Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 24 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 24

 

Minha cabeça rodava dentro de um tornado de dúvidas. Quem iria nos atacar? Shakur? Kaller? Shakur e Leônidas? Impossível concatenar as ideias. O murmurinho e a fumaça deixavam aquele ambiente muito mais do que claustrofóbico. Sentia-me dentro de um sarcófago. Por todos os lados eu via mulheres desfiando incompreensíveis orações, crianças chorando e soldados em estado de alerta máximo. Dentro daquele abafado porão não tínhamos a menor noção do que estava acontecendo acima de nós. A batalha já havia começado ou Wangor estaria ganhando tempo com algum tipo de negociação? Por que não escutávamos ruído algum? Seriam as paredes de pedras tão espessas assim?

— Deixem-me sair! — enfrentava os guardas de maneira feroz após diversos tipos de abordagens, passando da gentil e sedutora à impaciente e desesperada. Agora estava na hostil. Com suas espadas em punho, os soldados me mandavam afastar não apenas do portão de entrada, mas deles também. Provavelmente Zymir havia lhes avisado sobre o risco do contato com uma híbrida...

Exausta de tanto esbravejar, acabei me afastando para tentar me concentrar e bolar uma ideia para sair dali. Sentei-me num canto e enfiei a cabeça por entre os joelhos. Sem ar, tinha a sensação de que ia sufocar a qualquer instante. Tudo que conseguia pensar era no dano que eu causaria a Wangor, a Windston. Não podia ser tomada pelo remorso do que havia feito a John, muito menos pensar no estrago irreparável que havia provocado na existência de Richard. Não me permitia aceitar que eu era mais do que uma arma terrível para Zyrk, eu seria a sua aniquilação. Tinha que haver uma explicação para eu ter nascido, uma saída decente para aquele labirinto em que fora arremessada.

Um ruído altíssimo. Parecia o ganido de um animal em sofrimento.

O primeiro de muitos.

As pessoas que ali estavam apenas olhavam entre si, sobressaltadas, mas nada comentavam a respeito. Que berros eram aqueles? E, o mais importante de tudo: onde estaria Richard naquele momento? A única certeza que tinha era de que eu precisava ir atrás dele. Precisava encontrá-lo e lhe pedir desculpas, nem que fosse a última coisa a fazer em minha tumultuada vida. Inconstante ou não, ele tinha arriscado sua vida para me manter viva, dando provas suficientes do sentimento que nutria por mim e fui uma ingrata, maltratando-o sem lhe dar a mínima chance de se explicar. Sua índole violenta não foi nada perto das impiedosas palavras com as quais eu o havia ferido seriamente.

O tempo definitivamente não passava dentro daquele campo de concentração. O relógio havia parado. Sem sombra de dúvida, a tortura mental era centena de vezes mais cruel do que a física. Após um longo tempo sem qualquer tipo de notícia, percebi que não eram apenas os meus nervos que estavam entrando em colapso. Uma grávida entrara em trabalho de parto e não havia parteiras por ali. Idosos de ambos os gêneros, crianças e soldados olhavam para mim como se estivessem impondo algo. Caberia a mim tomar alguma atitude do tipo... Realizar um parto?!! De certo eu mataria aquela mulher e o seu bebê!

Recolhi-me em um canto, envergonhada da minha absoluta inutilidade diante da situação e, sem querer, acabei ouvindo o que duas senhoras cochichavam. Elas estavam tão compenetradas na fofoca que nem perceberam minha aproximação.

— Então ele foi se entregar? — arguia uma delas, aflita.

— Foi o que ouvi Danth comentando com Zymir agora há pouco. Ele disse a Zymir que, pelo que entendeu, a intenção dele seria tentar distrair Shakur por um tempo e com isso dar chance para uma conversa entre Wangor e Kaller.

‘Dele’ quem?

— Mas é suicídio!

— Foi o que pensei. Acredito que ele está agindo assim porque seu número de missões deve estar chegando ao fim e...

— E?

— Eu não entendi muito bem uma parte da conversa... — disse a primeira senhora de maneira teatral, ansiosa para que a outra implorasse por uma informação mais contundente.

— Fale, mulher!

Satisfeita, a primeira mulher deu uma ajeitada na postura, roçou a garganta e continuou:

— Segundo Danth, ele estava visivelmente abatido. Disse que sua partida não faria diferença para o futuro de Zyrk, pelo contrário, poderia até ajudar.

— Tão novo. Que desperdício acabar com aqueles magníficos olhos azuis!

Meu pulso deu um salto. Magníficos olhos azuis?! Seria sobre Richard que elas estavam falando? Ele iria se entregar a Shakur porque eu o desprezei? E eu ali, presa e sem poder fazer absolutamente nada? Jesus! O que mais poderia acontecer de pior? Fui abruptamente sugada daquele tormento para testemunhar um tumulto que se formava na porta de entrada.

— Isto é um insulto! Vamos embora, Eleonor! Eles não precisam de nós por aqui. Seremos mais úteis na guerra — reclamava ofendida a voz que emanava por debaixo de uma pequena capa cinza.

Duas mulheres eram impedidas de entrar no porão onde nos encontrávamos. A fumaça do abafado lugar não permitia ver com detalhes, mas ambas estavam encapuzadas, sendo que a mais alta e magra segurava uma bacia que exalava uma cortina de vapor, provavelmente água quente para ser utilizada no parto, enquanto a gorda e mais baixa tinha uma maleta de couro preto pendurada em seu braço esquerdo, dessas que os médicos carregam com todos os instrumentais de primeiros socorros. Ela tinha o dedo gorducho em riste no nariz de um dos dois soldados mal encarados que vigiavam a entrada do lugar.

— São as parteiras! — berrou uma anciã.

— Não podemos ter distrações neste momento — respondeu sem paciência o soldado que a baixinha enfrentava. — Elas não entram.

— A grávida e o bebê vão morrer — argumentou outra senhora.

— Assim como todos nós, mulher! Temos que nos concentrar no que é mais importante no momento. Estamos em meio a uma guerra — rebateu o outro soldado.

A grávida gania sem parar e seus berros aumentavam de volume.

— Deixem-nas entrar! — ordenou um oficial que presenciou o tumulto que se formava na porta de entrada.

— Mas, senhor, nós...

— Faça o que eu digo, homem — respondeu o superior em tom austero.

— Por que não a mata logo? — retorquiu o sujeito mal-encarado. — O senhor sabe que é só questão de tempo.

Caramba! Eles não tinham compaixão?

— Nunca matei uma criança zirquiniana em vida e essa não será a primeira vez — rebateu o superior e percebi sorrisos se formarem nas faces de algumas senhoras ao meu lado. Compreendi claramente o que Zymir quis me explicar: eles poderiam ser bem diferentes de nós, humanos, mas nem todos os zirquinianos eram iguais, nem todos eram maus. — Vou deixar Tyron se encarregar dessa partida. Por enquanto tudo que quero é tranquilidade de espírito para poder enfrentar o inimigo. Deixem-nas entrar — ordenou.

— Veja bem como nos tratará da próxima vez — ralhou a baixinha para o soldado que a impedia. — Posso não estar de bom humor e as coisas ficarão feias para o seu lado, ouviu bem? — Ela entrou trotando seguida de perto pela acompanhante.

— Que sorte encontrarmos parteiras neste momento tão difícil! — suspiraram algumas pessoas que passavam por mim, aproveitando o momento oportuno para me condenarem com seus olhares incriminadores.

— Ela está muito mal! — diagnosticou a parteira mais alta ao constatar o estado da grávida. A pobre mulher se contorcia sem parar.

— Precisamos de um local mais reservado. Não podemos fazer o parto com toda essa gente à nossa volta. Está deixando a parturiente muito nervosa — bufou a baixinha.

— Podem ir para a pequena sala de comandos táticos lá no canto à esquerda — disse um dos soldados com má vontade.

— Preciso de uma mulher para nos ajudar — ordenou a baixinha com intransigência e, antes que qualquer uma das senhoras presentes pudesse esboçar reação, ela já estava apontando o dedo gorducho para mim.

— Aquela garota ali serve!

Só deu tempo de eu arregalar os olhos.

— A híbrida inútil? Ela não entende nada sobre partos — desdenhou uma senhora.

— Só preciso de uma moça jovem, para um serviço braçal. Pelo visto ela é a mais indicada por aqui — retrucou. — Venha, garota! — Impaciente, a parteira me puxou pelo braço.

— Ande logo! Acompanhe-a! — comandou impaciente o outro soldado ao perceber que eu empacara no lugar. Zonza, obedeci. À medida que caminhávamos em direção à pequena sala consegui ver, pela primeira vez, uma parte do rosto da parteira baixinha. Gelei de emoção.

— Sra. Brit?!

— Pssiu! — Ela me deu uma cutucada. — Continue caminhando sem olhar para mim.

Ao entrar na sala e fechar a porta, ela se precipitou sobre mim, abraçando-me com vontade.

— Nina! Você está bem, minha querida?

— Sim. Eu não reconheci a sua voz.

— Tenho meus truques, lembra-se? — lançou-me um sorrisinho travesso.

— A senhora também faz partos?

— Eu não. Tenho horror! — disse esganiçada. Seus enormes olhos de abelha arregalavam-se ainda mais ao ouvir os berros da grávida ao nosso lado. — Mas trouxe quem entende comigo — acrescentou triunfante. — Que dia para ter uma criança! — reclamava enquanto observávamos atordoadas o desenrolar daquele suplício.

Os gritos magicamente desapareceram assim que Eleonor enfiou uma espécie de papa de folhas goela abaixo da pobre grávida. O parto se acelerou e em menos de dez minutos o bebê já estava nos braços da verdadeira parteira. A mãe desmaiara ou havia sido dopada.

— Quem sabe, sabe — soltou feliz a Sra. Brit e, dando um tapinha nas costas de Eleonor, comandou com ar grave: — Já sabe o que tem que fazer. — Eleonor balançou positivamente a cabeça enquanto dava o dedo mínimo para o bebê chupar. — Obrigada, querida — tornou a acrescentar e, virando-se para mim, ordenou: — Vista isto. — Ela me jogou uma capa cinza escura que havia trazido escondida na sua maletinha, idêntica às que elas trajavam.

— O que está acontecendo?

— Você vai sair de Zyrk. E agora.

— Não! Eu não vou abandonar Wangor.

Sim. Eu queria fugir dali, mas não mais de Zyrk. Como a vida é cheia de surpresas... Há poucos dias esta proposta era tudo o que eu mais desejava, mas agora perdera completamente o sentido. Eu tinha duas dívidas de amor para pagar. Uma com meu avô e outra com Richard.

Ela abriu um sorriso cheio de malícia.

— Tem certeza de que é só ele que não pretende abandonar?

Eu tremi e não consegui responder. Ela sabia.

— Tudo tem seu tempo. — A Sra. Brit soltou um breve suspiro. — Venha comigo!

Não esbocei qualquer objeção, até porque sair daquele claustrofóbico lugar me parecia uma ideia bem interessante. Para minha surpresa, passamos pelos soldados sem a menor dificuldade.

— Para onde está me levando? — perguntei aflita enquanto percorríamos aos tropeços os calabouços do grande castelo. Os barulhos que vinham do lado de fora eram inconstantes.

— Vou lhe mostrar um túnel subterrâneo. Praticamente todos os reinos os têm. São secretos, sabe? São os caminhos de fuga dos líderes. — Ela despejava as explicações de maneira agitada. — Na verdade, eles não vão dar em nenhum lugar específico. De tempos em tempos eles têm sua entrada alterada para que nunca venham a ser descobertos. São construídos por soldados que estejam com suas missões contadas.

Eu congelei. Tentei esboçar um sorriso como moeda de troca, mas fui tomada pelo choque daquela terrível descoberta:

— Quem os constrói são pessoas que... que morrerão em breve?!

— Isto mesmo. — Ela compreendeu minha hesitação e ainda assim respondeu com uma naturalidade que chegou a incomodar. — São zirquinianos que já tiveram seu número de missões definido. Sabe como é? Assim o risco de descobrirem a localização diminui bastante.

— Então como você o descobriu?

— Um dos infelizes que iria morrer precisou dos meus cuidados e, enquanto delirava, acabou batendo com a língua entre os dentes. — Ela me lançou uma piscadela suspeita.

— Então vocês já sabem quando vão morrer?

Eu não conseguia acreditar. Já deveria ter me acostumado, mas a cada minuto naquela dimensão eu era surpreendida por uma nova e horripilante descoberta. Era óbvio agora o porquê de aquelas pobres criaturas serem tão infelizes ou desacreditadas. A causa real da apatia que contaminava a essência de cada um deles. Que prazer tem a vida quando você já agendou data e hora da morte? Era fácil compreender por que meu pai foi contra tudo e todos para ficar com minha mãe. Mais natural ainda aceitar que ele tenha preferido viver um pequenino tempo repleto de felicidade a levar uma vida inteira anestesiada e medíocre.

— Sim, Nina. Mas não se preocupe com coisas desnecessárias por enquanto, ok? — ela pedia com urgência: — Rápido! Não temos tempo para conversa fiada. Eu não posso ir com você. Tenho que usar todas as minhas forças para encontrá-lo antes que seja tarde demais.

— Richard? — indaguei com o coração em frangalhos.

— Meu menino... Ele não anda nada bem. Ele está fazendo uma loucura atrás de outra — confessou com os olhos inchados e vermelhos. — Por que não agi antes? Por que não fui capaz de compreendê-lo?

Eu quase curvei de dor. Culpa? Impotência? Medo de perdê-lo? Que sentimento era aquele que me estilhaçava por dentro?

— Richard foi mesmo se entregar? — minha pergunta saiu fraca, um murmúrio triste largado ao ar.

— Só teremos certeza quando clarear. — A Sra Brit forçava a respiração.

— Mas...

— Está nas mãos de Tyron, mas vou fazer o possível — ponderou e, após se recompor, olhou bem dentro dos meus olhos. — Se me contassem, eu não acreditaria, Nina. É muito... excitante isso que vocês sentem um pelo outro, devo admitir.

Engoli em seco.

— Eu não entendo, Sra. Brit — murmurei infeliz. — Eu sei que sou apaixonada por ele e Rick, bem, ele...

— Ele é louco por você também, meu amor — suspirou.

— Mas eu quase morri com o contato dele! Se a lenda fosse verdadeira, isso não poderia ter acontecido, Sra. Brit!

— Eu sei, meu amor. Eu sei... — ela esfregava a testa.

— É ele quem eu quero para mim! Dane-se essa droga de lenda! Não me importo mais se ele não me ama o suficiente, Sra. Brit.

— Ele a ama demais, Nina. E é exatamente por isso que Rick está atormentado: sentir tanto, desejá-la tanto e não poder tocar em você — rebateu com o olhar firme. — Você não tem ideia de como ele ficou após o incidente entre os dois. Nunca vi um zirquiniano sofrer tanto. Chegou ao ponto de se cortar só para tentar esquecer você e amortecer a dor que o consumia por pensar ter sido o causador da sua morte. Rick ficou em um estado deplorável, um morto-vivo. Minha magia para cura não teve o menor efeito porque o remédio que o traria de volta à vida era você, Nina. No instante em que soube que você não corria mais risco de morte ele voltou a viver. A existência dele depende da sua para continuar seu curso. Precisa de mais alguma prova além dessa?

— Então eu não... Será que eu sou a culpada? Será que sou eu que não o amo o suficiente? — Minha voz partiu-se ao meio, esfacelada. Ela balançou a cabeça negativamente. — Como pode ter tanta certeza?

— Eu cuidei de você, Nina. Enquanto dormia, você se declarou. Foi muito lindo e eu senti! — Um sorriso denunciador apareceu em seus lábios e minhas maçãs do rosto transitaram imediatamente do róseo para o vermelho púrpura. — O que eu senti através de você foi algo simplesmente indescritível. Uma energia tão forte, tão viciante que eu não conseguia me afastar mesmo depois de já tê-la curado. — O sorriso dela se alargou, sobressaltando suas bochechas. — Você o ama sim, Nina.

— Então por que não conseguimos? Por que...

— Porque tem alguma coisa errada nessa história, Nina. Eu só não consigo juntar os pontos. — Ela apertava as têmporas.

— Ele sabe disso, Sra. Brit? A senhora lhe contou que eu o amo? — Trêmula, segurei sua mão e o sorriso desapareceu de seu rosto.

— Não houve tempo. — Ela apertou os lábios. — Ele esbravejou como uma fera e partiu assim que descobriu que eu a ajudei a fugir com o filho de Kaller — murmurou e tornou a me olhar com profundidade. — Eu não acredito no que estou prestes a dizer, mas acho que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar e no mesmo instante.

— Hã?

— Eu não conseguia entender antes, mas agora sei que John também tem fortes sentimentos por você. Talvez seja isso que esteja complicando as coisas... — matutou.

— Como assim? A senhora quer dizer que... — engasguei. — Que eu posso estar interessada em John também? Que essa foi a causa de eu quase ter morrido quando eu e Richard... quando nós...

— Pode ser. Eu sei que você ama Rick, mas será que também não tem fortes sentimentos pelo filho de Kaller e não se deu conta? — ela me estudava. — Já ouvi histórias onde o humano era capaz de amar duas pessoas ao mesmo tempo e...

— Eu não amo John — perdi a cor e as palavras saíram cambaleantes.

— O tempo é o senhor de todas as coisas e ele vai nos dizer — murmurou para si mesma. — Só espero que eu não esteja cometendo um erro após o outro.

— Rick ia me levar para Shakur, Sra. Brit. A senhora fez o que era certo.

— Não sei mais. Apesar de tudo, algo me diz que você estaria mais protegida com ele em Thron do que aqui — suspirou infeliz. — Richard é um guerreiro excepcional e um estrategista nato, Nina. Ele já devia ter um esquema traçado para qualquer que fosse a situação em que você se encontrasse. Eu ter ajudado você a fugir devia estar fora dos seus planos. Posso ter atrapalhado tudo.

— Fui eu quem estragou tudo, Sra. Brit. Ele veio me buscar, mas eu o rechacei como um animal sarnento. — Minha armadura caiu e senti o ar do arrependimento escapando por todos os poros do meu corpo. — Eu não sabia que ele havia se arriscado por mim, não tinha noção de tudo que ele havia abdicado por mim, fui grosseira, injusta e não fui...

— Não se condene, querida. Todos nós temos nossa parcela de culpa nessa história. — Sua voz vacilou. — Eu o criei. Sei perfeitamente o quanto aquele cabeça-dura é difícil de se lidar. Mas, quando se ama, perdoa-se. Não é isto que os livros dizem?

— Mas e se... — O medo da resposta era tão avassalador que a pergunta não conseguia sair, aprisionada em minhas cordas vocais. — E se você não conseguir encontrá-lo? E... E se for tarde demais?

Ela abaixou a cabeça e começou a remexer os dedos.

— Então, ao menos, eu tentarei salvar um dos dois. Tenho certeza de que ele ficaria satisfeito com isso — murmurou com a voz rouca e, sem que eu pudesse esperar, abraçou-me novamente. — Sinto muito, filha.

— Eu que peço desculpas, Sra Brit. Eu não tive a intenção, eu...

— Shhh! — Ela se recompôs, visivelmente emocionada. — Não temos mais tempo, meu amor. Venha!

De maneira acelerada, ela me conduziu até um pequeno jardim afastado da construção principal. Uma frondosa árvore se destacava solitária por entre amontoados de pedras e girassóis. Apreensiva, a Sra. Brit olhava para todas as direções. Após sondar o tronco da árvore de cima a baixo com batidinhas aceleradas, empurrou duas raízes salientes para o lado, na verdade uma alavanca, e uma rocha mais adiante se deslocou, dando-nos entrada para um túnel escuro. Eu estanquei assim que me deparei com o bolor insuportável que exalava lá de dentro.

— Entre — pediu mas, diante de minha apatia, me empurrou buraco adentro.

A enorme pedra se fechou atrás de nós. De dentro de sua capa cinza a Sra. Brit sacou uma lamparina. Após acendê-la, fez o mesmo com duas calhas repletas de querosene, cravadas nas irregularidades das paredes de rochas.

— Sra. Brit, cuidado! — berrei ao ver a silhueta de duas figuras encapuzadas paradas à nossa frente. Dei um pulo para trás, puxando-a para junto de mim.

— Calma, minha querida! Não tive tempo de lhe explicar...

Não precisava mais de explicações. Os capuzes dos dois homens se abaixaram e evidenciaram rostos amigos. Corri ao encontro dos dois, abraçando-os com emoção.

— Vocês?! Graças a Deus!

— Você está bem, Nina? — perguntou-me John. Ele aparentava estar muito feliz em me ver. Parecia não estar mais magoado comigo.

— Sim. Eu só estou muito confusa com tudo. Eu não compreendo...

— Resolvemos tudo às pressas, minha querida — intrometeu-se a Sra. Brit. — A situação é muito pior do que poderíamos imaginar. Windston não terá a mínima chance. — Captei tristeza em sua entonação. — Pedi a John e seu escudeiro que a levassem de volta a sua dimensão.

— Mas e Wangor?

— Ele está ciente e de total acordo com tudo. Aqui você não teria chance de sobreviver. — Estufando o peito, acrescentou cheia de orgulho: — Saiba que seu avô pode não ter muita saúde, mas é um líder com grande habilidade política, Nina. Acredito que ele vai bolar alguma saída diplomática.

— Eu não posso ir embora! — contestei inconformada. — Uma guerra vai estourar por minha causa e eu vou fugir?

— É o melhor a se fazer no momento. Só por algum tempo. Você estará protegida.

Novos estrondos do lado de fora. Os apavorantes uivos de outrora agora pareciam ainda mais altos e ameaçadores. Os três se entreolharam, mas nada comentaram. Seus ânimos evidenciavam perturbação. O que estavam escondendo de mim?

— Fiz essas broas de milho para você, meu amor — estendeu-me uma trouxinha de pano. — Caso tenha fome.

— Obrigada, Sra. Brit — pisquei várias vezes para segurar a ardência em meus olhos. Eu não ia chorar. — Só faltou sua limonada para completar o lanchinho — brinquei sem muito ânimo.

A Sra. Brit arregalou os olhos e acelerou sua despedida:

— Corram! Já vai amanhecer — finalizou e, após uma enigmática piscadela para os rapazes, saiu mais depressa ainda.

— Venha, Nina. Não se preocupe. Nós vamos conseguir — John adiantou-se em me acalmar ao ver minha fisionomia petrificada.

— Vamos! Não temos tempo a perder! — reclamou Tom impaciente.

O túnel era bem maior do que poderia imaginar, e muito mais úmido também. Ratazanas passeavam tranquilamente pelos inúmeros orifícios daquela galeria com aspecto de queijo suíço carbonizado, ziguezagueando pelos nossos pés sem o menor constrangimento. Em outra época eu teria berrado, pulado, enfim, dado um típico chilique feminino, mas, diante do que estava em vias de acontecer, as ratazanas pareciam brinquedinhos de pelúcia com controle remoto.

— Tenho ao menos o direito de saber para onde estamos indo?

— Para o portal na divisa entre Windston e Marmon, o mais perto daqui. — John tinha a respiração ofegante, evidência de sua forte tensão.

— Isto se conseguirmos chegar até ele! — Tom esbravejou.

— O que há com Tom? — indaguei.

— Tem medo das feras que poderemos encontrar, caso anoiteça antes de chegarmos ao portal — John me confessou num sussurro para que o amigo não o escutasse.

— Feras?

— Os uivos que acabou de escutar — respondeu com semblante sombrio e meu queixo despencou. — A nossa maldição — emendou de forma cautelosa ao perceber minha dificuldade em assimilar esta parte do enredo. — Existem criaturas sinistras em Zyrk, Nina. Bestas que tomam vida à noite — fungou. — Portanto, não é sensato vagar pelas superfícies de Zyrk ao anoitecer, compreende?

Nem precisei balançar a cabeça, ela já tremia de maneira involuntária.

— Então é por isto que os exércitos ainda não atacaram Windston — balbuciei, finalmente começando a compreender o que ocorria ao meu redor.

— Exato. Eles estão escondidos, apenas aguardando os primeiros raios de sol para saírem de seus abrigos e começarem o ataque. Aproveitaremos esse momento para alcançarmos os campos neutros, mas ainda assim deveremos fugir das minas.

— Minas?

— Locais dentro dos campos neutros que são continuamente vigiados por olheiros de todos os clãs. Nós acabaríamos sendo descobertos e mortos! — intrometeu-se Tom, com os nervos à flor da pele enquanto se afastava de nós para checar através de um rudimentar periscópio feito de prismas de espelhos situado no fim do túnel. Seu semblante estava mais do que alterado quando retornou, estava sem uma única gota de sangue.

— O que houve? — John rapidamente o interpelou.

— Ainda não clareou — balbuciou o gigante.

— O quê?! — havia pânico na voz de John.

— Ainda está escuro, raios! — Tom berrou, arrancando tufos de seus já escassos cabelos ruivos.

— Não é possível. Já deveria ter amanhecido!

Os dois se entreolharam por um longo momento e havia pavor em suas feições.