Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 43 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 42

42

BRUTUS DIRIGIU FEITO UM LOUCO. Pegou a contram ão diversas vezes, fez vários cavalos de pau. Da pista da direita, ele cortava todos os carros e avançava o sinal para dobrar à esquerda. Estávam os indo em tem po recorde.

Um trem partiria da estação de Iselin em direção a Port Jevis em 20 m inutos. Eu poderia alugar um carro quando chegasse lá. Quando chegam os à estação, Brutus perm aneceu no carro. Ty rese m e acom panhou até a bilheteria.

– Você falou para eu fugir e não voltar – disse Ty rese.

– Isso m esm o.

– Talvez – ele disse – você deva fazer o m esm o.

Estendi-lhe a m ão para m e despedir. Ty rese a ignorou e m e abraçou com força.

– Obrigado – agradeci brandam ente.

Ele m e soltou, aj eitou o paletó sobre os om bros e aj ustou os óculos escuros.

– Quando precisar de m im …

Sem m e dar chance de dizer qualquer coisa, voltou para o carro. O trem chegou e partiu no horário. Escolhi um lugar vazio e desabei. Tentei esvaziar a m ente. Não consegui. Olhei ao redor. O vagão estava m ais ou m enos vazio. Duas colegiais com enorm es m ochilas tagarelavam usando diversas gírias. Deixei m eus olhos vagarem pelo local. Vi que alguém tinha deixado um j ornal – m ais especificam ente, um tabloide – no assento.

Fui até lá e o peguei. A m anchete era sobre um a j ovem atriz que tinha sido presa por roubar m ercadorias em um a loj a. Folheei as páginas, procurando pelos quadrinhos ou esportes – qualquer coisa que m e distraísse. Mas m eus olhos foram atraídos por um a foto… m inha! O hom em procurado. Estranho quão sinistro eu parecia na foto escurecida, com o um terrorista do Oriente Médio.

Foi então que vi aquilo. E m eu m undo, j á de cabeça para baixo, sofreu um novo abalo.

Eu não estava realm ente lendo o artigo. Meus olhos estavam apenas escaneando a página. Mas eu vi os nom es. Pela prim eira vez. Os nom es dos hom ens encontrados m ortos perto do lago. Um deles era fam iliar.

Melvin Bartola.

Não era possível.

Abandonei o j ornal e saí correndo, abrindo aquelas portas deslizantes até encontrar um condutor, dois vagões adiante.

– Qual é a próxim a parada? – perguntei.

– Ridgem ont, Nova Jersey .

– Há algum a biblioteca perto da estação?

– Com o vou saber?

Saltei lá m esm o assim .

♦ ♦ ♦

Eric Wu flexionou os dedos. Com um breve e firm e em purrão, forçou a porta.

Não foi preciso m uito tem po para identificar os dois negros que haviam aj udado o Dr. Beck a escapar. Larry Gandle tinha am igos na polícia. Wu descreveu os hom ens, e a polícia m ostrou os arquivos com fotos de crim inosos. Horas depois, Wu reconheceu a im agem de um brutam ontes cham ado Brutus Cornwall. Os policiais deram alguns telefonem as e descobriram que Brutus trabalhava para um traficante cham ado Ty rese Barton.

Sim ples.

A corrente da porta se soltou. A porta se abriu e Latisha ergueu o olhar, surpresa. Ela ia gritar, m as Wu foi m ais rápido. Ele colocou a m ão sobre sua boca e levou os lábios até seu ouvido. Ele estava acom panhado de outro hom em contratado por Gandle.

– Shhhh – sussurrou Wu quase gentilm ente.

No chão, TJ brincava com seus carrinhos. Ouvindo o barulho, levantou a cabeça e m urm urou:

– Mam ãe?

Eric Wu sorriu para ele. Soltou Latisha e se aj oelhou. Latisha tentou detê-lo, m as o outro hom em a segurou. Wu repousou a enorm e m ão sobre a cabeça do m enino. Acariciou o cabelo de TJ, ao m esm o tem po que perguntou a Latisha:

– Sabe com o posso encontrar Ty rese?

♦ ♦ ♦

Depois que saltei do trem , peguei um táxi até um a locadora de carros. O atendente m e explicou com o chegar à biblioteca. Levei uns três m inutos para chegar lá. A biblioteca de Ridgem ont ficava num prédio m oderno, com tij olos neocoloniais, j anelas panorâm icas, estantes de faia, sacadas e um a cafeteria. No balcão de consultas do segundo andar, encontrei um a bibliotecária e perguntei a ela se podia usar a internet.

– Tem identidade? – ela perguntou.

Eu tinha. Ela olhou o docum ento.

– É preciso ser m orador do m unicípio.

– Por favor – im plorei. – É m uito im portante.

Eu esperava ouvir um “não” inflexível, m as ela cedeu.

– Quanto tem po o senhor acha que vai dem orar?

– Uns m inutinhos.

– Aquele com putador ali – ela apontou para um term inal atrás de m im – é o nosso term inal expresso. Qualquer um pode usá-lo durante 10 m inutos.

Agradeci e corri até o term inal. Fiz um a busca no Yahoo e localizei o site do New Jersey Journal, o principal j ornal dos condados de Bergen e Passaic. Eu sabia a data exata de que precisava: 12 de j aneiro, 12 anos atrás. Encontrei a j anela de pesquisa e digitei a inform ação.

O site tinha apenas os arquivos dos últim os seis anos.

Droga!

Voltei correndo até o balcão da bibliotecária.

– Preciso encontrar um artigo de 12 anos atrás do New Jersey Journal – eu falei.

– Não estava no site da internet?

Neguei com a cabeça.

– Microfilm e – disse ela, apoiando-se na lateral da cadeira para se levantar. – Que m ês?

– Janeiro.

Era um a m ulher robusta, e seu cam inhar foi penoso. Ela encontrou o rolo na gaveta de um arquivo e m e aj udou a inserir a fita na m áquina. Sentei-m e.

– Boa sorte – ela disse.

Mexi no botão com o se fosse o acelerador de um a m otocicleta nova. O m icrofilm e em itiu um som agudo ao passar pelo m ecanism o. A cada poucos segundos, eu parava para ver onde estava. Levei m enos de dois m inutos para encontrar a data certa. O artigo estava na página três.

Assim que vi a m anchete, senti um nó na garganta.

Às vezes eu j urava ouvir o cantar dos pneus, em bora estivesse dorm indo na m inha cam a a m uitos quilôm etros da cena do acidente. Aquilo ainda doía – talvez não tanto quanto a noite em que perdi Elizabeth, m as foi m eu prim eiro encontro com a m orte e a tragédia, e a prim eira vez você nunca esquece. Doze anos depois, ainda m e lem brava dos m ínim os detalhes daquela noite, em bora ela costum e retornar com o um tornado vertiginoso: a cam painha tocando antes de o sol raiar, os policiais de fisionom ia grave à porta, Hoy t j unto com eles, as palavras brandas e cuidadosas, nossa recusa inicial em aceitar a realidade, a lenta com preensão da tragédia, o rosto desesperado de Linda, m inhas próprias lágrim as incessantes, m inha m ãe ainda não aceitando, tentando m e acalm ar, dizendo para eu parar de chorar, sua lucidez j á abalada desm oronando, falando para eu parar de agir com o um bebê, dizendo insistentem ente que tudo ficaria bem , depois subitam ente aproxim ando-se de m im , espantada com o volum e das m inhas lágrim as – lágrim as assim só m esm o no rosto de um bebê, não no de um rapaz crescido com o você –, tocando um a lágrim a, esfregando-a entre o polegar e o indicador – pare de chorar, David! –, ficando zangada porque eu não parava de soluçar, depois gritando para eu parar, até Linda e Hoy t a silenciarem e alguém lhe dar um sedativo, não pela prim eira nem pela últim a vez. Tudo voltou num j orro horrendo. Li o artigo e senti o im pacto atirar-m e em um a direção totalm ente nova:

CARRO DESABA NO BARRANCO

Um morto, causa desconhecida

Ontem, por volta das três da madrugada, um Ford Taurus conduzido por Stephen Beck, de

Green River, Nova Jersey, caiu de uma ponte em Mahwah, perto da divisa com o estado de

Nova York. A pista estava escorregadia por causa de uma tempestade de neve, mas as

autoridades ainda não descobriram a causa do acidente. A única testemunha do ocorrido,

Melvin Bartola, um motorista de caminhão de Cheyenne, Wyoming…

Parei de ler. Suicídio ou acidente, as pessoas se perguntavam . Agora eu sabia que não era nenhum dos dois.

♦ ♦ ♦

– O que há de errado? – perguntou Brutus.

– Sei lá, cara. – Depois, pensando a respeito, Ty rese acrescentou: – Eu não quero voltar.

Brutus não respondeu. Ty rese observou seu velho am igo. Eles haviam se conhecido na terceira série da escola. Naquela época, Brutus era tão calado com o agora. Provavelm ente ocupado dem ais apanhando duas vezes por dia – em casa e na escola –, até descobrir que a única m aneira de sobreviver era tornar-se o pior filho da puta do quarteirão. Aos 11 anos, passou a ir à escola arm ado. Aos 14, m atou pela prim eira vez.

– Você não está cansado disso, Brutus?

Brutus deu de om bros.

– Sabem os dem ais.

A verdade j azia ali, pesada, im óvel, determ inada.

O telefone celular de Ty rese tocou. Ele atendeu e disse:

– Oi.

– Alô, Ty rese.

Ty rese não reconheceu a voz estranha.

– Quem é?

– Nós nos conhecem os ontem . Num a cam inhonete branca.

O sangue de Ty rese gelou. Bruce Lee, ele pensou. Cacete.

– O que você quer?

– Tem alguém aqui que quer m andar um oi.

Houve um breve silêncio, e em seguida TJ balbuciou:

– Papai?

Ty rese arrancou os óculos escuros. Seu corpo enrij eceu.

– TJ? Você está bem ?

Mas Eric Wu estava de volta à linha.

– Estam os atrás do Dr. Beck, Ty rese. TJ e eu esperam os que você nos aj ude a encontrá-lo.

– Não sei onde ele está.

– Que pena.

– Juro por Deus, eu não sei.

– Entendo – disse Wu. Em seguida: – Aguarde um m om ento, Ty rese. Quero que você ouça um a coisa.