Não Olhe!
Capítulo 14
Como uma atriz, deitei-me com ar de doente. Meredith estava visivelmente chateada. Reclamava o tempo todo que Kaller teria que entender a minha indisposição, que eu não poderia ir, que não ia aguentar etc.
— Pode deixar, Meredith. Eu vou estar com Kaller — interrompi. — Só preciso descansar um pouco.
— Claro, minha querida. — Ela foi saindo do quarto, resmungando palavras indecifráveis. —Venha, Sophia.
— Meredith? — pedi melosamente.
— Sim?
— Sophia pode me fazer companhia? Ela poderá me servir alguns copos d’água sem que eu precise me levantar. Estou me sentindo tão fraca...
Meredith concordou dando de ombros.
— Meredith? — Sophia interveio. — Acho que algumas flores ficariam bonitas no arranjo do cabelo de Nina. O que você acha?
— Mas não temos flores aqui em Storm. Só no canteiro de Samuel.
— Ótima ideia! — Sophia apressou-se em responder. Ela sabia que aquele canteiro era bem distante dali, o que não só afastaria Meredith de nossos possíveis caminhos, assim como a manteria distante por um bom tempo.
— Vou mandar um rapaz buscar — concluiu Meredith.
— Não! — Sophia emitiu um gritinho histérico e eu gelei. — Q-quero dizer — gaguejou a garota —, você acha que um homem vai saber escolher as flores adequadas? É bem capaz que cheguem depenadas — soltou uma risadinha superfalsa.
Meredith repuxou o canto direito do lábio superior, desconfiada. Silêncio no recinto. Pronto! Nosso plano tinha ido por água abaixo com a “brilhante” atuação de Sophia.
— Tem razão. — Por obra do bom destino, Meredith concordou. — Eu mesma vou colhê-las. Afinal de contas, ocasiões como esta são tão raras mesmo. — Olhou com tristeza para mim e saiu suspirando.
Levantei-me de um pulo e me retirei do aposento com Sophia estrategicamente situada a uns vinte passos à minha frente. Assim ela me orientaria no percurso sem que percebessem que eu a estava seguindo, poupando-a de qualquer tipo de punição. Ela também me daria cobertura, fazendo sinal para que eu me escondesse, caso surgisse alguém pelo caminho. Coloquei uma espécie de capa com capuz sobre o vestido escolhido por Kaller. Qualquer imprevisto, era só me desfazer da capa e me dar por perdida. Perfeitamente concebível para um palácio daquela dimensão. Depois de inúmeras subidas e descidas, chegamos a uma área silenciosa e afastada dos aposentos principais. Sophia fez um gesto apontando-me o lugar exato. De longe, vi seu olhar gentil se distanciar de mim. Agradeci com um balançar de cabeça.
Destoando de toda Storm, entrei em uma escura, úmida e encardida enfermaria. Retangular e sem qualquer tipo de luxo, era composta apenas por uma fileira de camas de madeira bem antigas. A não ser por duas delas, todas as demais estavam desocupadas. Seus doentes, indetectáveis por debaixo de lençóis brancos, lançavam um cômico ruído no ar: roncos. Para meu azar, ambas as silhuetas eram grandes. Droga! E agora? Qual dos dois? Vagarosamente puxei um dos lençóis na tentativa de identificar a pessoa por debaixo dele.
— O que você quer?
Uma mão enorme imobilizou meu pulso com agressividade.
— Ai! — soltei um berro sufocado.
Graças aos céus! Era Tom.
— Preciso de sua ajuda para tirar John da prisão — sussurrei, olhando para o lado. Para meu alívio, o sujeito da outra cama dormia um sono profundo.
— John? Preso?! — O brutamontes deu um pulo. — O que houve?
— Ele teve uma discussão com Kaller e foi preso por insubordinação.
— John nunca faria uma coisa destas. Só pode ser uma armadilha! — Tom trancafiou os dentes, olhando-me com desconfiança.
— Eu lhe dou a minha palavra.
— Vocês, humanos, não têm palavra! — rosnou.
— Por favor, preciso que me ajude. Temos que correr contra o tempo!
— Por que eu a ajudaria? — indagou-me com olhar inquisidor.
— Por que... — quase engasguei. Bolei meu plano de fuga às pressas e não me preparei para aquela possível pergunta. Por quê? Ora, porque eu queria me mandar dali e ponto final. Respirei fundo. — Primeiro, porque sei que você é o melhor amigo de John e não aceitaria que ele sofresse uma injustiça. Segundo, porque eu sou a única chance de ajudar Zyrk, e você sabe que John acredita nisto.
Chance de ajudar Zyrk? Jogada de mestre, garota!
— Você não tem nada a perder. — Aproveitei seu momento de hesitação e agarrei seu braço. — Por favor, acredite em mim. Se não for verdade, pode me denunciar, pode fazer o que quiser comigo. John confirmará tudo o que eu disse.
Num piscar de olhos, o gigante pôs-se de pé. Ajeitou uma atadura que passava pelo seu abdome, calçou os sapatos e saiu rapidamente dali, arrastando-me com ele.
— Eles não podem me ver — reclamei baixinho, ao perceber sua incapacidade de discrição.
— Em que ala ele está?
— Na sul.
Saímos da construção central, passamos como um foguete pelo pátio do chafariz e, um pouco antes de chegarmos à área das sombras, Tom optou por fazer um percurso distinto das pessoas do lugar. Caminhando pelos fundos de uma grande estalagem, provavelmente o quartel militar de Storm, chegamos sem dificuldades à cela onde John estava preso. Outro problema à vista: o carcereiro. Tom me deixou escondida em um corredor empoeirado, provavelmente sem uso há um bom tempo. Observei-o por trás da porta de metal enferrujada.
— E aí, Tom? Está melhor? — saudou o carcereiro quando ele se aproximou.
— Bem melhor.
— Nem preciso perguntar que ventos o trazem aqui, não?
— Exato.
— Que coisa estranha, não é mesmo? Kaller mandar prendê-lo... Logo John, o mais fiel a ele.
— É verdade. — Tom estava pouco à vontade. — Você sabe o porquê disso?
— Andam dizendo que muita coisa mudou desde a chegada da híbrida. As pessoas estão mais imprevisíveis, sei lá.
— Hum, sei.
Tive vontade de estrangular aquele carcereiro fofoqueiro. Tom não podia dar para trás.
— Vamos. Eu acompanho você.
O empregado empertigou-se.
— Não precisa. Eu só quero a chave. — A voz de Tom saiu seca.
— Eu não posso lhe dar — discordou o carcereiro meio a contragosto.
— Eu não vou conversar com ele por entre as grades. — Havia severidade na voz de Tom. — Você se esqueceu com quem está lidando? Se ele está preso, foi porque se deixou prender em respeito ao pai, senão teria resistido. E você sabe muito bem que teria sido extremamente difícil capturá-lo. Além do mais, ele é o filho de Kaller e seu futuro líder. Pare com essa burocracia idiota, homem!
Eu estava realmente impressionada com o discurso de Tom. Não podia imaginar que por detrás daquela montanha de músculos haveria espaço para um cérebro ativo, bem inteligente. Preconceitos a serem quebrados...
O sujeito titubeou um pouco e, hesitante, finalmente lhe entregou a chave.
— Serei breve. — Tom o acalmou.
Alguns minutos depois, que pareceram horas para mim, Tom veio falar com o carcereiro. O homem arregalou os olhos, assustado. Começou então a vasculhar o lugar, como se procurasse por algo, e, depois de sumir por uns instantes, tornou a aparecer. Sua fisionomia agora era de pânico. Enquanto o carcereiro separava algumas armas, vi Tom desferir-lhe um golpe certeiro na nuca, fazendo-o apagar de imediato.
Segundos depois, John se juntara ao amigo e ambos vieram ao meu encontro.
— Você está bem, Nina? — preocupado, John apertava minhas mãos entre as suas.
— Desculpe envolver você nisso, John — arfei. — Mas eu... eu não posso ter nenhum contato com Kaller. Sei que você me entende. — Os olhos cor de mel de John brilhavam. — Ajude-me a fugir daqui, por favor!
— Kaller é bom. — Com semblante entristecido, John tentava desculpar-se pelo comportamento do pai. — Mas também não concordo com a atitude do meu pai. — E, enchendo o peito de ar, determinou: — Eu vou lhe ajudar.
— Você não pode fazer isto! — Tom estremeceu e o ameaçou: — Se você ajudá-la, será condenado ao Vértice, John!
— Eu sei — rebateu John com a respiração vacilante. — Mas vou tranquilo de que fiz o certo. Prefiro o Vértice a ficar aqui a consumido pela vergonha de minha covardia.
Droga! Senti-me muito mal por estar me aproveitando justamente da pessoa mais decente que havia conhecido naquela dimensão. Não pense em mais ninguém, Nina. Aja de acordo com os seus interesses!
— Dentro de três horas, Kaller vai dar por minha falta — expliquei agitada.
— Então temos de ser rápidos — rebateu John.
— Mas, John, eu... — Tom estava desnorteado com a situação.
— Fique. Não quero envolver mais ninguém nesta jornada.
— Para onde você vai? — perguntou o gigante.
— Tentarei Wangor. É a única alternativa.
— Wangor?!
— Ele é avô dela.
— Wangor está inconsciente! — rugiu Tom. — Talvez esteja morto e nem saibamos. Vocês dois vão acabar metendo os pés pelas mãos!
— Temos que tentar.
— Shakur mandará homens atrás de vocês!
— Temos quase dois dias de vantagem — relembrou John sem muita convicção.
— Mas não é o suficiente! Kaller também vai enviar um pelotão atrás de vocês ainda hoje. — Apavorado, Tom despejava um motivo atrás do outro com o intuito de demover o amigo de sua loucura.
— Quando Kaller descobrir, já terá anoitecido. Esta é a carta na nossa manga, Tom. Além do mais, você se esqueceu de que eu conheço caminhos mais rápidos? Atalhos para quando se viaja em pequenos grupos?
Silêncio. Tom deixou a mandíbula despencar sem emitir som algum. Demorou alguns segundos até conseguir formular a pergunta que o assombrava:
— O pântano?
John assentiu.
— Por lá, o tempo que temos será suficiente.
— Isso é loucura! — Pela fisionomia de Tom, pressenti que não seria uma boa saída.
— É o caminho mais rápido! E o único viável nas condições em que nos encontramos — finalizou John.
Tom estava pálido e sem mais argumentos. John despediu-se dando um soco de leve no ombro do amigo. O gigante Tom parecia ter encolhido. Estava cabisbaixo e abatido.
— Eu, eu...
— Você já fez demais, meu amigo — suspirou John.
— Deixarei meu cavalo entre as árvores da campina — Tom murmurou algo ao nos ver indo embora e, acelerando o passo, acrescentou: — Venham! Vou dar uma ajudinha. — Caminhando a passos de gigante, Tom foi despistando todas as pessoas que inadvertidamente surgiam em nosso caminho de fuga. Saímos por uma passagem dentro de um poço pra lá de antigo. Pela quantidade de lodo, musgo e teias de aranha, estava há muito abandonado.
— Nossos antepassados tinham esta saída estratégica — John me explicava às pressas. — Para o caso de invasões inimigas.
Depois de percorrermos um longo túnel, guiados apenas pela luz de uma lamparina de querosene, chegamos ao lado de fora do castelo. Na verdade, tínhamos atravessado o grande lago por debaixo dele.
— Venha! Rápido! — sussurrou John, conduzindo-me em direção a uma pequena campina. Algumas poucas árvores destoavam do seu contexto. Um cavalo malhado aguardava por nós preso a uma destas árvores. John abriu um sorriso.
Tom havia conseguido!