Não Olhe!
Capítulo 2
— Abram o portão!
Fui acordada por um comando incisivo, mas era muito difícil processar o que acontecia. As imagens permaneciam borradas, as falas interrompidas e meu raciocínio fragmentado.
— É Rick, abram! — acatou uma voz distante.
Um rangido estrondoso ecoou, como se pesadas barras de ferro estivessem se chocando umas com as outras. Inúmeras vozes inundaram o ambiente. Quase um tumulto.
— Onde estou? — balbuciei em estado letárgico. Devia ser quase noite.
— Shh! Você tinha que acordar logo agora? Fique quieta — reclamou ele, cobrindo meu rosto com uma manta e me apertando ainda mais contra seu peito.
Senti o familiar calafrio se espalhando por minha pele e a fraqueza aumentar. O pano se deslocou ligeiramente, deixando um de meus olhos a descoberto. Pude ver que estávamos sobre um cavalo e atravessávamos portões de ferro que davam acesso a uma enorme muralha de rochas negras. Na muralha, uma fenda se abria para as entranhas de uma montanha, uma câmara tão ampla que era impossível enxergar seus limites. Para onde Richard estava me levando? Por quanto tempo fiquei desacordada? Meu queixo quase despencou quando vi de onde vinha a ínfima claridade que atingia o local: de uma abertura em formato esférico bem no topo daquela montanha negra. Minha nossa! Estávamos no interior de um vulcão adormecido. Seria possível? Existiriam vulcões extintos no deserto do Saara? Tudo ao meu redor não era apenas negro, era sombrio. Ambiente nada receptivo. Pessoas com fisionomias hostis.
— Richard está sozinho! — Um grito ecoou na penumbra.
— Ele está trazendo uma mercadoria diferente — berrou um homem de aparência ruim.
— Abram caminho — ordenou Richard, forçando o animal pela multidão de mendigos.
— Deixe-me ver o que você traz consigo, resgatador — instigou uma mulher maltrapilha que se aproximava de nós. Havia vestígios de sangue em seu rosto sujo.
— Afaste-se! — rosnou Richard e vi um músculo estremecer em sua mandíbula, mas a mulher pouco lhe deu atenção. Ela parecia uma espécie de líder e uma multidão agitada vinha atrás dela.
— Por que não quer que nos aproximemos da sua prisioneira? — bradou a mendiga com aparência maligna enquanto fazia sinal para que os demais nos cercassem. — Por Tyron, é ela! — soltou estupefata.
— Desapareçam! — O comando de Richard saiu frio e forte como o aço, perigosamente calmo.
— Pelo visto já foi enfeitiçado. Deve ser enlouquecedora a sensação que uma híbrida pode dar, não? — a mulher continuava a desafiá-lo.
Como ela sabia?
O corpo de Richard enrijeceu imediatamente ao som da palavra “híbrida”.
— Vou querer sentir também — acrescentou o homem mal encarado ao lado dela.
— Quem tocar um dedo nela morre — advertiu Richard com os dentes cerrados. — Não vou avisar novamente. Saiam da minha frente — ameaçou feroz, empinando o cavalo negro nas patas traseiras.
— Onde estão os outros, Richard? — A mendiga tinha um sorriso diabólico. — Ah! Entendi... — soltou uma gargalhada artificial e comandou: — Peguem-na!
Dois homens precipitaram-se em nossa direção.
Senti um puxão em minha perna, seguido de um solavanco.
— Arrr! — Richard urrou, quando, como num passe de mágica, um punhal e uma espada surgiram em suas mãos. Nosso cavalo girou e desatou a lançar coices no ar. Quando o animal recolocou as patas dianteiras de volta ao chão, finalmente compreendi o que acabara de acontecer: mortes. A velocidade com que Richard eliminou os pobres coitados foi assustadora não apenas para mim como para todos ali. Um deles caiu morto, com o punhal cravado no crânio antes mesmo de ameaçar pular sobre nós. O outro chegou a agarrar uma de minhas pernas, mas sua cabeça tombou antes do próprio corpo. Richard o decapitou num piscar de olhos.
— Desapareçam antes que eu mate a todos, seus vermes! — vociferou Richard encarando a mulher. — E vou começar por você.
A mulher o enfrentou com o olhar, mas não arriscou. Ameaçada, levantou a mão direita e fez uma espécie de código com os dedos. Foi o suficiente para a multidão de mendigos se afastar e abrir passagem para nós. Com a espada em punho, Richard saiu galopando acelerado por um caminho esculpido nas rochas negras. Uma imponente construção surgiu após cavalgarmos por uma área que parecia abandonada há muito tempo. Aquelas formações rochosas escurecidas mais faziam lembrar um palácio consumido pelo fogo. Um palácio negro. Seus altos muros eram resguardados por um exército em prontidão, mas não houve problemas com a nossa aproximação. Os enormes portões se abriram sem a necessidade de qualquer tipo de comando ou negociação. Aguardavam por nós.
— Agora você vai saber quem realmente sou e tenho o pressentimento de que não vai gostar, Tesouro — confessou com o olhar ardente. Suas pedras azuis-turquesa chegaram a me queimar. Eu estava zonza demais, fraca demais para entender ou reagir. — Bem-vinda ao meu mundo.
Seu mundo? O que ele queria dizer com aquilo? Quem é você afinal, Richard?
— Abram caminho! É Richard! — anunciou eufórico um homem lá do passadiço. — Ele está com a híbrida!
Quando os portões se fecharam atrás de nós, deparei-me com um dos pátios que cercava o castelo negro. Ele era largo, mas pouco extenso, e cem metros adiante havia um novo muro de pedras escuras, da mesma proporção que o primeiro. No passadiço do segundo muro, pude avistar vários homens sacudindo os braços sem parar. Sem cerimônia, eles lançavam seus gritos de vitória, saudações e urros emocionados no ar. Minha captura seria o motivo de toda aquela alegria? Por que aquele lugar era tão protegido?
— Por Tyron! Você conseguiu! — prestando continência para Richard, soltou alegre um homem armado da cabeça aos pés. Ele vinha à frente de um grupo de rapazes que trajavam roupas pretas semelhante às usadas por guerreiros árabes da Antiguidade.
— Já se esqueceu com quem está falando, homem? — a resposta de Richard saiu cheia de convencimento. Abaixo de mim, podia sentir seus músculos dilatados, como se ele estivesse estufando o peito de satisfação.
— Rick conseguiu! Rick conseguiu! — berrava animado um grupo de adolescentes que vinha correndo em nossa direção. Todos também de preto. — Ganhamos. A híbrida é de Thron!
“Thron”? Que maluquice era aquela? O frio terrível da minha barriga sobia ao pescoço. Meu Deus! Não podia ser! Eu não queria aceitar as evidências, mas uma coisa era certa: o local onde estava era absurdamente inóspito. Mesmo sob a escuridão, era palpável a diferença em relação a tudo que eu já tinha visto na vida. E olha que eu já havia conhecido muito lugar esdrúxulo em minhas andanças pelo mundo com minha errante mãe.
— Avisem a Shakur! — ouvi um grito e, em seguida, o som estridente de cornetas.
Cornetas?
— Você é uma lenda, resgatador! — exaltou um sujeito que se aproximava de nós. Um bracelete preto, igual ao que Richard usava, brilhou em seu pulso.
— Eu sei — a resposta saiu com jeito casual.
Primeira constatação: Richard era convencido.
— Sthepan, mande evacuar a saída leste. Tem sombras demais por lá — comandou Richard ao segundo rapaz.
— É pra já, Rick.
— Liquidem a líder e racionem a comida por trinta dias. Pão e água, duas vezes ao dia. É bom que eles aprendam com quem estão lidando.
— Matar? — o sujeito pareceu titubear.
— Algum problema? — indagou Richard.
Segunda constatação: ele era vingativo.
— Não, Rick — a resposta veio fina.
— Bom. E avise aos outros que, da próxima vez, a represália será muito pior. — Havia ferocidade embutida na sua voz.
— Pode deixar. Eu aviso, Rick. — O sujeito se afastou de cabeça baixa.
— Ora, ora! Já era tempo! — saudou um homem que chegava a cavalo. — Se eu perdesse a aposta, eu ia te caçar, resgatador. Nem que precisasse ir ao Vértice!
— Morris! — respondeu Richard em tom amistoso. — Você nunca perdeu dinheiro comigo. Não seria agora.
— É verdade — afirmou gargalhando o tal do Morris. Ele tinha uma volumosa barba negra e porte atlético. Aliás, todos por ali eram tão fortes que dava a impressão de que passavam a metade do dia em uma academia pegando peso pra valer. Estava explicada a origem dos músculos definidos de Richard. — A galera está em polvorosa, Rick! Shakur mandou liberar a bebida.
— Bebida para todo mundo?
— Isso mesmo. Ele prometeu que apareceria no grande salão caso você trouxesse a híbrida para Thron.
— Shakur aparecer em público? Está de brincadeira comigo? — indagou Richard estupefato.
— É sério. Ele disse que comemoraria esse grande dia. Não sei por qual motivo o pessoal tá mais eufórico: se é pela híbrida, pelo aparecimento de Shakur ou pela liberação da bebida.
Richard soltou uma risada alta: — Não dá para acreditar. Precisamos comemorar então! Estou sedento.
— Só sedento? — O colega arqueou uma das sobrancelhas. — Você está há mais de dois meses fora, homem!
— Faminto também — confessou Richard, abrindo um sorriso cafajeste.
O que ele queria dizer por sedento? E faminto? Será que era o que eu estava pensando? Que vontade de dar um bom soco na cara dele e me mandar dali! Mas ir para onde? E como faria isso se mal conseguia me mexer! Meu inútil corpo simplesmente não respondia a nenhum comando.
— O chefe está impaciente, quer ver a híbrida. — Senti as mãos de Richard me apertando ao som daquela notícia. — Depois a gente farreia, homem.
— Onde ele está?
— Mandei um encarregado avisá-lo da sua chegada. Shakur logo estará no salão principal — respondeu Morris acelerado. —Vá logo! Todos estão loucos para ver a prenda.
“Prenda”? Não conseguia engolir aquela palavra, mas, de repente, me veio à lembrança a ironia de meu próprio destino: eu era uma mercadoria valiosa... no câmbio negro, algo em torno de sete mil moedas de ouro.
O zum-zum-zum da multidão que nos aguardava atravessar o segundo muro era intenso e ficava cada vez mais ensurdecedor à medida que nos aproximávamos. Aglomerando-se na estreita escadaria que dava acesso ao castelo, as pessoas não conseguiam conter a empolgação. Carregando-me em seus braços, Richard desceu do cavalo e, a cada degrau que subíamos, a multidão berrava, emitia sons estranhos, gargalhava, brindava de felicidade. Para minha surpresa, Richard sorria como nunca, desfrutando ao máximo de seu momento de glória. Quando o gigantesco portão de ferro se abriu, além de tonta, quase fiquei surda. Um alvoroço incontrolável pairou sobre nós. Saudações, música estridente, risadas ensandecidas, gritos de excitação ecoaram à nossa volta.
— Sinta-se em casa, Tesouro — discretamente Richard piscou as pupilas para mim e, com a cabeça, apontou para a multidão que nos cercava.
Olhei ao redor e fui acometida por um misto de aturdimento e felicidade. Boquiaberta, procurei uma resposta que explicasse a sensação que me invadia a alma. E ela estava ali. Escancarada! Todos tinham pupilas iguais às minhas! Lagárticas e verticais. Eu era normal ali e não mais uma aberração. Igual a todos.
Meu Deus! Então eu realmente estava em Zyrk? Agora não era apenas a minha musculatura que se encontrava paralisada. Meu cérebro entrara em choque, quase um curto-circuito. De duas, uma: ou eu havia enlouquecido de vez ou realmente estava em outra dimensão.
— Rick! Rick! Rick! Rick! — o coro da multidão o ovacionava.
Ali, Richard era quase um rei: admirado, querido, respeitado. Sem a menor cerimônia, ele abaixou o capuz da minha manta e levantou meu corpo para que todos pudessem me ver, ou melhor, para que todos admirassem a híbrida, o maior de todos os troféus. Idiota! O cretino se sentia um deus e parecia aguardar que todos se ajoelhassem diante dele e o reverenciassem. Sim. Ele tinha razão. Ele era pior do que eu poderia imaginar. Seu convencimento me enojava.
— Rick! Rick! Rick! Rick! — quanto mais eles o saudavam, mais ele me levantava.
Sorridente e exibido, ele caminhava por uma passarela de pedras negras brilhosas em direção a um trono talhado nas mesmas rochas brilhantes. O lugar era escuro, sem janelas e absurdamente claustrofóbico, apesar de amplo e do teto alto. A fumaça liberada das tochas nos nichos talhados nas paredes criava uma atmosfera abafada. Não fosse pela música alta e a animação de seus ocupantes, seria um ambiente lúgubre e assustador.
A silhueta de um homem de porte largo nos aguardava no trono. De longe não consegui visualizar seu rosto, mas, pelo que todos descreviam, aquele devia ser o temido Shakur. Richard sorriu quando viu o líder solicitando que ele apertasse o passo. As pessoas olhavam excitadas para mim e para o líder. Eufóricas, repetiam em uníssono o apelido de Richard, dispensando-lhe sorrisos e tapinhas de saudação e reconhecimento.
— Venha para cá, lindo! — chamou uma voz feminina no meio da multidão. — Estamos sentindo sua falta.
Detestei ouvir aquilo.
Não deu para ver de onde veio a voz, mas Richard parecia saber de quem era porque alargou o sorriso de satisfação.
— Estou com muitas saudades, baby — gritou dengosa outra garota que apareceu rapidamente no meu campo de visão.
— Eu também — Richard respondeu e soltou uma gargalhada alta, mas não parou sua caminhada em direção ao líder. — Diga a Raymond que hoje você será minha.
Baby? Será dele? Ora seu... Deixe de ser ridícula, Nina! A voz da razão ralhava comigo. Afinal, qual a surpresa, hein? O que você achou, sua bobinha? Que ele era um rapaz lindo e casto que estava esperando por você, a donzela encantada, desde os primórdios da humanidade? Se enxerga, garota!
— Negativo! — outra voz feminina rompeu o salão e os rapazes se contorceram de rir. O cheiro da bebida ia longe. — Hoje você é meu, Rick!
— Olá, Galega — disse ele, reduzindo o passo em meio àquela loucura de pessoas alvoroçadas. A garota segurava uma caneca cheia de bebida. Ela era musculosa, loura, e, para o meu desagrado, bonita. — Estou precisando das suas massagens — completou ele com voz de malícia.
Ótimo! Agora tinha a “Galega” também. Eu não conseguia acreditar que eu estava ali, como uma estátua imbecil, bem no meio daquele tiroteio de flertes de segunda categoria.
— É só pagar o pedágio, você sabe — disse a oferecida, mordiscando o lábio inferior.
— Eu sempre pago o que devo — rebateu ele com um sorriso cretino e sedutor. — Venha cá — ordenou e a mulher obedeceu na mesma hora.
Terceira constatação: ele continuava o mandão de sempre.
Aquela conversa apimentada estava me enjoando. Náuseas de raiva e ciúmes. Constatações: 1) zirquinianos não eram tão insensíveis assim; 2) Richard era um mulherengo; 3) Richard não valia nada; e 4) eu continuava insanamente atraída por ele.
— Chegue mais perto — disse ele para a loura em tom lascivo. Ela concordou satisfeita e a multidão foi à loucura. Risadas se ouviram de todos os lados.
O que eles estavam planejando fazer ali em meio àquela gente toda?
— Você está muito abatido — observou ela, aproximando-se lentamente como uma gata exibida. — Vou ter que dobrar o tempo da massagem, baby.
Deu uma vontade louca de enfiar minhas unhas no rosto dela. Tentei esboçar algum movimento, mas não consegui mexer um único músculo sequer. Argh!
— Mais perto — mandou Richard. Sua voz estava leve, sem tensão. — Aqui.
Ela soltou um gemidinho.
— Na minha boca — continuou ele e ela gargalhou.
O quê? Senti um tremor involuntário, só que por dentro.
— A bebida, Galega — explicou com urgência, mas seu tom era brincalhão. — Ponha na minha boca. Estou com as duas mãos ocupadas.
Ah!
— Tenho um jeito melhor — a loura ronronava. Então ela levou a caneca à boca por um momento e, no instante seguinte, vinha ao encontro do rosto dele. Richard sorriu e abriu os lábios sem a menor cerimônia.
O quê? Ela ia usar a própria boca para dar a bebida na boca dele? Os dois iam se beijar ali e agora? E eu no meio? Vadia! Cretino! Senti meu fígado se contorcendo de raiva. Nunca em toda minha vida me senti tão humilhada, tão insignificante! Meu ódio era tanto, que achei que algum órgão acabaria explodindo.
A loura aproximou o rosto e, por um milésimo de segundo (somente um milésimo!) pude perdoá-la. Provavelmente também havia sido hipnotizada por aqueles olhos azuis-turquesa. Quem não seria? Richard continuava com um sorriso torto no rosto e abriu os lábios ainda mais. Safado! A loura eliminou completamente a distância entre eles e os dois lábios se encontraram. Fechei os olhos. Era demais para mim.
— Deixe isso para depois, Richard! — Um rugido rompeu no ar, a Galega se afastou e todos se calaram por um breve momento. Tremi ao escutar a voz do líder.
Novas risadas rasgaram o salão e, com semblante satisfeito, Richard o obedeceu no mesmo instante.
— Depois — sussurrou ele para a loura.
Quando Richard subiu os degraus em direção ao altar, Shakur já nos aguardava de pé. Ele era, de fato, uma figura assustadora. Uma máscara metálica negra ocultava a metade direita do seu rosto e o restante do corpo era completamente coberto por roupas da mesma cor.
— Quietos todos! Parem a música — ordenou Shakur. Apesar do enorme alvoroço, o líder foi obedecido sem a menor contestação. — Deixe-me ver a híbrida.
Carregando-me em seus braços, Richard me levou até ele.
— Seus sinais vitais estão recuperados, mas ela ainda está muito fraca — adiantou-se Richard.
— Eu percebi — rebateu o líder. — Senti um aperto no peito e meu coração pulsar mais forte quando Shakur pousou seus olhos nos meus. Podia jurar que, por uma fração de segundo, vi um discreto trepidar de suas pupilas e um pesar, quase uma tristeza, substituir sua expressão exultante. — Coloque a híbrida aqui. — Ele apontou para um assento de pedra com estofamento bordado em negro e dourado. — E os outros estão...?
— Vivos — respondeu Richard, acomodando-me com cuidado e se afastando sem me olhar.
— Bom — soltou satisfeito o líder. — Você conseguiu.
— Eu disse que conseguiria — relembrou Richard cheio de convencimento. — Eu trouxe a híbrida para Thron, conforme combinamos.
— Você será a lenda de Zyrk, Rick. Daqui a mil anos os zirquinianos ainda falarão de você, o resgatador que trouxe a híbrida para a terceira dimensão! — bradou satisfeito para todos que o ouvissem.
Fato: eu estava mesmo em Zyrk.
— E o nosso trato? — arguiu Richard.
— Trato é trato. — Shakur soltou uma risada diabólica. — Não sou de me surpreender com facilidade, mas você está tão à frente dos demais, que me impressionou, meu jovem. Inclusive na ambição. — E, virando-se para a multidão, anunciou em alto e bom tom: — Guardem esse momento na memória, thronianos! Sintam-se felizes por presenciar o dia mais importante da história de Zyrk! Saúdam Richard de Thron, o maior de todos os guerreiros de Zyrk, o futuro líder deste clã quando eu não mais existir!
Então este era o trato: a híbrida pelo trono de Thron! Richard havia me vendido. De novo. Por mais estranho que pudesse parecer, eu não fiquei decepcionada com aquela descoberta. As atitudes de Richard não me surpreendiam mais.
Antes mesmo de concluir a frase, berros de satisfação, brindes lançados no ar e urros de alegria foram despejados no salão. A multidão foi ao delírio com aquela notícia.
— Salve, Rick! Salve, Rick! — Um senhor comandou os vivas que, logo tomaram proporções tão gigantescas quanto tudo por ali. Richard era mais que querido, ele era idolatrado pelos thronianos. — Rick! Rick! Rick!
Sorrindo de orelha a orelha, Richard não conseguia esconder o contentamento que lhe impregnava a alma. E isto ficou ainda mais evidente com uma atitude de Shakur, que pareceu surpreender não só a ele, mas toda a multidão. Quando Richard se ajoelhou para beijar a mão do líder, Shakur ordenou que ele se levantasse e o puxou para um abraço. Nem mesmo a horripilante máscara negra pôde camuflar o orgulho do líder. Richard, por sua vez, ficou tão pequenino, que pareceu ter encolhido ao tamanho de um menino para caber no abraço do líder. Seu semblante confiante e autoritário foi substituído por um de pura felicidade e subordinação. O brilho em seus olhos confirmava o que era mais do que óbvio: ele tinha mais que respeito por Shakur, ele realmente o admirava. E o afeto parecia recíproco.
— E Collin?— questionou um homem, interrompendo o encanto do momento e o abraço dos dois.
— Eu mesmo darei a notícia a ele. O infeliz vai espernear um bocado. — Shakur olhou para Richard e os dois riram. Como um eco, a risada dos dois se espalhou entre os presentes. Pelo visto, Collin não era muito querido por ali.
— Ele e os demais devem chegar amanhã, no sol do oeste — explicou Richard recuperando a habitual fisionomia marrenta. — Vão precisar de escolta.
— Você não precisou — rebateu o líder. — Tudo bem. Vou providenciar. Agora chega de histórias e vá farrear. Imagino que esteja doido por umas noites de baderna.
— Não sou de ferro, senhor — ele respondeu com meio sorriso.
Shakur repuxou os lábios e assentiu com a cabeça.
— Tranquem as muralhas! À exceção do grupo de Collin, ninguém entra ou sai de Thron até segunda ordem! — trovejou o líder do altar onde estávamos apenas eu, ele e Richard. — Fora os treinamentos, terão folga nos próximos quatro dias. A bebida será liberada por quatro noites! Thron está em festa. Retornem à música e aproveitem!
Gritos enlouquecidos foram emitidos, demonstrando a euforia das pessoas com aquela notícia. Elas já não mais prestavam atenção ao que acontecia no altar e se dispersaram pelo salão.
— Eu sei que você ficou muito tempo longe, mas não exagere — consegui escutar Shakur em uma conversa particular com Richard. Na verdade, mais parecia um pai aconselhando um filho chegado a travessuras. — Da última vez que isso aconteceu, você me deu muito trabalho. Algumas garotas estão assustadas até hoje.
— Vou tentar me controlar. — Havia uma petulância indescritível em seu tom de voz.
Que conversa era aquela? O que aquele louco havia feito com as garotas dali para que ficassem assustadas? Meu ódio e os ciúmes inflaram ainda mais.
— Certo. — Shakur achou graça de alguma coisa. — Precisarei de você dentro de sete dias e o quero cem por cento recuperado. É bom que descanse também e... tudo bem, Rick? — indagou Shakur ao notar que Richard me observava com o olhar indecifrável.
— Ela precisa de cuidados — disse ele.
— Vou mandar levar a híbrida para o aposento ao lado do meu.
— Rick, venha! — gritou uma mulher no meio do salão, mostrando para ele uma caneca cheia de bebida.
— Acho que elas estão com saudades. — Shakur achava graça.
— Preciso ir, senhor — replicou Richard com a fisionomia restaurada e presunçosa. — Senão não conseguirei dar conta de todas.
“Todas”?
— Você merece. E... Rick? — indagou o líder, assim que o cretino alcançou a escadaria em direção à multidão.
— Pois não, meu senhor?
— Como disfarçaram o desaparecimento da híbrida?
— Ora, Shakur, desaparecimento é fato comum na segunda dimensão. Está superpovoada. Os humanos se reproduzem como coelhos — criticou. — Por sinal, precisamos de mais resgatadores. Tivemos muitas baixas e os que restaram estão sobrecarregados.
— O que fizeram com a família da garota?
— Ela não tinha família. Só a mãe. Mas não precisei fazer nada, meu senhor. Quando cheguei, outro já havia dado cabo desta.
Stela! Senti nova onda de dor em meu peito, mas me obriguei a não pensar sobre a perda de minha mãe. Tinha de suportar o que viesse pela frente até conseguir reagrupar minhas forças, meu raciocínio e, principalmente, minha identidade.
O líder meneou a cabeça e fez um gesto para que ele se afastasse.
Alguns serviçais chegaram para me carregar no exato momento em que vi Richard pegar a caneca das mãos da mulher que o chamava e, após entornar todo o conteúdo garganta abaixo, afundar os lábios no pescoço da mesma, avançando pelo decote avantajado do vestido da vadia. Duas outras garotas se aproximaram e, antes que me retirassem dali, eu ainda o vi passando as mãos pela cintura delas, puxando-as para perto dele. Tá na cara que ele não vale nada, Nina. Por que sofre à toa, garota? Já não chega o que ele lhe fez? Meu orgulho mais que ferido, completamente estraçalhado, tentava me alertar. Precisava tomar vergonha na cara e dar atenção a ele.
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— As ervas ajudaram bastante, meu senhor. Agora é só ela dormir — disse uma senhora franzina para Shakur. — Amanhã ela vai estar recuperada e já conseguirá andar e falar. Precisará apenas se alimentar, mas acho que, se eu forçar isso hoje, é capaz de ela vomitar e liberar energia. Se isso acontecer, talvez haja perda da memória recente, quiçá algum dano neurológico.
— É o suficiente por hoje. Bom trabalho, Tori. Pode se retirar — respondeu ele sem parar de me estudar.
— Boa noite, Majestade — disse a mulher, deixando-me a sós com o líder.
A figura amedrontadora de Shakur mexeu comigo de uma forma bem diferente da que eu podia esperar: ela me despertou compaixão e não medo. Tive pena dele. De perto, era possível distinguir aquilo que passava despercebido à distância: uma horrível cicatriz de queimadura avançava do lado direito ocultado pela máscara metálica e atingia uma pequena parte da hemiface esquerda. Estaria todo o lado direito tomado por ela? Seria por isso que ele usava aquele disfarce? Para não assustar ainda mais as pessoas? Teria acontecido o mesmo com seu corpo? Numa fração de segundo, entendi por que ele o mantinha todo coberto.
Shakur se aproximou da cama onde eu estava e senti um arrepio se espalhar por minha pele. Ah, não! O que ele poderia querer comigo?Ameacei me levantar, mas ele segurou meu braço. À diferença dos calafrios que experimentei com vários zirquinianos, o que senti quando Shakur me tocou foi uma espécie de contratura muscular generalizada, uma sensação paralisante, que transpassou meu corpo e não me deixou reagir.
— Shhhh!
Acuada e fraca, fechei os olhos. Quando voltei a abri-los, o líder estava me cobrindo com um cobertor feito de pele de animais, num gesto espantosamente zeloso. Soltou um suspiro pesaroso, afastou-se sem pronunciar uma única palavra e saiu, batendo com força uma porta que dava para o aposento ao lado. A descarga adrenérgica produzida por aquele breve contato com Shakur foi aos poucos se dissipando e sendo substituída por outra reconfortante, como se magicamente meu corpo tivesse recebido uma recarga de energia.
Estranho.