Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 40 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 39

39

BRUTUS JUNTOU-SE A NÓS NA CALÇADA. Eu lhe dei bom -dia.

Ele não disse nada. Eu ainda não o tinha ouvido falar. Acom odei-m e no banco traseiro. Ty rese sentou-se ao m eu lado e sorriu. Na noite anterior ele m atara um hom em . É bem verdade que foi para salvar m inha vida, m as, pela sua despreocupação, talvez nem se lem brasse de ter apertado o gatilho. Melhor do que qualquer um , eu deveria entender o que se passava com ele, m as não entendia. Não sou m uito adepto de princípios m orais absolutos. Eu vej o os m atizes. Faço concessões. Elizabeth tinha um a visão m ais clara de sua bússola m oral. Ela teria ficado horrorizada com a perda de um a vida. Para ela, não teria im portado que o hom em estivesse tentando m e sequestrar, torturar e provavelm ente m atar. Ou talvez im portasse. Eu j á nem sei m ais. A dura verdade é que eu não sabia tudo sobre ela. E ela certam ente não sabia tudo sobre m im .

Minha form ação m édica m e program ou para nunca fazer esse tipo de seleção m oral. É um a sim ples regra de triagem : o paciente com ferim entos m ais graves é tratado prim eiro. Não im porta quem sej a ou o que fez. Você trata os casos m ais graves prim eiro. Um a bela teoria, e entendo sua necessidade. Mas se, digam os, m eu sobrinho Mark fosse trazido ao hospital com um a punhalada e o pedófilo que o ferira chegasse ao m esm o tem po com um a bala na cabeça, não há dúvida sobre quem eu trataria prim eiro. Você faz a escolha, e no fundo você sabe que nesse caso a decisão é fácil.

Você pode argum entar que estou pisando em terreno m uito escorregadio. Concordo com você, em bora eu possa replicar que a m aior parte da vida é dessa form a. O problem a quando você aceita conviver com esses m atizes são as repercussões – não apenas as teóricas, que m ancham sua alm a, m as as concretas, a destruição im previsível que tais escolhas deixam para trás. Eu m e perguntava o que teria acontecido se eu tivesse falado a verdade desde o início. Esse pensam ento m e pareceu bastante assustador.

– Está calado, doutor.

– É.

Brutus m e deixou diante do apartam ento de Linda e Shauna, na Riverside Drive.

– Estarem os ali na esquina – disse Ty rese. – Se precisar de algum a coisa, você sabe m eu telefone.

– Certo.

– Está levando a Glock?

– Sim .

Ty rese pôs a m ão no m eu om bro.

– Não dá m ole para eles, doutor – recom endou. – Qualquer coisa, m ete bala.

Não havia m atizes aqui.

Saltei do carro. Mães e babás cam inhavam tranquilam ente m anobrando com plicados carrinhos de bebê, com encosto regulável, m usiquinha, alguns para m ais de um bebê, além de carregarem fraldas, toalhas, papinhas, suco (para os irm ãos m ais velhos), m udas de roupa, m am adeiras e até kits de prim eiros socorros. Eu conhecia tudo aquilo graças à m inha própria prática pediátrica (depender da saúde pública não im pede que as m ães com prem carrinhos de bebê de últim a geração) e achei aquele espetáculo de prosaica norm alidade coexistindo no m esm o espaço do m eu recente suplício um a espécie de elixir.

Olhei para o prédio. Linda e Shauna estavam na porta e vieram correndo em m inha direção. Linda chegou prim eiro. Ela m e abraçou. Eu retribuí o abraço. A sensação foi agradável.

– Você está bem ? – ela quis saber.

– Estou ótim o – respondi.

Minhas respostas tranquilizadoras não im pediram Linda de repetir a pergunta várias vezes de diversas m aneiras. Shauna se aproxim ou. Olhei para ela por sobre o om bro de m inha irm ã. Shauna enxugava as lágrim as. Sorri para ela.

Continuam os aos beij os e abraços na subida do elevador. Shauna estava m enos efusiva do que de hábito, perm anecendo um tanto distante. Um observador de fora poderia alegar que aquilo fazia sentido, que Shauna estava dando espaço aos irm ãos naquele em ocionante reencontro. Esse observador não saberia distinguir Shauna de Cher. Shauna era m aravilhosam ente coerente. Ela era estourada, exigente, engraçada, bondosa e fiel até debaixo d’água. Ela nunca usava disfarces ou pretextos. Se você consultasse o verbete “inibido” em um dicionário de antônim os, daria de cara com a im agem exuberante dela. Shauna encarava a vida. Ela não retrocederia se fosse agredida na boca com um cano de chum bo.

Algo dentro de m im com eçou a latej ar.

Quando chegam os ao apartam ento, Linda e Shauna trocaram um olhar. O braço de Linda m e largou.

– Shauna quer falar com você em particular prim eiro – disse ela. – Estarei na cozinha. Quer um sanduíche?

– Sim , obrigado – respondi.

Linda m e beij ou e m e deu um últim o abraço, com o se quisesse se certificar de que eu ainda estava ali em carne e osso. Ela deixou rapidam ente o aposento. Olhei para Shauna. Ela m anteve a distância. Fiz com as m ãos um gesto de “O que houve?”.

– Por que você fugiu? – perguntou Shauna.

– Recebi outro e-m ail – respondi.

– Na conta do Bigfoot?

– Sim .

– Por que o e-m ail dem orou tanto para chegar?

– Ela estava usando um código – respondi. – Levei algum tem po até decifrar.

– Que tipo de código?

Expliquei sobre a Bat Lady e o film e Teenage Sex Poodles.

Quando term inei, ela disse:

– Foi por isso que você entrou no cibercafé? Você decifrou a charada durante o passeio com Chloe?

– Sim .

– O que o e-m ail dizia exatam ente?

Eu não conseguia entender por que Shauna estava fazendo todas aquelas perguntas. Além de todas as características que eu j á m encionei, ela era um a pessoa que se atinha estritam ente ao panoram a geral. Detalhes não eram o seu forte; ao seu ver, eles apenas turvavam e confundiam .

– Ela pediu que eu a encontrasse ontem às cinco da tarde no Washington Square Park – expliquei. – Avisou que eu seria seguido. Depois disse que, independentem ente do que acontecesse, ela m e am ava.

– Por isso você fugiu? – perguntou. – Para não perder o encontro?

Respondi que sim com um m ovim ento da cabeça.

– Hester disse que eu só conseguiria a fiança depois da m eia-noite.

– Você chegou ao parque a tem po?

– Sim .

Shauna se aproxim ou m ais de m im .

– E…?

– Ela não apareceu.

– E você ainda está convencido de que foi Elizabeth quem enviou o e-m ail?

– Não há outra explicação – respondi.

Ela sorriu quando eu disse isso.

– O que foi? – perguntei.

– Lem bra-se da m inha am iga Wendy Petino?

– Sua colega m odelo – respondi. – A excentricidade em pessoa.

Shauna riu da m inha descrição.

– Certa vez, ela m e levou para j antar com seu – ela fez um sinal de aspas com os dedos – guru espiritual. Ela dizia que ele conseguia ler pensam entos e prever o futuro e todas essas coisas. Ele a estava aj udando a se com unicar com a falecida m ãe. A m ãe de Wendy se suicidou quando ela tinha 6 anos.

Deixei que ela prosseguisse, sem interrom per com o óbvio “aonde você quer chegar com isso?”. Shauna estava dem orando, m as eu sabia que acabaria chegando a algum lugar.

– Aí acabam os de j antar. O garçom serviu o café. O guru de Wendy, que se cham ava Om ay ou algo parecido, olhou para m im com aqueles olhos brilhantes e inquisidores, você conhece esse tipo, e com eçou a dizer que sentia que talvez eu fosse um a cética e que estava precisando m e abrir. Você m e conhece. Eu disse a ele que tudo aquilo era bobagem e que ele devia parar de arrancar dinheiro da m inha am iga. Om ay não ficou zangado, é claro, o que realm ente m e contrariou. De qualquer m odo, ele m e entregou um pequeno cartão e pediu que eu escrevesse qualquer coisa nele. Algo significativo sobre a m inha vida, um nam oro, as iniciais de um a pessoa querida, o que eu bem entendesse. Exam inei o cartão. Parecia um papel norm al, m as, m esm o assim , perguntei se podia usar m eu próprio cartão. Ele disse para eu ficar à vontade. Apanhei um cartão de visita e o virei. Ele m e entregou um a caneta, m as novam ente decidi usar a m inha. Sei lá se a dele tinha algum truque, tudo é possível. Ele disse que não havia problem a. Então escrevi seu nom e: Beck, apenas. Ele pegou o cartão. Observei a m ão dele para ver se não daria um a virada rápida ou algo assim , m as ele apenas passou o cartão para Wendy, pedindo-lhe que o segurasse. Pegou m inha m ão, fechou os olhos e com eçou a trem er com o se estivesse tendo um ataque, e j uro que senti algo m e percorrer. Depois abriu os olhos e perguntou: “Quem é Beck?”

Shauna se sentou no sofá. Fiz o m esm o.

– Sei que as pessoas são ágeis com as m ãos e essas coisas, m as eu estava lá. Eu o observei de perto. E quase caí. Om ay tinha habilidades especiais. Com o você diz, não havia outra explicação. Wendy estava sentada com aquele sorriso satisfeito estam pado no rosto. Eu estava perplexa.

– Ele pesquisou sua vida – eu aventei. – Sabia da nossa am izade.

– Desculpe, m as não seria m ais lógico eu escrever o nom e do m eu próprio filho ou de Linda? Com o ele ia adivinhar que escolheria o seu?

Shauna tinha razão.

– Então você agora acredita em esoterism o?

– Quase, Beck. Eu disse que quase caí. O velho Om ay estava certo. Sou um a cética. Talvez tudo indicasse que ele era paranorm al, só que eu sabia que não era. Porque não existe essa coisa de paranorm alidade, assim com o não existem fantasm as. – Ela parou. Nem um pouco sutil, m inha cara Shauna. – Resolvi pesquisar o fenôm eno – ela prosseguiu. – O bom de ser um a m odelo fam osa é que você pode ligar para quase todo m undo e ser atendida. Então telefonei para um ilusionista que eu havia visto na Broadway alguns anos antes. Ele ouviu a história e riu. Perguntei qual a graça. Ele perguntou: “O guru fez aquilo depois do j antar?” Fiquei surpresa. Que diabo tinha o j antar a ver com aquilo? Mas eu disse: “Sim , com o foi que soube?” Ele perguntou se tom am os café. De novo, respondi que sim . Ele tom ou café puro? Outra vez respondi que sim . – Shauna sorria agora. – Sabe com o ele fez aquilo, Beck?

Fiz que não com a cabeça:

– Não tenho a m enor ideia.

– Quando ele entregou o cartão para Wendy, passou-o sobre a xícara de café. O café puro, Beck, reflete com o um espelho. Foi assim que ele viu o que eu havia escrito. Tudo não passou de um sim ples truque. Passar o cartão sobre a xícara de café preto é com o passá-lo sobre um espelho. E eu quase acreditei. Entende o que estou querendo dizer?

– Claro – respondi. – Você acha que sou tão ingênuo com o a excêntrica Wendy .

– Sim e não. Vej a bem , Om ay j oga com a vontade das pessoas, Beck. Wendy cai porque quer acreditar em toda aquela encenação.

– E eu quero acreditar que Elizabeth está viva?

– Mais do que um hom em agonizante no deserto quer encontrar um oásis – com pletou ela. – Mas não é isso o que eu quero dizer.

– O que é, então?

– Aprendi que o fato de você não conseguir ver nenhum a outra explicação não significa que ela não exista. Significa apenas que você não consegue enxergá-la.

Reclinei-m e no sofá e cruzei as pernas. Observei-a. Ela desviou o olhar de m im , algo que nunca fazia.

– O que está acontecendo, Shauna?

Ela não m e encarou.

– O que você diz não faz sentido – falei.

– Acho que fui bastante clara…

– Você sabe o que eu estou querendo dizer. Você está estranha. Ao telefone, disse que precisava falar com igo. A sós. E para quê? Para m e dizer que m inha esposa no final das contas está m esm o m orta? – Fiz um gesto de reprovação com a cabeça. – Eu não aceito isso.

Shauna não reagiu.

– Fale – pedi.

Ela voltou a m e encarar.

– Estou assustada – ela disse num tom de voz que fez os pelos de m inha nuca se eriçarem .

– Por quê?

A resposta não veio de im ediato. Eu conseguia ouvir Linda na cozinha, o tinido de pratos e copos, o som da geladeira se abrindo.

– Essa longa história que acabo de contar – continuou Shauna por fim – serve tanto para m im quanto para você.

– Eu não entendo.

– Eu vi algo… – Sua voz se extinguiu. Ela respirou fundo e tentou de novo. – Eu vi algo que m inha m ente racional não consegue explicar. Com o na história de Om ay. Sei que tem que haver outra explicação, m as não consigo encontrar. – Suas m ãos com eçaram a se m exer, os dedos tocando nervosam ente os botões, puxando fios im aginários da roupa. Foi aí que ela adm itiu: – Com eço a acreditar em você, Beck. Acho que talvez Elizabeth ainda estej a viva.

Meu coração saltou até a garganta. Ela se levantou rapidam ente.

– Vou preparar um coquetel. Aceita?

Respondi que não com a cabeça. Ela pareceu surpresa.

– Tem certeza de que não quer…

– Diga o que você viu, Shauna.

– A ficha da autópsia.

Quase caí para trás. Levei algum tem po até recuperar a voz.

– Com o?

– Conhece Nick Carlson, do FBI?

– Ele m e interrogou – respondi.

– Ele acha que você é inocente.

– Não foi essa a im pressão que tive.

– Mas agora ele acha. Quando todos aqueles indícios com eçaram a apontar para você, ele achou que estava tudo certinho dem ais.

– Ele disse isso a você?

– Sim .

– E você acreditou nele?

– Sei que parece ingênuo, m as, sim , acreditei.

Eu confiava no j ulgam ento de Shauna. Se ela dizia que Carlson estava sendo sincero, ou ele era um perfeito m entiroso ou ele havia descoberto a verdade.

– Continuo não entendendo – disse. – O que isso tem a ver com a autópsia?

– Carlson m e procurou. Ele queria saber o que você estava tram ando. Eu não contei. Mas ele estava rastreando seus m ovim entos. Ele sabia que você tinha solicitado a ficha da autópsia de Elizabeth. Ele queria saber por quê. Por isso, ligou para o escritório do m édico-legista e conseguiu a ficha. Ele a trouxe até aqui para ver se eu poderia elucidar algum a coisa.

– Ele m ostrou o laudo a você?

Ela fez que sim com a cabeça. Minha garganta estava seca.

– Você viu as fotos da autópsia?

– Não havia nenhum a, Beck.

– O quê?

– Carlson acha que alguém as roubou.

– Quem ?

Ela deu de om bros.

– A única pessoa que pediu para ver a ficha foi o pai de Elizabeth.

Hoy t. O cerco se fechava em torno dele. Olhei para ela.

– Você chegou a ver o laudo?

Desta vez Shauna hesitou antes de assentir.

– E…?

– Diz que Elizabeth usava drogas, Beck. Não apenas que havia drogas no organism o. Ele disse que o laudo m ostrava que o consum o vinha de longa data.

– Im possível – falei.

– Talvez sim , talvez não. Só isso não seria suficiente para m e convencer. As pessoas conseguem esconder o consum o de drogas. Não é provável, m as ela estar viva tam bém não é. Talvez os testes estivessem errados ou incom pletos. Podia haver algum a explicação.

Molhei os lábios com a língua.

– Então o que havia de errado?

– A altura e o peso – disse Shauna. – No laudo constava que Elizabeth tinha 1,70m e pesava 45 quilos.

Outro soco na barriga. Minha esposa m edia 1,62m e pesava cerca de 50 quilos.

– Totalm ente errado – eu disse.

– Totalm ente.

– Ela está viva, Shauna.

– Talvez – adm itiu ela, seu olhar se voltando para a cozinha. – Mas tem m ais.

Shauna se virou e cham ou Linda. Esta apareceu à porta e perm aneceu ali. Ela parecia subitam ente pequena. Esfregou as m ãos e as enxugou no avental. Observei m inha irm ã, intrigado.

– O que está acontecendo? – perguntei.

Linda com eçou a falar. Ela contou sobre as fotografias: Elizabeth pedira que Linda as guardasse e m antivesse segredo sobre Brandon Scope, o que ela fez de bom grado. Linda não dourou a pílula nem ofereceu j ustificativas, m as talvez não tivesse obrigação de fazê-lo. Ela se m anteve de pé, contou toda a história e esperou pela pancada inevitável. Eu ouvi de cabeça baixa. Não consegui encará-la, m as a perdoei facilm ente. Todos tem os nossos pontos fracos, sem exceção.

Queria abraçá-la e dizer que eu entendia, m as não consegui. Quando ela term inou, fiz um sim ples sinal de sim com a cabeça e agradeci:

– Obrigado por m e contar.

Minhas palavras eram um sinal de que ela j á podia se retirar. Linda entendeu. Shauna e eu perm anecem os sentados em silêncio por quase um m inuto.

– Beck?

– O pai de Elizabeth está m entindo para m im – eu disse.

Ela assentiu com a cabeça.

– Preciso ter um a conversa com ele.

– Ele está escondendo algum a coisa.

Realm ente, pensei.

– Será que desta vez vai ser diferente?

Dei um tapinha distraído na pistola Glock em m inha cintura.

– Talvez – respondi.

♦ ♦ ♦

Carlson m e saudou no corredor:

– Dr. Beck?

Do outro lado da cidade, naquele m esm o m om ento, a prom otoria pública dava um a entrevista coletiva à im prensa. Os repórteres m ostraram -se naturalm ente céticos diante da explicação enrolada de Fein (em relação a m im ), e houve m uita retratação e atribuição de culpa e todo esse tipo de coisa. Mas aquilo parecia confundir ainda m ais a questão. E a confusão aj uda. A confusão leva a extensas reconstituições, explicações, exposições e a vários outros “ões”. A im prensa e seu público preferem um a narrativa m ais sim ples.

A sorte de Fein foi que, por coincidência, a prom otoria pública aproveitou aquela m esm a entrevista coletiva para divulgar denúncias contra vários m em bros da adm inistração m unicipal, j unto com a insinuação de que os “tentáculos da corrupção” – a expressão foi deles – poderiam chegar ao escritório do prefeito. A m ídia, um a entidade cuj a atenção coletiva parece a de um a criança de 2 anos, im ediatam ente se concentrou nesse novo brinquedo reluzente, chutando o antigo para debaixo da cam a.

Carlson avançou na m inha direção.

– Gostaria de lhe fazer algum as perguntas.

– Agora não – respondi.

– Seu pai tinha um revólver – ele afirm ou.

Suas palavras m e grudaram ao chão.

– O quê?

– Stephen Beck, seu pai, adquiriu um Sm ith and Wesson calibre 38. O registro m ostrou que ele o com prou alguns m eses antes de m orrer.

– O que isso tem a ver com o caso?

– Suponho que você herdou o revólver. Estou certo?

– Recuso-m e a falar com você.

Apertei o botão do elevador.

– Ele está em nossas m ãos – ele revelou.

Virei-m e, espantado.

– Estava no cofre de Sarah Goodhart. Junto com as fotos.

Não consegui acreditar no que ouvia.

– Por que você não falou isso antes?

Carlson deu um sorriso m aroto.

– O.k., fui o culpado – eu disse em tom de zom baria. Depois, fazendo questão de m e afastar, acrescentei: – Não sei o que isso tem a ver com o caso.

– Claro que sabe.

Apertei o botão do elevador outra vez.

– Você se encontrou com Peter Flannery – continuou Carlson. – Você perguntou sobre a m orte de Brandon Scope. Gostaria de saber por quê.

Mantive o botão do elevador pressionado.

– Você fez algum a coisa com o elevador?

– Sim . Por que você foi ver Peter Flannery ?

Minha m ente fez um as deduções rápidas. Um a ideia – algo perigoso, na m elhor das hipóteses – m e ocorreu. Shauna confiava naquele hom em . Talvez eu tam bém pudesse confiar. Pelo m enos, um pouquinho. O suficiente.

– Porque eu e você tem os as m esm as suspeitas – respondi.

– Com o assim ?

– Am bos querem os saber se KillRoy realm ente m atou m inha m ulher.

Carlson cruzou os braços.

– E o que Peter Flannery tem a ver com isso?

– Você estava rastreando m eus m ovim entos, certo?

– Certo.

– Decidi fazer o m esm o com os m ovim entos de Elizabeth, a partir de oito anos atrás. As iniciais e o telefone de Flannery estavam em sua agenda.

– Entendo – disse Carlson. – E o que você descobriu com o Dr. Flannery ?

– Nada – m enti. – Aquilo não m e levou a nada.

– Acho que não foi bem assim – Carlson retrucou.

– O que o leva a dizer isso?

– Sabe com o funcionam os exam es de balística?

– Eu vi na TV.

– Em term os sim ples, cada revólver deixa um a m arca própria na bala que dispara. Arranhões, fendas específicas daquele revólver. Com o im pressões digitais.

– Eu sei de tudo isso.

– Após sua visita ao escritório de Flannery, solicitei um exam e de balística do 38 que encontram os no cofre de Sarah Goodhart. Adivinhe o que descobri.

Fiz um gesto de que não sabia, m as era m entira.

Carlson fez um a pausa antes de dizer:

– O revólver de seu pai, aquele que você herdou, m atou Brandon Scope.

A porta do prédio se abriu, e um a m ãe e seu filho adolescente entraram na portaria. O rapaz se queixava de algum a coisa. Os lábios da m ãe estavam cerrados, sua cabeça ereta num a posição de eu-não-quero-nem -saber. Eles se dirigiram ao elevador. Carlson disse algo num walkie-talkie. Am bos nos afastam os da porta, nossos olhos im óveis, em um desafio silencioso.

– Agente Carlson, acha que eu sou um assassino?

– Quer saber a verdade? – ele devolveu. – Já nem sei direito.

Achei sua resposta curiosa.

– Você deve estar ciente de que eu não sou obrigado a falar com você. Na verdade, posso ligar para Hester Crim stein agora e m elar tudo o que você está tentando fazer aqui.

Ele se irritou, m as não se deu o trabalho de contestar o que eu dissera.

– Aonde você quer chegar?

– Me dê duas horas.

– Para quê?

– Duas horas – repeti.

Ele refletiu a respeito.

– Sob um a condição.

– Qual?

– Diga quem é Lisa Sherm an.

Aquilo realm ente m e intrigou.

– Não conheço esse nom e.

– Você e ela iam pegar um avião para fora do país ontem à noite.

Elizabeth.

– Não sei do que você está falando – eu disse. O elevador chegou. A porta se abriu. A m ãe de lábios cerrados e seu filho adolescente entraram . Ela olhou para nós. Fiz um sinal para que segurasse a porta.

– Duas horas – repeti.

Carlson fez um sinal relutante de sim com a cabeça. Pulei para dentro do elevador.