Não Conte a Ninguém
Capítulo 4
4
VIC LETTY OLHOU PARA OS DOIS LADOS antes de entrar, m ancando, na loj a de caixas postais da galeria com ercial. Seu olhar percorreu o salão. Ninguém o observava. Perfeito. Ele não conseguiu evitar um sorriso. Golpe infalível. Não havia com o descobri-lo, e, desta vez, ele daria sua grande tacada.
O segredo, descobrira Vic, estava na preparação. Era isso o que separava os bons dos ótim os. Os bons ocultam suas pistas. Os ótim os preparam -se para qualquer eventualidade.
A prim eira coisa que ele fez foi descolar um a identidade falsa com seu prim o fracassado, Tony. Depois, alugou um a caixa postal com o pseudônim o UYS Enterprises. Sacaram a genialidade? Usar um a identidade falsa e um pseudônim o. Assim , ainda que alguém subornasse o m ané atrás do balcão e ficasse sabendo quem alugara a caixa postal da UYS Enterprises, tudo o que descobriria seria o nom e Roscoe Tay lor, o da identidade falsa de Vic.
Não havia com o descobrir o próprio Vic.
Do outro lado do salão, ele tentou espiar pela j anelinha da caixa postal 417. Difícil distinguir qualquer coisa, m as havia algo ali, sem dúvida. Ótim o! Vic aceitava apenas dinheiro vivo ou ordens de pagam ento. Nada de cheques, é claro. Nada que pudesse incrim iná-lo. E, sem pre que apanhava o dinheiro, ia disfarçado. Com o naquele m om ento. Ele usava um boné de beisebol e um bigode postiço. Além disso, fingia m ancar. Ele lera em algum lugar que as pessoas observam os m ancos; assim , se um a testem unha tentasse identificar o usuário da caixa 417, o que ela diria? Elem entar: o hom em tinha bigode e m ancava. E, se você subornasse algum funcionário, concluiria que um suj eito cham ado Roscoe Tay lor tinha bigode e m ancava.
O Vic Letty verdadeiro não m ancava nem tinha bigode.
Mas ele tam bém tom ava outras precauções. Nunca abria a caixa postal perto de outras pessoas. Jam ais. Se alguém estivesse apanhando a correspondência ou por perto, ele fingia estar abrindo outra caixa, preenchendo um form ulário ou coisa parecida. Quando a barra estava lim pa – e som ente quando a barra estava lim pa –, Vic se dirigia à caixa 417.
Ele sabia que todo cuidado era pouco.
Mesm o no cam inho até lá, Vic tom ava precauções. Estacionava a cam inhonete de trabalho – fazia reparos e instalações para a CableEy e, a m aior rede de TV a cabo da Costa Leste – a quatro quarteirões de distância. Ele se esgueirava por duas ruelas no cam inho até lá. Usava um a j aqueta preta sobre o uniform e para que ninguém visse o nom e “Vic” bordado no bolso direito da cam isa.
Pensou na bolada que provavelm ente o aguardava na caixa 417, a m enos de três m etros de onde se encontrava em pé agora. Sentiu um a inquietude nos dedos. Deu um a geral no salão novam ente.
Havia duas m ulheres abrindo suas caixas postais. Um a delas se virou e sorriu distraída para ele. Vic se dirigiu às caixas do outro lado do salão, apanhou o chaveiro – seu chaveiro era daqueles que ficam presos no cinto – e fingiu procurar um a chave. Manteve o rosto abaixado e afastado delas.
Seguro m orreu de velho.
Dois m inutos depois, as duas m ulheres haviam pegado suas cartas e ido em bora. Ele estava sozinho. Rapidam ente, atravessou o salão e abriu sua caixa.
Bingo!
Um pacote endereçado à UYS Enterprises. Em brulhado em papel pardo. Nenhum a indicação de rem etente. E suficientem ente grosso para conter um a grana preta.
Sorriu e pensou: “Será que as 50 m ilhas estão aí?”
Estendeu as m ãos trêm ulas e apanhou o pacote. Bom peso. O coração disparou. Meu bom Jesus. Ele vinha aplicando aquele golpe havia quatro m eses. Vinha lançando a rede e pescando bons peixes. Mas agora, graças a Deus, pegara um a baleia!
Dando outra geral no salão, Vic enfiou o pacote no bolso do casaco e saiu às pressas. Pegou um cam inho diferente de volta até a cam inhonete e partiu em direção à firm a. Seus dedos encontraram o pacote e o acariciaram . Cinquenta m ilhas. Cinquenta m il dólares. O núm ero o deixava fora de si.
Quando chegou às instalações da CableEy e, j á era noite. Estacionou a cam inhonete e atravessou a passarela até seu próprio carro, um Honda Civic 91 todo enferruj ado. Olhou com desdém para o veículo e pensou: “Logo m e livrarei de você.”
O estacionam ento dos funcionários estava vazio. A escuridão com eçou a oprim i-lo. Conseguia ouvir os próprios passos. O frio penetrava o casaco. Cinquenta m ilhas. Ele tinha 50 m ilhas no bolso.
Vic arqueou os om bros e apressou o passo.
A verdade era que desta vez estava assustado. Teria de parar com o golpe. Um bom golpe, sem dúvida. Mas agora ele estava atacando gente im portante. Questionara a sensatez dessa m udança, pesara os prós e os contras e decidira que os grandes hom ens – aqueles que realm ente m udam suas vidas – arriscam a sorte.
E Vic queria ser um grande hom em .
O golpe era sim ples, e era essa sim plicidade que o tornava extraordinário. Toda residência com TV a cabo tinha um a caixa de distribuição na linha telefônica. Quando você assinava algum canal especial, com o HBO ou Showtim e, um técnico m exia em algum as chaves. Aquela caixa de distribuição contém seu histórico de TV a cabo. E esse histórico revela tudo sobre suas preferências.
As em presas de TV a cabo e os hotéis fazem questão de garantir aos clientes que suas faturas não revelarão o nom e dos film es que viram . Isso pode ser verdade, m as não significa que eles não saibam . Tente contestar um a cobrança um dia. Eles revelarão títulos que deixarão você exasperado.
O que Vic havia descoberto de cara – sem entrarm os em detalhes técnicos – era que as opções na TV a cabo funcionavam por códigos, transm itindo as inform ações do pedido, através da caixa de distribuição, aos com putadores da sede da em presa de TV a cabo. Então ele subia nos postes telefônicos, abria as caixas e anotava os núm eros. De volta ao escritório, digitava os códigos e descobria tudo.
Ficava sabendo, por exem plo, que às seis da tarde do dia 2 de fevereiro você e sua fam ília alugaram O rei leão pelo pay -per-view. Ou, dando um exem plo m ais revelador, que às dez e m eia da noite de 7 de fevereiro você encom endou, em dose dupla, Jeannie em êxtase e Programada para Transar via Sizzle TV.
Entendeu o golpe?
De início, Vic atacava aleatoriam ente. Escrevia um a carta para o proprietário da residência. A carta era curta e grossa. Ela listava quais film es pornográficos haviam sido vistos, a que horas e em que dias. Deixava claro que cópias daquela inform ação seriam distribuídas a todos os m em bros da fam ília, aos vizinhos, ao em pregador. Depois, pedia 500 dólares para m anter o bico calado. Não era lá m uita grana, m as para ele era a quantia perfeita: alta o suficiente para engrossar sua conta bancária, m as baixa o bastante para que a m aioria dos alvos não hesitasse em pagar.
Mesm o assim – e isso surpreendia Vic no com eço –, apenas uns 10 por cento respondiam . Vic não sabia direito por quê. Talvez assistir a film es pornográficos j á não fosse tão vergonhoso com o antigam ente. Talvez a esposa do cara soubesse dos film es. Talvez ela até os visse j unto com ele. Mas o verdadeiro problem a era que o golpe de Vic era disperso dem ais.
Ele precisava escolher m elhor suas vítim as.
Foi aí que lhe ocorreu a ideia de se concentrar em pessoas de determ inadas profissões, cuj a im agem seria prej udicada se a inform ação fosse divulgada. Mais um a vez, os com putadores da em presa de TV a cabo forneceram todos os dados de que precisava. Ele com eçou atacando professores. Assistentes sociais. Ginecologistas. Qualquer um cuj o em prego fosse sensível a um escândalo. Os professores eram os que m ais entravam em pânico, m as eram os que tinham m enos dinheiro. Ele tam bém tornou as cartas m ais específicas. Passou a m encionar os nom es da esposa e do em pregador. No caso dos professores, prom etia enviar ao governo e aos pais dos alunos a “prova da perversão”, expressão cunhada por ele m esm o. No caso dos m édicos, am eaçava enviar a “prova” ao Conselho de Medicina, além dos j ornais locais, vizinhos e pacientes.
O dinheiro com eçou a entrar m ais rápido.
Até então, o golpe de Vic havia lhe rendido quase 40 m il dólares. Agora, ele fisgara seu m aior peixe – tão grande que, no início, pensou em desistir. Mas não conseguira. Não podia abrir m ão da m aior tacada de sua vida.
Sim , ele atingira alguém im portante. Bota im portante nisso! Randall Scope. Jovem , boa-pinta, rico, um a esposa m aravilhosa, filhos nota 10, aspirações políticas, o provável herdeiro da fortuna dos Scope. E Randall Scope não solicitara som ente um film e. Ou m esm o dois.
Durante um a orgia de um m ês, Randall solicitara 23 film es pornográficos. Uau!
Vic passara duas noites rascunhando suas exigências, m as no final ateve-se ao básico: curto, frio e bem específico. Pediu a Scope 50 m ilhas. Exigiu que estivessem em sua caixa postal naquele exato dia. Com certeza, aquelas 50 m ilhas estavam no bolso do casaco do bilionário doidinhas para serem gastas.
Vic queria olhar. Não aguentava m ais de vontade. Mas ele era a disciplina em pessoa. Esperaria até chegar em casa. Trancaria a porta, sentaria no chão, abriria o pacote e despej aria as verdinhas.
Iria arrebentar.
Estacionou o carro na rua e andou até o portão do prédio. A visão de sua m oradia – um apartam ento sobre um a garagem sórdida – o deprim iu. Mas em breve ele não estaria m ais ali. Se pegasse as 50 m ilhas, acrescentasse as quase 40 escondidas no apartam ento, m ais as 10 econom izadas…
A quantia fez com que desse um a parada. Cem m il dólares! Ele tinha 100 m ilhas em dinheiro vivo. Perfeito.
Ele partiria logo. Pegaria a grana e se m andaria para o Arizona. Tinha um am igo lá, Sam m y Viola. Ele e Sam m y abririam seu próprio negócio, talvez um restaurante ou um a casa noturna. Estava cansado de Nova Jersey .
Estava na hora de m udar. Com eçar de novo.
Vic subiu as escadas. Na verdade, ele nunca cum pria suas am eaças. Nunca enviara as cartas que prom etera. Se um alvo não pagasse, ponto final. Prej udicá-lo não adiantaria nada. Era um senhor golpista. É bem verdade que se valia de am eaças, m as nunca as cum pria. Aquilo apenas deixaria a pessoa furiosa e provavelm ente o exporia tam bém .
Jam ais chegaria a prej udicar alguém . De que adiantaria?
Vic chegou ao patam ar da escada e parou diante da porta do apartam ento. Um breu. A m aldita lâm pada do corredor estava queim ada de novo. Suspirou e levantou o grande chaveiro. Apertou os olhos no escuro, tentando encontrar a chave certa. Ele acabou a encontrando pelo toque. Tateou a m açaneta até que a chave encontrou a fechadura. Abriu a porta, entrou e sentiu algo estranho.
Algum a coisa m ole sob seus pés.
Franziu as sobrancelhas. Plástico, pensou. Estava pisando em plástico. Com o se um pintor o tivesse estendido para proteger o chão ou algo sem elhante. Deu um peteleco no interruptor, e foi aí que viu o hom em com o revólver.
– Oi, Vic.
Vic suspirou e deu um passo para trás. O hom em diante dele parecia ter uns 40 e poucos anos. Era grandão e gorducho, com um a barriga que lutava contra os botões da cam isa social e que, pelo m enos em um ponto, vencera a luta. A gravata estava frouxa e o penteado era horrível – oito tufos de cabelo em papados de brilhantina e esticados de orelha a orelha. Os traços do hom em eram suaves, o queixo afundando em dobras de gordura. Seus pés repousavam sobre o baú que Vic usava com o m esa de café. Substitua o revólver por um controle rem oto e o hom em pareceria um pai exausto recém -chegado do trabalho.
Outro hom em , que bloqueava a porta, era o oposto do grandão: na casa dos 20 anos, asiático, atarracado, m úsculos de granito, o corpo quase cúbico, cabelos parafinados, um ou dois piercings no nariz e um walkm an no ouvido. O único lugar onde você im aginaria topar com os dois j untos seria em um m etrô, o hom em grandão de cara fechada atrás do j ornal cuidadosam ente dobrado, o rapaz asiático fitando-o e balançando a cabeça ao ritm o ensurdecedor da m úsica que tocava nos fones.
Vic tentou pensar. Descobrir o que eles queriam . Raciocinar com eles. Você é um golpista e tanto, lem brou a si m esm o. Você é esperto. Você encontrará um a saída. Vic em pertigou-se.
– O que vocês querem ? – perguntou.
O hom em grandão, com o penteado m edonho, apertou o gatilho.
Vic ouviu um estouro, e então seu j oelho esquerdo explodiu. Seus olhos se arregalaram . Ele gritou e desm oronou, segurando o j oelho. O sangue j orrava por entre seus dedos.
– É um 22 – disse o grandão, apontando para a arm a. – Um revólver de pequeno calibre. O que m ais gosto nele, com o você verá, é que posso dar um m onte de tiros sem m atá-lo.
Com os pés ainda levantados, o grandão atirou novam ente. Dessa vez, atingiu o om bro de Vic, que sentiu o osso se estilhaçar. Seu braço se desprendeu com o um a porta de celeiro cuj a dobradiça acabara de quebrar. Ele caiu de costas e com eçou a ofegar. Um terrível coquetel de m edo e dor o engolfou. Seus olhos perm aneciam arregalados, sem piscar, e no atordoam ento percebeu algo.
O plástico no chão.
Estava deitado em cim a dele. Mais do que isso, sangrava sobre ele. Para isso servia o plástico. Os hom ens o haviam estendido para um a lim peza fácil.
– Você vai m e contar o que eu quero saber – disse o grandão –, ou vou ter que atirar de novo?
Vic com eçou a falar. Contou tudo a eles. Revelou onde estava o resto do dinheiro. Disse onde estavam as provas. O grandão indagou se ele tinha algum cúm plice. Vic disse que não. O grandão atirou no outro j oelho de Vic. Voltou a perguntar se ele tinha cúm plices. Vic repetiu que não. Então o grandão atirou em seu tornozelo direito.
Um a hora depois, Vic im plorou para que o hom em atirasse em sua cabeça.
Duas horas depois, o grandão atendeu ao seu pedido.