Não Conte a Ninguém
Capítulo 44
44
ESTACIONAMOS NO TERRENO ABANDONADO ao lado da escola prim ária Riker Hill e percorrem os a área de m ãos dadas. Mesm o no escuro, dava para ver que pouca coisa havia m udado desde o tem po em que Elizabeth e eu passeávam os por ali. O pediatra em m im não pôde deixar de observar as novas m edidas de segurança. O conj unto de balanços ganhara correntes m ais fortes e cintos de segurança. Sob o conj unto de barras se espalhara palha m acia para am ortecer um a eventual queda. Mas o cam po de beisebol, o cam po de futebol, a área asfaltada com o j ogo de am arelinha pintado eram os m esm os de nosso tem po de criança.
Cam inham os até a j anela da turm a de segunda série da professora Sobel, m as tanto tem po se passara que acho que nenhum de nós sentiu m ais do que um leve toque de nostalgia. Penetram os no m ato, ainda de m ãos dadas. Nenhum de nós dois percorrera aquela trilha nos últim os 20 anos, m as ainda sabíam os o cam inho. Dez m inutos depois, chegam os ao quintal de Elizabeth em Goodhart Road. Olhei para ela. Ela contem plava a casa da infância com olhos um edecidos.
– Sua m ãe não soube de nada? – perguntei.
Ela respondeu que não, com um m ovim ento de cabeça. Ela olhou para m im . Assenti e lentam ente soltei sua m ão.
– Você vai m esm o arriscar? – perguntou ela.
– Não há outra opção – respondi.
♦ ♦ ♦
Não dei a ela nenhum a chance de argum entar. Afastei-m e e cam inhei em direção à casa. Quando cheguei à porta de vidro corrediça, pus as m ãos em torno dos olhos e espiei lá dentro. Nenhum sinal de Hoy t. Tentei a porta dos fundos. Estava destrancada. Virei a m açaneta e entrei. Não vi ninguém ali. Estava prestes a sair quando notei um a luz se acender na garagem . Atravessei a cozinha e entrei na lavanderia. Lentam ente abri a porta para a garagem .
Hoy t Parker estava no banco dianteiro de seu Buick Sky lark. O m otor estava ligado. Na m ão, segurava um drinque. Quando abri a porta, ele pegou o revólver. Ao m e ver, pousou a arm a de volta ao seu lado. Desci os dois degraus até o piso de cim ento e estendi o braço até a m açaneta da porta do banco do carona. Estava destravada. Abri a porta e sentei-m e ao lado dele.
– O que você quer, Beck? – Sua fala estava m eio enrolada por causa da bebida. Acom odei-m e calm am ente no banco.
– Diga a Griffin Scope para libertar o m enino – ordenei.
– Não sei do que você está falando – ele respondeu sem a m enor convicção.
– Suborno, propina, cervej inha. Escolha seu próprio term o, Hoy t. Eu j á sei a verdade.
– Você não sabe porra nenhum a!
– Aquela noite no lago – eu disse. – Quando você aj udou a convencer Elizabeth a não cham ar a polícia.
– Nós j á conversam os sobre isso.
– Mas agora estou curioso, Hoy t. Qual era seu verdadeiro m edo: que m atassem Elizabeth ou que você fosse preso tam bém ?
Seus olhos se voltaram preguiçosam ente para m im .
– Ela estaria m orta se eu não a tivesse convencido a fugir.
– Quanto a isso, não tenho dúvida – respondi. – Mas m esm o assim você teve sorte, Hoy t, de m atar dois coelhos com um a caj adada só. Você conseguiu salvar a vida de Elizabeth, e ainda por cim a escapou da prisão.
– Por que eu iria parar na prisão?
– Vai negar que estava na folha de pagam entos de Scope?
Ele deu de om bros.
– Você acha que eu sou o único que m am ava o dinheiro deles?
– Não – respondi.
– Então por que eu haveria de m e preocupar m ais do que os outros tiras?
– Por causa do que você fez.
Ele term inou seu drinque, procurou a garrafa, despej ou m ais um pouco.
– Não sei do que você está falando.
– Você sabe o que Elizabeth estava investigando?
– As atividades ilegais de Brandon Scope – respondeu ele. – Prostituição. Pedofilia. Drogas. O cara estava arrepiando.
– O que m ais? – perguntei, tentando parar de trem er.
– Do que você está falando?
– Se ela tivesse ido m ais fundo, teria descoberto um crim e pior. – Respirei fundo. – Não estou certo, Hoy t?
Seu rosto sucum biu quando eu disse isso. Ele virou para a frente e olhou pelo para-brisa.
– Um assassinato – eu disse.
Tentei seguir seu olhar, m as tudo o que vi foram ferram entas ordenadam ente penduradas nos pinos. As chaves de fenda de cabo am arelo e preto estavam dispostas em perfeita ordem de tam anho, as de ponta chata à esquerda e as Phillips à direita. Três chaves inglesas e um m artelo separavam os dois grupos.
Prossegui:
– Elizabeth não foi a prim eira pessoa que quis derrubar Brandon Scope. – Parei e esperei até que ele olhasse para m im . Levou algum tem po, m as ele acabou olhando. Vi a verdade em seus olhos. Ele não piscou nem tentou escondê-la. Eu a vi. E ele sabia que eu a tinha visto.
– Você m atou m eu pai, Hoy t?
Ele tom ou um longo gole com um som sibilante e engoliu. Gotas de uísque salpicaram seu rosto. Ele nem se incom odou em secá-las.
– Pior – revelou ele, fechando os olhos. – Eu o traí.
A raiva ferveu no m eu peito, m as m inha voz se m anteve surpreendentem ente serena.
– Por quê?
– Você j á deveria ter descoberto.
Outra onda de fúria m e percorreu.
– Meu pai trabalhou com Brandon Scope – com ecei.
– Mais do que isso – ele interpôs. – Seu pai era conselheiro de Griffin Scope. Eles eram m uito próxim os.
– Assim com o acontecia com Brandon e Elizabeth.
– Sim .
– Depois de trabalhar algum tem po com ele, m eu pai descobriu que m onstro Brandon realm ente era. Estou certo?
Hoy t continuou bebendo.
– Ele não sabia o que fazer – prossegui. – Tinha m edo de contar a verdade, m as não podia deixar o barco correr. A culpa o consum ia. Daí seu silêncio nos m eses antes de sua m orte. – Parei e pensei no m eu pai, assustado, isolado, sem ninguém a quem recorrer. Por que eu não enxergara o problem a? Por que não olhara além do m eu m undo para ver sua dor? Por que não estendi a m ão? Por que não fiz nada para aj udá-lo?
Olhei para Hoy t. Eu tinha um revólver no bolso. Quão sim ples seria… Bastava pegar a arm a e apertar o gatilho. Bum . E adeus, Hoy t. Só que eu sabia por experiência própria que aquilo não resolveria droga nenhum a. Pelo contrário.
– Continue – disse Hoy t.
– A certa altura, papai resolveu desabafar com um am igo. Mas não um am igo qualquer. Um tira, um policial que trabalhava na cidade onde os crim es vinham sendo com etidos. – Meu sangue com eçou a ferver, am eaçando entrar em erupção novam ente. – Você, Hoy t.
Algo em seu rosto m udou.
– Até aqui acertei?
– Na m osca – respondeu ele.
– Você contou para os Scope, não foi?
Ele confirm ou, com um gesto de cabeça.
– Achei que eles fossem transferi-lo ou algo sem elhante. Mantê-lo longe de Brandon. Nunca pensei que… – Ele fez um a careta, claram ente odiando a autoj ustificação em sua própria voz. – Com o você descobriu?
– O nom e Melvin Bartola, para início de conversa. Ele foi a testem unha do suposto acidente que m atou m eu pai, m as claro que ele tam bém trabalhava para Scope. – O sorriso de m eu pai brilhou diante de m im . Fechei o punho de raiva. – Depois você m entiu ao contar que salvou m inha vida – continuei. – Você voltou ao lago após atirar em Bartola e Wolf. Mas não para m e salvar. Você olhou, não viu nenhum m ovim ento e concluiu que eu estava m orto.
– Concluir que você estava m orto não é o m esm o que desej ar sua m orte.
– Mera sem ântica – repliquei.
– Eu não queria que você se m achucasse.
– Mas tam bém não ligou m uito para m im . Você voltou ao carro e disse a Elizabeth que eu tinha m e afogado.
– Eu estava apenas tentando convencê-la a desaparecer. Isso aj udou.
– Você deve ter levado um susto quando soube que eu ainda estava vivo.
– Fiquei m esm o chocado. Aliás, com o foi que você sobreviveu?
– Não im porta.
Hoy t se reclinou, exausto.
– Suponho que não – respondeu. Sua expressão m udou de novo, e fiquei surpreso quando ele perguntou: – Então, que m ais você quer saber?
– Você não nega nada do que eu disse?
– Não.
– E você conhecia Melvin Bartola, certo?
– Sim .
– Bartola advertiu você sobre o ataque a Elizabeth. Não entendo o que aconteceu exatam ente. Vai ver foi a consciência dele. Ou ele não queria que ela m orresse.
– A consciência de Bartola? – Ele deu um a risada. – Brincadeira! Ele era um a verdadeira escória hum ana. Ele veio falar com igo porque achou que poderia arrancar dinheiro dos dois lados: de Scope e de m im . Eu disse que dobraria a grana e o aj udaria a deixar o país se ele m e aj udasse a forj ar a m orte dela.
Balancei a cabeça, enfim enxergando a verdade.
– Então Bartola e Wolf contaram ao pessoal de Scope que iam sair de circulação após o assassinato. Eu achava estranho que seu desaparecim ento não tivesse levantado suspeitas, m as, graças a você, Scope pensou que Bartola e Wolf tinham saído do país.
– É isso aí.
– Então, o que aconteceu? Você os enganou?
– Hom ens com o Bartola e Wolf… a palavra deles não significa nada. Por m ais que eu pagasse, sabia que eles voltariam querendo m ais. Eles se cansariam de viver fora do país ou talvez tom assem um porre e contassem tudo num a conversa de botequim . Lidei com esse tipo de gentalha a vida toda. Não podia m e arriscar.
– Então você os m atou.
– Sim – respondeu ele, sem um pingo de rem orso.
Agora eu sabia toda a verdade. Só não sabia com o aquela história toda term inaria.
– Eles pegaram um m enino com o refém – falei. – Prom eti que m e entregaria se eles o soltassem . Ligue para eles. Aj ude na negociação.
– Eles não confiam m ais em m im .
– Você trabalhou para Scope por um longo tem po – retruquei. – Vej a se tem um a ideia.
Hoy t ficou sentado, pensando. Ele olhou para a parede das ferram entas, e fiquei curioso para saber o que ele estaria vendo. Depois, lentam ente levantou o revólver, apontando-o para o m eu rosto.
– Acho que tive um a ideia – ele disse.
Eu nem pisquei.
– Abra a porta da garagem , Hoy t.
Ele não se m oveu.
Estendi o braço até o quebra-sol diante dele e apertei o controle rem oto da garagem . O portão ganhou vida com um zunido. Hoy t observou-o se erguer. Lá fora, Elizabeth estava de pé, im óvel. Depois que o portão se abriu totalm ente, ela cravou os olhos nos olhos do pai.
Ele recuou.
– Hoy t? – disse eu.
Sua cabeça virou subitam ente em m inha direção. Com um a das m ãos ele agarrou m inha cabeça e pressionou o revólver contra a m inha têm pora.
– Diga a ela para sair da frente.
Mantive-m e im passível.
– Obedeça ou você m orrerá.
– Você não faria isso. Não na frente dela.
Ele se inclinou m ais para perto de m im .
– Obedeça, cacete! – Sua voz m ais parecia um apelo prem ente que um a ordem hostil. Olhei para ele e senti algo estranho m e percorrer. Hoy t ligou a ignição. Olhei para a frente e gesticulei para que ela saísse do cam inho. Ela hesitou, m as acabou andando para o lado. Hoy t esperou até que a saída estivesse livre. Então pisou fundo no acelerador. Passam os por ela voando. Ao nos afastarm os, olhei para trás e pela j anela traseira vi Elizabeth cada vez m ais distante e fraca, até enfim desaparecer.
De novo.
Relaxei e m e perguntei se voltaria a vê-la. Eu fingira confiança antes, m as sabia quais eram as chances. Ela tentou m e dissuadir. Expliquei que eu não podia fugir da raia. Desta vez, cabia a m im o papel de protetor. Elizabeth não gostou, m as entendeu.
Nos últim os dias eu descobrira que ela estava viva. Daria m inha vida por isso? Sem dúvida. Com preendi este fato ao entrar no carro. Um a sensação estranha e pacífica m e dom inou ao seguir com o hom em que traiu m eu pai. A culpa que por tanto tem po m e oprim ira enfim esm oreceu. Eu sabia agora o que teria de fazer – o que teria de sacrificar – e refleti sobre se existia algum a outra opção ou se tudo j á tinha sido predeterm inado até o fim .
Virei-m e para Hoy t e afirm ei:
– Elizabeth não m atou Brandon Scope.
– Eu sei – ele interrom peu, e então disse algo que m e abalou. – Fui eu que m atei. Congelei.
– Brandon espancou Elizabeth – ele prosseguiu rapidam ente. – Ele ia m atá-la. Então, dei um tiro nele quando estava chegando na casa de vocês. Depois, j oguei a culpa em Gonzalez, com o j á disse. Elizabeth soube do m eu crim e. Ela não deixaria um inocente pagar por ele. Por isso, inventou aquele álibi. A turm a de Scope ficou sabendo e desconfiou. Quando com eçaram a suspeitar que Elizabeth poderia ter sido a assassina… – ele parou, m anteve os olhos na estrada, evocou algo bem do fundo – m eu Deus, eu deixei.
Entreguei-lhe o celular:
– Ligue – ordenei.
Ele ligou. Pediu para falar com um hom em cham ado Larry Gandle. Eu j á havia encontrado Gandle várias vezes ao longo dos anos. O pai dele tinha feito o curso secundário j unto com o m eu.
– Estou com Beck – inform ou Hoy t. – Encontrarem os vocês no haras, m as antes têm que soltar o m enino.
Larry Gandle disse algo que não consegui entender.
– Assim que souberm os que o m enino está seguro, irem os para lá – ouvi Hoy t dizer. – E diga a Griffin que tenho o que ele quer. Podem os resolver isso sem ferrar com igo ou m inha fam ília.
Gandle falou de novo, e depois o ouvi desligar. Hoy t m e devolveu o telefone.
– Eu faço parte de sua fam ília, Hoy t?
Ele m irou a arm a na m inha cabeça de novo.
– Pegue sua Glock devagar, Beck. Com dois dedos.
Obedeci. Ele apertou o botão da j anela autom ática.
– Jogue-a pela j anela.
Hesitei. Ele pressionou o cano do revólver novam ente contra a m inha têm pora. Atirei a pistola para fora do carro. Nem deu para ouvi-la atingir o chão.
Viaj am os em silêncio depois, esperando que o telefone voltasse a tocar. Quando tocou, fui eu que atendi. Ty rese disse em voz calm a:
– Ele está bem .
Desliguei, aliviado.
– Aonde você está m e levando, Hoy t?
– Você sabe.
– Griffin Scope m atará nós dois.
– Não – ele disse, ainda apontando a arm a para m im . – Os dois, não.