Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 42 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 41

41

COMO DE HÁBITO, TYRESE E EU NOS sentam os no banco de trás. O céu da m anhã estava cinzento, cor de lápide. Mostrei a Brutus onde virar depois que atravessam os a Ponte George Washington. Escondido atrás dos óculos escuros, Ty rese exam inou m eu rosto. Enfim , perguntou:

– Aonde estam os indo?

– Para a casa dos m eus sogros.

Ty rese esperou que eu continuasse.

– Ele é policial – acrescentei.

– Qual é o nom e dele?

– Hoy t Parker.

Brutus sorriu. Ty rese tam bém .

– Você o conhece?

– Nunca trabalhei com o cara pessoalm ente, m as j á ouvi o nom e.

– O que você quer dizer com “trabalhei com o cara”?

Ty rese fez um gesto com o se quisesse dizer “não sej a tão curioso”. Atravessam os o lim ite do m unicípio. Com o se não bastassem as várias experiências surreais dos últim os três dias, agora eu rodava pela m inha antiga vizinhança com dois traficantes em um carro de vidros escuros. Dei a Brutus m ais algum as orien tações antes de chegarm os à casa de dois andares da Goodhart Road. Saltei. Brutus e Ty rese partiram . Dirigi-m e à porta e toquei a cam painha. As nuvens escureceram ainda m ais. Um raio riscou o céu. Voltei a apertar a cam painha. Sentia um a dor pontiaguda no braço. Todo o m eu corpo doía graças à com binação da tortura e do esforço exagerado no dia anterior. Por um m om ento, m e perguntei o que teria acontecido se Ty rese e Brutus não tivessem aparecido. Mas logo afastei esse pensam ento. Enfim , ouvi Hoy t perguntar:

– Quem é?

– Beck – respondi.

– Está aberta.

Estendi o braço em direção à m açaneta. Minha m ão parou poucos centím etros antes de tocar no latão. Estranho. Eu tinha ido lá inúm eras vezes na vida, m as não m e lem brava de Hoy t perguntar quem era. Ele era o tipo de hom em que preferia o confronto direto. Hoy t Parker não era de se esconder. Ele não tinha m edo de nada e fazia questão de m ostrar isso. Você tocava a cam painha e ele abria a porta e encarava você.

Olhei para trás. Ty rese e Brutus tinham ido em bora – não convinha ficar de bobeira diante da casa de um tira num bairro de brancos.

– Beck?

Eu não tinha outra opção. Pensei na Glock. Ao tocar com a m ão esquerda na m açaneta, aproxim ei a m ão direita do quadril. Seguro m orreu de velho. Virei a m açaneta e em purrei a porta. Enfiei a cabeça pela abertura.

– Estou na cozinha – gritou Hoy t.

Entrei na casa e fechei a porta. A sala cheirava a desinfetante de lim ão, um desses produtos que você insere num aparelhinho e coloca na tom ada.

– Quer com er algum a coisa? – perguntou Hoy t.

Eu continuava sem conseguir vê-lo.

– Não, obrigado.

Atravessei o tapete felpudo em direção à cozinha. Vi as velhas fotografias sobre o consolo da lareira, m as dessa vez não estrem eci. Quando m eus pés atingiram o linóleo, percorri a cozinha com os olhos. Vazia. Eu ia virar para trás quando senti o frio m etal na têm pora. Hoy t m e deu um safanão no pescoço.

– Você está arm ado, Beck?

Não m e m ovi nem falei nada.

Com o revólver ainda apontado, Hoy t largou m eu pescoço e m e apalpou. Ele encontrou a Glock, apanhou-a e atirou-a sobre o linóleo.

– Quem trouxe você aqui?

– Uns am igos – consegui dizer.

– Que tipo de am igos?

– Que palhaçada é essa, Hoy t?

Ele recuou. Virei para trás. O revólver estava apontado para o m eu peito. O cano parecia enorm e, com o um a boca gigante pronta para m e engolir. Difícil deixar de olhar para aquele túnel frio e escuro.

– Você veio aqui para m e m atar? – perguntou Hoy t.

– O quê? Não. – Forcei-m e a olhar para cim a. Hoy t tinha a barba por fazer. Seus olhos estavam verm elhos, seu corpo oscilava. Muita bebida.

– Onde está a Sra. Parker? – perguntei.

– Ela está segura. – Um a resposta estranha. – Mandei-a em bora.

– Por quê?

– Acho que você sabe.

Talvez eu soubesse. Ou estivesse com eçando a saber.

– Por que eu o agrediria, Hoy t?

Ele m anteve o revólver apontado para o m eu peito.

– Você sem pre carrega um revólver escondido, Beck? Eu poderia m andar você para a cadeia por isso.

– Você j á m e fez coisas piores – respondi.

Seu rosto adquiriu um ar de tristeza. Um discreto gem ido escapou-lhe dos lábios.

– De quem foi o corpo que crem am os, Hoy t?

– Você não sabe?

– Sei que Elizabeth continua viva – falei.

Seus om bros desabaram , m as o revólver continuou apontado. A m ão que em punhava a arm a pareceu tensa por um m om ento, com o se ele fosse atirar. Pensei em m e j ogar ao chão, m as isso não m e protegeria por m uito tem po.

– Sente-se – ele disse, o tom de voz calm o.

– Shauna viu o laudo da autópsia. Sabem os que não foi Elizabeth quem foi para o necrotério.

– Sente-se – ele repetiu, levantando um pouco o revólver, e acredito que teria atirado se eu não obedecesse. Ele m e conduziu de volta à sala de estar. Sentei-m e no sofá que testem unhara tantos m om entos m em oráveis, m as agora tinha a sensação de que eles seriam m eras cham as de isqueiro diante do fogaréu que estava prestes a engolir aquele recinto.

Hoy t sentou-se à m inha frente. O revólver continuava apontado para o m eu peito. Em m om ento algum ele deixou a m ão repousar. Aquilo devia fazer parte de seu treinam ento, pensei. Dava para ver que ele estava exausto. Parecia um balão com um furinho, esvaziando-se quase im perceptivelm ente.

– O que aconteceu? – perguntei.

Ele não respondeu à m inha pergunta.

– O que leva você a pensar que ela estej a viva?

Parei. Eu teria com etido um erro? Seria possível que ele não soubesse de nada? Rapidam ente cheguei à conclusão que não. Ele viu o corpo no necrotério. Foi ele quem o identificou. Ele tinha de estar envolvido. Mas aí m e lem brei do e-m ail.

Não conte a ninguém.

Teria sido um erro ir até lá?

Não. Aquela m ensagem havia sido enviada antes de toda aquela confusão – em outras circunstâncias. Eu tinha de tom ar um a decisão agora. Eu tinha de forçar a barra, agir.

– Você a viu? – perguntou ele.

– Não.

– Onde ela está?

– Não sei – respondi.

Hoy t subitam ente ergueu a cabeça. Fez um sinal com o dedo indicador sobre os lábios para que eu fizesse silêncio. Ele se levantou e rastej ou até a j anela. As venezianas estavam todas fechadas. Ele espiou pelo lado.

Levantei-m e.

– Sente-se.

– Atire em m im , Hoy t.

Ele olhou para m im .

– Ela está em apuros – eu disse.

– E você acha que pode aj udá-la? – Seu tom era de escárnio. – Salvei a vida de vocês dois naquela noite. O que você fez?

Senti algo contrair-se no m eu tórax.

– Recebi um a pancada e perdi a consciência – eu disse.

– Certo.

– Você… – Eu estava tendo dificuldade em enunciar a frase. – Você nos salvou?

– Sente-se.

– Se você sabe onde ela está…

– Se eu soubesse… não estaríam os tendo esta conversa – ele concluiu.

Dei outro passo em sua direção. Depois m ais outro. Ele apontou o revólver para m im . Eu não parei. Avancei até a boca da arm a pressionar m eu esterno.

– Você vai m e dizer – exigi – ou então vai m e m atar.

– Você está disposto a correr esse risco?

Olhei-o direto nos olhos, encarando-o talvez pela prim eira vez em nosso longo relacionam ento. Algo m udara entre nós, em bora eu não soubesse ao certo o quê. Resignação por parte dele, talvez, sei lá. Mas m e m antive firm e.

– Você tem algum a ideia da falta que sinto da sua filha?

– Sente-se, David.

– Não enquanto…

– Eu vou lhe contar tudo – disse ele calm am ente. – Sente-se.

Continuei a encará-lo enquanto retrocedia até o sofá, onde m e acom odei. Ele pousou o revólver na m esinha de canto.

– Aceita um drinque?

– Não.

– Em seu lugar, eu aceitaria.

– Mais tarde.

Ele deu de om bros e cam inhou até o bar, um m óvel velho, bam bo e m eio cafona, daqueles que têm um a tam pa que você puxa para baixo. As garrafas estavam bagunçadas, j ogadas de qualquer m aneira um as contra as outras, e era óbvio que aquela não era a prim eira vez que ele se servia naquele dia. Ele levou algum tem po despej ando a bebida no copo. Tive ím petos de apressá-lo, m as eu j á estava cansado de tanto estresse. Ele precisava daquilo, pensei. Estava reunindo seus pensam entos, organizando-os, checando os ângulos. Era com preensível.

Segurou o copo com as duas m ãos e afundou na cadeira.

– Nunca gostei m uito de você – confessou. – Nada pessoal. Você vem de um a boa fam ília. Seu pai era um suj eito legal, e sua m ãe, bem , ela fez o m elhor que pôde. – Um a das m ãos dele segurava a bebida enquanto a outra aj eitava o cabelo. – Mas eu achava que seu relacionam ento com m inha filha era… – ele olhou para cim a, perscrutando o teto em busca das palavras –… um em pecilho ao crescim ento dela. Agora… bem , agora percebo com o vocês tiveram sorte.

A sala agora parecia m ais fria. Procurei não m e m exer, acalm ar m inha respiração, evitar qualquer coisa que pudesse perturbá-lo.

– Com eçarei pela noite no lago – disse. – Quando eles a sequestraram .

– Quem a sequestrou?

Ele baixou o olhar para o copo.

– Não interrom pa – pediu. – Escute.

Concordei com a cabeça, m as ele não percebeu. Ele estava fitando a bebida, literalm ente procurando respostas no fundo de um copo.

– Você sabe quem a sequestrou – respondeu –, ou j á deveria saber. Os dois hom ens cuj os corpos foram encontrados lá.

Seu olhar subitam ente percorreu o aposento. Ele agarrou o revólver e levantou-se, olhando novam ente pela j anela. Tive vontade de perguntar o que ele esperava ver lá fora, m as não quis interrom pê-lo novam ente.

– Meu irm ão e eu chegam os ao lago bem tarde. Quase tarde dem ais. Resolvem os interceptá-los quando estavam saindo com Elizabeth, na estrada de terra. Você sabe, onde ficam aquelas duas pedras.

Ele olhou para a j anela, depois de volta para m im . Eu conhecia as duas pedras. Elas ficavam na estrada de terra a uns 800 m etros do lago Charm aine. Eram am bas enorm es, redondas, quase do m esm o tam anho e perfeitam ente posicionadas em lados opostos da estrada. Havia um sem -núm ero de lendas sobre com o elas foram parar ali.

– Nós nos escondem os atrás delas, Ken e eu. Quando eles se aproxim aram , atirei num pneu. Eles pararam para ver o que tinha acontecido. Quando saltaram do carro, atirei na cabeça dos dois.

Depois de olhar m ais um a vez pela j anela, Hoy t voltou para a cadeira. Ele posou novam ente o revólver e fitou m ais um pouco sua bebida. Eu contive m inha língua e aguardei.

– Griffin Scope contratou aqueles dois hom ens – continuou. – Eles deveriam interrogar Elizabeth e depois m atá-la. Ken e eu ficam os sabendo do plano e partim os para o lago para detê-los. – Ele levantou a m ão com o que para silenciar um a pergunta m inha, em bora eu não ousasse abrir a boca. – Os com os e os porquês não im portam . Griffin Scope m andou m atar Elizabeth. Isto é tudo o que você precisa saber. E ele não ia parar só porque seus dois capangas estavam m ortos. Tinha m uitos outros à disposição. Ele é com o um daqueles m onstros lendários de que você corta um a cabeça e nascem duas novas. – Ele olhou para m im . – Você não consegue derrotar alguém tão poderoso assim , Beck.

Ele bebeu um longo gole. Fiquei calado.

– Quero que você volte àquela noite e se coloque no nosso lugar – ele continuou, aproxim ando-se e tentando m e envolver. – Dois hom ens j azem m ortos naquela estrada de terra. Um dos hom ens m ais poderosos do m undo os contratou para m atar você. Ele não tem o m enor escrúpulo em assassinar um inocente para atingir você. O que você pode fazer? Suponha que decida ir à polícia. O que diria? Um hom em com o Scope não deixa pistas, e, m esm o que deixasse, ele tem m ais tiras e j uízes no bolso do que os fios de cabelo na m inha cabeça. Nós estaríam os fritos. Então eu lhe pergunto, Beck. Você está lá. Você tem dois hom ens m ortos no chão. Você sabe que a coisa não ficará daquele j eito. O que você faz?

Encarei a pergunta com o m era figura de retórica.

– Apresentei os fatos a Elizabeth assim com o estou apresentando a você. Eu disse que Scope faria de tudo para m atá-la. Se ela fugisse ou se escondesse, ele sim plesm ente nos torturaria até que a entregássem os. Ou ele iria atrás da m inha esposa. Ou da sua irm ã. Ele faria qualquer coisa para encontrar Elizabeth e m atá-la. – Ele se inclinou m ais para perto de m im . – Entendeu agora? Viu que não tínham os outra saída?

Concordei com a cabeça, porque de repente tudo ficou claro.

– Você tinha de fazer com que eles pensassem que ela estava m orta. Ele sorriu. Eu estava todo arrepiado.

– Eu tinha algum dinheiro guardado na poupança. Meu irm ão Ken tam bém . Além disso, tínham os contatos. Elizabeth entrou para a clandestinidade. Nós a m andam os para fora do país. Ela cortou os cabelos, aprendeu a usar disfarces. Talvez isso tudo tenha sido até exagero. Ninguém realm ente estava atrás dela. Nos últim os oito anos, ela andou por vários países do Terceiro Mundo trabalhando para a Cruz Verm elha, a Unicef ou qualquer organização que tivesse um a vaga para ela.

Aguardei. Havia m uita coisa que ele ainda não tinha contado, m as continuei calado. Deixei que aquelas revelações se infiltrassem em m eu ser e m e abalassem . Elizabeth. Ela continuava viva. Ela estivera viva nos últim os oito anos. Ela estivera respirando, vivendo, trabalhando… Era m ais do que eu podia processar, um daqueles problem as m atem áticos im posssíveis de resolver, que fazem o com putador pirar.

– Você deve estar se perguntando sobre o corpo no necrotério.

Fiz que sim com a cabeça.

– Foi m uito sim ples. O tem po todo recebem os cadáveres de indigentes. Eles ficam guardados na patologia durante algum tem po. Aí nós os enterram os num a cova com um em Roosevelt Island. O que eu fiz? Fiquei esperando por um cadáver de feições caucasianas, m ais ou m enos parecido com Elizabeth. Levou m ais tem po do que eu esperava. A garota devia ser um a prostituta esfaqueada pelo gigolô, m as claro que nunca saberem os direito. Tam bém não podíam os deixar a m orte de Elizabeth sem explicação. Era preciso encontrar um autor. Escolhem os KillRoy. Todo m undo sabia que KillRoy m arcava o rosto das vítim as com a letra K. Fizem os isso no cadáver. Restou o problem a da identificação. Pensam os em queim á-la para que ficasse irreconhecível, m as havia a questão da arcada dentária e essas coisas. Então resolvem os correr um risco. O cabelo com binava. O tom da pele e a idade eram quase iguais. Abandonam os o corpo num a cidadezinha com um pequeno necrotério. Nós m esm os dem os o telefonem a anônim o para a polícia. Tom am os a precaução de chegar ao necrotério ao m esm o tem po que o corpo. Então tudo que tive de fazer foi identificar Elizabeth com cara de choro. A grande m aioria das vítim as de hom icídio é identificada por um m em bro da fam ília. Foi o que fiz, e Ken confirm ou. Quem questionaria isso? Por que um pai e um tio m entiriam ?

– Vocês correram um trem endo risco – falei.

– Mas que outra opção nós tínham os?

– Tinha de haver outra m aneira.

Ele se inclinou para m ais perto ainda. Dava para sentir seu hálito. As rugas flácidas em torno dos olhos estavam caídas.

– Pense bem , Beck, você está naquela estrada de terra com dois corpos… Agora que está aqui tranquilo, você pode analisar friam ente. Diga: o que deveríam os ter feito?

Eu não tinha resposta.

– Havia outros problem as tam bém – acrescentou Hoy t, relaxando um pouco. – Jam ais tivem os certeza absoluta de que o pessoal de Scope sossegaria. Felizm ente, os dois bandidos iam deixar o país após o assassinato. Encontram os passagens de avião para Buenos Aires nos bolsos deles. Eram dois vagabundos, tipos pouco confiáveis. Isso tudo aj udou. O pessoal de Scope acreditou que tudo tivesse dado certo, m as continuaram de m arcação cerrada sobre nós. Não por achar que ela ainda estivesse viva, m as por m edo de que ela pudesse ter nos entregado algum m aterial incrim inador.

– Que m aterial incrim inador?

Ele ignorou a pergunta.

– Sua casa, seu telefone, provavelm ente seu consultório, eles gram pearam tudo nos últim os oito anos. Eu tam bém fui vítim a.

Isso explicava os e-m ails cautelosos. Deixei m eus olhos vagarem pelo aposento.

– Fiz um a varredura aqui ontem – disse ele. – A casa está livre.

Quando ele silenciou por uns m om entos, arrisquei um a pergunta:

– Por que Elizabeth resolveu voltar agora?

– Porque ela é louca – respondeu, e pela prim eira vez senti raiva em sua voz. Dei-lhe um tem po. Ele se acalm ou, e as m anchas verm elhas em seu rosto com eçaram a desaparecer. – Os dois corpos foram enterrados – ele disse, tranquilam ente.

– E o que aconteceu depois?

– Elizabeth acom panhou as notícias pela internet. Quando soube que os corpos haviam sido descobertos, ela tem eu, assim com o eu, que os Scope pudessem descobrir a verdade.

– Que ela ainda estava viva?

– Sim .

– Mas, se ela estava no exterior, seria quase im possível descobri-la.

– Foi o que eu disse a ela. Mas ela sabia que nada os deteria. Eles viriam atrás de m im . Ou da m ãe dela. Ou de você. Mas… – ele parou de novo e abaixou a cabeça –… não sei se isso foi realm ente a razão da decisão dela.

– Com o assim ?

– Às vezes penso que ela queria que isso acontecesse. – Ele se concentrou na bebida, agitou o gelo. – Ela queria voltar para você, David. Acho que os corpos foram só um a desculpa.

Novam ente aguardei. Ele bebeu m ais um gole e deu outra olhada pela j anela.

– Sua vez – ele disse para m im .

– De quê?

– Quero algum as respostas agora – exigiu. – Por exem plo, com o foi que ela entrou em contato com você? Com o você escapou da polícia? Onde você acha que ela está?

Hesitei, m as por pouco tem po. Eu não tinha m uitas opções.

– Elizabeth entrou em contato por e-m ails anônim os. Ela falou num código que só eu poderia entender.

– Que tipo de código?

– Ela fez referência a coisas do nosso passado.

Hoy t assentiu com a cabeça.

– Ela sabia que eles poderiam estar espreitando.

– Sim . – Mudei de posição no sofá. – O que você sabe sobre o pessoal de Griffin Scope? – perguntei.

Ele pareceu confuso.

– Pessoal?

– Por acaso um asiático trabalha para ele?

O pouco de cor que restava no rosto de Hoy t desapareceu por com pleto. Ele m e olhou espantado, com o se tivesse visto um a assom bração.

– Eric Wu – disse ele num tom abafado.

– Esbarrei com o Sr. Wu ontem .

– Im possível – ele disse.

– Por quê?

– Você não teria sobrevivido.

– Tive sorte. – Contei a ele a história. Ele quase chorou.

– Se Wu encontrou Elizabeth antes de encontrar você… – Ele fechou os olhos, expulsando a im agem da m ente.

– Ele não a encontrou.

– Com o você pode ter tanta certeza?

– Wu queria saber por que eu estava no parque. Se ele j á a tivesse encontrado, por que se incom odaria com aquilo?

Ele fez um lento sinal afirm ativo com a cabeça. Term inou seu drinque e voltou a encher o copo.

– Mas eles agora sabem que ela está viva – observou. – Isso significa que virão atrás de nós.

– Então nós reagirem os – respondi, dem onstrando m uito m ais bravura do que na verdade sentia.

– Você não ouviu o que eu disse há pouco? O m onstro lendário não para de criar novas cabeças.

– Mas, no final, o herói sem pre derrota o m onstro.

Ele zom bou da m inha bravata. Aliás, bem que eu m erecia. Mantive os olhos nele.

– Você tem que m e contar o resto – pedi.

– Não é im portante.

– É algo relacionado à m orte de Brandon Scope, não é?

Ele negou com a cabeça, sem m uita convicção.

– Sei que Elizabeth forneceu um álibi a Helio Gonzalez – afirm ei.

– Isso não é im portante, Beck. Confie em m im .

– Já fiz isso antes e m e ferrei – retruquei.

Ele tom ou m ais um gole.

– Elizabeth m antinha um cofre sob o nom e de Sarah Goodhart – continuei. – Foi lá que encontraram aquelas fotos.

– Eu sei – disse Hoy t. – Estávam os com pressa naquela noite. Eu não sabia que ela j á tinha dado a chave a eles. Esvaziam os seus bolsos, m as não revistei os sapatos. Nem im portava, aliás. Eu não tinha nenhum a intenção de que eles j am ais fossem encontrados.

– Ela deixou algo m ais no cofre além das fotografias – acrescentei.

Hoy t pousou cuidadosam ente seu drinque sobre a m esinha.

– O velho revólver do m eu pai estava lá tam bém . Um 38. Lem bra-se dele?

Hoy t olhou para longe, e sua voz ficou subitam ente suave.

– Sm ith and Wesson. Eu o aj udei a escolhê-lo.

Senti que com eçava a trem er novam ente.

– Você sabia que Brandon Scope foi m orto com aquela arm a?

Ele apertou os olhos, com o um a criança que tenta expulsar um sonho ruim .

– Diga-m e o que aconteceu, Hoy t.

– Você sabe o que aconteceu.

Eu não conseguia parar de trem er.

– Diga m esm o assim .

Cada palavra saiu com o um golpe duro.

– Elizabeth atirou em Brandon Scope.

Neguei com um m ovim ento de cabeça. Sabia que aquilo não era verdade.

– Ela estava trabalhando com ele naquela obra de caridade. Foi apenas um a questão de tem po até ela descobrir a verdade: que aquela droga de instituição não passava de um a fachada para todo tipo de contravenção… drogas, prostituição, sei lá m ais o quê.

– Ela nunca m e contou.

– Ela não contou a ninguém , Beck. Mas Brandon descobriu. Ele deu um as porradas nela para que ficasse com m edo. Eu não sabia disso. Ela m e contou a m esm a história do acidente de carro.

– Ela não o m atou – insisti.

– Foi em legítim a defesa. Com o ela não parava de investigar, Brandon entrou na casa de vocês arm ado com um a faca. Ele chegou até ela… e ela atirou nele. Para se defender.

Eu não conseguia parar de negar com a cabeça.

– Ela telefonou para m im , aos prantos. Peguei o carro e fui até a casa de vocês. Quando cheguei – ele fez um a pausa para recuperar o fôlego –, ele j á estava m orto. Elizabeth estava com o revólver. Ela queria que eu cham asse a polícia. Eu disse que não ia adiantar. Legítim a defesa ou não, Griffin Scope acabaria conseguindo m atá-la, ou coisa pior. Pedi a ela que m e desse algum as horas. Ela estava trem endo, m as acabou concordando.

– Você rem oveu o corpo – eu disse.

Ele concordou.

– Eu sabia do caso de Gonzalez. O bandido estava iniciando um a vida de crim es. Conheço bem aquele tipo. Ele j á se safara de um a condenação por hom icídio graças a um a brecha na lei. Ninguém m elhor do que ele para levar a culpa.

A história estava ficando clara.

– Mas Elizabeth não deixou isso acontecer.

– Eu não contava com isso – ele prosseguiu. – Ela soube pelo noticiário da prisão dele, e aí resolveu inventar aquele álibi. Para salvar Gonzalez de um a – Hoy t fez um sarcástico sinal de aspas com os dedos – grande inj ustiça. – Ele fez um gesto de desaprovação com a cabeça. – Para quê? Se ela tivesse deixado o patife ser enquadrado, seria o fim daquela novela toda.

– O pessoal de Scope descobriu que ela havia forj ado o álibi – falei.

– Alguém da polícia deixou vazar a inform ação, sim . Então eles com eçaram a averiguar e descobriram tudo sobre a investigação que ela estava fazendo sobre Brandon Scope. O resto está na cara.

– Então o ataque naquela noite no lago – deduzi – foi pura vingança.

Ele refletiu por instantes.

– Em parte, sim . Mas eles tam bém estavam tratando de abafar a verdade sobre Brandon Scope. Ele era um herói m orto. Preservar aquela im agem era m uito im portante para o pai.

E, pensei, para m inha irm ã.

– Ainda não entendi por que ela m anteve aquele revólver no cofre.

– Aquilo era um a prova – ele disse.

– De quê?

– De que ela m atara Brandon Scope. E de que havia feito isso em legítim a defesa. Não im portava o que acontecesse, Elizabeth não queria que outra pessoa fosse culpada pelo que ela fez. Ingenuidade, não lhe parece?

Não m e parecia. Perm aneci sentado, tentando m e acostum ar àquela nova versão dos fatos. Não consegui. Porque aquela não era toda a verdade. Eu sabia disso m elhor do que ninguém . Olhei para m eu sogro, a pele flácida, os cabelos cada vez m ais ralos, o vigor declinante, o porte ainda im pressionante, m as em processo de erosão. Hoy t achava que sabia o que realm ente acontecera com sua filha. Mas ele não tinha ideia de com o estava errado.

Ouvi um trovão. A chuva atingiu as j anelas com o pequenos socos.

– Você devia ter m e contado – falei.

Ele negou com a cabeça, desta vez m ais enfático:

– E o que você teria feito, Beck? Ido atrás dela? Fugido j unto com ela? Eles teriam descoberto a verdade e m atado todos nós. Eles estavam vigiando você. Aliás, ainda estão. Nós não contam os a ninguém . Nem m esm o para a m ãe de Elizabeth. Se quiser um a prova de que fizem os a coisa certa, é só prestar atenção. Oito anos se passaram . Bastou ela enviar alguns e-m ails anônim os para você, e vej a o que aconteceu.

Um a porta de carro bateu. Hoy t correu em direção à j anela com o um tigre. Ele voltou a espiar.

– O m esm o carro em que você chegou. Com dois negões lá dentro.

– Eles vieram m e buscar.

– Tem certeza de que não trabalham para Scope?

– Tenho. – Naquele exato m om ento, m eu celular tocou. Eu atendi.

– Tudo bem ? – perguntou Ty rese.

– Sim .

– Tem certeza?

– Por quê?

– Você confia nesse tira?

– Sei lá.

– Vam os nessa, doutor.

Eu disse a Hoy t que tinha de ir. Ele parecia esgotado dem ais para se im portar. Apanhei de volta a Glock e corri até a porta. Ty rese e Brutus estavam m e esperando. A chuva havia dim inuído um pouco, m as nenhum de nós parecia se im portar.

– Tem um a ligação para você. Vá para lá.

– Por quê?

– É pessoal – explicou Ty rese. – Não quero ouvir.

– Confio em você.

– Faça o que eu digo, cara.

Afastei-m e até um a distância em que Ty rese não pudesse m e ouvir. Atrás de m im , vi a veneziana se abrir. Hoy t olhou para fora. Olhei de volta para Ty rese. Ele gesticulou para que eu pusesse o telefone no ouvido. Obedeci. Houve silêncio e depois Ty rese disse:

– Tudo bem , vai fundo.

A voz que ouvi foi de Shauna.

– Eu a vi.

Fiquei petrificado.

– Ela disse para você encontrá-la esta noite no Golfinho.

Eu entendi. O telefone ficou m udo. Voltei para perto de Ty rese e Brutus.

– Preciso ir a um lugar sozinho. Não posso ser seguido.

Ty rese olhou para Brutus.

– Entre – disse Ty rese.