Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 4 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 3

3

CORRI PARA O CONSULTÓRIO CEDO na m anhã seguinte, chegando duas horas antes do prim eiro paciente agendado. Liguei o com putador, encontrei o e-m ail estranho e cliquei no link. A m ensagem de erro surgiu novam ente. Nenhum a surpresa. Fitei a m ensagem , lendo-a repetidas vezes na esperança de descobrir um sentido m ais profundo. Não encontrei.

Na noite anterior, eu tinha ido tirar sangue. O teste de DNA levaria sem anas, m as o xerife Lowell achou que conseguiria um resultado prelim inar antes disso. Pressionei-o por m ais inform ações, m as ele perm aneceu de bico calado. Ele estava escondendo algum a coisa de nós, e eu não tinha a m enor ideia do que seria.

Sentado na sala de exam e aguardando o prim eiro paciente, relem brei a visita de Lowell. Pensei nos dois corpos. No m aldito taco de m adeira.

O corpo de Elizabeth tinha sido encontrado próxim o à Rodovia 80 cinco dias após o rapto. O legista estim ou que ela estava m orta havia dois dias. Isso significava que ela passara três dias viva nas m ãos de Elroy Kellerton, vulgo KillRoy. Três dias a sós com o m onstro. Três nascentes e três poentes, assustada, no escuro e em im ensa agonia. Faço um esforço m edonho para não pensar nisso. A m ente não deveria visitar certos lugares, m as a m inha sem pre acaba sendo levada até lá.

KillRoy foi capturado três sem anas depois. Ele confessou o assassinato de 14 m ulheres em um a orgia que com eçara com um a estudante em Ann Arbor e term inara com um a prostituta no Bronx. Todas as vítim as foram encontradas à beira de estradas, despej adas com o lixo. Todas haviam sido m arcadas com a letra K. Marcadas com o se m arca gado. Em outras palavras, Elroy Kellerton pegou um atiçador de m etal, esperou até que ficasse em brasa e queim ou a linda pele de m inha Elizabeth.

Minha m ente se em brenhou por um desses cam inhos errados, sendo invadida por im agens. Apertei os olhos e tentei expulsá-las. Não adiantou. Ele continuava vivo, por sinal. Refiro-m e a KillRoy. Nosso sistem a penal dá a esse m onstro a chance de respirar, ler, conversar, ser entrevistado pela CNN, receber visitas de assistentes sociais idealistas, sorrir. Enquanto isso, suas vítim as apodrecem . Com o j á disse, Deus tem certo senso de hum or.

Passei água fria no rosto e m e olhei no espelho. Meu aspecto estava terrível. Os pacientes com eçariam a chegar às nove horas. Eu estava perturbado. Meus olhos não desgrudavam do relógio de parede, esperando pela “hora do beij o” – seis e quinze da noite. Os ponteiros do relógio avançavam penosam ente, com o se estivessem m ergulhados em um a calda espessa.

Im ergi no cuidado dos pacientes. Sem pre tive essa habilidade. Quando criança, conseguia estudar horas a fio. Com o m édico, consigo m ergulhar em m eu trabalho. Fiz isso após a m orte de Elizabeth. Algum as pessoas acham que m e escondo no trabalho, que opto por trabalhar em vez de viver. Quando ouço esse clichê, respondo com um sim ples: “O que você tem a ver com isso?”

Ao m eio-dia, engoli às pressas um sanduíche de presunto com Coca Diet e, em seguida, atendi m ais pacientes. Um m enino de 8 anos consultara um fisioterapeuta para um tratam ento de “alinham ento da coluna” 80 vezes no últim o ano. Ele não tinha problem a algum na coluna. Aquilo era um a arm ação perpetrada por vários fisioterapeutas da região, que oferecem aos pais um a TV ou um aparelho de DVD grátis se eles levarem seus filhos. Depois, cobram o tratam ento do governo. A assistência m édica gratuita aos m ais pobres é algo necessário, m aravilhoso, m as há m uita fraude tam bém . Certa vez, um m enino de 16 anos foi trazido às pressas para o hospital em um a am bulância por causa de queim aduras de sol. Por que cham ar um a am bulância em vez de pegar um táxi ou o m etrô? A m ãe explicou que teria de pagá-los do próprio bolso ou aguardar até que fosse ressarcida. Mas a am bulância é paga pelo governo.

Às cinco da tarde, despedi-m e do últim o paciente. O pessoal de apoio saiu às cinco e m eia. Esperei a clínica ficar vazia antes de m e sentar diante do com putador. Ao fundo, ouvia os telefones tocando. Depois das cinco e m eia, um a secretária eletrônica atende e oferece várias opções a quem está ligando, m as, por algum m otivo, a secretária só estava atendendendo após o décim o toque. O som era enlouquecedor.

Conectei a internet, abri o e-m ail e cliquei outra vez no link. Continuava dando erro. Pensei naquela estranha m ensagem e nos cadáveres m encionados por Lowell. Tinha de haver um a ligação. Minha m ente voltava toda hora àquele fato aparentem ente sim ples. Com ecei a analisar as possibilidades.

Prim eira possibilidade: aqueles dois hom ens eram vítim as de KillRoy. É verdade que suas outras vítim as haviam sido m ulheres e que foram facilm ente encontradas, m as isso excluiria o assassinato de outras pessoas?

Segunda possibilidade: KillRoy persuadira aqueles hom ens a aj udá-lo a raptar Elizabeth. Isso explicaria m uita coisa. O taco de m adeira, por exem plo, se o sangue encontrado fosse realm ente m eu. Além disso, m inha grande dúvida sobre aquele rapto ficaria esclarecida. Em tese, KillRoy, com o todos os serial killers, trabalhava sozinho. Eu sem pre m e perguntei com o ele conseguira arrastar Elizabeth até o carro e, ao m esm o tem po, aguardar até que eu saísse da água. Antes do aparecim ento do corpo, as autoridades haviam presum ido a existência de m ais de um envolvido. Mas, um a vez que encontraram o corpo com a m arca K, essa hipótese fora abandonada. Eles ficaram com a teoria de que KillRoy teria algem ado ou, de algum m odo, dom inado Elizabeth e, depois, ido atrás de m im . Não era um aj uste perfeito, m as, se você em purrasse com força, as peças se encaixavam .

Agora tínham os outra explicação. Ele tivera cúm plices. E os m atara.

A terceira possibilidade era a m ais sim ples: o sangue no taco não era m eu. B positivo não é um tipo sanguíneo com um , m as tam bém não é raro. Possivelm ente esses corpos não tinham nada a ver com a m orte de Elizabeth.

Essa últim a possibilidade não m e parecia convincente.

Olhei o relógio do com putador. Ele estava ligado a algum satélite que dava a hora exata.

18h04m in42s.

Faltavam 10 m inutos e 18 segundos para…

Para quê?

Os telefones não paravam de tocar. Desliguei suas cam painhas e tam borilei com os dedos na m esa. Faltavam m enos de 10 m inutos. Se tivesse que acontecer um a m udança no link, provavelm ente j á teria ocorrido. Levei a m ão até o m ouse e respirei fundo.

Meu bipe soou.

Eu não estava de plantão naquela noite. Deveria ser um engano – algo que ocorria com frequência com os telefonistas noturnos da clínica – ou um a cham ada pessoal. O bipe soou de novo. Duplo bipe. Isso significava um a em ergência. Olhei o m ostrador.

Era um a cham ada do xerife Lowell. Ela trazia a m ensagem “urgente”.

Oito m inutos.

Refleti a respeito, m as não por m uito tem po. Qualquer coisa era m elhor que ficar rum inando m eus próprios pensam entos. Decidi telefonar para ele.

Lowell novam ente sabia quem era antes de atender.

– Sinto m uito incom odá-lo, doutor. – Ele agora m e cham ava sim plesm ente de “doutor”, com o se fosse um paciente. – Mas tenho um a pergunta rapidinha.

Levei a m ão de volta ao m ouse, m ovi o cursor sobre o link e cliquei. O navegador deu sinal de vida.

– Estou ouvindo – respondi.

O navegador estava dem orando m ais desta vez. Não apareceu nenhum a m ensagem .

– O nom e Sarah Goodhart lhe diz algum a coisa?

Quase deixei o fone cair.

– Doutor?

Afastei o fone e contem plei-o com o se tivesse acabado de se m aterializar na m inha m ão. Aos poucos fui m e recom pondo. Quando m e recuperei do choque, trouxe o fone de volta ao ouvido.

– Por que quer saber?

Algo com eçou a aparecer na tela do com putador. Apertei os olhos. Um a daquelas câm eras aéreas. No caso, parecia ser um a câm era de rua. A internet está cheia delas agora. Às vezes, eu consultava as câm eras de tráfego, principalm ente de m anhã, para saber se o trânsito na Ponte Washington estava congestionado.

– É um a longa história – respondeu Lowell.

Eu precisava ganhar tem po.

– Ligo para você de novo m ais tarde.

Desliguei. Sarah Goodhart. O nom e significava m uita coisa para m im .

Que diabo estava acontecendo aqui?

O navegador parou de carregar. No m onitor, vi um a cena de rua em preto e branco. O resto da página estava vazio. Nada de banners ou títulos. Eu sabia que era possível configurá-lo de m odo que se visse apenas um a determ inada im agem . Era o que tínham os ali.

Olhei o relógio do com putador.

18h12m in18s.

A câm era m ostrava um a esquina razoavelm ente m ovim entada, de um a altura de aproxim adam ente cinco m etros. Eu não sabia qual esquina era aquela ou em que cidade ficava. Mas sem dúvida era um a cidade grande. Pedestres fluíam principalm ente da direita para a esquerda, as cabeças baixas, os om bros caídos, com pastas na m ão, m ortos após um dia de trabalho, talvez indo tom ar o trem ou o ônibus. Na extrem a direita, vi o m eio-fio. O tráfego de pedestres vinha em ondas, provavelm ente coordenado com a m udança do sinal de trânsito.

Por que alguém m e enviara aquela film agem ?

O relógio m arcava 18h14m in21s. Faltava m enos de um m inuto.

Mantive os olhos grudados na tela e aguardei a contagem regressiva, com o se fosse a véspera do ano-novo. Minha pulsação com eçou a acelerar. Dez, nove, oito…

Outro m ar de gente cruzou a tela da direita para a esquerda. Desgrudei o olho do relógio. Quatro, três, dois. Prendi a respiração e aguardei. Quando voltei a olhar o relógio, ele m arcava:

18h15m in02s.

Nada tinha acontecido – m as, tam bém , o que eu estava esperando?

Aquela onda de gente passou e, novam ente, por um ou dois segundos não apareceu ninguém na im agem . Reclinei-m e para trás, respirando fundo. Um a brincadeira, pensei. Um a brincadeira de m au gosto, sem dúvida. Péssim o gosto. Mas m esm o assim …

Então alguém surgiu diretam ente debaixo da câm era. Era com o se a pessoa estivesse escondida ali o tem po todo.

Inclinei-m e para a frente.

Era um a m ulher. Deu para perceber, em bora ela estivesse de costas para m im . Os cabelos eram curtos, m as, com certeza, tratava-se de um a m ulher. Do m eu ângulo, eu não conseguira ver nenhum rosto até então. Tudo continuava igual. Pelo m enos no início.

A m ulher parou. Observei o alto de sua cabeça, quase desej ando que ela olhasse para cim a. Ela deu outro passo. Estava no m eio da tela agora. Outra pessoa passou por ela. A m ulher ficou parada. Depois, deu m eia-volta e, lentam ente, elevou o queixo até olhar direto para a câm era.

Meu coração parou.

Coloquei a m ão na boca e sufoquei um grito. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia raciocinar. Lágrim as encheram m eus olhos e rolaram pelo m eu rosto. Eu não as sequei.

Fitei-a. Ela m e fitou.

Outra m assa de pedestres atravessou a tela. Alguns esbarraram nela, m as a m ulher não se m oveu. Seu olhar estava fixo na câm era. Ela levantou a m ão com o que em m inha direção. Minha cabeça girou. Era com o se o fio que m e ligava à realidade tivesse sido rom pido.

Fiquei à deriva.

Ela m anteve a m ão levantada. Lentam ente, consegui levantar m inha m ão. Meus dedos tocaram a tela quente, tentando encontrar os dela. Mais lágrim as rolaram . Acariciei suavem ente o rosto da m ulher e senti m eu coração afundar e alçar voo ao m esm o tem po.

– Elizabeth – m urm urei.

Ela perm aneceu ali por m ais alguns segundos. Depois, disse algo para a câm era. Não pude ouvi-la, m as consegui ler seus lábios.

– Sinto m uito – balbuciou m inha esposa m orta.

E saiu andando.