Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 11 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 10

10

COMO NÃO TENHO ADVOGADO CRIMINALISTA – quem é que tem ? –, liguei para Shauna de um telefone público no corredor e expliquei a situação. Ela não perdeu tem po.

– Conheço a pessoa certa – disse Shauna. – Espere que vou m andá-la aí.

Fiquei aguardando na sala de interrogatório. Carlson e Stone ficaram na sala com igo. Eles passaram o tem po m urm urando um com o outro. Meia hora se passou. O silêncio era enervante. Sei que eles queriam que eu perdesse o controle. Mas eu tinha de m e controlar. Afinal, eu era inocente. Precisava ter cuidado para não dizer nada que pudesse m e prej udicar.

– Minha m ulher foi encontrada com a letra K m arcada no rosto – disse a eles.

Am bos m e fitaram .

– Desculpe – disse Carlson, virando-se em m inha direção. – Você falou conosco?

– Minha m ulher foi encontrada com a letra K m arcada no rosto – repeti. – Após o ataque, fui parar no hospital em com a. Não é possível que vocês achem … – Deixei o resto no ar.

– Que achem os o quê? – perguntou Carlson.

Com o eles não adivinharam , m e adiantei:

– Que eu tive algo a ver com a m orte dela. – Nesse m om ento a porta se abriu de repente e um a m ulher, que eu reconheci da TV, irrom peu sala adentro. Carlson pulou para trás ao vê-la. Ouvi Stone m urm urar “cacete”.

Hester Crim stein nem se deu o trabalho de se apresentar.

– Meu cliente não solicitou a presença de seu advogado? – perguntou ela.

Graças a Shauna. Eu nunca havia visto m inha advogada, m as a reconheci de suas participações com o “perita em direito” em program as de entrevistas e de seu próprio program a, Crimstein contra o crime, na TV a cabo. Na televisão, Hester Crim stein era rápida e incisiva e m uitas vezes deixava os convidados arrasados. Pessoalm ente, tinha a m ais estranha aura de poder, o tipo de pessoa que olha para todos com o se fosse um tigre fam into e eles fossem gazelas.

– Isso m esm o – respondeu Carlson.

– No entanto, vocês continuaram o interrogatório.

– Foi ele que com eçou a falar conosco.

– Boa desculpa. – Hester Crim stein abriu a pasta, apanhou um a caneta e um bloco de papel e atirou-os sobre a m esa. – Escrevam seus nom es.

– Com o?

– Seus nom es. Vocês sabem escrevê-los direitinho, não é?

Tratava-se de um a pergunta retórica, m as Crim stein esperou um a resposta.

– Sim – respondeu Carlson.

– Claro – acrescentou Stone.

– Ótim o. Então escrevam . Quando eu m encionar no m eu program a com o vocês dois desrespeitaram os direitos constitucionais de m eu cliente, farei questão de não errar os nom es. Letra de fôrm a, por favor.

Ela finalm ente olhou para m im .

– Vam os nessa.

– Um m om ento – pediu Carlson. – Gostaríam os de fazer algum as perguntas ao seu cliente.

– Não.

– Não? É isso o que você tem a nos dizer?

– Exatam ente. Vocês não vão falar com ele. Ele não vai falar com vocês. Nunca m ais. Entenderam ?

– Sim – disse Carlson.

Ela dirigiu seu olhar para Stone.

– Sim – disse Stone.

– Ótim o. Vocês têm algum m andado de prisão contra o Dr. Beck?

– Não.

Ela se voltou em m inha direção.

– Então o que você está esperando? Vam os em bora.

♦ ♦ ♦

Hester Crim stein não disse nenhum a palavra até que estivéssem os seguram ente acom odados em sua lim usine.

– Onde quer que eu o deixe? – perguntou.

Dei ao m otorista o endereço da clínica.

– Conte-m e sobre o interrogatório – pediu Crim stein. – Não om ita nada. Narrei a conversa com Carlson e Stone com todos os detalhes possíveis. Hester Crim stein quase não olhava para m im . Ela pegou um a agenda m ais grossa do que m eu pulso e com eçou a folheá-la.

– Quer dizer que não foi você que tirou aquelas fotos da sua m ulher? – perguntou ela depois que term inei m inha narrativa.

– Não.

– E você contou isso para aqueles dois palerm as?

Fiz que sim com a cabeça.

Ela fez um gesto de contrariedade.

– Esses m édicos. São sem pre os piores clientes. – Jogou para trás um a m echa de cabelo. – Você não devia ter dito isso, m as tudo bem . Quer dizer que você nunca viu aquelas fotos antes?

– Nunca.

– Mas quando eles perguntaram isso você finalm ente se calou.

– Sim .

– Melhor assim – disse ela, balançando a cabeça. – Essa história de que ela adquiriu os ferim entos num acidente de carro é verdade?

– Com o?

Crim stein fechou a agenda.

– Vej a bem … Beck, não é? Shauna diz que todo m undo cham a você de Beck. Você se im porta se eu cham ar tam bém ?

– Não.

– Ótim o. Olhe, Beck, você é m édico, certo?

– Sim .

– Você sabe tratar as pessoas com psicologia.

– Faço o possível.

– Pois eu não. Nem um pouquinho. Essa história de paparicar não é com igo. Portanto, vam os pular todo esse “m e desculpe” e “sinto m uito” e toda essa palhaçada, certo? Apenas responda às m inhas perguntas. A história do acidente de carro que você contou para eles é verdade?

– É.

– Porque os tiras vão checar todos os fatos. Você sabe disso, não sabe?

– Sei.

– Quanto a isso, então, tudo bem . – Crim stein fez um a pausa. – Talvez sua m ulher tenha pedido a um am igo para tirar as fotos – prosseguiu ela, sem m uita convicção. – Por causa do seguro ou coisa assim . Para a eventualidade de querer m over um a ação. Isso pode fazer sentido, se a polícia perguntar.

Para m im não fazia nenhum sentido, m as preferi não dizer nada.

– Portanto, a pergunta núm ero um : onde estavam essas fotos, Beck?

– Não sei.

– Dois e três: Com o foi que os tiras as conseguiram ? Por que elas estão aparecendo agora?

Fiz um gesto indicando que não sabia.

– E, m ais im portante, por que eles estão querendo pressionar você? Sua m ulher está m orta há oito anos. É um pouco tarde para acusá-lo de violência dom éstica. – Ela relaxou e refletiu a respeito durante alguns m inutos. Depois, olhou para cim a e fez um gesto de indiferença. – Não im porta. Darei uns telefonem as e descobrirei o que há por trás disso. Enquanto isso, não dê bobeira. Bico calado, entendeu?

– Sim .

Ela relaxou e refletiu m ais um pouco.

– Não estou gostando dessa história – disse ela. – Não estou gostando nem um pouco.