Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 18 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 17

17

UMA VEZ ACOMODADO DENTRO DO ESTÚDIO de Rebecca Schay es, Larry Gandle ligou do celular para a esposa.

– Vou chegar tarde – avisou ele.

– Não se esqueça de tom ar o rem édio – lem brou Patty .

Gandle sofria de um a diabete leve, controlada por m eio de dieta e um rem édio. Nada de insulina.

– Vou tom ar.

Eric Wu, ainda entretido com seu walkm an, estendeu cuidadosam ente um plástico de vinil perto da porta.

Gandle desligou o telefone e colocou luvas de látex. A busca seria m inuciosa e longa. Com o a m aioria dos fotógrafos, Rebecca Schay es guardava toneladas de negativos. Havia quatro arquivos de m etal cheios deles. Eles tinham checado a agenda dela. Ela estava concluindo um a sessão de fotos e voltaria para a câm ara escura em m ais ou m enos um a hora. Não era tem po suficiente.

– Sabe o que aj udaria? – disse Wu.

– O quê?

– Ter algum a ideia do que estam os procurando.

– Beck recebe aqueles e-m ails m isteriosos – disse Gandle. – E o que ele faz? Pela prim eira vez em oito anos vem correndo ver a am iga m ais antiga de sua m ulher. Precisam os saber o m otivo.

Wu continuou olhando para ele.

– Não é m ais fácil esperar e perguntar para ela?

– É o que farem os, Eric.

Wu balançou lentam ente a cabeça e se afastou.

Gandle encontrou um a m esa de m etal com prida na câm ara escura. Testou-a. Forte. Tam anho ideal tam bém . Dava para colocar um a pessoa em cim a e am arrar os m em bros em cada perna da m esa.

– Quanta fita isolante trouxem os?

– O suficiente – respondeu Wu.

– Faça um favor, então – pediu Gandle. – Estenda um plástico em baixo da m esa.

♦ ♦ ♦

Faltava m eia hora para eu receber a m ensagem de Bat Street.

A dem onstração de Shauna atingira-m e com o um gancho de esquerda inesperado. Eu m e sentia zonzo, sem inocauteado. Mas um a coisa interessante aconteceu. Consegui m e levantar da lona. Fiquei de pé novam ente, espanei as teias de aranha e com ecei a andar em círculos.

Estávam os em m eu carro. Shauna insistira em voltar para casa com igo. Um a lim usine a levaria de volta em poucas horas. Sei que ela queria m e confortar, m as era óbvio que ela ainda não queria ir para casa.

– Tem um a coisa que ainda não entendi – falei.

Shauna virou-se em m inha direção.

– Os tiras acham que m atei Elizabeth, certo?

– Certo.

– Então por que eles m e enviariam e-m ails fingindo que ela está viva?

Shauna não tinha um a resposta na ponta da língua.

– Pense nisso – argum entei. – Você diz que essa é um a espécie de arm ação para m e levar a revelar m inha suposta culpa. Mas, se eu tivesse m atado Elizabeth, saberia que é um a farsa.

– É um a tortura psicológica – disse Shauna.

– Mas isso não faz sentido. Se é para m e torturar psicologicam ente, teriam que m andar e-m ails fingindo, sei lá, ser alguém que testem unhou o assassinato ou coisa parecida.

Shauna refletiu sobre o que eu dissera.

– Acho que eles querem deixar você tenso, Beck.

– Tá, m as m esm o assim não faz sentido.

– O.k., quanto tem po falta para a próxim a m ensagem ?

Consultei o relógio.

– Vinte m inutos.

Shauna relaxou na poltrona.

– Vam os esperar e ver o que ela diz.

♦ ♦ ♦

Eric Wu instalou seu laptop no chão em um canto do estúdio de Rebecca Schay es.

Ele checou o com putador do escritório de Beck prim eiro. Ainda inativo. O relógio m arcava alguns m inutos depois das 20 horas. A clínica j á fechara havia m uito tem po. Ele m udou para o com putador da casa de Beck. Por alguns segundos, nenhum sinal. Em seguida:

– Beck acaba de se conectar – disse Wu.

Larry Gandle veio correndo.

– Podem os ver a m ensagem antes dele?

– Seria ótim o.

– Por que não dá?

– Se fizerm os isso, quando ele tentar entrar, o sistem a dirá que alguém j á está conectado com aquele nom e de usuário.

– Ele saberá que está sendo observado?

– Sim . Mas isso não im porta. Estam os observando Beck em tem po real. No m om ento em que ele ler a m ensagem , tam bém lerem os.

– O.k., então m e avise quando chegar a hora.

Wu olhou a tela, forçando a vista.

– Ele acaba de entrar no site Bigfoot. Será daqui a alguns segundos.

♦ ♦ ♦

Eu digitei www.bigfoot.com e apertei a tecla Enter.

Minha perna direita com eçou a trem er. Isso sem pre acontece quando fico nervoso. Shauna pôs a m ão no m eu j oelho. Minha perna se acalm ou. Ela tirou a m ão. Meu j oelho ficou tranquilo por um m inuto e, depois, voltou a trem er. Shauna recolocou a m ão no m eu j oelho. O ciclo recom eçou.

Shauna parecia calm a, m as sei que ela não desgrudava os olhos de m im . Era m inha m elhor am iga. Ela m e apoiaria até o fim . Mas apenas um idiota não se perguntaria, àquela altura dos acontecim entos, se não haveria algum parafuso solto na m inha cabeça. Dizem que a loucura, com o as doenças cardíacas ou a inteligência, é hereditária. O pensam ento vinha aflorando na m inha m ente desde que vi Elizabeth na câm era de rua. Um pensam ento nada reconfortante.

Meu pai m orreu num acidente de autom óvel quando eu tinha uns 20 anos. Seu carro caiu de um a barragem . Segundo um a testem unha – um cam inhoneiro de Wy om ing –, o Buick de m eu pai de repente saiu da estrada. Era um a noite fria. A pista, em bora bem conservada, estava escorregadia.

Muitos insinuaram – bem , insinuaram discretam ente – que ele se suicidou. Eu não acredito. É verdade que ele andava m ais retraído e calado nos últim os m eses. É possível que essas coisas o deixassem m ais suscetível a um acidente. Mas suicídio? Nem pensar.

Minha m ãe, um a pessoa sem pre frágil, com um a neurose aparentem ente branda, reagiu perdendo o j uízo aos poucos. Ela literalm ente recuou para dentro de si m esm a. Linda tentou cuidar dela durante três anos, até que concordou que m am ãe precisava ser internada. Linda visita m am ãe o tem po todo. Eu não.

Após m ais alguns instantes, a página principal do site Bigfoot surgiu. Achei a caixa onde deveria digitar o nom e do usuário e escrevi Bat Street.

Apertei a tecla Tab e, na caixa destinada à senha, digitei Teenage. Apertei Enter.

Nada apareceu.

– Você tem que clicar no botão Login – disse Shauna.

Olhei para ela. Ela deu de om bros. Cliquei.

A tela ficou branca. Depois apareceu um anúncio de um a loj a de CDs. A barra de progresso foi se enchendo lentam ente. Quando chegou quase à m etade, a tela desapareceu e, vários segundos depois, surgiu a m ensagem :

ERRO – Nome do usuário ou senha incorretos.

– Tente de novo – disse Shauna.

Foi o que eu fiz. A m ensagem de erro apareceu outra vez. O com putador estava m e dizendo que a conta nem sequer existia.

O que significaria aquilo?

Eu não tinha a m enor ideia. Tentei pensar num a razão para a conta não existir.

Verifiquei a hora: 20h13m in34seg.

Hora do beijo.

Aquela poderia ser a resposta? Seria possível que a conta, assim com o o link no dia anterior, ainda não existisse? Refleti m ais um pouco. Era possível, m as pouco provável.

Com o se lesse m eu pensam ento, Shauna sugeriu:

– Acho que devem os esperar até 20h15.

Tentei de novo às 20h15. Às 20h18. Às 20h20.

Nada além daquela m ensagem de erro.

– Os tiras devem ter desligado o site da tom ada – brincou Shauna.

Balancei a cabeça, ainda não disposto a desistir.

Minha perna voltou a trem er. Shauna usou um a das m ãos para acalm á-la e a outra para atender o celular. Ela com eçou a gritar com alguém do outro lado. Olhei o relógio. Tentei novam ente. Nada. Outra vez. Nada.

Já passava de 20h30.

– Ela pode estar atrasada – disse Shauna.

Fiz cara feia.

– Quando a viu ontem , você não sabia onde ela estava, certo?

– Certo.

– Ela pode estar em outro fuso horário – aventou Shauna. – Talvez por isso estej a atrasada.

– Outro fuso horário? – Fechei ainda m ais a cara. Shauna nem ligou.

Esperam os m ais um a hora. Tenho de adm itir que em nenhum m om ento Shauna disse “Eu lhe avisei”. Pouco depois, ela pôs a m ão nas m inhas costas e disse:

– Ei, tive um a ideia.

Virei-m e em sua direção.

– Vou esperar em outro lugar – disse Shauna. – Acho que isso pode aj udar.

– De que m aneira?

– Vej a bem : se isto fosse um film e, esta seria a parte em que eu fico cansada dessa sua loucura e caio fora. Aí, bingo!, a m ensagem aparece, de m odo que só você a vê e todos continuam pensando que você está louco. Com o no Scooby-Doo, quando apenas ele e Salsicha veem o fantasm a e ninguém acredita neles.

Pensei um pouco.

– Vam os tentar – sugeri.

– Ótim o. Que tal eu esperar na cozinha? Fique calm o. Quando a m ensagem aparecer, apenas dê um gritinho.

Ela se levantou.

– Você está brincando com igo? – perguntei.

Shauna pensou a respeito.

– Provavelm ente.

Ela saiu. Virei em direção à tela. E aguardei.