Não Conte a Ninguém
Capítulo 15
15
O AGENTE CARLSON ENCAROU Hoy t Parker:
– Com o o senhor sabe, recentem ente encontram os dois corpos na vizinhança do lago Charm aine.
Hoy t concordou com um m ovim ento de cabeça.
Um telefone celular tocou. Stone conseguiu erguer seu peso e disse “Com licença” antes de se enfiar na cozinha. Hoy t se voltou novam ente para Carlson e aguardou.
– Sabem os a versão oficial da m orte de sua filha – disse Carlson. – Ela e o m arido, David Beck, visitavam o lago para um ritual anual. Eles estavam nadando no escuro. KillRoy estava à espreita. Ele atacou o Dr. Beck e raptou sua filha. Fim da história.
– E vocês não acham que foi isso o que aconteceu?
– Não, Hoy t. Posso cham á-lo de Hoy t?
Hoy t fez que sim com a cabeça.
– Não, Hoy t, não acham os.
– Então com o é que vocês veem essa história?
– Acho que David Beck m atou sua filha e j ogou a culpa em um serial killer.
Hoy t, um veterano de 28 anos da polícia de Nova York, sabia com o m anter a fisionom ia im passível, m as m esm o assim se curvou para trás, com o se as palavras fossem um soco no queixo.
– Conte sua versão.
– Muito bem , vam os com eçar pelo início. Beck leva sua filha para um lago isolado, certo?
– Certo.
– Você j á esteve lá?
– Várias vezes.
– Com o?
– Éram os todos am igos. Kim e eu éram os am igos dos pais de David. Sem pre íam os visitá-los.
– Então você sabe com o o lago é isolado.
– Sim .
– Estrada de terra, um a placa que você só vê se souber que ela está lá. Totalm ente escondido. Nenhum sinal de vida.
– Aonde você quer chegar?
– Quais são as chances de KillRoy ter subido aquela estrada?
Hoy t ergueu as m ãos para o céu.
– Quais são as chances de alguém topar com um serial killer?
– Tudo bem , m as nos outros casos havia um a lógica. Kellerton raptou alguém num a rua da cidade, sequestrou um a vítim a em seu carro e, em outra ocasião, invadiu um a casa. Mas pense bem . Ele vê essa estrada de terra e, sabe-se lá por quê, decide procurar um a vítim a ali? Não digo que sej a im possível, m as é altam ente im provável.
– Prossiga – disse Hoy t.
– Você há de adm itir que existem vários furos lógicos na versão oficial.
– Todos os casos têm furos lógicos.
– Certo, m as deixe-m e testar um a teoria alternativa. Digam os que o Dr. Beck quisesse m atar a sua filha.
– Por quê?
– Suponham os que fosse por um seguro de vida de 200 m il dólares.
– Ele não precisa de dinheiro.
– Todo m undo precisa de dinheiro, Hoy t. Você sabe disso.
– Você não está m e convencendo.
– Vej a bem , ainda estam os averiguando. Ainda não conhecem os todos os fatos. Mas deixe-m e ao m enos apresentar nosso cenário, certo?
Hoy t fez um gesto de “com o quiser”.
– Tem os indícios de que o Dr. Beck a espancava.
– Que indícios? Vocês têm algum as fotografias. Ela contou à m inha esposa que sofreu um acidente de carro.
– Espere um pouco, Hoy t. – Carlson apontou para as fotografias. – Observe a expressão no rosto de sua filha. Parece o rosto de um a m ulher que sofreu um acidente de carro?
Não, pensou Hoy t, não parece.
– Onde vocês encontraram essas fotos?
– Chegarei lá em um segundo, m as vam os voltar ao m eu cenário, certo? Suponham os, por um m om ento, que o Dr. Beck tenha espancado sua filha e que ele tivesse um a trem enda herança para receber.
– Um m onte de suposições.
– É verdade, m as preste atenção. Pense na versão aceita e em todos aqueles furos. Agora com pare-a com esta: o Dr. Beck leva sua filha para um local isolado onde sabe que não haverá testem unhas e contrata dois bandidos para sequestrá-la. Ele sabe sobre KillRoy. Está em todos os j ornais. Além disso, seu irm ão trabalhou no caso do serial killer. Ele chegou a discuti-lo com você ou com Beck?
Hoy t ficou quieto por um m om ento.
– Continue.
– Os dois bandidos contratados sequestram e m atam a sua filha. Naturalm ente, o prim eiro suspeito será o m arido. É o que sem pre acontece em casos com o este, certo? Mas os dois bandidos m arcam seu rosto com a letra K. A próxim a coisa que sabem os é que a culpa é j ogada em KillRoy .
– Mas Beck foi atacado. A ferida na sua cabeça foi real.
– Certo, m as am bos sabem os que isso não é incom patível com a possibilidade de ele estar por trás do crim e. Se Beck escapasse incólum e, com o explicaria isso? “Sabe da m aior, alguém sequestrou m inha m ulher, m as eu saí ileso…” Isso não colaria. A pancada na cabeça deu credibilidade à história.
– Foi um a senhora pancada.
– Ele estava lidando com bandidos, Hoy t. Eles provavelm ente erraram na dose. E o ferim ento? Ele conta um a história estranha de que m ilagrosam ente se arrastou para fora da água e ligou para a polícia. Mostrei o boletim m édico de Beck para vários m édicos. Eles afirm am que a história contada por Beck desafia a lógica m édica. Aquilo teria sido im possível, em vista dos seus ferim entos.
Hoy t pensou a respeito. Várias vezes ele próprio refletira sobre aquilo. Com o foi que Beck sobreviveu e pediu aj uda?
– Que m ais? – perguntou Hoy t.
– Há fortes indícios de que os dois bandidos, e não KillRoy , atacaram Beck.
– Que indícios?
– Enterrado com os corpos, encontram os um taco de beisebol com sangue. O teste com pleto do DNA levará algum tem po, m as os resultados prelim inares indicam que o sangue é de Beck.
O agente Stone voltou à sala e sentou-se com dificuldade. Hoy t disse outra vez:
– Continue.
– O resto é óbvio. Os dois bandidos fazem o serviço. Eles m atam sua filha e j ogam a culpa em KillRoy. Depois voltam para pegar o resto do pagam ento – ou talvez tenham decidido extorquir m ais grana do Dr. Beck. Sei lá. O fato é que Beck precisa se livrar deles. Ele m arca um encontro na floresta isolada, perto do lago Charm aine. Os dois bandidos devem ter pensado que estavam lidando com um m édico fracote ou, talvez, ele os tenha pegado desprevenidos. O fato é que Beck atira neles e esconde os corpos j unto com o taco de beisebol e quaisquer outros indícios que possam incrim iná-lo depois. O crim e perfeito. Nada que o associe ao assassinato. Venham os e convenham os: se não fosse um a trem enda sorte, os corpos j am ais teriam sido encontrados.
Hoy t balançou a cabeça.
– Que im aginação.
– E tem m ais.
– O quê?
Carlson olhou para Stone, que apontou para seu telefone celular.
– Acabam de ligar da Penitenciária Briggs – disse Stone. – Parece que seu genro ligou para lá e quer se encontrar com KillRoy .
Hoy t agora parecia totalm ente aturdido:
– Por que diabos ele faria isso?
– Você deve saber m elhor do que nós – respondeu Stone. – Mas não se esqueça de que Beck sabe que estam os atrás dele. De repente, ele tem esse desej o incontrolável de visitar o hom em que ele transform ou no assassino da sua filha.
– Trem enda coincidência – acrescentou Carlson.
– Vocês acham que ele está tentando encobrir suas pistas?
– Você teria um a explicação m elhor?
Hoy t tentou relaxar e digerir tudo aquilo.
– Você se esqueceu de um a coisa.
– O quê?
Ele apontou para as fotografias sobre a m esa.
– Quem deu isso a vocês?
– De certa form a – respondeu Carlson –, acho que foi sua filha.
O rosto de Hoy t dem onstrava perplexidade.
– Mais especificam ente, seu codinom e. Um a tal de Sarah Goodhart. O nom e do m eio de sua filha m ais o nom e desta rua.
– Não entendi.
– Quando desenterram os os corpos – explicou Carlson –, encontram os um a chavinha no sapato de um dos bandidos, Melvin Bartola. – Carlson m ostrou a chave. Hoy t a pegou de sua m ão, exam inando-a com o se contivesse algum a resposta m ística. – Está vendo a sigla UCB do outro lado?
Hoy t assentiu com a cabeça.
– Significa United Central Bank. Descobrim os que essa chave provém da agência da Broadway, aqui na cidade. A chave é do cofre 174, registrado em nom e de Sarah Goodhart. Conseguim os um m andado de busca para abri-lo.
Hoy t ergueu o olhar.
– As fotografias estavam lá dentro?
Carlson e Stone olharam um para o outro. Eles haviam decidido não contar a Hoy t tudo o que encontraram no cofre – até todos os exam es retornarem do laboratório e eles terem certeza –, m as os dois hom ens responderam afirm ativam ente com acenos de cabeça.
– Pense nisso, Hoy t. Sua filha m anteve essas fotos escondidas em um cofre de banco. As razões são óbvias. Quer m ais? Interrogam os o Dr. Beck. Ele adm itiu que não sabia nada sobre as fotos. Ele nunca as tinha visto. Por que sua filha as esconderia do m arido?
– Vocês conversaram com Beck?
– Sim .
– O que m ais ele disse?
– Não m uito, porque exigiu um advogado. – Carlson esperou um m om ento. Depois, se inclinou para a frente.
– Além de pedir para cham ar um advogado, foi cham ar logo Hester Crim stein. Isso parece a atitude de um hom em inocente para você?
Hoy t segurou com força as laterais da cadeira, tentando firm ar-se.
– Vocês não têm com o provar nada disso.
– Por enquanto, não. Mas nós sabem os. Isso j á é m eio cam inho andado.
– O que é que vocês vão fazer agora?
– Só há um a coisa que podem os fazer. – Carlson sorriu para ele. – Pressionar Beck até extrair algo dele.
♦ ♦ ♦
Larry Gandle relem brou os acontecim entos do dia e m urm urou para si m esm o:
– A coisa vai m al.
Prim eiro, o FBI apanha Beck e o interroga.
Segundo, Beck liga para um a fotógrafa cham ada Rebecca Schay es e pergunta sobre um antigo acidente de carro envolvendo sua m ulher. Depois, visita seu estúdio.
Nada m enos do que um a fotógrafa.
Terceiro, Beck liga para a Penitenciária Briggs e diz que quer se encontrar com Elroy Kellerton.
Quarto, Beck liga para o escritório de Peter Flannery .
Tudo isso era intrigante. Nada disso era bom .
Eric Wu desligou o telefone e disse:
– Você não vai gostar disso.
– Do quê?
– Nossa fonte no FBI diz que eles suspeitam que Beck tenha m atado a esposa.
Gandle quase caiu para trás:
– Explique.
– Isso é tudo o que a fonte sabe. Por algum m otivo, eles associaram os dois corpos à beira do lago com Beck.
Muito intrigante.
– Deixe-m e ver aqueles e-m ails novam ente – pediu Gandle.
Eric Wu deu as folhas com os e-m ails para ele. Quando Gandle refletiu sobre quem poderia tê-los enviado, sentiu novam ente um frio na espinha. Ele tentou j untar as peças do quebra-cabeça. Sem pre se perguntara com o Beck sobrevivera naquela noite. Agora ele se perguntava outra coisa: alguém m ais sobrevivera ao ataque?
– Que horas são? – perguntou Gandle.
– Seis e m eia.
– Beck ainda não tentou entrar naquele site com o Bat-sei-lá-do-quê?
– Bat Street. Não, ainda não.
– Algo m ais sobre Rebecca Schay es?
– Só aquilo que j á sabem os. Am iga íntim a de Elizabeth Parker. Elas dividiram um apartam ento antes de Elizabeth casar com Beck. Verifiquei registros telefônicos antigos. Beck não ligava para ela havia anos.
– Então por que a procurou agora?
Wu deu de om bros.
– A senhorita Schay es deve saber algum a coisa.
Griffin Scope havia sido bem claro. Descubra o que puder, depois o enterre.
E use Wu.
– Precisam os ter um a conversinha com ela – disse Gandle.