Não Olhe!
Capítulo 6
Aquela discussão com Richard havia me desgastado mais do que eu poderia imaginar. Sentindo-me exausta, aproveitei a escuridão do lugar, afundei na cama e acabei dormindo do jeito que estava. Acordei tossindo, com o som de música e berros animados. Era bom despertar sem nenhuma serviçal voando em cima de mim, sem me dar a chance de ao menos terminar de abrir os olhos em paz. Com calma, pude reparar no quarto em que estava pela primeira vez. Mas, para minha surpresa, não havia no que reparar. Era vazio e triste. Alguém estivera por ali, pois as duas tochas presas entre as rugosidades da parede vulcânica estavam acesas. Elas iluminavam o lúgubre ambiente e davam destaque a um vestido semelhante ao que eu tinha usado na véspera. Ele estava pendurado próximo a uma bancada talhada na mesma pedra negra que a cama. Um banquinho de madeira jazia sozinho em uma das paredes. E mais nada. Sem cor, sem vida.
Por que eu encontraria vida no lar da morte?
Enquanto eu me vestia, algo me chamou a atenção: a porta do quarto anexo estava apenas encostada. O quarto de Shakur! Recordei-me imediatamente das palavras ameaçadoras de Mogy, sobre o risco que estaria correndo se tentasse entrar no aposento do líder, mas não consegui segurar a curiosidade que me empurrava naquela direção. Eu precisava saber um pouco mais sobre aquele lugar e sobre as pessoas que me faziam prisioneira.
Controlando o peso de meus pés, fui me aproximando da única comunicação que separava nossos aposentos. Mesmo contra minha vontade, meus passos ecoavam mais alto do que o necessário naquele ambiente vazio. Tentei espiar pela pequena abertura, mas foi impossível pela pouca claridade. Abri a porta lentamente e, como imaginei, não detectei sinal de pessoa lá dentro. Shakur devia estar na festa. Pisando em ovos, finalmente entrei no santuário do misterioso líder. Para minha decepção, não havia nada, ou melhor, nada de mais. O aposento tinha dois níveis e era bem maior que o meu, mas igualmente vazio e triste. Como em toda Thron, seus móveis eram esculpidos naquele mesmo tipo de rocha negra. Talvez por isso uma mesa e cadeira de mogno destacavam-se do todo. A cadeira tinha o estofamento de veludo vinho, algo bem comum para a minha dimensão. Senti um aperto no peito quando avistei um vaso de cristal com água pela metade reinando sobre a mesa. Ele se parecia muito com o predileto de minha mãe e que, num acesso de travessura, quebrei quando ainda era pequena. Mas não era só o vaso... Um odor familiar preenchia o ambiente e invadia minha memória. Por quê? Eu o conhecia? Disposta a identificar sua procedência, comecei a subir os degraus em direção ao segundo nível quando meu coração veio à boca. Batidas aceleradas vibravam na porta.
— Majestade, acorde! É urgente! — sussurrava a voz desconhecida do lado de fora. Num misto de pavor e atordoamento, consegui captar um muxoxo e, em seguida, passos arrastados.
Cristo! Shakur estava ali!
Demorou alguns segundos até minhas pernas decidirem acordar do susto e me permitirem correr em direção ao meu quarto.
— Oh, não! — murmurei em pânico ao esbarrar na mesa de mogno e ver como o vaso de cristal rodopiava no ar e ia escapando de minhas mãos. Com o coração na boca, lancei-me sobre o objeto em sua queda e, mais por um golpe de sorte do que por meus apurados reflexos, enfiei meus dedos de qualquer maneira dentro dele. Apesar de impedir que ele se espatifasse a poucos centímetros de alcançar o piso de pedra, uma boa quantidade de água esparramou por minhas pernas e pelo chão.
Novas batidas na porta. Os passos que vinham do segundo nível estavam mais próximos. A adrenalina em meu sangue era tanta que me fez esquecer completamente da fisgada seguida de forte ardência no polegar. Equilibrando o vaso de cristal perigosamente entre dois dedos, mal conseguia respirar e controlar o tremor frenético em meu corpo. Recoloquei o objeto de qualquer maneira sobre a mesa e saí dali correndo, encostando a porta atrás de mim. Tomada por outra descarga de adrenalina e alívio, senti minhas pernas tomarem consistência de gelatina e deixei meu corpo tombar, escorregando sem forças até o chão. Mesmo respirando com dificuldade, não deu para ficar alheia ao tenso diálogo no aposento do líder e resolvi espiar pela minúscula abertura.
— É bom que tenha um bom motivo para interromper meu descanso, soldado — ameaçou Shakur ao abrir a porta.
O líder não acendeu nenhuma tocha e seu quarto permaneceu na penumbra. A única claridade era proveniente do corredor em que o soldado estava. Com muito esforço, consegui identificar a silhueta de Shakur de costas para mim. Ele trajava uma capa negra com capuz.
— E t-tenho, senhor. — Tropeçando nas palavras, o sujeito deixava claro seu estado de tensão. — Von der Hess!
— O que tem ele?
— Mandou um mensageiro avisar que, caso concorde, virá para Thron durante a madrugada.
— Como é que é?! — trovejou Shakur. — Que maluquice é essa?
— Sim, meu senhor — continuou o homem com a voz sobressaltada. — Disse que tem uma proposta irrecusável para lhe fazer.
Shakur soltou uma gargalhada estrondosa.
— Essa é a melhor piada de todos os tempos! Quem aquele crápula pensa que sou para cair num truque barato como este?
— Ele disse que o senhor não vai se arrepender.
— Pois relembre Von der Hess que quem dá as cartas neste jogo sou eu. Aliás, diga-lhe que a partida acabou e eu ganhei. Eu tenho a híbrida — bradou.
— Mas, Shakur, ele...
— Vá e faça o que eu digo, soldado! Avise-o que será um homem morto se ele teimar em aparecer aqui.
— É que... — insistia o mensageiro, temeroso.
— Você está passando dos limites, soldado. É melhor parar se quiser continuar respirando — ameaçou ele.
— Tome isso, senhor.
Detectei a silhueta do pobre coitado estendendo-lhe o que parecia ser um pequeno embrulho.
— O que é isso? — indagou Shakur desconfiado.
— Von der Hess mandou dizer que o senhor entenderia quando abrisse. Que ele não seria louco de tentar enganá-lo em seu próprio território, senhor.
— Sei — matutou o líder, manuseando o objeto entre nas mãos. Após um longo momento, ele resolveu ceder à curiosidade e abriu o embrulho. — Por Tyron! — Shakur soltou um gemido e cambaleou para trás até conseguir se amparar em uma pilastra de pedra. — Não pode ser!
— Vossa Majestade está bem? — perguntou aflito o subalterno, aproximando-se na intenção de ajudar o líder. A porta se abriu um pouco mais e a claridade do corredor foi suficiente para atingir a parte exposta do rosto de Shakur. Pude perceber o assombro em sua face com a visualização do tal conteúdo. Faltava chão por debaixo de seus pés.
— Fique onde está! — alertou Shakur com a voz rouca. Demorou alguns minutos até ele se recompor. — O mensageiro veio com escolta?
— Não, senhor.
Shakur andava de um lado para o outro com as mãos na cabeça: —Leve-o para a saleta de comandos do subterrâneo.
— Do subterrâneo? — indagou o sujeito espantado. — Mas aquela sala não é usada há tempos.
— Faça o que eu digo! — rugiu nervoso.
— Sim, meu senhor. — E o soldado se retirou.
Shakur permaneceu imóvel por alguns minutos. Com a testa encostada na pilastra, sua silhueta de perfil parecia preocupada. Levantou a cabeça num rompante e tive a impressão de que virou seu rosto mascarado na minha direção. Droga! Levantei-me como um raio do chão e me lancei de qualquer maneira sobre a cama. Joguei uma manta sobre o corpo e fechei os olhos, fingindo dormir. Logo a seguir ouvi sons graves e intermitentes. Soluços. Depois ruídos cortantes de vidros sendo estilhaçados e de objetos se chocando no chão. O que estava acontecendo, afinal?
De repente um ruído de porta sendo aberta e meu coração deu um pulo. Mantive os olhos fechados e, agoniada, mordi as bochechas visando segurar a tosse que ameaçava recomeçar. Passos se aproximaram de mim. Minha garganta coçava como nunca e um desejo desesperador de tossir me torturava. Quem quer que fosse já estava bem próximo e eu não ia aguentar mais...
— Híbrida? — a voz calma e interrogativa de Tori foi o empurrão que o ar em minha garganta esperava para se liberar. — Você está se sentindo mal?
— S-sim — consegui responder aliviada num acesso de tosse.
— Você dormiu com o cabelo molhado?
— Sim.
— Não devia ter feito isso aqui em Thron! — exclamou ela. — Vamos. Está na hora de se alimentar.
Tori devia ter algum tipo de neura com a questão alimentar.
— Por favor, Tori. Deixe-me descansar um pouco antes de ir — pedi falsamente.
Na verdade eu precisava era de um pouco de tempo para respirar e drenar a adrenalina de meus nervos em frangalhos.
— Tudo bem — rebateu ela sem parar de me estudar. — Mas, se demorar, venho lhe buscar.
Tossindo, assenti com a cabeça e ela se foi. Demorei algum tempo antes de me dirigir para o grande salão. Atordoada com o que acabara de acontecer, fiquei tentando reconhecer aquela fragrância que mexeu comigo e decifrar a estranha conversa de Shakur com seu soldado. Por que ele estava tão horrorizado com o fato de Von der Hess vir de madrugada a Thron? E, principalmente, qual seria o conteúdo daquele embrulho que lhe tirou a cor e a razão?
Quando cheguei à festa, não havia sinal de Shakur. Richard e Sthepan estavam sentados à mesa do líder e bebiam animadamente, ambos com uma mulher a tiracolo.
— A híbrida está com a aparência melhor — comentou a garota no colo de Richard.
— O que houve com seu dedo? — questionou ele com olhos de águia, estudando-me de cima a baixo. Todos na mesa olharam imediatamente para mim e só então me dei conta da ferida no polegar causada durante a queda do vaso de cristal.
— Arranhei em uma parede — menti.
— Ela está muito atraente. Acho que vou pegá-la para uma dança — disse Sthepan, começando a se levantar.
— Fique onde está — Richard ordenou com voz cortante.
— Ela não te pertence — rebateu Sthepan, e vi suas pupilas trepidarem por um momento.
— A vitória de hoje cedo lhe deu muita confiança, não? — Richard o encarava com o olhar ameaçador. — Como se atreve a me desobedecer? — indagou, empurrando a garota para o lado e se levantando.
— Parado, Rick! — trovejou Shakur e Richard congelou. O líder acabava de chegar e tinha a metade visível de sua face lotada de rugas. Ele exibia uma fisionomia diferente: parecia transtornada, como um animal acuado. S eria por causa da conversa misteriosa que presenciei? — O que é que está havendo aqui? — questionou Shakur com autoridade.
— Nada, senhor — respondeu Richard com a cabeça baixa.
— Tragam mais bebida para ele e para mim. Agora! — Havia urgência no tom de voz de Shakur. — Eu soube de sua vitória nos treinos e estou impressionado, Sthepan — comentou o líder com a voz fria. Richard travou o maxilar e cerrou o punho. — Se ela quiser, você tem minha autorização para a dança.
— Você me daria o prazer desta dança, híbrida? — perguntou Sthepan animado, sem hesitar um segundo sequer.
A fisionomia feroz de Richard me fez vacilar e, sob tensão, desatei a tossir. Uma tosse compulsiva e forte.
— Que tosse horrorosa! — soltou enojada a garota de cabelos longos e encaracolados que estava até então sentada ao lado de Sthepan.
— Tome um pouco disso — Richard se aproximou sob o pretexto de me dar uma bebida e aproveitou para sussurrar uma bronca em meu ouvido: — Você está gripada. Não enxugou o cabelo conforme mandei, não foi?
Quem ele pensava que era para mandar em mim? Meu pai? Meu dono?
— Sim — respondi para o tal Sthepan, estendendo-lhe a mão e evitando olhar diretamente para Richard, mas, pelo canto do olho, vi que ele franzia o cenho e, a contragosto, recuava para dar passagem ao colega.
Quando o garoto pegou minha mão, senti uma indisposição passageira. Mal acabamos de descer as escadas que davam para o grande salão, o mal-estar se acentuou de forma vertiginosa. Uma confusão generalizada, copos quebrando, berros nervosos e xingamentos pararam a música e a animação da festa. Novos uivos de cólera rasgaram o ar e meu corpo respondeu com um novo acesso de tosse e um terrível e familiar calafrio passeava pelo meu corpo.
Collin.
Abrindo passagem à força pelo salão, ele acabava de chegar seguido de perto pelo insuportável Igor e seu grupo de assassinos inescrupulosos. Se em condições normais ele já era uma figura repugnante, consumido pela cólera conseguia ficar ainda pior.
— Eu vou matá-lo! — ele rugiu caminhando acelerado em direção a Richard, mas congelou no meio do salão quando me viu.
Derrubando a cadeira e quase tão rápido como um raio, Richard disparou pela escadaria, mas travou no meio do caminho ao ver que Collin empurrara Sthepan com violência, fazendo-me prisioneira.
— Que merda de festa é essa, hein? — berrou Collin agarrando-me com agressividade.
A fisionomia de Richard transitou do branco gélido ao vermelho incandescente. Sem pronunciar uma só palavra, ele encarava Collin com ferocidade.
— Solte-a — ordenou secamente Shakur.
— Diga que é mentira, pai! Diga que você não fez o que chegou aos meus ouvidos!
— Não sei do que você está falando, mas faço o que quiser com o que é meu! — rebateu o líder.
— Você passará o trono de Thron para Richard? — gritou descompensado. — Diga que é mentira, pai!
Um silêncio ensurdecedor inundou o salão. O ar estava tão paralisado quanto as pessoas.
— É a pura verdade — respondeu o líder com o tom de voz inalterado.
— Mas EU sou seu filho, não ele!
— Você não fez por merecer, Collin. Um reino precisa de um líder, de um forte, e você está longe disso.
— Não! Você não pode fazer isso! Eu sou seu filho! Eu tenho o seu sangue!
— Posso e já fiz. Solte a híbrida — comandou Shakur ao longe.
— Quero o que me pertence por direito! — Agitado, ele enfiou as unhas em minha pele. Gemi, não pela força de suas garras na minha pele, mas pela estranha fraqueza que se espalhou pelo meu corpo.
— Solte-a — Richard rosnou. Sua fisionomia estava mais assustadora que a de Collin, as pupilas tremendo alucinadamente. — Você escutou a ordem de Shakur.
Collin me puxou, abraçando-me por trás. A fraqueza se transformou em tontura e senti minhas forças sendo drenadas com velocidade. A tosse não dava trégua e minha visão começava a falhar. Ele estava sugando a minha energia de propósito.
— Não vou avisar novamente — Richard o ameaçou com as pupilas verticais. Estudando os próprios passos, ele começou a caminhar lentamente em nossa direção.
Então Collin fez algo que eu jamais poderia imaginar. Ele abaixou a cabeça em direção ao meu pescoço, como se esboçando um abraço apaixonado, e sussurrou em meu ouvido, o veneno desprendendo-se de sua voz asquerosa: — Agora você vai saber quem Richard realmente é, garota estúpida.
O que ele queria dizer com aquilo? Mesmo zonza, consegui captar a fisionomia modificada de Collin quando ele tornou a levantar a cabeça.
— Lutei pelo senhor, pai — continuou Collin com o olhar triste. — Fiz tudo que sempre me pediu e é assim que o senhor me recompensa? — havia amargura em sua voz.
O que estava acontecendo, afinal de contas?
— Você precisa descansar, Collin — disse o líder após hesitar por um breve momento.
— Por favor, pai. Conceda-me um pedido então — implorou ele, virando-se para mim e ficando parcialmente de costas para o líder.
Cada vez mais fraca, minha visão capturava a cena em pedaços: Richard se aproximando e prestes a dar o bote, o murmurinho de tensão e excitação das pessoas, Collin enfrentando Richard com o olhar enquanto permanecia de costas para que o líder não captasse o sorriso traiçoeiro em sua face.
— O que você quer, afinal? — perguntou o líder, agitado e impaciente. Aquela pessoa mascarada parecia outro Shakur. Pensando bem, talvez esse fosse o verdadeiro Shakur. Explicaria o motivo de ele ser tão temido.
— Dê-me a híbrida! — Collin berrou para que todos o escutassem.
Tudo que captei foi Richard congelar e um Ohhh! generalizado ecoando pelo salão.
— O quê?! — indagou Shakur, ameaçando se levantar do trono.
— Eu me apaixonei por ela, pai. E ela por mim. Pode perguntar aos meus homens.
— É verdade, senhor. — O mentiroso do Igor entrou em defesa de Collin.
— Ela estaria comigo se não fosse por Richard ter trapaceado e a roubado de mim.
Collin continuava me apertando em seu falso abraço. Minha tosse piorava.
— Isso é mentira! — Richard rugiu e ameaçou partir para cima dele.
— Fique onde está, Richard! — o comando de Shakur foi rápido. Ele parecia atordoado e esfregava a máscara num estranho cacoete.
— É a pura verdade, meu pai — Collin insistia na cena. — Pode perguntar a ela. — Ele continuava me abraçando com força. A tosse agora ela era tanta que meus pulmões doíam e eu mal conseguia permanecer de pé, muito menos falar.
— Isso é loucura! Ele a está enfraquecendo! — a voz de Richard tinha perdido sua força característica.
O que havia de incomum nela? Medo?
Shakur parecia estudar as reações de cada um de nós.
— O senhor deu Thron, o maior dos tesouros, para ele. — Collin foi rápido e não deu tempo para que o líder pudesse pensar. — Por que não pode dar a híbrida para mim, seu filho?
Silêncio e apreensão no ar. O líder balançava a cabeça de um lado para o outro, transitando seu olhar de Collin para Richard.
— Pois bem. Ela é sua — determinou impaciente, esfregando a máscara sem parar.
— Não! — Richard trovejou. — Você não pode fazer isso, Shakur!
— Posso e fiz, assim como lhe dei o trono de Thron — rebateu o líder, batendo com o punho fechado no braço da cadeira. De repente, Shakur fechou os olhos e levou uma das mãos à boca.
— Você só pode estar de brincadeira! Ele vai matá-la! — Richard argumentava, segurando a cabeça entre as mãos. — Você me prometeu que a manteria viva!
— Cale-se! O que deu em você para falar assim comigo, rapaz? Não sou chegado a brincadeiras e você sabe disso melhor que todo mundo! — rugiu Shakur, reabrindo os olhos. Ele tragou uma boa quantidade de ar antes de voltar a falar: — Collin não seria louco de cometer uma tolice dessas. Se ele fizer isso, eu mesmo dou cabo dele.
A meu lado, Collin assistia àquela discussão salivando prazerosamente. Sem praticamente mexer os lábios, tornou a sussurrar para que somente eu o escutasse: — Agora é a hora do golpe de misericórdia, boneca. Pode doer o que você vai presenciar.
Gelei. O que ele ia fazer?
— Eu proponho uma troca, Rick — gritou Collin para que todos o ouvissem. — Você tem a opção de escolha.
Richard o encarou e Collin abriu um sorriso desafiador.
— A híbrida pelo trono de Thron! — acrescentou em alto e bom tom.
Richard perdeu a cor no mesmo instante e deu um passo para trás.
Xeque-mate!
A sensação era de que a cena havia sido congelada abruptamente. Paralisadas, era possível escutar os batimentos cardíacos de cada uma das pessoas que se encontravam naquele salão.
— O que acha, pai? — indagou Collin sob o olhar atordoado de Richard.
— É justo. — A resposta do líder surgiu inesperadamente baixa e distante. Ele parecia estar em outro lugar, como num transe. Céus! O que estava acontecendo? — Rick, por você ser o resgatador principal deste clã, vou lhe conceder o direito de escolha: Thron ou a híbrida? — Shakur envergou os lábios em um sorriso desconfiado.
— Eu... — Richard não conseguiu completar a frase e sua pausa me deu tempo de asfixiar-me com o pavor que grudava na minha garganta. Suas pupilas ficaram mais finas que um fio de cabelo quando ele olhou ao redor e se deparou com os rostos cheios de expectativa dos thronianos. Então seus ombros tombaram e o sangue abandonou sua face. Ele ainda olhou uma última vez para mim e me deparei com um semblante perdido, os olhos sem brilho. Fraca, ainda consegui encará-lo com um misto de ansiedade e esperança, mas tudo o que vi foi como ele engoliu em seco e as pedras azuis-turquesa se apagando até o momento em que se desviaram de mim. Eu havia entendido tudo e conhecia a resposta antes mesmo que ela saísse de sua boca: — Thron! — respondeu rouco e senti o fogo da traição me queimar viva.
Os thronianos bateram os pés no chão com estrondo e gritaram de alegria, aliviados com a escolha de Richard. O murmurinho retornara com força total. Collin fechou a cara e, xingando baixinho, tornou a afundar os dedos em minha carne.
— Você fez a escolha certa, rapaz. Como sempre — concluiu o líder com semblante ilegível, e Richard esboçou um sorriso frio em retorno.
— Posso matar as saudades dela hoje, pai? — perguntou Collin com tom de voz provocativo.
Impassível, Richard o encarava sem parar, mas não se atreveu a olhar para mim.
Shakur olhou o brasão em seu pulso, abriu um sorriso mordaz e confirmou com um movimento de cabeça.
Ah, não!