Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 13 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 13

 

Meu cérebro trabalhava a mil por hora enquanto era conduzida até o meu aposento. A combustão de tantas recordações, emoções e questionamentos que emergiam de uma só vez conseguiu expulsar o manto que embaçava minha mente, clareando pouco a pouco, a lógica dentro de mim. O intrincado quebra-cabeça começava a tomar forma. A visita de Shakur dera-me a certeza absoluta de que eu não estava enlouquecendo e que Max havia mentido. Sim. Eu já estava naquela dimensão há mais dias do que poderia imaginar e havia estado em Thron antes de chegar a Storm. Mas, afinal, por quanto tempo? Como saí daquela fortaleza fortemente armada? Shakur havia mandado trancar as muralhas, então tudo levava a crer que ele havia sido vítima de traição. Alguém lá de dentro abriu o portão da cratera vulcânica para a entrada sorrateira do inimigo. Por que motivo? Moedas de ouro, claro! Storm era um reino muito rico. Esta era a única resposta plausível: alguém me trocara por moedas de ouro. E deviam ser muitas. Alguém lá de dentro ganhou muito com essa trama toda. Mas quem? Richard havia conseguido o que queria e jamais arriscaria o trono de Thron. Ou seria tão mercenário ao ponto de me vender novamente por mais moedas de ouro? Collin já tinha poder por ser o filho do líder e não perderia a chance de abusar indefinidamente de mim. O que seu sumiço significaria? Culpa? Ganância? Teria preferido ficar com a fortuna e resolveu deixar de lado o status que possuía para viver como um mercenário? Collin não parecia destemido o suficiente para isso... Por que Shakur parecia desesperado em me ter de volta? E Max? Aquele mercenário era a única pessoa que talvez tivesse a resposta. Ou teria sido ele apenas um simples lance deste intrincado jogo de cartas marcadas? O que John quis insinuar ao instigar Richard? Saberia ele de alguma coisa ou apenas guardava ódio por ter sido ludibriado no passado? Seriam ciúmes? Cenas fragmentadas de uma fuga na calada da madrugada pulsavam como um pisca-alerta em minha cabeça, mas nenhuma delas fazia o menor sentido. Aliás, tinham apenas uma função: aumentar a angústia em meu peito. Eu não sabia o que era pior: constatar que os zirquinianos não valiam nada ou o relativo valor de minha vida para eles.

— Para quê este vestido? Vão festejar minha ida para bem longe daqui? — indaguei sarcástica quando as aias começaram um vai-e-vem desencontrado pelo aposento.

Elas se entreolharam, mas não responderam.

— O que está acontecendo? — insisti.

— Ele vai fazer experiências. — A garota mais nova deixou escapulir.

— Cale a boca, Sophia! — bradou Meredith, esfregando os dedos pela volumosa saia desbotada. — Não a deixe mais aflita!

Segurei a respiração e abri um sorriso amarelo. Por que me arrumariam toda para uma simples experiência? A resposta era óbvia demais: porque não seria tão simples assim! Na certa Kaller pretendia ter algum “contato” comigo.

— Quando será? — perguntei tentado parecer impassível.

— Amanhã à noite.

Indisposta, não desci para o jantar. Meu estômago ficara enjoado só de pensar que teria que encarar o líder.

— Kaller mandou que lhe trouxéssemos algumas frutas. Vai ficar tudo bem, querida — disse Meredith sem me encarar, saindo rapidamente do quarto.

A fome bateu forte de madrugada e decidi me levantar para pegar uma maçã. Dei algumas mordidas e, de repente, o silêncio denunciou um par de vozes vindo do aposento ao lado, mas eu não conseguia captar o que diziam. Era o cômodo das aias. Conduzida pela curiosidade, tentei abrir minha janela, mas não tive sucesso. Era pesada demais! Eu tinha percebido que o guarda da vigília noturna não gostava de ficar plantado à minha porta. Graças à sua indiscreta caminhada, pude identificar que ele gostava de andar pelas redondezas. Como eu não tinha relógio, fiquei contado o tempo de suas passadas firmes. Os ecos que elas produziam pelo corredor demoravam a surgir e a desaparecer do meu campo auditivo. Cento e quarenta e seis foi o número que surgiu na primeira contagem. Repeti e, na segunda vez, deu cento e quarenta e nove. Por precaução, decidi que cento e quarenta seria meu prazo limite para retornar ao quarto sem correr o risco de ser apanhada no flagra. Esperei o soldado passar e comecei fazer a contagem em minha mente. Quando as passadas ficaram distantes, saí do quarto, caminhei em silêncio pelo piso de mármore bege e branco e pus-me a escutar atrás da porta. Já estava ficando mestre neste quesito. Para piorar, o corredor era muito claro, iluminado por lampiões talhados em ouro e prata, e o soldado seria capaz de me enxergar a qualquer distância.

— Ela não vai sobreviver — Sophia soltava um choro fino. — Ela não vai aguentar.

A contagem continuava: vinte, vinte e um...

— Talvez aguente. Ela é uma híbrida. É diferente de todos os outros. — Não havia a mínima convicção na voz de Meredith.

Trinta e cinco, trinta e seis, trinta e...

Um momento de silêncio. Não! Não! Não! Falem, por favor! Cinquenta e três...

— Não concordo com a atitude de Kaller — confessou Meredith. — A lenda é bem clara: só com amor! E ela não o ama. Duvido também que ele a ame. Se ainda tivesse tempo de conquistá-la, mas, assim, na força, em menos de três dias, ele vai estragar tudo!

— Aí nunca mais teremos outra chance?

— Vai ser muito difícil, Sophia. Há milhares de anos esperamos por este momento. Até surgir outro híbrido igual a ela, teremos que esperar outra eternidade.

— Shakur ainda terá interesse nela? Quero dizer, caso ela sobreviva?

Senti a maçã se dilatar dentro do meu estômago. Oitenta.

— Claro que sim. Ele não tem bons interesses. Só maus. E, para os maus, ela continuará com o seu devido poder.

Que poder?Abrir o tal “Portal Pentagonal”?

— Por Tyron! — a voz da garota saiu trêmula.

— É o que diz a lenda — lamentou-se Meredith.

— Mas por que Kaller quer destruir o único lado bom dela?

— Curiosidade — a mulher soltou um muxoxo. — Não se esqueça de que, antes de tudo, ele é homem. Dizem que ela pode nos fazer sentir coisas que jamais imaginaríamos. Kaller deve estar interessado em sentir algo mais intenso... Quero dizer, em sentir-se humano, nem que seja por uma única vez. Quem mais em Zyrk teve uma chance igual a esta? É uma oportunidade única. — O tom de voz de Meredith tinha um misto de raiva e desaprovação.

Cem!

— Eu senti — murmurou Sophia após um pequeno intervalo de tempo.

O que você sentiu, Sophia? Cento e quinze.

— O quê?! — A voz da senhora saiu fina, assustada.

— Eu senti, Meredith — repetiu Sophia. Havia júbilo naquela confissão. Fala logo, droga! Cento e vinte. Meu tempo ia acabar. — Quando fiquei junto de Nina, senti uma coisa boa dentro de mim, como se eu não quisesse sair de perto dela, como se quisesse ficar com ela o tempo todo.

— Eu também. Eu... — Meredith disse com a voz embargada e me fez vacilar.

O quê? Cento e trinta e cinco. Detectei ruídos ao longe. O guarda estava se aproximando. Meu coração começou a palpitar acelerado. Ah, não!

— Eu tenho vontade de cuidar dela — confessou Meredith e tornou a se calar.

Cento e quarenta, eu acho. A emoção em meu peito fez a contagem ir para o espaço. Saia já daí, Nina! Mas eu precisava escutar o que Meredith tinha a dizer. Os passos ficavam cada vez mais nítidos. Não sabia a planta daquele castelo, mas tinha certeza de que o soldado chegaria a qualquer instante. Minhas mãos suavam e a palpitação virou uma terrível taquicardia. Vá agora, Nina!

— Nunca senti isto, mas dizem que é o que as mães humanas sentem por seus filhos. Tenho vontade de fazer carinho nela, de tomar conta dela — concluiu a senhora finalmente.

Meus pulmões inflaram e eu quase me asfixiei. Cento e cinquenta! Uma tosse alta foi o empurrão que eu precisava. Saí dali às pressas, entrei no meu quarto aos trancos e barrancos e fechei a porta atrás de mim. As lágrimas forçavam passagem e era quase impossível contê-las. As palavras de Meredith e Sophia me tocaram profundamente. Cristo! O que fazer agora que tinha certeza de que eu era realmente capaz de gerar bons sentimentos nos zirquinianos? Ninguém faria experiências comigo! Agora eu tinha compreendido o poder de minha presença e, principalmente, da importância de me manter viva. Eu tinha de reagir. Nem que para isso eu precisasse mentir, trair e, se fosse o caso, até matar.

Era chegada a hora de lutar por minha vida.

 

#

 

Insone, resolvi aparecer no refeitório para o café da manhã e não podia ter feito escolha mais acertada. John estava lá, sozinho e com aparência abatida. O lugar parecia assumir o estado de espírito do seu ocupante, sombrio e quieto.

— Onde está todo mundo? — perguntei olhando para a mesa intocada e as cadeiras perfeitamente arrumadas. Pelo visto, ninguém havia tomado café da manhã.

— Preparando-se para uma possível guerra — respondeu de forma seca e sem olhar para mim.

— Mas não haverá guerra — declarei. — Peraí, Kaller mudou de ideia?

— Não. — John foi taxativo.

Não? Então a resposta estava dada: Kaller pretendia me possuir. E aí estava o motivo para o desencadeamento do confronto. John sabia que, ao me possuir, Kaller me mataria e, Shakur ciente da perda, acabaria atacando Storm. Inúmeros deles morreriam pela atitude inconsequente do próprio pai.

— Onde está Kaller? — perguntei.

— Descansando para esta noite.

Com a fisionomia contrariada, John colocou um enorme pedaço de pão dentro da boca.

— O que está havendo, John?

— Nada — balbuciou.

— Por que então não quer conversar comigo?

Hesitante, ele me encarou por um instante.

— Porque não é para ninguém conversar com você. São ordens.

— Por que não?

— Porque você não me pertence, quero dizer...

E, antes que John conseguisse concluir a frase, eu já havia me precipitado sobre ele:

— Eu não pertenço a ninguém! — retruquei furiosa.

— Você acha? — John soltou uma gargalhada artificial. Ele estava estranhamente sarcástico.

Meus músculos se enrijeceram no mesmo instante. Eu compreendi o que ele não conseguira dizer: eu pertencia a Kaller. Aguardei uns minutos até que nossos ânimos retornassem ao normal.

— Como está Tom?

— Praticamente recuperado.

— Que bom — soltei com urgência ao vê-lo arrumar sua farta cabeleira ruiva e começar a se levantar. Segurei-o: — Por favor, John. Eu preciso de sua ajuda.

Ele me fitava desconfiado. Virou-se para os lados, certificando-se de que estávamos completamente sozinhos e, antes que ele pronunciasse uma única sílaba, pressionei-o contra a parede:

— Eu sei que você acredita na lenda.

— Onde você quer chegar?

— Você sabe que eu não posso ter nenhum contato com Kaller! Vocês podem arruinar a única chance de mudança para o seu povo.

— Como você soube disso?

— Não preciso ser muito inteligente, não é mesmo? — Saí pela tangente. Eu não podia comprometer minhas aias.

Ele nada respondeu.

— Ajude-me a fugir — implorei.

— Você enlouqueceu? — grunhiu e tornou a certificar-se de que estávamos a sós.

— É a única saída!

Naquele momento percebi que talvez eu tivesse outra forma de persuadi-lo. Não adiantava apenas jogar e nem havia tempo para novas táticas. Era chegado o momento de usar a única arma que eu possuía e entrar na batalha. Que se dane os meios, Nina! Você tem que pensar no fim. E o fim, garota, é recuperar as rédeas de sua própria vida! Respirei fundo, segurei seu rosto entre minhas mãos e, olhando bem dentro de seus olhos, tasquei-lhe um beijo rápido. Jamais poderia me esquecer de que um contato maior com um zirquiniano poderia ser letal.

Seria John capaz de sentir alguma coisa por mim, ou, pelo menos, experimentar algum tipo de sensação diferente em seu corpo? Até onde ele iria para me ajudar?

— Por favor, me ajude — pedi sedutora.

John arregalou os olhos e empalideceu, mas, logo em seguida, senti suas bochechas frias esquentarem rapidamente por debaixo de meus dedos. Um rubor vivo substituiu a palidez inicial e o rubro de suas sardas se acentuou. Seus olhos cor de mel brilharam durante os segundos em que nos encaramos. Atordoado, ele segurou minhas mãos com força, afastando-as de seu rosto. Sem mais nem menos, ele virou as costas para mim e saiu dali, trotando. Quando resolvi ir atrás dele, John já havia desaparecido. Procurei por todo o pátio central, laterais e fundos da enorme fortaleza. Nem sinal dele.

Droga! O que foi que eu fiz?

 

#

 

As horas se esgotavam e a aflição começava a me dominar.

— Venha, filha. Você precisa se arrumar — comunicou-me uma Meredith de aparência tristonha. Sophia estava diferente, agoniada talvez.

— O que houve? — sussurrei, assim que Meredith saiu do aposento. — O que você está me escondendo, Sophia?

— Como sabe? Você lê pensamentos? — cochichou ela assustada.

— Não — suspirei infeliz. — Eu entendo... Quero dizer, eu costumava entender de fisionomias. Definitivamente era uma qualidade que havia ficado para trás. — O que você quer me dizer? — adiantei-me, mantendo a conversa em baixo tom.

— Meredith disse para não contar, porque podia deixar você nervosa, mas eu acho que é muito importante, e não pode ser escondido...

— Fala logo! — soltei impaciente.

— Hoje à tarde, enquanto eu estava fazendo os preparativos, eu tive que ir rapidamente até o depósito central para pegar alguns ingredientes.

— E?

— Eu vi Kaller e John discutindo — confessou sobressaltada. — Ninguém discute com Kaller. Muito menos John.

— Sobre o que falavam?

— Isto me apavorou ainda mais.

— Por quê?

— Eles brigavam por sua causa.

— Por minha causa?!

— S-sim — ela gaguejou. — John não queria que Kaller a possuísse, e Kaller ficou bravo porque não admite sua insubordinação. Então John disse que o pai estava condenando Storm e que também estava jogando fora a última chance de Zyrk. Kaller ficou muito nervoso e mandou John ir embora, do contrário, ele o condenaria à prisão. Mas John não lhe deu ouvidos e continuou falando. Disse que Kaller estava sendo tão porco quanto todos aqueles que ele sempre condenou, que ele tinha vergonha de ser seu filho, etc.

— Ah, não!

— Então Kaller o esbofeteou e mandou que os guardas o prendessem.

— Preso? — gemi, arrependida das consequências de minha investida sobre John. — John está preso?

— Está.

— Onde?

— Em uma das celas da ala sul.

Encolhi-me e não disse mais nada. Nem a garota. Eu estava paralisada e ao mesmo tempo sabia que era para agir imediatamente. Uma avalanche de ideias desabava sobre minha cabeça. Fui dominada por uma delas.

— Quanto tempo ainda tenho para meu encontro com Kaller, Sophia? — perguntei.

— Pouco mais de três horas. Por quê?

— Eu preciso de sua ajuda. Você vai dizer à Meredith que estou com muita dor de cabeça e que vou me atrasar.

— Como assim?

— Você vai me ajudar a fugir.

—Hã? — A garota havia perdido a cor.

— Sophia, eu sei que você acredita na lenda. — Segurei seus ombros, mas ela olhava para baixo e evitava me encarar. Parecia travar uma luta interna. — Agora eu também estou começando a acreditar. Por favor, dê um jeito de afastar Meredith daqui por um tempo.

Ela permaneceu muda e de cabeça baixa.

— Sophia, por favor? — implorei.

Após alguns segundos de expectativa, ela levantou a cabeça e me surpreendeu. Sophia exibia um sorriso travesso e suas pupilas estavam completamente verticais.

Agora eu tinha uma cúmplice.