Não Olhe!
Capítulo 9
A gigantesca muralha ocultava uma visão surreal: os destroços de uma cidade há muito abandonada surgiam bem à nossa frente.
— Cerquem-me — ordenou um Max de semblante restaurado aos seus homens. Ele limpou o sangue do meu rosto e jogou o capuz da manta sobre minha cabeça. Nosso cavalo foi caminhando sob a escolta de uma dezena de outros. — Não encare ninguém diretamente nos olhos — sussurrou ele com voz ameaçadora. — A não ser que deseje piorar as coisas para o seu lado.
Apesar de achar improvável alguma piora na condição em que me encontrava, assenti e mantive-me reta, olhando apenas para frente. Apesar de o céu continuar cinzento, Storm não era um ambiente escuro como Thron. Pelo pouco que deu para ver, parecia um grande círculo com outro círculo menor em seu centro. O círculo maior era assustador. As centenas, talvez milhares, de pessoas que ali habitavam pareciam desprovidas de tudo. Contrariando a ordem de Max, acabei observando-as com avidez. O olhar de revolta estampado em suas faces me fez recordar minha entrada em Thron. Será que todos os clãs eram cercados por essa gente maltrapilha e ameaçadora? Era deles que Richard falava quando disse que a população de Zyrk era constituída, na sua maioria, de pessoas imprestáveis? Suas fisionomias, apesar de variadas, tinham todas elas traços negativos que variavam do medo, passando pela desconfiança, até chegar ao ódio. Em nenhuma delas identifiquei qualquer vestígio de alegria, satisfação, ou, ao menos, interesse. Suas rudimentares habitações eram feitas de pedaços de pedras, ripas de madeira e couro, amontoando-se umas às outras, como uma grande construção desordenada, quase uma favela.
— Água! Arranjem-nos água! — vozes aflitas nos alcançavam. Eram muitos e a guarda armada de Storm tinha dificuldade de afastá-los.
— Saiam logo daqui! — ordenou o chefe dos soldados para o nosso grupo.
— Vamos! — berrou Max.
Deixamos o tumulto para trás e cavalgamos em direção ao círculo menor. Deparamo-nos com outro enorme portão de bronze e muros constituídos do mesmo tipo de pedra que o primeiro. Esta entrada era vigiada por uma guarda fortemente armada.
— Os demais ficam! — declarou firmemente o chefe da guarda.
Max acenou com a cabeça para os seus. Permitiram apenas que eu, ele e os rapazes que apoiavam John e carregavam Tom entrássemos. Em poucos passos havíamos saído da água e mergulhado no vinho, tamanha a discrepância entre o círculo maior — abarrotado de miséria, de pessoas maltrapilhas e semblantes atormentados — e o círculo menor, a ostentação da riqueza e da opulência. O pátio que ladeava a construção principal era limpo, bem cuidado e dividido em setores. As pessoas que ali trabalhavam eram bonitas, bem trajadas e tinham semblantes que — eu ainda não sabia bem por quê — variavam do estupefato ao curioso. Ao centro dispunha-se um imponente palácio feito inteiramente de mármore. Sua estrutura era retilínea e sustentada por numerosas colunas semelhantes às do Império Romano. Cravejadas de ouro e prata, as paredes refletiam no lustroso piso branco de mármore, proporcionando suntuosidade ao lugar. Seu portão principal estava aberto. De colossal tamanho, era feito de um metal acobreado. Nele destacavam-se esculturas em alto relevo de guerreiros numa batalha contra um monstro deformado. Quando meus olhos encontraram o interior do palácio, ficou claro que o portal era apenas uma pequena amostra de todo o luxo e esplendor que estava por vir.
O gigantesco átrio me fez perder a respiração tamanha sua magnificência. O chão continuava de mármore branco, só que agora apresentava desenhos de serpentes em ouro margeando a comprida passarela de veludo vermelho. De perfil, cada serpente tinha cravejada uma esmeralda em sua cabeça, fazendo papel de sua pupila. Longilínea, é claro. Assim como a minha. Assim como a de todos ali. As colunas de ouro e prata nos ladeavam, deixando a câmara central completamente aberta. O teto era colorido e preenchido com figuras de anjos, deuses, serpentes, bestas e pássaros numa maravilhosa confusão de imagens. Tudo ali nos tirava o fôlego. Talvez esta fosse a real intenção, como sinal de reverência à figura que se destacava sobre o altar-mor, iluminado por dezenas de velas provenientes de um imenso candelabro de cristal. O trono era talhado em ouro, onde duas serpentes, também feitas de ouro, subiam de seus pés e terminavam em um beijo acima do seu encosto. As esmeraldas dos olhos tinham sido substituídas por cintilantes rubis. Um senhor nos aguardava sob a escolta de uma guarda particular.
— Vossa Majestade, nós...
Vossa Majestade? Aquele era... Kaller! Antes mesmo de que Max completasse a frase, o líder já caminhava a passos largos em nossa direção.
— Esse sangue? John? — indagou Kaller preocupado. Ele aparentava uns cinquenta e poucos anos e, apesar da idade, não tinha um único fio branco em sua cabeleira ruiva.
— Acalme-se, senhor — disse Max ao vê-lo examinar o filho. Após um breve momento, o líder pareceu soltar o ar aliviado.
— Eu estou bem, pai. Esse sangue não é meu — acrescentou John visivelmente abatido.
— Levem John e Tom para a enfermaria. Eles precisam de cuidados — comandou aos soldados. — Estou novamente em dívida com você, Max. — Seu semblante instantaneamente se modificou.
— Fico feliz, meu senhor — relaxou Max.
— Como aconteceu?
— Sorte, senhor. Tudo aconteceu em uma região próxima ao portal de Marmon. Nós arrancamos a híbrida das mãos de Richard de Thron. O louco teve a audácia de entrar em Zyrk sozinho com ela. Estava pedindo pra ser roubado, não é?
O quê? Max me capturou das mãos de Richard? Que loucura era essa agora? Eu permanecia desorientada, mas tinha certeza de que uma tramoia das grandes estava se desenrolando bem na minha frente. Quem estava mentindo? Quem estava enganando quem?
— Eu sei que uma híbrida vale muito, mas com quem poderia negociá-la? — acrescentou Max com as sobrancelhas arqueadas. — Que reino aceitaria fazer esse tipo de negociação com mercenários e não tentaria nos eliminar no final?
Kaller soltou uma gargalhada.
— Como disse, meu senhor, a sorte estava do meu lado. Em seguida nos deparamos com um homem de Storm que estava gravemente ferido. Parecia estar fugindo de um confronto ou coisa do tipo. — Max exibia um sorriso cheio de malícia. — Vossa Majestade sabe como adoro uma confusãozinha...
— Este homem tinha nome?
— Era um nome diferente. Yvory, ou será Yvy, ou... — soletrou confuso.
— Seria Yly? — perguntou o rei roçando a barba ruiva entre os dedos.
— Isto mesmo! Yly!
“Yly”? Eu me recordava daquele covarde que abandonara John do Saara, antes da minha passagem para Zyrk.
— Ele era nosso homem — suspirou o líder. — Do que ele fugia?
— Ele nos contou que praticamente todo o grupo de Storm havia sido dizimado por homens de Collin em um deserto da segunda dimensão. Disse que só havia restado ele, John e Tom.
Max falava a verdade, mas por que não contava a versão completa dos fatos? Por que escondia de Kaller a minha estada em Thron? Era óbvio: eu fora arremessada em um jogo de trapaceadores, em uma aposta em que várias cartas tinham sido sorrateiramente removidas do baralho. O que talvez eles não soubessem era que isso pouco importava agora. Eu ia entrar no jogo e também sabia blefar.
— Quando o infeliz disse que era John quem estava lá, percebi que eu havia arranjado o comprador perfeito para esta mercadoria tão valiosa — mordiscou o lábio inferior. — Eu ganharia duas vezes: negociaria a híbrida e o resgate de John, seu filho.
— Como pode estar tão certo de que eu não vou mandar aniquilar seu grupo assim que saiam daqui, Max?
Max se enrijeceu por um momento.
— Faz muito tempo, mas acredito que o senhor não se esqueceu da sua dívida de sangue. — Abriu um sorriso presunçoso, mas vi uma veia latejar em sua calva. — Sem contar que sua honestidade é famosa em Zyrk, senhor. Como o senhor vê, sei escolher meus adversários.
— Quanto quer por ela e John?
— Dez mil moedas de ouro.
— O quê? — indagou Kaller. — Dou-lhe cinco mil moedas.
— Sete mil e quinhentas — barganhou Max.
— Negócio fechado! — determinou Kaller e, arqueando a sobrancelha ruiva, acrescentou em tom amistoso: — Eu teria pago as dez mil moedas, homem.
— Eu teria aceito as cinco mil, meu senhor — rebateu Max e os dois gargalharam.
— Stuart? — chamou o rei.
— Sim, Majestade?
— Eles têm permissão para descansar esta noite aqui. Dê a ele e aos seus homens o que comer, banho e aposentos.
— Obrigado — soltou Max aliviado.
— Quero que me passe todos os detalhes mais tarde. Mas, por ora, vá e deixe a garota aqui — concluiu Kaller, olhando-me admirado. — E, Max? — interrompeu o rei.
— Pois não, senhor?
— Por que continua neste tipo de vida? A idade chega e fica cada vez mais perigoso, homem.
— É verdade, mas não saberia viver de outra forma. Está na minha essência, meu senhor.
— Pois não conte mais comigo a partir de agora. Não lhe devo mais nada.
— Sim, Majestade. — Max se curvou, acenou para mim e se retirou.
Olhando-me dos pés à cabeça, Kaller se aproximou com uma calma irritante.
— Sente fome? — perguntou.
Assenti com a cabeça.
— Então venha.
Segui Kaller até o amplo refeitório. O lugar era claro e suntuoso, com seu piso de mármore bege, uma enorme mesa de mármore branco e cadeiras de metal, cravejadas de ouro e prata. Uma toalha de seda bege e impecavelmente limpa cobria a mesa e dava leveza ao ambiente. As janelas eram finas e compridas, e as paredes adornadas por mosaicos coloridos de orquídeas e compotas de frutas. Kaller sentou-se e eu me acomodei em uma cadeira à sua frente. Senti alívio imediato e minha boca começou a salivar ao ver a comida à minha frente. Não eram bichos semicrus como em Thron. Ao contrário, um carneiro assado, compotas de arroz e lentilha, batatas coradas entre outras apetitosas iguarias dispunham-se lindamente arrumadas entre pêssegos, tâmaras e peras.
— Coma. Deve estar faminta.
Faminta era pouco! Minha fome tinha proporções tão gigantescas quanto tudo por ali. Há tanto tempo não comia uma refeição decente!
— Está melhor agora? Podemos conversar? — perguntou ele depois de algum tempo me observando comer. — Você fala? — ameaçou uma piadinha. — Ainda não ouvi a sua voz. Qual o seu nome?
— Nina.
— Nina, não sou de rodeios, vou direto ao assunto.
— Prefiro assim.
— Não sei se os rapazes lhe explicaram o motivo do nosso interesse em você.
— Parcialmente.
— O que você sabe?
— Que você planeja fazer experiências comigo.
Primeiro os olhos dele se arregalaram e, em seguida, ele soltou uma gargalhada estrondosa. Tive a impressão de que os vidros das janelas chegaram a tremer.
— Experiências?! Gostei do termo!
Ao menos o líder tinha bom humor.
— Disseram que você é quase um cientista — acrescentei meio sem graça.
Outra gargalhada.
— Bem, sou um homem curioso com relação a muitos assuntos...
Não gostei daquela resposta. Quais seriam os assuntos pelos quais nutria curiosidade? Híbridas, por acaso?
— Muitos me criticam por isso — explicou, tamborilando os dedos na mesa e fazendo destacar em seu pulso um bracelete cinza-claro com o desenho em alto relevo de um raio atravessando uma nuvem.
— Criticam você por ser curioso?
Ele fez um movimento estranho com os lábios.
— Porque eu acredito na lenda — explicou e se empertigou na cadeira. — Porque ainda tenho fé em Tyron, a divindade que há muitos anos nos baniu do Intermediário.
— Em que parte da lenda você acredita?
— Na parte que deixava claro que era necessário o surgimento do bom sentimento, para que a maldição acabasse. Os magos da Antiguidade distorceram esta lenda. Afirmaram que, se um dia alguém surgisse, como você surgiu, do amor de um dos nossos por um dos seus, esta criatura deveria ser imediatamente destruída, pois sua existência seria uma grande ameaça para a nossa espécie, pois traria a destruição para a nossa dimensão. Era uma época nebulosa.
— E agora?
— Quando soubemos da sua existência, percebemos que havíamos compreendido mal o que a lenda dizia. Diversos magos atuais foram consultados e tudo o que conseguiram explicar era que você seria apenas uma peça deste quebra-cabeça e não a única peça.
— Então, por que vocês ainda querem me matar?
— Porque muitos dos nossos ainda acreditam que você será a nossa destruição.
Perdi o raciocínio e as palavras. Kaller se adiantou:
— Caso a profecia viesse a se concretizar, Zyrk deixaria de existir. Tyron nos perdoaria e nos livraria desta vida miserável. A segunda dimensão seria a única entre o Plano e o Vértice.
— Vocês morreriam? — franzi a testa, desconfiada.
— Não sei. Ninguém sabe. E este é o grande mistério — suspirou.
— Leila disse que um milagre estava em via de acontecer... Então era este o milagre? Puf! Acabar e pronto? — indaguei com um mal-estar crescendo em meu estômago.
— Não chame isto de acabar, Nina. Não compreende? É a remissão dos nossos pecados — arfou. — Nós somos seres amaldiçoados. É por isso que não sentimos as emoções positivas e as espetaculares sensações que vocês, humanos, podem experimentar. É por isso que habitamos essa dimensão miserável e vivemos apenas para tirar vidas, dia após dia.
— Mas, eu não entendo...
— Nós seremos perdoados, garota! Para aqueles que acreditam, esta é a recompensa. — Kaller me interrompeu. — Infelizmente esse não é o pensamento da grande maioria, porque uma crença, depois de muitos anos, acaba fincando raízes profundas e se torna realidade em nossas mentes — ele hesitou e, roçando a garganta, acrescentou: — E, para piorar, ainda temos que levar em conta a profecia do Portal Pentagonal.
— O quê?
— É o único portal que dá acesso ao Vértice. — Vendo minha fisionomia estupefata, explicou: — Existem quatro portais de comunicação entre as nossas dimensões, mas eles comunicam somente a segunda com a terceira dimensão. No entanto, o quinto portal, vulgarmente chamado por nós de Pentagonal, só existe aqui em Zyrk e é a única comunicação possível com o Vértice. Seu nome verdadeiro é Chawmin e possui duas vertentes, uma de entrada e outra de saída.
— Duas vertentes?
— Sim. Ou duas portas, melhor dizendo. Uma para entrar e outra para sair do Vértice. — Estreitou os lábios e arqueou ambas as sobrancelhas. — Graças a Tyron, apenas uma destas portas encontra-se aberta. A outra permanece fechada há milênios.
— A de retorno?
— Exato. A vertente fechada é aquela que não permite que as almas que condenamos ao Vértice retornem. Por ela, todo o horror do Vértice chegaria a Zyrk e daí para alcançarem a sua dimensão seria questão de horas — acrescentou ele.
— Por que vocês não a destruíram então?
— Perdemos a conta do número de vezes que tentamos — soltou abatido. — Já fizemos de tudo, mas nada. Chawmin tem algum tipo força, alguma magia ou maldição. É simplesmente indestrutível — murmurou. — Reza a lenda que somente um híbrido teria poder de abrir tal vertente. Desta forma, ele permitiria a comunicação do Vértice com a terceira dimensão e, logo, com a segunda dimensão. Seria a catástrofe total, o Apocalipse.
Perdi a cor e estava difícil encontrar oxigênio no ar. O “Apocalipse” aconteceria por minha causa?
— Não vale a pena pensarmos em algo que não acontecerá, não é mesmo? — Ele se levantou rapidamente ao ver meu estado catatônico. — Plantamos falsas pistas por todos os possíveis caminhos. Ninguém sabe que você está aqui conosco. Lembre-se de que você foi pega por um grupo de mercenários. Neste momento, você poderia estar em qualquer lugar, inclusive morta — assinalou e me estendeu a mão. — Venha! Vou lhe mostrar sua nova moradia.
— Moradia?! — engoli em seco. — Depois que me estudar, não vai me deixar voltar para a minha dimensão?
— Impossível.
— Eu não vou passar o resto de minha vida aqui! — guinchei.
— Eu não sei o quanto resta de sua vida, garota! Não fosse pelos meus homens, você já estaria morta — rebateu ele de forma rude. — Não sabemos ainda qual a sua data de partida e o quanto você poderia resistir. — Kaller mudou a entonação ao ver meu estado perturbado e, após respirar profundamente, explicou de forma cadenciada: — Quero que entenda que você não sobreviveria nem vinte e quatro horas caso eu a libertasse. Seria eliminada assim que retornasse à sua dimensão. Talvez até antes disso — arfou. — Aceite os fatos, Nina. É o melhor para você. — Ele tocou no pingente do meu colar. — Não deixe que a morte de sua mãe tenha sido em vão. Se você sobreviveu por todo este tempo, é porque deve haver um bom motivo — concluiu e, no instante seguinte, pôs-se de pé.
— Eu preciso de respostas — reclamei entredentes, encarando-o firmemente pela primeira vez.
— Neste momento você precisa descansar, híbrida — respondeu ele com um sorriso frio, e eu fechei a cara. — Você terá suas respostas amanhã. Só não sei se ficará feliz em obtê-las.