Não Conte a Ninguém
Capítulo 29
29
NOS VELHOS TEMPOS – UNS 10 ANOS ANTES –, tinha am igos que m oravam no Hotel Chelsea, na Rua 23 Oeste. O hotel era m eio turístico, m eio residencial, cheio de tipos m uito loucos. Artistas, escritores, estudantes, viciados em m etadona de todos os tipos e convicções. Unhas pintadas de preto, rostos góticos m aquiados de branco, batons cor de sangue, cabelos com pletam ente lisos – tudo isso antes que o hotel se tornasse conhecido.
Pouco m udara. Um bom lugar para perm anecer anônim o. Após com prar um a fatia de pizza do outro lado da rua, ela havia se registrado no hotel e não se aventurara fora do seu quarto. Outrora ela considerara Nova York seu lar, m as aquela era apenas sua segunda visita nos últim os oito anos.
Sentia saudade da cidade.
Com a m ão j á acostum ada àquilo, com prim iu os cabelos sob a peruca. A cor naquele dia seria loura com raízes escuras. Ela colocou óculos com arm ação m etálica e enfiou as próteses na boca. Elas m udavam o form ato do rosto.
Suas m ãos trem iam .
Duas passagens de avião estavam sobre a m esa da cozinha. Naquela noite, eles pegariam o voo 174 da British Airway s no Aeroporto JFK, em Nova York, até o Aeroporto Heathrow, em Londres, onde seu contato os encontraria com novas identidades. Então, eles pegariam o trem até Gatwick e o voo vespertino até Nairóbi, no Quênia. Um j ipe os levaria aos contrafortes do m onte Meru, na Tanzânia, ao que se seguiria um a m archa de três dias.
Um a vez ali – num dos poucos lugares deste planeta sem rádio, sem televisão, sem eletricidade –, eles estariam livres.
Os nom es nas passagens eram Lisa Sherm an e David Beck.
Deu um a últim a aj eitada na peruca e contem plou seu reflexo.
Sua visão se obscureceu e, por um m om ento, ela estava de volta ao lago. A esperança queim ou em seu peito, m as, desta vez, ela nada fez para extingui-la. Conseguiu dar um sorriso e afastou-se do espelho.
♦ ♦ ♦
Ty rese e Brutus m e deixaram na esquina da Rua 4 Oeste com a Lafay ette, cerca de quatro quarteirões a leste do parque. Eu conhecia m uito bem a região. Elizabeth e Rebecca haviam dividido um apartam ento em Washington Square, sentindo-se deliciosam ente avant-garde em suas incursões ao West Village – a fotógrafa e a advogada assistente social lutando para ser boêm ias em m eio aos com panheiros de boem ia criados em subúrbios abastados e aos revolucionários de carteirinha. Francam ente, eu nunca engoli aquilo, m as aceitava.
Eu frequentava a Faculdade de Medicina de Colúm bia naquela época e tecnicam ente m orava na periferia, na Haven Avenue, perto do hospital hoj e conhecido com o New York Presby terian. Mas, naturalm ente, eu passava m uito tem po no centro.
Bons tem pos.
Faltava m eia hora para o encontro.
Desci a Rua 4 Oeste, passando pela loj a de CDs Tower Records e penetrando em um a região da cidade dom inada pela Universidade de Nova York. A universidade fazia questão de que você soubesse disso. Ela indicava a posse sobre aquele território enchendo todos os cantos de bandeiras com seu logotipo púrpura berrante. Feia com o o diabo, a cor contrastava com os tij olos de Greenwich Village.
Meu coração disparou no peito com o se quisesse se libertar.
Ela j á estaria lá?
Não corri. Mantive a calm a e tentei não pensar no que a próxim a hora poderia trazer. As feridas de m eu recente suplício se encontravam em um estado entre a queim adura e o prurido. Captei m eu reflexo na j anela de um prédio e não pude deixar de observar o ridículo de m eu traj e em prestado. Parecia um aprendiz de cantor de rap.
Minhas calças caíam . Eu as segurava com um a das m ãos e tentava m anter o ritm o.
Elizabeth poderia estar no parque.
Eu podia ver a praça agora. O canto sudeste estava a apenas um quarteirão de distância. O ar parecia agitado, talvez anunciando um tem poral, m as aquilo provavelm ente era m inha im aginação trabalhando a m il. Mantive a cabeça abaixada. Meu retrato j á teria chegado às televisões? Os âncoras j á teriam feito os anúncios de “procura-se”? Eu duvidava. Mesm o assim , m eus olhos não desgrudavam da calçada.
Acelerei o passo. O Washington Square Park sem pre fora intenso dem ais para m im durante os m eses de verão. Era esforço excessivo – m uitos acontecim entos com m uito desespero. Um a vanguarda m eio artificial. Meu local favorito era o grande aglom erado de pessoas nas m esas de xadrez de cim ento. Às vezes, eu j ogava ali. Eu era bom no xadrez, m as naquele parque o j ogo era o grande nivelador. Ricos, pobres, brancos, negros, donos de im óveis, locatários, m oradores de rua – todos se harm onizavam em volta das m ilenares peças brancas e pretas. O m elhor j ogador que vi ali era um hom em negro que passava a m aior parte das tardes lim pando os vidros dos carros no sinal por alguns trocados.
Elizabeth ainda não estava lá.
Sentei-m e num banco.
Quinze m inutos se passaram .
A opressão no m eu peito aum entou. Nunca m e sentira tão assustado em toda a m inha vida. Pensei na dem onstração tecnológica de Shauna. Um a farsa? Refleti novam ente. E se tudo aquilo não passasse de um a farsa? E se Elizabeth estivesse realm ente m orta? O que eu faria, então?
Especulação inútil, disse para m im m esm o. Desperdício de energia.
Ela tinha de estar viva. Não havia outra opção.
Relaxei e esperei.
♦ ♦ ♦
– Ele está aqui – inform ou Eric Wu pelo telefone celular.
Larry Gandle olhou pela j anela escurecida da cam inhonete. David Beck estava exatam ente onde eles haviam esperado, vestido com o um cantor de rap. Seu rosto estava coberto de arranhões e ferim entos.
Gandle fez um m ovim ento de incredulidade com a cabeça:
– Com o foi que esse cara conseguiu chegar aqui?
– Podem os perguntar a ele – sugeriu Eric Wu com sua voz m onótona.
– Tem os de fazer um serviço benfeito.
– Com certeza.
– Todos a postos?
– Claro.
Gandle consultou o relógio.
– Ela deve chegar a qualquer m om ento.
♦ ♦ ♦
Localizado entre as ruas Sullivan e Thom pson, o edifício m ais im pressionante de Washington Square era um a torre alta de tij olos m arrons desbotados no lado sul do parque. A m aioria das pessoas acreditava que a torre ainda fizesse parte da Igrej a Judson Mem orial. Mas não fazia. Nos últim os 20 anos, passara a abrigar escritórios e dorm itórios da Universidade de Nova York. O alto da torre era facilm ente acessível a qualquer pessoa.
Do alto, ela podia ver o parque inteiro. E, ao fazê-lo, com eçou a chorar.
Beck tinha vindo. Ele usava o m ais esdrúxulo dos disfarces, j á que o e-m ail alertara que ele poderia estar sendo seguido. Ela pôde vê-lo sentado no banco, sozinho, esperando, a perna direita balançando para cim a e para baixo. A perna dele sem pre fazia isso quando ele estava nervoso.
– Ah, Beck…
Ela conseguia ouvir a dor, a am arga agonia em sua própria voz. Continuou olhando para ele.
O que ela havia feito?
Que loucura.
Ela se forçou a olhar em outra direção. Suas pernas se dobraram e ela escorregou, as costas apoiadas na parede, até se sentar no chão. Beck viera vê-la.
Mas eles tam bém tinham vindo.
Tinha certeza disso. Vira três deles, pelo m enos. Provavelm ente m ais. Tam bém vira a cam inhonete da B& T Pinturas. Ligou para o telefone do adesivo da cam inhonete, m as estava desativado. Consultou o serviço de inform ações. Não existia nenhum a B& T Pinturas.
Eles os haviam encontrado. Apesar de suas precauções, eles estavam ali.
Fechou os olhos. Loucura. Trem enda loucura achar que ela conseguiria levar a cabo aquele plano. Com o tinha deixado aquilo acontecer? A ânsia havia cegado seu j ulgam ento. Estava claro agora. De algum m odo, ela se iludira ao achar que conseguiria transform ar um a catástrofe devastadora – os dois corpos descobertos perto do lago – em algum tipo de dádiva divina.
Loucura.
Ela se levantou e arriscou outra olhada para Beck. Seu coração desabou com o um a pedra caindo num poço. Ele parecia tão sozinho lá em baixo, tão pequeno, frágil e indefeso. Será que ele tinha conseguido se adaptar à m orte dela? Provavelm ente. Teria enfrentado a realidade e reconstruído sua vida? Tam bém era provável. Teria se recuperado do golpe para que a burrada dela lhe desse um a nova porrada?
Definitivam ente.
As lágrim as retornaram .
Ela pegou as passagens de avião. Preparo. Aquele sem pre fora o segredo de sua sobrevivência. Preparar-se para qualquer eventualidade. Por isso planej ara o encontro ali, em um parque público onde ela teria a vantagem da fam iliaridade. Não adm itira para si m esm a, m as ela sabia que a possibilidade – não, a probabilidade – de ser seguida por eles existia.
Agora j á era.
A pequena abertura, se é que chegara a existir, havia se fechado novam ente.
Hora de ir em bora. Sozinha. E desta vez para sem pre.
Perguntou a si m esm a com o ele reagiria ao não aparecim ento dela. Ele continuaria grudado no com putador à espera de e-m ails que j am ais chegariam ? Olharia para os rostos dos estranhos e im aginaria ter visto o dela? Sim plesm ente esqueceria tudo e seguiria em frente? No fundo de sua alm a, era isso o que ela queria que ele fizesse?
Não im portava. A sobrevivência em prim eiro lugar. Ela não tinha opção. Tinha de ir.
Com grande esforço, desviou o olhar dele e desceu correndo as escadas. Havia um a saída nos fundos que dava para a Rua 3 Oeste, de m odo que ela não precisaria m ais entrar no parque. Ela em purrou a porta pesada de m etal e saiu. Descendo a Sullivan Street, encontrou um táxi vazio na esquina da Bleecker.
Ela se reclinou e fechou os olhos.
– Para onde? – perguntou o m otorista.
– Aeroporto JFK – inform ou ela.