Não Conte a Ninguém
Capítulo 6
6
MINHA SOGRA, KIM PARKER, É BONITA. Ela sem pre se pareceu tanto com Elizabeth que seu rosto havia se tornado um prenúncio de com o a filha seria quando ficasse m ais velha. Mas a m orte de Elizabeth lentam ente a abatera. Seu rosto se tornara tenso, seus traços quase rígidos. Seus olhos pareciam bolinhas de gude espatifadas por dentro.
A casa dos Parker sofrera poucas m udanças desde os anos 1970 – o papel de parede im itando m adeira, o tapete sem ifelpudo azul-claro com pintinhas brancas de um a parede até a outra, a lareira de pedra artificial. Mesinhas individuais dobráveis, com tam po de plástico branco e pernas de m etal dourado, ficavam encostadas a um a parede. Havia pinturas de palhaços e pratos decorativos em prateleiras. A TV era a única coisa que fora m odernizada. Ela evoluíra no decorrer dos anos de um robusto aparelho preto e branco de 12 polegadas para o m onstruoso aparelho em cores vivas de 50 polegadas.
Minha sogra estava sentada no m esm o sofá em que Elizabeth e eu havíam os nam orado tantas vezes. Sorri por um m om ento e pensei: “Ah, se esse sofá falasse!” Mas aquele m óvel cafona com o berrante padrão floral evocava m uito m ais do que recordações lascivas. Elizabeth e eu havíam os nos sentado ali para abrir as cartas de aceitação na faculdade. Ali assistim os agarradinhos a Um estranho no ninho, O franco-atirador e todos aqueles film es antigos do Hitchcock. Fazíam os o dever de casa, eu sentado ereto e Elizabeth deitada com a cabeça em m eu colo. Eu dizia a Elizabeth que queria ser m édico – um cirurgião de prim eira linha. Ela dizia que queria se form ar em direito e trabalhar em favor das crianças. Elizabeth não conseguia tolerar a ideia de ver crianças sofrendo.
Lem bro-m e de um estágio que ela fez durante as férias de verão após nosso prim eiro ano de faculdade. Ela trabalhou para a Covenant House recolhendo crianças m oradoras de rua nos piores lugares de Nova York. Acom panhei-a certa vez na cam inhonete da Covenant House, subindo e descendo a Rua 42 antes da era do prefeto Giuliani, esquadrinhando grupos fétidos de sem i-hum anos em busca de crianças que precisassem de abrigo. Elizabeth encontrou um a prostituta de 14 anos que estava tão largada que se suj ara toda. Recuei enoj ado. Isso m e constrange. Essas pessoas podiam ser seres hum anos, m as – com toda a honestidade – a suj eira m e causava repulsa. Eu a aj udei. Mas logo depois recuei.
Elizabeth nunca recuava. Esse era seu dom natural. Ela apanhava as crianças com as m ãos. Ela as carregava. Ela lim pou aquela m enina, cuidou dela e conversou com ela a noite inteira. Olhava as crianças bem nos olhos. Realm ente acreditava que todos eram bons e dignos. Eu invej ava sua ingenuidade.
Sem pre m e perguntei se ela m orreu desse m esm o j eito – com aquela ingenuidade intacta –, m antendo, m esm o em m eio ao sofrim ento, a fé na hum anidade. Espero que sim , m as suspeito que KillRoy provavelm ente a tenha quebrado.
Kim Parker estava sentada com as m ãos no colo. Ela sem pre gostou bastante de m im , em bora em nossa j uventude tanto os m eus pais com o os de Elizabeth tivessem se preocupado com nossa intim idade. Eles queriam que brincássem os tam bém com as outras crianças. Queriam que fizéssem os m ais am igos. É natural, suponho.
Hoy t Parker, o pai de Elizabeth, ainda não chegara em casa, então Kim e eu j ogam os conversa fora – ou sej a, falam os de tudo m enos de Elizabeth. Eu m antinha os olhos focados em Kim porque sabia que o consolo da lareira estava cheio de fotos de Elizabeth com seu sorriso dilacerante.
Ela está viva…
Eu m al conseguia acreditar naquilo. A m ente, aprendi nas aulas de psiquiatria da faculdade de m edicina (sem falar no histórico de m inha fam ília), possui um incrível poder de distorção. Eu não acreditava que estivesse suficientem ente pirado para fabricar sua im agem , m as o fato é que os loucos nunca acreditam . Pensei em m inha m ãe. Ela teria consciência de sua saúde m ental? Ela seria capaz de um a introspecção profunda?
Provavelm ente não.
Kim e eu conversam os sobre o tem po. Falam os sobre m eus pacientes. Conversam os sobre seu novo em prego de m eio período na Macy ’s. E então ela m e pegou de surpresa.
– Você está nam orando alguém ? – perguntou.
Era a prim eira vez que ela m e fazia um a pergunta pessoal. Aquilo m e desconcertou. Que resposta ela queria ouvir?
– Não – respondi.
Ela m eneou a cabeça e parecia querer dizer m ais algum a coisa. Sua m ão trêm ula subiu até o rosto.
– Saio com um as am igas de vez em quando – confessei.
– Tudo bem – ela observou com um m ovim ento da cabeça. – Você deve.
Contem plei m inhas m ãos e surpreendi-m e dizendo:
– Sinto m uita falta dela.
Eu não planej ara dizer aquilo. Queria ficar na m inha e prosseguir com nossa conversa segura de sem pre. Ergui o olhar para Kim . Ela parecia triste e grata.
– Sei o que você sente, Beck – disse ela. – Mas não deve se sentir culpado por sair com outras pessoas.
– Eu não m e sinto – respondi. – Quer dizer, não é bem isso.
Ela descruzou as pernas e se inclinou em m inha direção.
– Então o que é?
Eu não conseguia falar. Bem que eu queria. Para o bem dela. Ela m e olhou com aqueles olhos arrasados, a necessidade de falar sobre a filha tão à tona, tão dolorida. Mas eu não conseguia falar. Balancei a cabeça.
Ouvi um barulho de chave na porta. Am bos viram os de repente, endireitando-nos, com o am antes pegos em flagrante. Hoy t Parker em purrou a porta com o om bro e gritou o nom e da esposa. Entrou na saleta com um suspiro sincero e largou a bolsa de ginástica. Sua gravata estava frouxa, a cam isa, am arrotada, as m angas, arregaçadas até os cotovelos. Hoy t tinha antebraços de Popey e. Ao nos ver sentados no sofá, soltou outro suspiro, desta vez m ais profundo e com certo toque de desaprovação.
– Com o vai você, David? – perguntou ele.
Apertam os as m ãos. Seu aperto, com o sem pre, era rude e firm e dem ais. Kim pediu licença e abandonou às pressas o aposento. Hoy t e eu trocam os am abilidades, e o silêncio se instalou. Hoy t Parker nunca se sentira à vontade com igo. Pode ser que houvesse um com plexo de Electra, m as eu sem pre senti que ele m e via com o um a am eaça. Eu entendia. Sua filhinha passara todo o seu tem po com igo. Com os anos, conseguim os lutar contra o ressentim ento e forj am os um a espécie de am izade. Até a m orte de Elizabeth.
Ele m e culpa pelo que aconteceu.
Claro que nunca disse isso, m as posso ver em seus olhos. Hoy t Parker é um hom em robusto, forte. Sólido com o um a rocha, um genuíno e típico am ericano. Ele sem pre fizera Elizabeth se sentir incondicionalm ente segura. Hoy t tinha esse tipo de aura protetora. Nenhum m al acom eteria sua filhinha enquanto Hoy t, o Grandão, estivesse a seu lado.
Acho que nunca consegui fazer com que Elizabeth se sentisse tão segura assim .
– Com o anda o trabalho? – perguntou Hoy t.
– Bem – respondi. – E o seu?
– Falta um ano para m e aposentar.
Assenti com a cabeça e caím os em novo silêncio. No percurso até lá, eu decidira nada falar sobre o que havia visto no com putador. Não pelo fato de que aquilo parecia loucura. Não pelo fato de que isso abriria velhas feridas e doeria profundam ente nos dois. A verdade era que eu não tinha a m ínim a ideia do que estava acontecendo. Quanto m ais o tem po passava, m ais aquele episódio parecia irreal. Eu tam bém decidira levar a sério aquele últim o e-m ail. Não conte a ninguém. Não conseguia im aginar o que estava acontecendo nem por quê, m as todas as suposições que eu fazia pareciam assustadoram ente frágeis.
Mesm o assim , certifiquei-m e de que Kim não estaria ouvindo. Então, aproxim ei-m e m ais de Hoy t e disse em voz baixa:
– Posso fazer um a pergunta?
Ele não respondeu. Em vez disso, ofereceu aquele olhar cético que lhe era tão característico.
– Quero saber… – titubeei. – Quero saber com o você a encontrou.
– Com o a encontrei?
– Quer dizer, quando você entrou no necrotério. Quero saber o que viu.
Algo aconteceu em seu rosto, com o m inúsculas explosões dem olindo sua estrutura.
– Pelo am or de Deus, por que você quer saber isso?
– Andei pensando a respeito – inventei. – Com o aniversário do prim eiro beij o e tudo.
Ele se levantou de repente e esfregou as palm as das m ãos nas pernas da calça.
– Aceita um drinque?
– Claro.
– Pode ser bourbon?
– Ótim o.
Ele cam inhou até um velho bar com rodinhas perto da lareira e, portanto, das fotografias. Mantive os olhos baixos.
– Hoy t? – tentei.
Ele abriu um a garrafa.
– Você é m édico – disse ele, apontando para m im com um copo na m ão. – Você j á viu pessoas m ortas.
– Sim .
– Então você sabe com o é.
Claro que eu sabia.
Ele trouxe a bebida. Peguei-a com um a rapidez exagerada e tom ei um gole. Ele m e observou e, em seguida, levou o copo à boca.
– Sei que nunca lhe perguntei sobre os detalhes – com ecei. Mais do que isso, eu os evitava deliberadam ente. As fam ílias das outras vítim as banhavam -se neles. Elas apareciam diariam ente no j ulgam ento de KillRoy, ouviam e choravam . Eu não. Acho que isso as aj udava a extravasar a dor. Preferi ficar com a m inha.
– Você não quer saber os detalhes, Beck.
– Ela foi espancada?
Hoy t exam inou a bebida.
– Por que você está fazendo isso?
– Preciso saber.
Ele m e olhou por sobre o copo. Seus olhos se m overam ao longo do m eu rosto. Senti com o se estivessem espetando m inha pele. Mantive o olhar firm e.
– Havia ferim entos, sim .
– Onde?
– David…
– No rosto?
Seus olhos se reduziram , com o se ele tivesse visto algo inesperado.
– Sim .
– No corpo tam bém ?
– Eu não olhei o corpo – ele respondeu. – Mas sei que a resposta seria sim .
– Por que você não olhou o corpo?
– Eu estava lá com o pai, não com o investigador. Para fins de identificação apenas.
– Foi fácil? – perguntei.
– Foi fácil o quê?
– Identificá-la. Quer dizer, você disse que o rosto estava m achucado.
Seu corpo enrij eceu. Ele largou a bebida, e eu percebi que havia ido longe dem ais. Eu deveria ter seguido m eu plano. Deveria ter ficado calado.
– Você quer realm ente saber isso tudo?
Não, pensei. Mas assenti com a cabeça.
Hoy t Parker desistiu da bebida, cruzou os braços e com eçou a falar:
– O olho esquerdo de Elizabeth estava fechado de tão inchado. O nariz estava quebrado e achatado. Havia um corte que atravessava a testa, provavelm ente feito por um a faca. A m andíbula tinha sido arrancada da articulação, com todos os tendões soltos. – Sua voz era m onocórdia. – A letra K estava m arcada na bochecha direita. Ainda dava para sentir o cheiro da pele queim ada.
Senti m eu estôm ago em brulhar.
Os olhos de Hoy t se fixaram duram ente nos m eus.
– Quer saber qual foi a pior parte, Beck?
Olhei para ele e esperei.
– Mesm o assim não levou tem po nenhum – ele disse. – Eu soube im ediatam ente que aquela era Elizabeth.