Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 38 de 50

Páginas do PDF

Não Conte a Ninguém

Capítulo 37

37

QUANDO SHAUNA CHEGOU AO APARTAMENTO, desabou no seu canto favorito do sofá. Linda sentou-se ao seu lado e fez sinal para que Shauna se deitasse em seu colo. A m odelo fechou os olhos enquanto Linda acariciava seus cabelos.

– Mark está bem ? – perguntou Shauna.

– Sim – respondeu Linda. – Você se im porta de m e dizer onde esteve?

– É um a longa história.

– Estou sentada aqui o dia inteiro esperando notícias do m eu irm ão.

– Ele telefonou para m im – contou Shauna.

– O quê?

– Ele está em segurança.

– Graças a Deus.

– E não m atou Rebecca.

– Eu sei disso.

Shauna virou a cabeça para olhar para cim a. Linda estava piscando os olhos.

– Ele vai ficar bem – disse Shauna.

Linda assentiu com a cabeça e virou o rosto para o outro lado.

– Que foi?

– Fui eu que tirei aquelas fotos – revelou Linda.

Shauna sentou-se.

– Elizabeth veio ao m eu escritório. Ela estava bastante m achucada. Sugeri que fosse ao hospital. Ela não quis. Só queria fazer um registro daquilo.

– Não foi um acidente de carro?

Linda negou com a cabeça.

– Quem a m achucou?

– Ela m e fez prom eter que não contaria.

– Oito anos atrás – disse Shauna. – Conte.

– Não é tão sim ples assim .

– Claro que não. – Shauna hesitou. – Afinal, por que ela procuraria você? E com o você pôde pensar em proteger… – Sua voz falhou. Ela lançou um olhar duro para Linda. Linda não se acovardou, m as Shauna pensou no que Carlson havia contado. – … Brandon Scope – disse Shauna pausadam ente.

Linda não respondeu.

– Foi ele quem bateu nela. Meu Deus, não é de surpreender que ela tenha procurado você. Ela queria m anter segredo. Rebecca ou eu a teríam os obrigado a ir à polícia. Mas você, não.

– Ela m e fez prom eter – disse Linda.

– E você sim plesm ente concordou?

– O que eu deveria fazer?

– Obrigá-la a ir à polícia.

– Nem todo m undo é tão coraj oso e forte com o você, Shauna.

– Não m e venha com essa conversa m ole.

– Ela não queria ir – insistiu Linda. – Disse que precisava de m ais tem po. Que não tinha provas suficientes ainda.

– Provas de quê?

– Da agressão dele, suponho. Sei lá. Ela não m e deu ouvidos. Eu não podia forçá-la.

– Você acha que eu acredito nessa história?

– O que está insinuando?

– Você trabalhava num a instituição de caridade financiada pela fam ília de Brandon e dirigida por ele – disse Shauna. – O que aconteceria se viesse à tona que ele espancou um a m ulher?

– Elizabeth m e fez prom eter.

– E você nem hesitou em m anter o bico calado, certo? Você queria proteger a sua m aldita instituição de caridade.

– Não é j usto…

– Ela era m ais im portante que o bem -estar de Elizabeth.

– Você tem ideia do bem que fazem os? – gritou Linda. – Sabe quantas pessoas aj udam os?

– À custa do sangue de Elizabeth Beck – revidou Shauna.

Linda deu-lhe um tapa na cara. O tapa doeu. Elas se encararam , respirando com dificuldade.

– Ela não m e deixou denunciar Brandon. Talvez eu tenha sido fraca. Sei lá. Mas não ouse dizer um a coisa dessas.

– E quando Elizabeth foi raptada no lago você não achou que estava na hora de abrir a boca?

– Achei que o crim e pudesse estar relacionado ao espancam ento. Procurei o pai de Elizabeth e contei a ele tudo o que sabia.

– O que ele disse?

– Ele agradeceu e disse que j á sabia de tudo. Tam bém pediu que eu não contasse nada a ninguém , porque a situação era delicada. E quando ficou claro que KillRoy era o assassino…

– Você decidiu ficar calada.

– Brandon Scope estava m orto. De que adiantaria j ogar seu nom e na lam a?

O telefone tocou. Linda esticou o braço para ele, atendeu, fez um a pausa e depois entregou-o a Shauna.

– Para você.

Shauna não olhou para ela ao pegar o fone.

– Alô?

– Venha até o m eu escritório – disse Hester Crim stein.

– Depois de tudo aquilo?

– Não sou m uito boa em pedir desculpas, Shauna. Portanto, vam os concordar que eu sou um a grandessíssim a idiota. Agora m exa-se. Pegue um táxi e venha para cá. Tem os um hom em inocente para salvar.

♦ ♦ ♦

O prom otor assistente Lance Fein entrou feito um furacão na sala de reuniões de Crim stein, com cara de quem se m antinha acordado à base de anfetam inas. Os dois detetives de hom icídios, Dim onte e Krinsky , iam atrás. Os três tinham os rostos tensos com o cordas de piano.

Hester e Shauna estavam de pé do outro lado da m esa.

– Cavalheiros – disse Hester com um aceno –, tom em seus lugares.

Fein a encarou e depois olhou indignado para Shauna:

– Não estou aqui para brincadeiras.

– Não, o senhor j á brinca bastante na privacidade do seu lar – debochou Hester. – Sente-se.

– Se vocês sabem onde ele está…

– Sente-se, Lance. Você está m e dando dor de cabeça.

Todos se sentaram . Dim onte colocou as botas de pele de cobra sobre a m esa. Com as duas m ãos, Hester em purrou-as para fora, sem deixar de sorrir.

– Estam os aqui, cavalheiros, com um único obj etivo: salvar nossas carreiras. Portanto, vam os direto ao assunto.

– Gostaria de saber…

– Silêncio, Lance. Quem fala aqui sou eu. Seu papel é escutar e talvez concordar com a cabeça e dizer coisas com o “Sim , senhora” e “Obrigado”. Senão vai acabar se dando m al.

Lance Fein a encarou:

– É você quem está aj udando um fugitivo a escapar da j ustiça, Hester.

– Resolveu dar um a de durão agora? Preste atenção, porque eu não estou a fim de ficar repetindo. Vou lhe fazer um favor, Lance. Não vou deixar que você fique parecendo um com pleto idiota nessa história. Idiota, todo m undo j á viu que você é, m as, se m e ouvir com atenção, não parecerá um com pleto idiota. Está entendendo? Em prim eiro lugar, sei que vocês j á têm um a hora definida para a m orte de Rebecca Schay es. Meia-noite, talvez m eia hora antes ou depois. Até aqui algum a dúvida?

– E daí?

Hester olhou para Shauna.

– Quer contar para ele?

– Não, conte você.

– Mas foi você quem fez o trabalho pesado.

Fein reclam ou:

– Pare de enrolar, Crim stein.

A porta atrás deles se abriu. A secretária de Hester entregou a ela um as folhas de papel e um a pequena fita cassete.

– Obrigada, Chery l.

– Tudo bem .

– Pode ir para casa. Chegue m ais tarde am anhã.

– Obrigada.

Chery l foi em bora. Hester apanhou os óculos de leitura e com eçou a ler as páginas.

– Estou com eçando a m e cansar, Hester.

– Gosta de cachorros, Lance?

– O quê?

– Cachorros. Eu particularm ente não sou m uito fã deles. Mas este aqui… Shauna, cadê aquela fotografia?

– Aqui. – Shauna levantou um a grande fotografia de Chloe para que todos vissem . – É um a collie.

– Não é bonitinha, Lance?

Lance Fein se levantou. Krinsky fez o m esm o. Dim onte não se m exeu.

– Agora chega!

– Se você for em bora – am eaçou Hester –, este cachorro vai m ij ar na sua carreira com o se fosse um poste.

– Que diabo você está falando?

Ela entregou duas das folhas a Fein.

– Este cachorro é a prova de que Beck não m atou Rebecca. Ele esteve num cibercafé ontem à noite. Ele foi com o cachorro, que, naturalm ente, teve de ficar do lado de fora. Aqui estão quatro depoim entos de testem unhas afirm ando que viram Beck. Ele alugou um com putador lá. Mais precisam ente de m eia-noite e quatro até m eia-noite e vinte e três, de acordo com os registros de faturam ento. – Ela riu. – Aqui, rapazes. Há cópias para todos vocês.

– Você acha que eu vou acreditar num a coisa dessas?

– Em vez de se precipitar, escute até que eu tenha acabado.

Hester j ogou um a das cópias para Krinsky e outra para Dim onte. Krinsky a apanhou e pediu para dar um telefonem a.

– Tudo bem – disse Crim stein. – De preferência, a cobrar. – Ela olhou para ele com um sorriso afetado. – Eu agradeço.

Fein leu a folha, e seu rosto foi ficando acinzentado.

– Pensando em estender um pouco o intervalo da hora provável da m orte? – perguntou Hester. – À vontade, m as sabe da m aior? Nós tam bém m exem os nossos pauzinhos. Ele está coberto.

Fein estava realm ente trem endo nas bases. Ele pareceu ter engolido um baita palavrão.

– Pois bem , Lance – disse Hester Crim stein num falso tom de com paixão. – Você deveria estar m e agradecendo.

– Por quê?

– Pense em com o eu poderia ter passado você para trás. Im agine só, você diante de todas aquelas câm eras, toda aquela deliciosa cobertura da m ídia, pronto para anunciar a prisão de um vil assassino. Você põe sua m elhor gravata, faz aquele belo discurso sobre m anter as ruas seguras, sobre o esforço de sua equipe para capturar a fera, em bora o m érito na verdade tenha sido seu. Os flashes com eçam a espocar. Você sorri e fala com os repórteres na m aior intim idade, enquanto sonha com sua grande escrivaninha de carvalho na m ansão do governador… E aí, pim ba, eu corto o seu barato. Divulgo para a m ídia este álibi incontestável. Im agine com que cara de palerm a que você ficaria, Lance. Você tem de m e agradecer de j oelhos.

Os olhos de Fein soltaram faíscas.

– Mas ele agrediu um policial.

– Não é verdade, Lance. Vej a com o eu posso distorcer toda a história. O fato é que você, o prom otor público assistente Lance Fein, chegou à conclusão errada. Você perseguiu um hom em inocente com suas tropas de choque. Mais do que um hom em inocente, um m édico que, em vez de enriquecer no setor privado, prefere cuidar dos m enos favorecidos. – Ela relaxou, sorrindo. – E tem m ais: enquanto dezenas de policiais arm ados até os dentes e pagos com nossos im postos caçam esse hom em inocente, um guarda j ovem , forte e cheio de adrenalina consegue encurralá-lo num beco e com eça a espancá-lo. Não tem m ais ninguém ali, e o guarda resolve fazer j ustiça com as próprias m ãos. A pobre vítim a, o Dr. David Beck, que ainda por cim a é viúvo, agiu em legítim a defesa.

– E alguém vai acreditar nisso?

– Claro que vai. Não quero parecer atrevida, m as é m ais fácil acreditarem em m im do que em você. E você ainda não m e ouviu filosofando sobre os excessos da prom otoria pública, sem falar que, no afã de agarrar o Dr. David Beck, um herói para os m enos favorecidos, a polícia forj ou falsos indícios em sua residência.

– Forj ou indícios? – Fein estava enfurecido. – Você pirou?

– Vej a bem , Lance, sabem os que o Dr. David Beck não poderia ter com etido o crim e. Tem os um álibi indiscutível, que é o depoim ento de quatro testem unhas independentes e im parciais, e estam os correndo atrás de m ais testem unhas. Então com o foi que todos aqueles indícios foram

parar lá? Foi você, Fein, e suas tropas de choque. Mark Fuhrm an[2] parecerá Mahatm a Gandhi quando eu acabar com a alegria de vocês.

As m ãos de Fein se fecharam . Ele fez um a pausa e tentou se controlar.

– O.k. – disse ele lentam ente. – Supondo que o álibi sej a com provado…

– Ele será.

– Supondo que sej a, o que você quer?

– Um a ótim a pergunta. Você está num dilem a, Lance. Se você prender m eu cliente, parecerá um idiota. Se cancelar o m andado de prisão, parecerá um idiota tam bém . Não sei se existe algum a saída. – Hester Crim stein levantou-se e andou de um lado para outro com o se estivesse procurando um a solução. – Exam inei o assunto, refleti a respeito e acho que encontrei um a m aneira de m inim izar o dano. Quer saber?

Fein lançou-lhe um novo olhar furioso:

– Pode dizer.

– Um a coisa inteligente você fez nesta trapalhada toda. Um a única coisa, m as talvez sej a o suficiente. Você se m anteve longe da m ídia. Tam bém seria bastante constrangedor tentar explicar com o poderiam ter deixado esse m édico escapar. Mas isso é bom . É claro que inform ações de fontes anônim as vazaram para a im prensa. Preste atenção no que você deve fazer, Lance. Você convoca um a entrevista coletiva. Diz que as inform ações vazadas são falsas, que o Dr. Beck está sendo procurado com o um a testem unha essencial, m ais nada. Você não suspeita dele nesse crim e. Na verdade, você está certo de que ele não o com eteu, m as soube que ele foi um a das últim as pessoas a ver a vítim a com vida e queria falar com ele.

– Essa história não vai colar.

– Vai colar direitinho. Talvez surj am algum as dúvidas, m as vai acabar colando. Eu vou aj udar, Lance. Estou em dívida com você porque m eu cliente fugiu. Então eu, a inim iga da prom otoria pública, vou dar um a força. Vou dizer para a m ídia que você cooperou conosco, que garantiu que os direitos de m eu cliente fossem respeitados, que o Dr. Beck e eu apoiam os plenam ente sua investigação e que gostaríam os de colaborar com você.

Fein se m anteve calado.

– É com o eu j á disse antes, Lance. Posso distorcer a história a seu favor ou contra você.

– O que você quer em troca?

– Você vai retirar todas essas acusações idiotas de agressão e resistência.

– Sem chances.

Hester apontou o cam inho da porta.

– Então vej o você nas páginas das charges.

Os om bros de Fein despencaram e ele falou em voz branda:

– Se nós concordarm os, seu cliente vai cooperar? Ele responderá a todas as m inhas perguntas?

– Por favor, Lance, não tente fingir que está em condições de negociar. Eu propus um trato. Aceite ou terá de enfrentar a im prensa. Você escolhe. O tem po está se esgotando. – Ela balançou o dedo indicador de um lado para o outro e fez um som de tique-taque.

Fein olhou para Dim onte, que m ascou seu palito com m ais força. Krinsky parou de falar ao telefone e fez um sinal afirm ativo para Fein. Fein, por sua vez, olhou para Hester e sinalizou que sim .

– Então, com o vam os fazer?