Não Conte a Ninguém
Capítulo 26
26
SHAUNA BALANÇOU a cabeça:
– Beck feriu alguém ? Não é possível.
A veia de Fein voltou a pulsar. Ele avançou na direção de Shauna até ficarem cara a cara:
– Ele atacou um policial num beco. Parece que quebrou a m andíbula e algum as costelas do cara.
Fein se aproxim ou ainda m ais, lançando gotas de cuspe nas bochechas de Shauna.
– Está m e ouvindo?
– Perfeitam ente – respondeu Shauna. – E agora dê um passo para trás porque não estou a fim de aturar seu m au hálito.
Fein perm aneceu no lugar por alguns segundos só de pirraça, antes de se afastar. Hester Crim stein fez o m esm o. Ela com eçou a andar na direção da Broadway . Shauna foi atrás.
– Aonde você está indo? – perguntou.
– Desisto – disse Hester.
– O quê?
– Arrum e outro advogado, Shauna.
– Você está brincando.
– Estou falando sério.
– Você não pode cair fora desse j eito.
– Duvida?
– Mas isso vai ser péssim o.
– Dei a m inha palavra de que ele se entregaria – disse ela.
– Dane-se a sua palavra. A prioridade aqui é Beck, e não você.
– Para você, talvez.
– Você está se colocando na frente de um cliente?
– Recuso-m e a trabalhar para um hom em capaz de fazer um a coisa dessas.
– Está gozando da m inha cara? Você defendeu estupradores.
Ela fez um gesto de despedida com a m ão.
– Estou fora.
– Você não passa de um a m aldita hipócrita viciada na m ídia.
– Me poupe, Shauna.
– Pois eu vou até eles.
– Eles quem ?
– Vou até a m ídia.
Hester parou.
– E vai dizer o quê? Que abandonei um assassino desonesto? Boa, vai fundo. Eu vou j ogar tanta
m erda no ventilador que, em com paração a Beck, Jeffrey Dahm er [1] parecerá um anj inho.
– Não há nada que você possa dizer contra ele – reagiu Shauna.
Hester deu de om bros.
– Quando estou com raiva, ninguém consegue m e segurar.
As duas m ulheres se encararam , furiosas.
– Você pode achar que m inha reputação é irrelevante – disse Hester, num a voz subitam ente branda. – Mas não é. Se a prom otoria não pode contar com m inha palavra, eu m e torno inútil para os m eus outros clientes. E para Beck tam bém . É sim ples. Não vou deixar que m inha carreira e m eus clientes se ferrem só porque seu am igo agiu com o um louco.
Shauna fez um gesto de reprovação com a cabeça:
– Saia da m inha frente!
– E tem m ais.
– O quê?
– Gente inocente não foge, Shauna. Aposto cem contra um que Beck m atou Rebecca Schay es.
– Agora você passou dos lim ites – disse Shauna. – E tem m ais um detalhe, Hester. Se você disser um a só palavra contra Beck, farei picadinho de você. Ouviu bem ?
Hester não respondeu. Ela se afastou m ais um passo de Shauna. E então o tiroteio com eçou.
♦ ♦ ♦
Estava m eio agachado, descendo por um a saída de incêndio, quando o barulho de um tiroteio ali por perto m e fez parar. Grudei-m e no chão em poeirado e esperei.
Mais tiros.
Ouvi gritos. Deveria ter previsto aquilo, m as m esm o assim fiquei im pressionado. Ty rese m e m andara subir ali e esperá-lo. Não conseguia im aginar com o ele planej ava m e tirar de lá. Agora eu estava com eçando a entender.
Um a diversão para desviar a atenção.
À distância, ouvi alguém gritar:
– Há um hom em branco atirando lá de cim a!
Depois outra voz:
– Um hom em branco com um revólver! Um hom em branco com um revólver!
Mais tiros. Mas – e forcei os ouvidos – j á não ouvia a estática dos rádios da polícia. Continuei agachado e tentei não pensar dem ais. Meu cérebro parecia ter entrado em curto-circuito. Três dias antes, eu era um m édico dedicado vagando pela m inha própria vida com o um sonâm bulo. Desde então, eu vira um fantasm a, recebera e-m ails de m inha m ulher m orta, tornara-m e suspeito não de um , m as de dois assassinatos, virara foragido da polícia, atacara um policial e pedira aj uda a um traficante de drogas.
As 72 horas m ais em ocionantes da m inha vida.
Seria côm ico se não fosse trágico.
– Ei, doutor.
Olhei para baixo. Ty rese tinha chegado. Com ele, outro hom em negro, de 20 e poucos anos, extrem am ente alto. O grandão olhou para m im com seus óculos de sol reluzentes que com binavam à perfeição com a total ausência de expressão facial.
– Vam os, doutor. Vam os cair fora.
Desci correndo as escadas da saída de incêndio. Ty rese não parava de olhar para os lados. O suj eito grandão estava totalm ente im óvel, braços cruzados na frente do peito, no que costum am os cham ar de postura de búfalo. Hesitei diante do últim o lance de escada, tentando descobrir com o fazer com que ela chegasse ao chão.
– Ei, doutor, a alavanca à esquerda.
Puxei-a, e a escada deslizou para baixo. Quando cheguei ao chão, Ty rese fez cara de noj o e balançou a m ão diante do nariz.
– Você está bem cheiroso, doutor.
– Desculpe, m as não tive tem po de tom ar banho.
– Por aqui.
Ty rese percorreu rapidam ente os fundos do prédio. Eu o segui, tendo de apressar o passo para acom panhá-lo. O grandão cam inhava com passos ágeis atrás de nós, em silêncio. Ele não olhava para os lados, m as tive a im pressão de que m esm o assim não deixava passar nada despercebido.
Um BMW preto com vidros escuros, um a antena com plicada e um a corrente ao redor da placa traseira estava com o m otor ligado. As portas estavam todas fechadas, m as dava para ouvir o rap lá dentro. O baixo vibrava no m eu peito com o um diapasão.
– Um carro desses – perguntei com ar reprovador – não pode despertar suspeitas?
– Se você é da polícia e está atrás de um m édico branquelo, qual o últim o lugar em que procuraria?
Ele tinha razão.
O grandão abriu a porta traseira. O som vibrava no volum e de um show do Black Sabbath. Ty rese estendeu o braço com o se fosse um porteiro. Entrei no carro. Ele se acom odou ao m eu lado. O grandão se encaixou no assento do m otorista.
Eu não conseguia entender m uita coisa do que o rapper no CD dizia, m as ele estava claram ente reclam ando dos “hom is”. Subitam ente entendi.
– Este aqui é Brutus – apresentou Ty rese.
Ele se referia ao m otorista grandalhão. Tentei captar seus olhos no espelho retrovisor, m as não consegui discerni-los através dos óculos escuros.
– Prazer em conhecê-lo – eu disse. Brutus não respondeu.
Voltei m inha atenção de novo para Ty rese.
– Com o foi que você conseguiu isso?
– Mandei m eus garotos darem uns tiros lá na rua 147.
– A polícia não vai achá-los?
Ty rese bufou:
– Sem chance.
– E é tão fácil assim escapar?
– Dali de onde estão, é fácil. Tem os um apartam ento no bloco 5 do Hobart Houses. Dou aos m oradores 10 paus por m ês para deixarem o lixo atravancando as portas traseiras. Fica tudo bloqueado, e os tiras não conseguem passar. Bom lugar para fazer negócios. Os m eus rapazes vão até as j anelas dar uns tiros. Quando os “hom is” chegam lá, puf, eles j á desapareceram .
– E quem estava gritando sobre um hom em branco arm ado?
– Alguns dos m eus rapazes.
– Teoricam ente, eu – observei.
– Teoricam ente – repetiu Ty rese com um sorriso. – Um a palavra grandona, doutor.
Reclinei a cabeça. A fadiga tom ou conta de m eus ossos. Brutus dirigiu para leste. Ele cruzou aquela ponte azul diante do Estádio Yankee – eu nunca soube direito o nom e dela –, o que indicava que estávam os no Bronx. Por um m om ento, agachei-m e com m edo de que alguém espiasse para dentro do carro, m as depois lem brei que os vidros eram escuros. Olhei para fora.
A área era feia com o o diabo, com o um a daquelas cenas que se veem nos film es apocalípticos depois da detonação da bom ba. Havia diversos trechos de prédios em ruínas, em diferentes estágios de decadência. As construções pareciam ter desm oronado de dentro para fora, com o se a estrutura de suporte tivesse se desgastado.
Continuam os um pouco m ais. Tentei com preender o que acontecia, m as m eu cérebro criava obstáculos. Um a parte de m im reconheceu que eu estava quase em estado de choque. A outra nem sequer adm itia essa possibilidade. Concentrei-m e nos arredores. À m edida que avançam os – penetrando m ais fundo na decadência –, os prédios habitáveis foram desaparecendo. Em bora devêssem os estar a poucos quilôm etros da clínica, eu não tinha a m enor ideia de onde nos encontrávam os. Ainda no Bronx, pensei. Sul do Bronx, provavelm ente.
Pneus velhos e colchões rasgados j aziam com o destroços de guerra no m eio da rua. Grandes blocos de cim ento podiam ser vistos em m eio ao capim . Havia carros depenados e, em bora eu não visse fogo, parecia ter havido algum incêndio no passado.
– O senhor vem sem pre aqui, doutor? – perguntou Ty rese, disfarçando o riso.
Não m e dei o trabalho de responder.
Brutus parou o carro diante de outro prédio condenado. Um a cerca de ferro isolava o edifício decadente. As j anelas haviam sido tapadas com com pensado. Vi um pedaço de papel colado na porta, provavelm ente um aviso de dem olição. A porta tam bém era de com pensado. Ela se abriu. Um hom em saiu, erguendo um a das m ãos para proteger os olhos do sol, cam baleando com o Drácula em contato com a luz.
Meu m undo continuava rodando.
– Vam os – disse Ty rese.
Brutus saltou do carro prim eiro. Ele abriu a porta para m im .
Agradeci. Ele se m anteve im passível. Tinha aquele ar de estátua de índio que você j am ais poderia im aginar – e provavelm ente não gostaria de ver – sorrindo.
À direita, um pequeno trecho da cerca havia sido arrebentado. Passam os agachados por ali. O hom em cam baleante aproxim ou-se de Ty rese. Brutus retesou os m úsculos, m as Ty rese fez um sinal para que ficasse tranquilo. O hom em cam baleante e Ty rese se abraçaram calorosam ente e deram um com plicado aperto de m ão. Depois cada um seguiu seu cam inho.
– Venha – disse Ty rese.
Entrei no prédio, m inha m ente ainda entorpecida. A prim eira coisa que senti foi o fedor, o cheiro ácido de urina e a catinga inconfundível de fezes. Algo estava queim ando – tenho a im pressão de que eu sabia o que era – e um odor úm ido e am arelo de suor parecia vir das paredes. Mas havia algo m ais ali. Um cheiro, não de m orte, m as de pré-m orte, com o gangrena, com o algo m orrendo e se decom pondo enquanto ainda respira.
Fazia um calor sufocante. Seres hum anos – talvez 50, talvez 100 – se espalhavam pelo chão com o canhotos não prem iados num a casa de apostas de corridas de cavalos. Estava escuro lá dentro. Parecia não haver eletricidade, nem água corrente, nem qualquer tipo de m obília. Tábuas bloqueavam a m aior parte da luz do sol; a única ilum inação vinha de fendas m uito estreitas por onde os raios penetravam com o a foice de um ceifeiro. Podiam -se distinguir algum as som bras e form as e pouca coisa m ais.
Reconheço m inha ingenuidade sobre o m undo das drogas. Na sala de em ergência, vi os resultados m uitas vezes. Mas as drogas nunca m e interessaram pessoalm ente. A bebida alcoólica era m eu veneno predileto. Ainda assim , os estím ulos eram suficientes para que até eu conseguisse deduzir que estávam os num a casa de crack.
– Por aqui – indicou Ty rese.
Com eçam os a andar em m eio à escória hum ana. Brutus seguiu na frente. As pessoas reclinadas foram dando passagem com o se ele fosse Moisés diante do m ar Verm elho. Alinhei-m e atrás de Ty rese. Cachim bos eram acesos alternadam ente, pipocando na escuridão. Aquilo m e lem brou o circo quando eu era criança, onde ficávam os girando pequenas lanternas no escuro. Era essa a im pressão que eu tinha. Eu via o escuro. Eu via som bras. Eu via os lam pej os.
Não se ouvia nenhum a m úsica. Ninguém tam pouco estava ali para conversar. Ouvi um sussurro. Ouvi o som úm ido da aspiração dos cachim bos. Gritos cortavam o ar vez ou outra, sons m eio desum anos.
Tam bém ouvi gem idos. Pessoas praticavam os m ais lascivos atos sexuais escancaradam ente, sem nenhum a vergonha, sem nenhum a preocupação com a privacidade.
Um a visão específica – vou om itir os detalhes – m e fez parar, horrorizado. Ty rese observou m inha expressão m eio sorridente.
– Quando acaba o dinheiro, eles trocam isso – apontou Ty rese – por droga.
Senti um gosto de bile na boca. Virei-m e para ele. Ele deu de om bros.
– Com ércio, doutor. É o que m ove o m undo.
Ty rese e Brutus continuaram andando. Segui cam baleante ao lado deles. A m aior parte das paredes internas havia desm oronado. Pessoas – velhos, j ovens, negros, brancos, hom ens, m ulheres – am ontoavam -se por toda parte, alquebradas, prostradas com o os relógios das pinturas de Dalí.
– Você fum a crack, Ty rese? – perguntei.
– Já fum ei. Viciei-m e com 16 anos.
– Com o foi que parou?
Ty rese sorriu.
– Está vendo m eu capanga Brutus?
– Difícil não ver.
– Prom eti dar a ele m il dólares a cada sem ana que eu perm anecesse careta. Brutus veio m orar com igo.
Fiz um sinal afirm ativo com a cabeça. Aquilo parecia bem m ais eficaz do que um a sem ana num a clínica de recuperação.
Brutus abriu um a porta. Aquele aposento, em bora não m uito bem equipado, pelo m enos tinha m esas e cadeiras – até lâm padas –, além de um a geladeira. Notei um gerador portátil no canto.
Ty rese e eu entram os. Brutus fechou a porta e perm aneceu no corredor. Ficam os a sós.
– Bem -vindo ao m eu escritório – disse Ty rese.
– Brutus ainda aj uda você a não usar drogas?
Ele balançou a cabeça.
– Não, m eu filho faz isso agora. Entende o que estou dizendo?
Eu entendia.
– E você não tem problem as com o que faz aqui?
– Tenho m uitos problem as, doutor. – Ty rese se sentou e m e convidou a fazer o m esm o. Seus olhos cintilavam para m im , e não gostei do que vi neles. – Eu não sou nenhum santinho.
Fiquei sem resposta, por isso m udei de assunto.
– Preciso estar no Washington Square Park às 17 horas.
Ele se reclinou na cadeira.
– Diga-m e o que está acontecendo.
– É um a longa história.
Ty rese pegou um canivete e com eçou a lim par as unhas.
– Se m eu filho fica doente, vou ao especialista, certo?
Concordei com um m ovim ento de cabeça.
– Se você tem problem as com a lei, deveria fazer o m esm o.
– Um a boa analogia.
– Algo ruim está acontecendo com você, doutor. – Ele abriu os braços. – Saiba que sou especialista em coisas ruins.
Contei-lhe a história. Quase toda. Ele balançou várias vezes a cabeça, m as acho que não acreditou quando eu disse que não tinha nada a ver com os assassinatos. Acho que ele nem se im portou com isso.
– O.k. – disse ele quando term inei. – Agora você vai se arrum ar. Depois precisam os conversar sobre outra coisa.
– O quê?
Ty rese não respondeu. Ele foi até um aparente cofre de m etal reforçado no canto. Abriu-o com um a chave, inclinou-se para dentro e retirou um a arm a.
– Um a autêntica Glock – disse, entregando-a para m im .
Estrem eci. Um a im agem de escuridão e sangue surgiu na m inha m ente e logo desapareceu. Não fui atrás dela. Havia passado m uito tem po. Estendi o braço e peguei a arm a com dois dedos, com o se pudesse estar quente.
– Arm a de cam peões – ele acrescentou.
Quase a recusei, m as seria tolice. Eu j á estava sendo procurado por dois assassinatos, agressão a um policial, resistência à prisão e fuga. Porte ilegal de arm a não era nada depois disso.
– Está carregada – inform ou ele.
– Tem algum a trava de segurança?
– Tinha.
– Ah! – exclam ei. Virei-a lentam ente, lem brando-m e da últim a vez em que segurara um a arm a. A sensação foi agradável. Algo ligado ao peso, im aginei. Gostei da textura, do aço frio, do encaixe perfeito na m inha m ão. Não gostei do fato de gostar dela.
– Pegue isto tam bém . – Ele m e entregou o que parecia um telefone celular.
– O que é isso? – perguntei.
Ty rese fez um a cara séria.
– O que parece? Um celular. Mas é um telefone clonado. Não pode ser rastreado.
Balancei a cabeça, sentindo-m e um peixe fora d’água.
– Tem um banheiro atrás dessa porta – inform ou Ty rese, apontando para a direita. – Não tem chuveiro, m as tem um a banheira. Lim pe essa suj eira. Vou lhe arrum ar um as roupas lim pas. Depois Brutus e eu levarem os você até Washington Square.
– Você disse que tinha algo para m e dizer.
– Depois que você se vestir – disse Ty rese. – Então nós vam os conversar.