Não Conte a Ninguém
Capítulo 8
8
SHAUNA E LINDA ALUGAVAM UM APARTAMENTO de três quartos na esquina da Riverside Drive com a Rua 116, perto da Universidade de Colúm bia. Consegui encontrar um a vaga a um a quadra do prédio, um verdadeiro m ilagre – só faltava o m ar Verm elho se abrir e Deus entregar as tábuas da lei!
Shauna m e telefonara. Linda ainda estava no baile a rigor. Mark dorm ia. Entrei na ponta dos pés no quarto dele e beij ei sua testa. Dava para perceber que Mark continuava vidrado nos Pokém ons. Seus lençóis tinham figuras do Pikachu e ele dorm ia abraçado a um boneco da tartaruga Squirtle. As pessoas criticavam a m ania, m as ela m e lem brava m inha própria obsessão infantil pelo Batm an e o Capitão Am érica. Contem plei-o por m ais alguns segundos. Sei que é clichê, m as é nas pequenas coisas que está o encanto da vida.
Shauna m e esperava de pé diante da porta do quarto de Mark. Quando, enfim , voltam os à sala, perguntei:
– Você se im porta se eu tom ar um drinque?
Ela deu de om bros.
– Sirva-se.
Despej ei dois dedos de bourbon no copo.
– Você m e acom panha?
Ela concordou com a cabeça e nos acom odam os no sofá.
– A que horas Linda estará de volta? – perguntei.
– Agora você m e pegou – respondeu Shauna, devagar. Não gostei do tom de voz dela.
– Droga! – exclam ei.
– É por pouco tem po, Beck. Eu am o Linda, você sabe m uito bem .
– Droga! – repeti.
No ano anterior, Linda e Shauna haviam se separado por dois m eses. A experiência não tinha sido boa, sobretudo para Mark.
– Eu não vou abandoná-la – disse Shauna, tranquilizando-m e.
– Então o que há de errado?
– A velha história de sem pre. Tenho um trabalho glam ouroso que m e faz aparecer na m ídia. Vivo cercada de gente bonita e interessante. Até aqui nenhum a novidade. Todos sabem os disso. Mas Linda cism a que estou de olho nas outras.
– E é verdade.
– É, m as isso não é nenhum a novidade.
Eu não respondi.
– No fim do dia, quando volto para casa, é para ficar com Linda.
– E você não se desvia do cam inho?
– Se eu m e desviasse, seria irrelevante. Você sabe disso. Não sei viver presa num a gaiola. O palco é m eu habitat.
– Bela m istura de m etáforas – com entei. Bebi em silêncio por alguns m inutos.
– Beck?
– O quê?
– Sua vez agora.
– Vez de quê?
Ela m e fuzilou com o olhar e esperou.
Pensei naquele aviso de “Não conte a ninguém ” no fim do e-m ail. Se a m ensagem fosse de fato de Elizabeth – m inha m ente ainda relutava em sequer considerar isso –, ela saberia que eu contaria tudo para Shauna. Para Linda, talvez não. Mas Shauna? Eu conto tudo para ela. É a regra do j ogo.
– Há um a chance – revelei enfim – de que Elizabeth ainda estej a viva.
Shauna se m ostrou indiferente:
– Ela fugiu com o Elvis, certo?
Mas, quando viu m inha fisionom ia, ela parou e disse:
– Com o assim ?!
Eu expliquei. Contei sobre o e-m ail e a câm era na rua. E tam bém que vira Elizabeth na tela do com putador. Shauna m anteve os olhos fixos em m im o tem po todo. Ela não balançou a cabeça nem m e interrom peu. Quando term inei, ela cuidadosam ente apanhou um cigarro do m aço e o colocou na boca. Shauna tinha parado de fum ar havia anos, m as ainda gostava de brincar com cigarros. Ela exam inou o cilindro cancerígeno, revolvendo-o na m ão com o se nunca tivesse visto um antes. Senti seu cérebro a m il.
– O.k. – disse ela. – Então am anhã às 20h15 deverá chegar a próxim a m ensagem , certo?
Confirm ei com um m ovim ento de cabeça.
– Então tem os de esperar até lá.
Ela recolocou o cigarro no m aço.
– Você não acha isso m eio m aluco?
Shauna deu de om bros.
– Irrelevante – respondeu.
– Em que sentido?
– Há várias possibilidades que explicariam o que você acabou de dizer.
– Incluindo loucura.
– Sem dúvida, é um a grande possibilidade. Mas de que adiantam hipóteses negativas agora? Vam os supor que tudo sej a verdade. Que você viu o que viu e que Elizabeth continue viva. Se estiverm os enganados, logo descobrirem os. Se estiverm os certos…
Ela franziu as sobrancelhas, pensou a respeito, balançou a cabeça.
– Meu Deus, tom ara que estej am os certos.
Sorri para ela.
– Eu te am o, você sabe.
– Sim – respondeu ela. – Todos m e am am .
♦ ♦ ♦
Quando cheguei em casa, despej ei no copo um últim o drinque. Tom ei um grande gole e senti a bebida quente percorrer seu cam inho. Eu bebo, sim . Mas não sou nenhum alcoólatra. Não estou negando a realidade. Sei que flerto com o alcoolism o. Sei tam bém que isso é tão seguro quanto flertar com a filha virgem de um chefão da m áfia. Mas, por enquanto, o flerte ainda não acabou em casam ento. Sou esperto o suficiente para saber que esse relacionam ento acabaria m e destruindo.
Chloe se aproxim ou de m im com a expressão costum eira, que podia ser resum ida nas palavras: “Com er, passear, com er, passear.” Os cães são de um a coerência m aravilhosa. Atirei para ela um biscoitinho e levei-a para dar um a volta no quarteirão. O ar frio fez bem aos m eus pulm ões, m as cam inhar nunca desanuviava m inha m ente. Cam inhar, na verdade, é um a trem enda chatice. Mas eu gostava de observar Chloe passeando. Sei que isso soa estranho, m as um cão extrai m uito prazer dessa atividade tão sim ples. Eu sentia um a felicidade zen só de vê-la passear.
De volta em casa, fui silenciosam ente para o quarto. Chloe m e seguiu. Vovô estava dorm indo. A enferm eira tam bém . Tinha um ronco agudo de desenho anim ado. Liguei o com putador e estranhei que o xerife Lowell não tivesse retornado m inha cham ada. Pensei em ligar para ele, em bora j á fosse quase m eia-noite. Foi aí que m e ocorreu: ele é m etido a durão.
Peguei o telefone e disquei. Lowell tinha um celular. Se estivesse dorm indo, teria desligado o aparelho, certo?
Ele atendeu no terceiro toque.
– Alô, Dr. Beck.
Sua voz estava tensa. Observei tam bém que ele j á não m e cham ava m ais sim plesm ente de “doutor”.
– Por que não retornou m inha ligação? – perguntei.
– Estava ficando tarde – respondeu ele. – Resolvi deixar para am anhã cedo.
– Por que você m e perguntou sobre Sarah Goodhart?
– Am anhã – ele respondeu.
– O quê?
– Está tarde, Dr. Beck. Não estou m ais no m eu horário de trabalho. Além disso, acho m elhor conversar sobre isso pessoalm ente.
– Você não poderia pelo m enos…
– Você estará na clínica am anhã de m anhã?
– Sim .
– Telefonarei para lá.
Ele m e desej ou um educado m as firm e boa-noite e desligou. Fitei o telefone, intrigado com aquela situação toda.
Dorm ir estava fora de questão. Passei a m aior parte da noite na internet, procurando por câm eras de rua em diferentes cidades, esperando encontrar a certa. Um a espécie de agulha high tech no palheiro do m undo.
A certa altura, parei de navegar e m e enfiei debaixo do cobertor. A paciência faz parte da profissão m édica. Constantem ente peço exam es de crianças que, caso sej am positivos, poderão m udar toda a sua vida – ou m esm o significar o fim dela –, e peço aos pais que aguardem o resultado. Eles não têm outra escolha. Talvez eu estivesse em um a situação sem elhante. Havia m uitas variáveis em j ogo. No dia seguinte, quando eu entrasse no site Bigfoot com o nom e de usuário Bat Street e a senha Teenage, poderia descobrir m ais.
Fitei o teto por alguns m om entos. Depois olhei para a direita – onde Elizabeth dorm ia. Eu sem pre adorm ecia antes. Costum ava m e deitar daquela m aneira e observá-la com seu livro, o perfil do seu rosto, totalm ente concentrada no que estava lendo. Era a últim a coisa que eu via antes que m eus olhos se fechassem e eu dorm isse.
Virei para o outro lado.
♦ ♦ ♦
Às quatro da m adrugada, Larry Gandle olhava sobre as m echas parafinadas de Eric Wu. Ele era incrivelm ente disciplinado. Se não estivesse m alhando, estaria diante da tela do com putador. Sua tez adquirira um a doentia cor branco-azulada de tanto navegar na internet, m as seu físico continuava um a m assa bruta.
– E então? – disse Gandle.
Wu arrancou os fones de ouvido. Depois cruzou os braços, que pareciam colunas de m árm ore, diante do tórax:
– Estou confuso.
– Por quê?
– O Dr. Beck não salva quase nenhum e-m ail. Apenas alguns envolvendo pacientes. Nada pessoal. Mas ele recebeu dois e-m ails estranhos nos últim os dois dias. – Ainda de frente para a tela, Eric Wu entregou a Gandle duas folhas de papel por sobre os om bros sólidos com o bolas de boliche. Gandle olhou os e-m ails e franziu a testa.
– O que eles significam ?
– Sei lá.
Gandle leu a m ensagem que falava sobre clicar em algum a coisa na “hora do beij o”. Ele não entendia de com putadores – nem fazia questão de entender. Seus olhos se voltaram para o topo da folha, e ele leu o assunto.
E. P. + D. B. e um m onte de barras.
Gandle refletiu a respeito. D. B. David Beck, talvez? Quanto a E. P…
O sentido daquelas iniciais o atingiu com o um piano em queda livre. Lentam ente ele devolveu a folha a Wu.
– Quem m andou isso? – perguntou Gandle.
– Sei lá.
– Descubra.
– Im possível – disse Wu.
– Por quê?
– O rem etente usou um serviço de reenvio anônim o. – Wu falava em um tom paciente, quase m onótono. Ele usava aquele m esm o tom quer estivesse discutindo a previsão do tem po, quer estraçalhando o queixo de um inim igo. – Não vou entrar em detalhes técnicos, m as não dá para descobrir o rem etente.
Gandle voltou a atenção para o outro e-m ail, aquele que m encionava Bat Street e Teenage. Ele não entendeu nada daquilo.
– E este aqui? Dá para descobrir o rem etente?
Wu fez que não com a cabeça.
– Tam bém anônim o.
– Os dois e-m ails foram enviados pela m esm a pessoa?
– Sei tanto quanto você.
– E o conteúdo? Você entendeu o que as m ensagens dizem ?
Wu apertou algum as teclas, e o prim eiro e-m ail surgiu no m onitor. Com um dedo grosso e venoso, apontou para a tela.
– Está vendo estas letras azuis? É um link. Tudo o que o Dr. Beck teve de fazer foi clicar aí para ser direcionado a algum lugar, provavelm ente a um site da web.
– Qual site?
– É um link corrom pido. Não dá para descobrir.
– E Beck deveria fazer isso na “hora do beij o”?
– É o que está escrito.
– “Hora do beij o” é algum term o de inform ática?
Wu quase riu.
– Não.
– Então você não sabe a que hora o e-m ail se refere?
– Isso m esm o.
– Se a “hora do beij o” j á passou ou não?
– Já passou – respondeu Wu.
– Com o é que você sabe?
– O navegador está configurado para m ostrar os 20 últim os sites visitados. Ele clicou no link várias vezes.
– E você não pode entrar no site tam bém ?
– Não. O link não está funcionando.
– E este outro e-m ail?
Wu apertou m ais algum as teclas. A tela m udou, e o outro e-m ail apareceu.
– Este é m ais fácil de decifrar. É bem básico, por sinal.
– Dá para explicar?
– O rem etente anônim o criou um a conta para o Dr. Beck – explicou Wu. – Forneceu um nom e de usuário e um a senha e m encionou de novo a “hora do beij o”.
– Vam os ver se entendi – disse Gandle. – Beck vai acessar um site, digitar o nom e do usuário e a senha, e haverá um a m ensagem para ele?
– Em princípio, sim .
– Podem os fazer isso tam bém ?
– Entrar na página usando aquele nom e de usuário e a senha?
– Sim . E ler a m ensagem .
– Eu tentei. A conta ainda não existe.
– Por que não?
Eric Wu fez um gesto de desdém .
– Talvez o rem etente anônim o configure a conta m ais tarde. Mais perto da “hora do beij o”.
– Então qual é a conclusão?
– Em term os sim ples – a luz do m onitor dançava diante dos olhos inexpressivos de Wu –, alguém está fazendo um grande esforço para perm anecer anônim o.
– Com o podem os descobrir quem é?
Wu ergueu um pequeno dispositivo sem elhante a um a peça de um rádio transistor:
– Mandei instalar estes aparelhinhos nos com putadores do Dr. Beck, em casa e no trabalho.
– Que negócio é esse?
– Um rastreador digital de rede. O rastreador envia sinais digitais dos com putadores dele para o m eu. Se o Dr. Beck receber algum e-m ail, acessar algum site ou digitar um a letra, vam os conseguir m onitorar tudo em tem po real.
– Então o negócio é esperar e observar – concluiu Gandle.
– Exato.
Gandle pensou no que Wu acabara de dizer – no esforço que alguém estava fazendo para perm anecer anônim o –, e um a terrível suspeita fez com que sentisse um frio na espinha.