Não Conte a Ninguém
Capítulo 18
18
– NÃO ESTÁ ACONTECENDO NADA – DISSE ERIC WU. – Beck continua tentando entrar na rede, m as tudo o que consegue é um a m ensagem de erro.
Larry Gandle ia fazer um a pergunta a respeito quando ouviu o barulho do elevador. Olhou o relógio.
Rebecca Schay es estava chegando na hora certa.
Eric Wu se afastou do com putador. Encarou Larry Gandle com o tipo de olhar que faz um hom em dar um passo para trás. Gandle apanhou sua arm a, que desta vez era um a 9 m ilím etros. Por precaução. Wu fez um a cara sinistra. Moveu seu corpanzil até a porta e apagou a luz.
Eles aguardaram no escuro.
Vinte segundos depois, o elevador parou no andar.
♦ ♦ ♦
Rebecca Schay es quase não pensava m ais em Elizabeth e Beck. Afinal, oito anos haviam se passado. Mas naquela m anhã os acontecim entos despertaram algum as sensações há m uito adorm ecidas. Sensações dolorosas.
Sobre o “acidente de carro”.
Após todos aqueles anos, Beck enfim lhe perguntara sobre aquilo.
Oito anos antes, Rebecca estava preparada para contar tudo a respeito. Mas Beck não retornara os telefonem as. Com o passar do tem po – e depois da prisão de um suspeito –, não havia m ais sentido em revolver o passado. Aquilo apenas feriria Beck. Mas a sensação perturbadora – de que os ferim entos de Elizabeth no “acidente de carro” prenunciaram de algum m odo seu assassinato – persistia, em bora não fizesse sentido. Mais do que isso, essa sensação perturbadora a levava à inevitável pergunta: caso tivesse realm ente insistido em revelar a verdade sobre o “acidente de carro”, quem sabe ela não poderia ter salvado a am iga?
A sensação, porém , foi m inguando com o tem po. Afinal, por m aior que sej a a am izade, você acaba superando a m orte de um am igo. Gary Lam ont irrom pera em sua vida três anos antes e m udara tudo. Sim , Rebecca Schay es, a fotógrafa boêm ia de Greenwich Village, se apaixonara por um corretor de Wall Street cheio da grana. Eles se casaram e se m udaram para um prédio alto e badalado no Upper West Side.
Engraçado com o a vida funcionava.
Rebecca entrou no elevador de carga e fechou a porta. As luzes se apagaram , o que não era raro naquele prédio. O elevador com eçou a subir. Às vezes, à noite, ela ouvia os cavalos relincharem , m as daquela vez eles estavam quietos. O cheiro de feno e o de algo m enos agradável se m isturavam no ar.
Ela gostava de ir ao estúdio à noite. O m odo com o a solidão se m esclava com os sons noturnos da cidade fazia com que se sentisse “inspirada” com o em nenhum outro m om ento.
Sua m ente retrocedeu à conversa da noite anterior com Gary. Ele queria sair do centro de Nova York, de preferência para um a casa espaçosa em Long Island, em Sands Point, onde havia sido criado. A ideia de se m udar para o subúrbio a aterrorizava. Mais do que o am or à cidade, ela sabia que aquilo seria a traição final às suas raízes boêm ias. Ela se tornaria o que tinha j urado nunca ser: igual à sua m ãe e à m ãe de sua m ãe.
O elevador parou. Ela saiu e foi andando pelo corredor. Todas as luzes estavam apagadas. Ela aj eitou o cabelo para trás e o prendeu num grosso rabo de cavalo. Olhou o relógio. Quase nove horas. O prédio devia estar vazio. De seres hum anos, pelo m enos.
O sapato estalava contra o cim ento frio. A verdade era que – e Rebecca, um a boêm ia inveterada, tinha dificuldade em aceitar isso – quanto m ais pensava a respeito, m ais percebia que, sim , queria ter filhos, e a cidade era um péssim o lugar para criá-los. Crianças precisam de quintal, balanço, ar puro…
Rebecca Schay es estava quase se decidindo – decisão que, sem dúvida, surpreenderia o m arido – quando m eteu a chave na fechadura e abriu o estúdio. Ela entrou e acendeu a luz.
E então percebeu o estranho hom em asiático.
Por alguns m om entos, ele sim plesm ente a fitou. Rebecca perm aneceu com o que congelada pelo olhar. Depois o asiático se aproxim ou e, posicionando-se por trás dela, lhe deu um m urro bem no m eio das costas.
Foi com o um golpe de m arreta nos rins.
Ela caiu de j oelhos. O hom em prendeu seu pescoço com dois dedos, apertando um ponto sensível. Rebecca sentiu m uita dor. Com a m ão livre, ele enterrou os dedos, com o trituradores de gelo, sob o tórax de Rebecca. Quando eles atingiram o fígado, seus olhos quase saltaram das órbitas. A dor superava tudo o que ela j am ais havia im aginado. Tentou gritar, m as apenas um grunhido abafado saiu de sua boca.
Do outro lado do estúdio, ouviu-se um a voz de hom em :
– Onde está Elizabeth? – perguntou a voz pela prim eira vez.
Mas não pela últim a.