Isso significava m enos provas. O sangue havia sido contido pelo plástico. Nada de suj eira, nada de confusão.
– Até m ais tarde – respondeu Wu. Ele ergueu o cadáver com um a só m ão, com o se fosse um a m aleta, e carregou-o para fora.
Larry Gandle fez um gesto de despedida. Ele não ficara feliz com o sofrim ento de Letty – m as tam bém não se sentia incom odado. Era um a questão sim ples. Gandle tinha de saber com absoluta certeza que Letty agia sozinho e que não deixara pistas para alguém descobrir. Isso significava caprichar na tortura. Não havia outro j eito.
No final, tudo se resum ia claram ente a um a sim ples escolha: a fam ília Scope ou Vic Letty. Os Scope eram gente de bem . Eles nunca tinham feito nada de m al a Vic. Letty, por sua vez, esforçara-se ao m áxim o para tentar prej udicar a fam ília Scope. Som ente um deles poderia sair ileso: a vítim a inocente, bem -intencionada, ou o parasita que queria explorar a fraqueza alheia. Só havia um a escolha possível.
O celular de Gandle vibrou. Ele o apanhou e atendeu:
– Alô.
– Identificaram os corpos do lago.
– E aí?
– São eles. Meu Deus, são Bob e Mel.
Gandle cerrou os olhos.
– O que isso significa, Larry ?
– Sei lá.
– E o que vam os fazer?
Larry Gandle sabia que não havia alternativa. Ele teria de falar com Griffin Scope. Aquilo desenterraria lem branças desagradáveis. Oito anos. Após oito anos. Gandle balançou a cabeça. Aquilo abalaria novam ente o coração do velho.
– Deixe com igo.