Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 44 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 43

43

O VENTO SOPRAVA, AS ÁRVORES DANÇAVAM, o laranj a-purpúreo do pôr do sol com eçava a dar lugar a um azul-acinzentado. Assustou-m e com o o ar noturno dava exatam ente a m esm a sensação de oito anos atrás, a últim a vez em que m e aventurara naquele terreno sagrado.

Perguntei-m e se ocorreria ao pessoal de Griffin Scope ficar de olho no lago Charm aine. Mas, se Elizabeth m arcara ali, era porque ela sabia que não havia perigo. Ela sabia que a propriedade tinha abrigado um a colônia de férias antes de o m eu avô com prá-la. A pista de Elizabeth – Golfinho – era o nom e de um a cabana onde dorm iam os rapazes m ais velhos e que ficava m ais para dentro da floresta, um local que raram ente ousávam os visitar.

O carro alugado subiu o que um dia havia sido a entrada de serviço da colônia, em bora ela agora m al existisse. Da estrada principal não dava para vê-la, o capim alto a ocultava com o a entrada da Batcaverna. Minha fam ília a havia fechado com um a corrente, por precaução, com um a placa que dizia “Entrada Proibida”. A corrente e a placa continuavam ali, m as os anos de abandono eram visíveis. Parei o carro, desenganchei a corrente e enrolei-a em volta da árvore.

Voltei ao banco do m otorista e subi de carro até o refeitório da antiga colônia de férias. Pouca coisa restava. Ainda dava para ver os vestígios enferruj ados de antigos fogões. Havia algum as panelas e caçarolas no solo, m as a m aioria havia sido enterrada com os anos. Saltei do carro e aspirei o arom a doce da folhagem . Tentei não pensar em m eu pai, m as na clareira, quando consegui divisar o lago lá em baixo, a m aneira com o o prateado da lua cintilava na superfície ondulada, voltei a ouvir o velho fantasm a e m e perguntei se desta vez ele não clam ava por j ustiça.

Subi pela trilha, em bora ela quase não existisse m ais. Estranho que Elizabeth escolhesse aquele lugar para o encontro. Lem brei-m e de com o ela não gostava de brincar nas ruínas da antiga colônia de férias. Linda e eu, por outro lado, adorávam os esbarrar em sacos de dorm ir ou latas recém -esvaziadas, im aginando que tipo de preguiçoso as abandonara ali e se ele ainda estaria por perto. Elizabeth, bem m ais m edrosa que nós dois, não se interessava por aquelas brincadeiras. Lugares estranhos e incerteza a assustavam .

Levei 10 m inutos para andar até lá. A cabana ainda estava em bom estado. O teto e as paredes continuavam de pé, em bora os degraus de m adeira que subiam até a porta estivessem reduzidos a lascas. A placa onde estava escrito Golfinho perm anecia lá, pendurada num prego. Videiras, m usgo e um a m istura de vegetação cuj o nom e eu ignorava não haviam encontrado um obstáculo naquela estrutura; eles penetravam nela, cercavam -na, m etiam -se por buracos e j anelas, consum iam a cabana, fazendo com que ela agora parecesse parte natural da paisagem .

– Você voltou – disse um a voz, surpreendendo-m e.

Um a voz m asculina.

Reagi sem pensar. Saltei para o lado, atirei-m e ao chão, rolei, apanhei a Glock e m irei. O hom em sim plesm ente levantou as m ãos para o alto. Exam inei-o, m antendo a pistola apontada para ele. Não era quem eu esperava. A barba espessa parecia um ninho de pintarroxos após o ataque de um corvo. Os cabelos, com pridos e em aranhados. As roupas, um a cam uflagem esfarrapada. Por um m om ento, pensei que estivesse de volta à cidade, diante de m ais um m orador de rua. Mas não era nada disso. O hom em se erguia reto e firm e. Ele m e olhou nos olhos.

– Quem é você? – perguntei.

– Faz m uito tem po, David.

– Eu não o conheço.

– É verdade. Mas eu o conheço. – Ele apontou com a cabeça para a cabana atrás de m im . – Você e sua irm ã. Eu costum ava observar vocês brincarem aqui.

– Não entendo.

Ele sorriu. Seus dentes – ele ainda tinha todos – eram de um branco ofuscante em contraste com a barba.

– Sou o bicho-papão.

À distância, ouvi um a fam ília de gansos grasnar ao descer voando à superfície do lago.

– O que você quer? – perguntei.

– Absolutam ente nada – respondeu ele, ainda sorrindo. – Posso abaixar as m ãos?

Concordei, com um m ovim ento de cabeça. Ele deixou as m ãos caírem . Eu abaixei o revólver, m as o m antive engatilhado. Refleti sobre o que ele dissera e perguntei:

– Há quanto tem po você se esconde aqui?

– Eu m e escondo aqui vez ou outra há – ele pareceu fazer algum tipo de cálculo com os dedos – 30 anos. – Ele sorriu diante da expressão espantada em m eu rosto. – Sim , observo você desde que você era desta altura. – Ele abaixou a m ão até o nível do j oelho. – Vi você crescer e… – Ele fez um a pausa. – Faz m uito tem po que você não vem aqui, David.

– Quem é você?

– Meu nom e é Jerem iah Renway – respondeu ele.

O nom e não m e era fam iliar.

– Sou foragido da lei.

– Então por que você está se m ostrando agora?

Ele fez um gesto de indiferença.

– Acho que é porque fiquei contente em vê-lo.

– Quem garante que eu não vá denunciá-lo às autoridades?

– Você tem um a dívida com igo.

– Com o assim ?

– Eu salvei sua vida.

Senti o chão sob m im oscilar.

– O quê?

– Quem foi que tirou você da água? – perguntou.

Fiquei em udecido pelo choque.

– Quem foi que arrastou você até a casa? Quem você acha que cham ou a am bulância?

Minha boca se abriu, m as nenhum a palavra saiu dela.

– E – seu sorriso se abriu – quem você acha que desenterrou aqueles corpos para que fossem descobertos?

Levei alguns m om entos até recuperar a voz.

– Por quê? – consegui dizer.

– Não sei ao certo. Vej a bem , fiz algo ruim há m uito tem po. Talvez eu visse isso com o um a chance de redenção ou algo sem elhante.

– Quer dizer que você viu…?

– Tudo – confessou Renway. – Vi quando eles agarraram sua esposa e atingiram você com o taco de beisebol. Ouvi quando prom eteram tirar você do lago se ela contasse onde estava algo. Vi sua esposa entregar um a chave a eles. Então eles riram e a obrigaram a entrar no carro, abandonando você no lago.

Engoli em seco.

– Você os viu serem m ortos?

Renway sorriu de novo.

– Já conversam os bastante, guri. Ela está esperando você.

– Não entendo.

– Ela está esperando você – repetiu ele, dando-m e as costas. – Perto da árvore. – Sem avisar, ele saltou para dentro da floresta, disparando pelo m atagal com o um cervo. Fiquei ali e o observei desaparecer m ato adentro.

A árvore.

Com ecei a correr. Galhos fustigaram m eu rosto. Não m e im portei. Minhas pernas pediram para parar. Não dei ouvidos. Meus pulm ões protestaram . Disse para fazerem um esforço. Quando, enfim , dobrei à direita na rocha sem ifálica e cheguei ao fim da trilha, a árvore ainda estava lá. Eu m e aproxim ei e senti m eus olhos lacrim ej arem .

Nossas iniciais – E. P. + D. B. – haviam escurecido com o tem po. O m esm o acontecera com as 13 barras que havíam os entalhado. Contem plei-as por um m om ento e, em seguida, estiquei o braço e toquei, hesitante, os sulcos. Não das iniciais. Não das 13 barras. Meus dedos percorreram as oito barras novas, ainda claras e pegaj osas de seiva.

Depois a ouvi dizer:

– Eu sei que você acha isso brega.

Meu coração explodiu. Virei para trás. Era ela.

Não consegui m e m over. Não consegui falar. Sim plesm ente contem plei seu rosto. Aquele rosto lindo. E os olhos. Tive a sensação de estar caindo num abism o. Seu rosto estava m ais m agro, m as ela ainda tinha aquelas m açãs do rosto tão típicas da Nova Inglaterra, bem pronunciadas, e acho que nunca vi nada tão perfeito em toda a m inha vida.

Lem brei-m e então dos sonhos cativantes – dos m om entos noturnos de fuga em que eu a abraçava e acariciava seu rosto, ao m esm o tem po que m e sentia afastado dali, consciente de que, m esm o em m eio ao j úbilo, aquilo não era de verdade e logo eu seria arrem essado de volta ao m undo real. O m edo de que aquilo não passasse de m ais um sonho m e dom inou, deixando m eus pulm ões sem ar.

Elizabeth, parecendo adivinhar o que eu estava pensando, fez um gesto com a cabeça com o quem diz: “Sim , isso é real.” Ela deu um passo hesitante em m inha direção. Eu m al conseguia respirar, m as consegui balançar a cabeça e apontar para as linhas entalhadas, dizendo:

– É tão rom ântico!

Ela conteve um soluço com a m ão e disparou em m inha direção. Abri os braços e ela se atirou contra m im .

Segurei-a. Apertei-a com todas as m inhas forças. Meus olhos se fecharam . Senti o odor de lilás e canela de seus cabelos. Ela enterrou o rosto no m eu peito e soluçou. Nós nos agarram os e voltam os a nos agarrar. Ela ainda… se encaixava. Nossos corpos continuavam se m oldando perfeitam ente um ao outro. Segurei a parte de trás de sua cabeça. Seu cabelo estava m ais curto, m as a textura era a m esm a. Eu a sentia trem er e tenho certeza de que ela sentia que o m esm o acontecia com igo.

Nosso prim eiro beij o foi intenso e fam iliar e assustadoram ente desesperado, com o duas pessoas que tivessem , enfim , atingido a superfície depois de calcular m al a profundidade da água. Os anos de afastam ento com eçaram a se dissipar, o inverno dando lugar à prim avera. Milhares de em oções m e assaltaram . Eu não as ordenei nem tentei entendê-las. Sim plesm ente deixei tudo acontecer.

Ela levantou a cabeça e olhou nos m eus olhos e eu não consegui m e m over.

– Desculpe – disse ela, e achei que m eu coração voltaria a se despedaçar.

Apertei-a e j urei que nunca m ais a deixaria se afastar novam ente.

– Não m e deixe outra vez – im plorei.

– Nunca m ais.

– Prom ete?

– Prom eto – disse ela.

Perm anecem os abraçados. Acariciei sua pele m aravilhosa. Toquei os m úsculos de suas costas. Beij ei o pescoço de cisne. Olhei até para o céu enquanto m atava a saudade. Com o?, eu m e perguntava. Com o aquilo podia não ser m ais um a peça cruel? Com o ela podia ainda estar viva e ter voltado para m im ?

Eu não m e im portava. Só queria que aquilo fosse verdade. Queria que durasse.

Mas, m esm o em m eio ao nosso dram ático reencontro, o som do celular, com o em um a cena de m eus sonhos fugidios, veio quebrar o encanto. Por um m om ento, pensei em não atender, m as, depois de tudo o que acontecera, essa opção m e era inviável. Pessoas queridas estavam envolvidas naquela história. Não podíam os sim plesm ente abandoná-las. Ainda cingindo Elizabeth com um braço – eu seria um am aldiçoado se a deixasse sum ir de novo –, levei o aparelho ao ouvido e disse:

– Alô.

Era Ty rese. Enquanto ele falava, senti tudo desm oronar outra vez.