Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 24 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 23

23

A CHAMADA DE EMERGÊNCIA EM m eu bipe envolvia TJ. Ele arranhara o braço num portal, em casa. Para a m aioria das crianças, o pior que podia acontecer era ter de passar um rem édio que ardesse; para TJ, aquilo significava um a noite no hospital. Quando cheguei lá, ele j á estava conectado a um dispositivo intravenoso. A hem ofilia é tratada m inistrando produtos derivados de sangue, com o plasm a crioprecipitado ou congelado. Mandei a enferm eira iniciar im ediatam ente o procedim ento.

Com o j á m encionei, conheci Ty rese seis anos antes, quando ele estava algem ado e gritava palavrões. Um a hora antes, ele trouxera correndo seu filho TJ, então com 9 m eses, para a sala de em ergência. Eu estava ali, m as não cuidava das doenças agudas. O m édico com petente tratou de TJ.

TJ estava apático e letárgico. Sua respiração era fraca. Ty rese, que agira, segundo o boletim , de m aneira instável (com o é que um pai que traz correndo um filho para um a sala de em ergência deveria agir?), inform ou ao m édico com petente que o m enino vinha piorando o dia inteiro. O m édico deu um a olhada sutil para a enferm eira. Ela fez que sim com a cabeça e foi dar um telefonem a. Mera precaução.

Um exam e fundoscópico revelou que o bebê tinha hem orragias intraoculares – ou sej a, os vasos sanguíneos no fundo dos dois olhos haviam -se rom pido. Quando o m édico j untou as peças do quebra-cabeça – sangram ento intraocular, forte letargia e, bem , o pai –, form ulou o diagnóstico.

Síndrom e do bebê sacudido.

Seguranças arm ados chegaram com força total. Eles algem aram Ty rese, e foi aí que ouvi os palavrões. Fui até lá ver o que estava acontecendo. Dois m em bros uniform izados da polícia de Nova York chegaram . Duas m ulheres do Juizado de Menores tam bém . Ty rese tentou se defender. Todos olhavam para ele com cara de reprovação.

Eu testem unhara cenas com o aquela dezenas de vezes no hospital. Na verdade, eu havia visto coisas ainda piores. Tratei m eninas de 3 anos com doenças venéreas. Certa vez fiz um teste de estupro num m enino de 4 anos com hem orragia interna. Em am bos os casos – e em todos os casos sem elhantes de abuso sexual que tratei –, o culpado era um m em bro da fam ília ou o nam orado m ais recente da m ãe.

O Hom em Mau não está espreitando crianças nos parques infantis. Ele m ora na casa delas.

Eu tam bém sabia – e essa estatística nunca deixava de m e im pressionar – que m ais de 95 por cento dos ferim entos intracranianos graves nas crianças resultavam de m aus-tratos. Portanto, as probabilidades eram todas a favor de que Ty rese tivesse m altratado o filho.

Na sala de em ergência costum ávam os ouvir todo tipo de desculpas. O bebê caiu do sofá. A porta do forno bateu na cabeça dele. O irm ão m ais velho j ogou um brinquedo nele. Quem trabalha aqui m uito tem po fica m ais cético do que o m ais experiente policial. A verdade é que crianças saudáveis toleram bem esses tipos de golpes acidentais. É m uito raro que, digam os, som ente um a queda do sofá cause um a hem orragia retiniana.

Eu não tive problem a com o diagnóstico de m aus-tratos ao bebê. Não à prim eira vista.

Mas algo na m aneira com o Ty rese se defendia m e pareceu estranho. Não que eu o considerasse inocente. Não estou isento de j ulgam entos sum ários baseados na aparência – ou, para usar um term o politicam ente correto, discrim inação racial. Todos fazem os isso. Se você atravessa a rua para evitar um a gangue de adolescentes negros, está discrim inando racialm ente; se não atravessa a rua porque não quer parecer racista, está discrim inando racialm ente; se vê o grupo e não está nem aí, você é de algum outro planeta que nunca visitei.

O que m e fez parar ali foi a pura dicotom ia. Eu tinha visto um caso assustadoram ente sem elhante durante m eu plantão recente no abastado subúrbio de Short Hills, em Nova Jersey. Um casal branco, am bos im pecavelm ente vestidos e a bordo de um Range Rover superequipado, levara a filha de 6 m eses às pressas para a sala de em ergência. A m enina, o terceiro filho do casal, apresentava os m esm os sintom as de TJ.

Ninguém algem ou o pai.

Portanto, m e aproxim ei de Ty rese. Ele m e encarou com aquela cara de m orador de bairro da periferia. Na rua, aquilo m e intim idaria. Ali, era com o o lobo m au soprando a casinha de tij olos.

– Seu filho nasceu neste hospital? – perguntei.

Ty rese não respondeu.

– Seu filho nasceu aqui, sim ou não?

Ele se acalm ou e respondeu:

– Sim .

– Ele foi circuncidado?

Ty rese voltou a fazer aquela cara de m arginal.

– Você é algum tipo de bicha?

– Quer dizer que há m ais de um tipo? – repliquei. – Ele foi circuncidado aqui, sim ou não?

Relutantem ente, Ty rese respondeu:

– Sim .

Descobri o núm ero de inscrição de TJ na previdência social e o digitei no com putador. Sua ficha apareceu. Verifiquei a circuncisão. Norm al. Mas aí vi outro registro. Aquela não era a prim eira visita de TJ ao hospital. Com duas sem anas de vida, seu pai o trouxera por causa de um sangram ento do cordão um bilical.

Estranho.

Então fizem os alguns exam es de sangue, em bora a polícia insistisse em m anter Ty rese preso. Ele não reclam ou. Queria apenas que os exam es fossem feitos. Tentei apressá-los, m as não tenho poder para burlar a burocracia. Poucos têm . Mesm o assim , pelas am ostras de sangue, o laboratório constatou que o tem po de trom boplastina parcial era prolongado, em bora o tem po de protrom bina e a contagem de plaquetas fossem norm ais. Meio com plicado, m as tenham paciência.

O m elhor – e o pior – foi confirm ado. O m enino não tinha sido vítim a de agressão. A hem ofilia fora a causa das hem orragias retinianas. Ela tam bém deixara o garoto cego.

Os seguranças suspiraram , tiraram as algem as de Ty rese e se afastaram sem proferir um a palavra. Ty rese esfregou os pulsos. Ninguém pediu desculpas nem ofereceu um a palavra de conforto àquele hom em inj ustam ente acusado de agredir o filho agora cego.

Im agine isso num bairro de gente rica. TJ se tornou m eu paciente desde então.

Agora, no quarto do hospital, acariciei a cabeça de TJ e olhei para dentro de seus olhos. As crianças costum am m e olhar com m uito respeito, um m isto de m edo e veneração. Meus colegas acreditam que as crianças possuem um a com preensão m ais profunda que os adultos do que está acontecendo com elas. Acho que a resposta é provavelm ente m ais sim ples. As crianças veem seus pais com o intrépidos e onipotentes. No entanto, no hospital, elas veem seus pais olhando para m im , o m édico, com um a ânsia repleta de m edo, o que lhes parece inteiram ente incom preensível.

O que poderia ser m ais aterrorizante para um a criança pequena? Alguns m inutos depois, os olhos de TJ se fecharam . Ele adorm eceu.

– Ele apenas esbarrou na porta – explicou Ty rese. – Só isso. Ele é cego. Acontece.

– Ele terá de ficar aqui esta noite – disse eu. – Mas vai ficar bem .

– Com o? – Ty rese olhou para m im . – Com o é que ele vai ficar bem se não para de sangrar?

Não tive resposta.

– Preciso tirá-lo daqui.

Não era ao hospital que ele se referia.

Ty rese m eteu a m ão no bolso e tirou um bolo de dinheiro. Eu não estava a fim . Levantei a m ão e disse:

– Voltarei m ais tarde.

– Obrigado por ter vindo, doutor. Fico m uito agradecido.

Tive vontade de lem brar que eu tinha vindo por causa de seu filho, não dele, m as preferi o silêncio.

♦ ♦ ♦

Cuidado, pensou Carlson, enquanto sua pulsação acelerava.

Sej a cuidadoso.

Os quatro – Carlson, Stone, Krinsky e Dim onte – estavam sentados à m esa de reunião com o prom otor público Lance Fein. Fein, um hom em ardiloso e am bicioso, com sobrancelhas ondulantes e um rosto tão branco que parecia feito de cera e dava a im pressão de que derreteria se exposto ao calor, fazia um a cara de anim al selvagem .

Dim onte disse:

– Vam os m eter esse cara em cana.

– Expliquem todos os detalhes – pediu Lance Fein –, de tal m odo que nem o Alan Dershowitz queira defendê-lo.

Dim onte fez um sinal para o seu com panheiro com a cabeça.

– Vai fundo, Krinsky . Deixe-m e excitado!

Krinsky apanhou seu bloco de notas e com eçou a ler:

– Rebecca Schay es foi atingida duas vezes à queim a-roupa na cabeça por um a pistola autom ática 9 m ilím etros. Sob um m andado de busca federal, um a pistola 9 m ilím etros foi encontrada na garagem do Dr. David Beck.

– Encontraram im pressões digitais na pistola? – perguntou Fein.

– Não. Mas um exam e de balística confirm ou que a pistola encontrada na garagem do Dr. Beck é a arm a do crim e.

Dim onte sorriu e ergueu as sobrancelhas.

– Alguém ainda duvida de que foi ele?

Fein franziu as sobrancelhas e depois as relaxou.

– Por favor, continue – ele disse.

– Sob o m esm o m andado de busca federal, um par de luvas de látex foi encontrado em um a lata de lixo na residência do Dr. David Beck. Resíduos de pólvora foram detectados na luva direita. O Dr. Beck é destro.

Dim onte levantou as botas de pele de cobra e m anobrou o palito na boca.

– Vai, continua. Estou gostando da história.

Fein franziu a testa. Krinsky, sem desgrudar os olhos do bloco, um edeceu um dedo com saliva e virou a página.

– Na m esm a luva de látex, o laboratório descobriu um fio de cabelo com cor idêntica à dos cabelos de Rebecca Schay es.

– Meu Deus! Meu Deus! – Dim onte com eçou a gritar com falso entusiasm o. Ou talvez fosse verdadeiro.

– Um teste de DNA conclusivo levará m ais tem po – prosseguiu Krinsky. – Além disso, im pressões digitais pertencentes ao Dr. David Beck foram encontradas na cena do crim e, em bora não na câm ara escura, onde acharam o corpo.

Krinsky fechou o bloco de notas. Todos os olhares se voltaram para Lance Fein.

Fein se levantou e esfregou o queixo. Apesar do com portam ento de Dim onte, todos tinham o m esm o entusiasm o. Sentia-se no ar aquele clim a que antecede a captura de um crim inoso, aquela euforia inebriante que surge com os casos realm ente abom ináveis. Haveria entrevistas coletivas à im prensa, telefonem as de políticos e retratos nos j ornais.

Som ente Nick Carlson perm anecia m eio apreensivo. Ele não parava de torcer e endireitar um clipe. Algum a coisa m uito estranha estava acontecendo. Em prim eiro lugar, havia os dispositivos de escuta na casa de Beck. Alguém vinha ouvindo suas conversas. E seu telefone tam bém estava gram peado. Ninguém parecia saber o m otivo ou se im portar com isso.

– Lance? – Era Dim onte.

Lance Fein pigarreou e perguntou:

– Sabe onde o Dr. Beck está neste instante?

– Em sua clínica – respondeu Dim onte. – Mandei dois policiais ficarem de olho nele.

Fein balançou a cabeça afirm ativam ente.

– Vam os, Lance – disse Dim onte. – Deixe-m e prendê-lo.

– Prim eiro vam os avisar à senhorita Crim stein – disse Fein. – Com o um a cortesia.

♦ ♦ ♦

Shauna contou quase tudo a Linda. Só deixou de fora a parte em que Beck “viu” Elizabeth no com putador. Não porque não desse crédito àquela história. Ela havia provado que aquilo era um a fraude digital. Mas Beck havia sido firm e. Não conte a ninguém . Ela não gostava de ter segredos para Linda, m as aquilo era preferível a trair a confiança de Beck.

Linda ficou o tem po todo observando os olhos de Shauna. Ela não balançou a cabeça, nem falou, nem sequer se m exeu. Quando Shauna term inou, Linda perguntou:

– Você viu as fotos?

– Não.

– Onde foi que a polícia as conseguiu?

– Não sei.

Linda se levantou.

– David seria incapaz de agredir Elizabeth.

– Eu sei.

Linda abraçou o próprio corpo. Ela com eçou a respirar fundo.

Seu rosto em palideceu.

– Você está bem ? – perguntou Shauna.

– O que você está escondendo de m im ?

– O que a faz pensar que estou escondendo algum a coisa?

Linda ficou olhando para Shauna.

– Pergunte ao seu irm ão – disse Shauna.

– Por quê?

– Não cabe a m im contar.

O interfone tocou novam ente. Desta vez, Shauna atendeu.

– Sim ?

– É Hester Crim stein – respondeu a voz no interfone.

Shauna apertou o botão que abria a porta. Dois m inutos depois, Hester entrou esbaforida na sala.

– Conhecem um a fotógrafa cham ada Rebecca Schay es?

– Claro – respondeu Shauna. – Quer dizer, não a vej o há m uito tem po.

– Faz m uitos anos – concordou Linda. – Ela e Elizabeth dividiram um apartam ento no centro. Por quê?

– Ela foi assassinada na noite passada – inform ou Hester. – A polícia acha que foi Beck quem a m atou.

As duas m ulheres congelaram . Shauna se recuperou prim eiro.

– Mas eu estive com Beck na noite passada – disse. – Na casa dele.

– Até que horas?

– Até que horas você precisa?

Hester fez um a cara séria.

– Não brinque com igo, Shauna. A que horas você saiu da casa dele?

– Dez, dez e m eia. Ela foi m orta a que horas?

– Não sei ainda. Mas tenho um a fonte na polícia. Ela revelou que eles têm provas sólidas contra ele.

– Im possível.

Um telefone celular soou. Hester Crim stein atendeu.

– O quê?

A pessoa do outro lado falou por um tem po que pareceu bem longo. Hester ouviu em silêncio. Seu sem blante com eçou a adquirir um ar de derrota. Alguns m inutos depois, sem dizer até logo, ela desligou o telefone com um m ovim ento brusco.

– Um a cham ada de cortesia – m urm urou ela.

– O quê?

– Eles vão prender o seu irm ão. Tem os um a hora para entregá-lo às autoridades.