Não Olhe!
Capítulo 15
Percorremos um longo e angustiante percurso. Em Zyrk não se tinha noção de tempo, pois eles não usavam relógio. O conceito de hora era aproximado, em geral relacionado a algum fenômeno da natureza.
— Logo vai anoitecer e dificultará a busca — John explicava enquanto parávamos para descansar.
— Kaller já deve ter descoberto que fugi.
— Provavelmente.
Ele acendeu a pequena lamparina e sentou-se no chão trincado pela aridez. Estava pensativo.
— Está arrependido por ter me ajudado a escapar, não é?
— Quer ouvir a verdade? — indagou sem olhar para mim. Ele continuava com as pernas dobradas e de cabeça baixa. Eu não sabia que resposta dar, mas, antes que eu começasse a pensar no que dizer, ele já me encarava. — Não sinto qualquer arrependimento dentro de mim. Pelo contrário. Acho que fiz a escolha correta.
— Mas está chateado.
Ele balançou a cabeça.
— Eu não sei o que estou sentindo — disse, olhando bem dentro dos meus olhos.
Compreendi o peso daquelas palavras. John ia contra seu pai e seu reino porque tinha se interessado por mim. E eu? Bem... Eu tinha ciência de que estava me aproveitando dele. À força, tentei arrancar a maldita semente do remorso de dentro do meu cérebro, antes que ela começasse a germinar. A dualidade de emoções pulsava freneticamente em meu peito.
— Meu pai. — John me fez despertar. — Eu não consigo entender sua atitude. Ele sempre foi tão sensato. Isto não faz o menor sentido — confessou, esfregando as têmporas.
Claro que fazia sentido! Kaller queria de mim exatamente o que todos os outros, inclusive John, desejavam: sentir! Desfrutar do que somente uma híbrida poderia efervescer em seu corpo anestesiado. A diferença estava na intenção por trás de cada um deles. O que eu precisava era ter certeza se todos os zirquinianos só tinham realmente más intenções camufladas em suas ações, ou, se por acaso, alguns deles começavam a desenvolver bons sentimentos por mim, como vi acontecer com Sophia e Meredith. E talvez estivesse acontecendo com John.
— Eu sei que você brigou com Kaller por minha causa, John. — Aproveitei a brecha para entrar no assunto que me interessava. — Por que foi contra seu pai?
— Porque não concordei com o que ele se propôs a fazer. Porque sendo assim, tudo em que sempre acreditei não passaria de uma grande mentira.
— E no que você acredita?
— Que nós, algum dia, poderemos ser iguais a vocês, humanos. Na verdade, voltar a ser humanos, porque nós já o fomos num passado remoto. A grande maioria dos zirquinianos não acredita, mas eu fui criado por um homem de fé. Estou profundamente decepcionado com meu pai.
— John, olhe bem para mim — ordenei ao vê-lo afundar o rosto nas palmas das mãos. — Você realmente acredita que uma garota como eu pode realizar este milagre? Acha que eu poderia ajudar vocês?
— Acho. — Sua resposta instantânea me fez vacilar. Ele não tinha dúvidas.
— Como vou mudar esta condição em que vocês se encontram, hein? — reagi hostil, sem perceber que estava descontando nele toda a frustração que me invadia a alma.
Aquela maldita equação era muito complexa. Meu lado sombrio era muito maior que meu lado bom. Eu poderia abrir o maldito Portal Pentagonal a qualquer instante, mas até eu conseguir amar e ser amada por um deles... Aí a conversa era outra.
— Está tudo muito claro agora! Só não me mataram ainda porque planejam me usar para abrir o Portal, não é? — Minha garganta ardia. Minhas cordas vocais não conseguiam processar as perguntas na mesma velocidade com que elas eram elaboradas pelos meus acelerados neurônios.
— Acredito que é o que Shakur deseja.
— É por isso que ele está desesperado atrás de mim?
— Você ouviu a conversa? — Ele arregalou os olhos.
— Ouvi — enfrentei-o. — Como saí de Thron? Foi Kaller que armou o meu rapto? Vocês pagaram algum throniano para enganar Shakur? Foi Collin?
— Que loucura é essa, Nina? Do que você está falando? — A testa lotada de vincos comprovava que eu o encurralara.
— O que aconteceu com Collin? Como vim parar em Storm? Diga, John! — ordenava feroz.
— Max e seus homens nos trouxeram. Você sabe muito bem! — ele rebateu com os punhos cerrados.
— Não se faça de desentendido, John! Não é isso que estou perguntando. Como fui parar nas mãos de Max?
— Ele resgatou você das mãos do crápula do Richard para trocá-la por ouro. Eu e Tom fomos apenas o pedágio para conseguir entrar em Storm. É tudo que sei — retrucou esfregando os pés nos chão.
— Mentira! Eu sei que estive em Thron antes de ir para Storm! — trovejei e a cor foi varrida do rosto de John.
— I-impossível — gaguejou. — Você devia estar delirando por causa da febre!
— Thron fica dentro de um vulcão adormecido, não é? — rugi e John abaixou a cabeça.
— Q-quem lhe contou isso? — gaguejou.
— Eu estive lá, John! Quer que eu lhe passe detalhes do lugar?
— Eu não sei o que dizer, Nina — murmurou enquanto enchia a mão com um punhado de areia. Ele tinha a expressão inescrutável. — Perdi muito sangue e acabei ficando desacordado por mais de vinte e quatro horas. Nesse intervalo de tempo muita coisa pode ter acontecido. Tudo que sei é que Max a resgatou das garras de Richard. Aquela aparição de Shakur foi uma surpresa para mim também. Não tenho a menor ideia do que possa ter acontecido com Collin. Juro.
— Sei — esbocei um sorriso incrédulo. — Mesmo assim, Thron vai atacar Storm. Como Shakur reagirá ao ver que foi enganado? Que eu fugi?
John soltou um gemido e eu finalmente entendi. Parte de sua dor não era por culpa de seus atos, mas por alguém que havia deixado para trás: seu pai.
— Shakur vai matar Kaller e você não estará lá para defender seu clã — concluí. — É por isso que está chateado, não?
John permanecia de cabeça baixa e, por um instante, senti a sua dor. Eu havia transformado a pessoa mais decente daquela dimensão em um desprezível desertor.
— Ninguém pode prever o que se passa na cabeça de Shakur — murmurou. — Caso Thron se enfraqueça muito neste ataque, existe a possibilidade de Marmon decidir contra-atacar. Muita coisa pode acontecer.
— Marmon... — balbuciei. — Kevin? — A simples lembrança daquela víbora assassina me fez arrepiar inteira. De repente me recordei que não havia perguntado sobre o fim daquela serpente. — O que aconteceu com ele após o confronto?
— Foi levado de volta a Marmon.
Sem que eu esperasse, John passou a mão em meu rosto com suavidade e me encarou por alguns instantes. Seus olhos cor de mel cintilavam, suas sardas piscavam para mim. — Nina, quando treinávamos, nós ficamos muito próximos e... Quando você me beijou... Eu senti algo muito forte. — Sua voz saiu num sussurro rouco. — Eu já havia sentido isso quando você ficava bem junto a mim... — explicava-se constrangido. — Quero dizer, na moto, durante a travessia do deserto do Saara.
Meu estado de confusão chegou ao extremo com aquela confissão. Vinda de John, algo dentro de mim afirmava de que era verdadeira e, mesmo lutando contra, tive pena dele. E uma pitada de raiva de mim mesma por ter lhe tascado aquele beijo.
— John, eu não... — Ele continuava me olhando com profundidade e, segurando uma mecha dos meus cabelos, envolveu-a entre seus dedos. Assim permaneceu por um longo momento até que a soltou. Seus dedos tocaram a pele da minha nuca. Senti um calafrio diferente: era suave, quase calmante. — Eu não... — As palavras simplesmente não saíam. Precisava lhe dizer que não poderia ter esperanças comigo. Nem ele, nem Zyrk. Por sinal, o que eu mais queria era me mandar daquela dimensão e resgatar minha antiga vida. Carente de afeto, peguei-me admirando a forma gentil como ele afagava meu ombro. John se aproximou ainda mais, sua face a centímetros da minha... Senti uma forte inquietação brotar em meu peito ao detectar que suas pupilas tremiam sem parar, prova incontestável da emoção que o atingia. — John, eu... — murmurei ao vê-lo segurar meu rosto e começar a me beijar. Beijos gentis e agoniados. — John, não — consegui dizer finalmente e desviei o rosto. Ele se afastou.
— Você ouviu? — Ele tinha a testa lotada de vincos quando se levantou às pressas.
— Ouvi o quê? — indaguei aturdida e sem saber se queria entender o que ocorria ao nosso redor ou o que havia acabado de acontecer comigo. A reação do meu corpo ao contato com o dele me pegou de surpresa: inundou-me de uma indescritível sensação de bem-estar, como há muito não experimentava. Como assim? Eu não senti o calafrio e tonturas? Eu também não havia sentido com Richard...
— Droga! Temos que correr — reclamou ele, estendendo-me a mão e olhando apreensivo para o nada.
Nervoso, John cavalgou acelerado por uma trilha deserta. A atmosfera transitara do opressivo cinza escuro para o preto mórbido.
— O que está havendo, John? O que você está me escondendo?
— Os ruídos — arfou enquanto chicoteava o pobre animal abaixo de nós.
— O que têm eles? — perguntei aflita.
— Estão constantes demais — disse olhando para o céu.
— O que quer dizer com isso? — Ele não me respondeu e continuou sua cavalgada acelerada.
As nuvens se dissiparam algum tempo depois, dando destaque a um astro fino e de cor amarelo-desbotado no céu nanquim de Zyrk. Ele era semelhante às nossas pupilas reptilianas, só que um pouco mais inchado, e clareava de forma tímida o terror que se desenhava diante de nós: um pântano assustador crescia à nossa frente. Feito de um líquido viscoso, ele era negro como piche. Gigantescas bolhas estouravam na sua superfície, emitindo ruídos horrorosos. Pareciam berros de pessoas que estavam sendo torturadas, assemelhavam-se a gritos de dor.
— Estes sons? — perguntei petrificada enquanto John puxava as rédeas do animal. — São... são gritos?
John não me respondeu.
— Este é o pântano de que Tom havia falado? — tornei a indagar quando ele me ajudou a descer do cavalo.
Só então me dei conta do perigo iminente. Diante de tantas intempéries, esqueci-me dele por completo. Mas, agora, lembrava-me perfeitamente do rosto de pavor de Tom. E ele não parecia ser um sujeito dado a chiliques.
— Sim. — Uma gota de suor escorreu por sua testa. Suas pupilas abrindo e fechando de maneira inconstante era a confirmação das evidências: ele estava tenso ao extremo. — No momento, é o único caminho seguro para nós.
— Seguro, é? — zombei da sinistra situação em que nos encontrávamos enquanto apertava as juntas dos meus dedos.
— Por algum motivo inexplicável, as criaturas da noite não passeiam pelas margens deste pântano — explicou com a voz arranhando. — Talvez porque os portais estejam bem distantes daqui, ou talvez porque já exista maldade suficiente pela região.
— “Criaturas... da noite”?
Perdi o ar.
— Esqueça — sentenciou com semblante austero.
Achei melhor não insistir no assunto. Saber dos detalhes macabros só pioraria meu estado de pavor.
— Vamos atravessar este pântano à pé?
— Você vê algum barco por aqui? — contra-atacou ele com outra pergunta impregnada de ironia. John não estava para brincadeira.
— O que está havendo? — questionei ao vê-lo passando as mãos no rosto e olhando de um lado para o outro sem parar.
— Deveríamos aguardar a redução das bolhas, mas estou com mau pressentimento — observou agitado e tratou de se explicar ao ver meu estado de perturbação: — Nossas chances seriam maiores com menos bolhas, mas não podemos esperar.
— Então... Esses sons... São berros mesmo?
Eu devia ter me dado uns bons tapas na boca para ter ficado de bico fechado. Por que a imbecil aqui foi querer saber?
— Dizem que algumas almas conseguiram escapar do Vértice, mas não voltaram nem para a sua nem para a minha dimensão — arfou. — Dizem que foram caçadas pelos mensageiros interplanos e, por castigo, ficaram aprisionadas aí. — Ele apontou para o negro lago à nossa frente.
— “Mensageiros interplanos”?
— São criaturas sobrenaturais — confessou sombrio. — É tudo o que sei.
— E qual o porquê destes gritos horripilantes?
— Diz a lenda que, como castigo e, para dar o exemplo para que os demais seres do Vértice não tentassem fugir também, estas almas são queimadas diariamente. Consegue ser pior que o próprio Vértice em si.
— Cristo! São uivos de dor! — exclamei aterrorizada.
Ele sacudiu a cabeça, confirmando.
— Venha — disse, estendendo-me a mão.
Eu não me movi.
— Por que Tom disse que poderíamos não sair vivos daqui? — Eu começava a suar frio.
— Porque, em seu desespero para escapar de seu martírio, algumas dessas almas tentam agarrar as pessoas que se atrevem a cruzar este pântano e acabam afogando-as — respondeu sem rodeios. — Dizem que elas têm uma força descomunal. Exércitos inteiros já foram engolidos por este pântano.
— Oh, não! Como vamos?...
— Mas nós podemos conseguir — ressaltou puxando o ar com força. — Alguns dos nossos já o atravessaram.
— Sério?
— Sim. A questão é que todos os que o conseguiram estavam sozinhos — John fitou o vazio. — Por algum motivo, as almas parecem não conseguir ouvir os passos de uma única pessoa.
— Então nós vamos atravessá-lo separadamente? — Senti um nó se formar em minha garganta e não consegui engolir.
— Não — rebateu acelerado. — Apesar do inverso nem sempre acontecer — respirou fundo. — Nem todos que estavam sozinhos conseguiram, Nina, portanto não vou arriscar deixar você atravessá-lo sozinha.
— E em dupla?
— É o que vamos descobrir — respondeu em estado de alerta, semicerrando os olhos e fazendo a varredura do lugar. — Não podemos esperar. Venha!
— O que houve?
— Um ruído diferente — explicou ele, tornando a me estender a mão.
Fala sério! Como ele tinha conseguido identificar algum ruído diferente em meio àquela sinfonia exasperante?
Os gemidos pareciam ter triplicado de volume e meu medo cresceu na mesma proporção. Não conseguia enxergar quase nada à minha frente e tinha total ciência de que estava dentro de um filme de terror.
— Fique calma. Nós vamos conseguir, ok? — finalizou ele, presenteando-me com um sorriso tímido. — Apoie-se nas minhas costas. Caminharemos com o passo sincronizado.
Assenti firmemente com a cabeça, mas minhas pernas trepidavam como uma britadeira enlouquecida. John ia à frente e, por vezes, sua espada empunhada reluzia a fraca luz da lua. A escuridão reinava absoluta nos momentos em que o tímido astro era encoberto por algum indesejável grupo de nuvens. Nossos passos contados aos sussurros, compassados. Metade do corpo já submerso naquele líquido espesso e afundando progressivamente. Visibilidade: zero. Aceleração cardíaca: máxima.
De repente John parou e senti seus dedos apertando os meus com força excessiva.
— Não se aproximem! — ameaçou John com estrondo.
Quando dei por mim, seis homens entravam no pântano logo atrás de nós. Quatro vinham caminhando acelerados em nossa direção e os dois outros faziam um trajeto diferente: montados sobre cavalos, um deles avançava por nossa direita enquanto o outro nos ladeava pela esquerda.
— Eles estão nos cercando, John!— gritei.
— Droga! Vamos ter que andar mais rápido, Nina — respondeu ele entredentes. — Temos que chegar à outra margem antes deles.
— Mas, e as almas?
— Shhhh! — rebateu ele olhando para trás. Os sujeitos se aproximavam bem mais rapidamente do que eu poderia imaginar. — Venha! Siga os meus passos — ordenou.
Apertamos o ritmo e tive a sensação de que um número maior de bolhas estourava na superfície, liberando gemidos cada vez mais altos e atormentados. Decidi que não ia escutá-los. Eu precisava me concentrar nas passadas de John. De repente, um relinchar altíssimo seguido de um berro de dor. Eu virei o rosto e fui tomada por nova descarga de adrenalina ao presenciar os últimos momentos do cavaleiro à nossa esquerda. Partes de suas pernas ainda estavam expostas, mas se contorciam loucamente à medida que eram puxadas para dentro daquela papa grossa e negra. O mesmo acontecia com o pobre animal que, com os olhos arregalados, relinchando e sacudindo a cabeça de um lado para o outro, também afundava rapidamente. Mais bolhas estouravam na superfície. Mais gritos assombravam o ambiente.
— Não olhe, Nina! — berrou John, puxando-me para frente. — Rápido! Eles estão nos alcançando.
Olhei para trás e, ainda atordoada, vi que os companheiros do sujeito que acabava de ser engolido não se compadeceram nem por um segundo do seu triste fim. Enquanto eu gastara meu tempo observando aquela estúpida morte, eles se aproveitaram para se aproximar de nós.
— Sim! — soltei determinada. — Vamos, John!
A maldita margem oposta ainda estava muito distante e o cavaleiro que avançava ao longe pela direita começava a nos ultrapassar. John alargava os passos, mas os sujeitos atrás de nós se aproximavam ainda mais. De repente, outro apavorante grito de dor. E estava muito próximo. Instintivamente, John e eu reviramos nossos pescoços e vimos um dos rapazes do grupo sendo devorado com absurda rapidez. O pântano parecia estar ganhando vida e ficava furioso com a nossa entrada sem a sua autorização. A quantidade de bolhas ao nosso redor ia aumentando, assim como os ruídos lançados no ar.
— Fiquem onde estão! — Com a espada apontada para eles, John ameaçou os três homens com autoridade. — Não percebem que morreremos todos, seus estúpidos?
— E deixar a híbrida só para você? — questionou o que vinha à frente e que agora estava há pouco mais de três metros de nós. Olhei adiante e vi seu comparsa montado no cavalo alcançando a margem oposta. Estávamos realmente cercados!
— Ela não será de ninguém se continuarem a se aproximar — vociferou John.
— Você precisa aprender a contar, John. Acho que não está em condições de ameaçar ninguém. — O homem abriu um sorriso desafiador e, deixando à mostra seus dentes escuros e amedrontadores, deu mais dois passos em nossa direção.
— Esqueceu-se de quem tem a híbrida nesta contagem? — replicou John. Puxando-me com a outra mão, ele começou a dar passos lentos para trás, quase em sincronia com a marcha de seu adversário.
Híbrida? Ao som daquela palavra algo se mexeu dentro de mim. Como eu poderia ter esquecido deste detalhe fundamental: eu era especial e precisava agir como tal! O medo que até então me paralisara começou a ser derretido pelo fogo que crescia em minhas células e, sem controle das reações do meu corpo, senti minhas mãos formigando.
— Eu preciso do seu punhal, John — sussurrei.
— O quê? — Sem parar suas passadas, ele se enrijeceu e arregalou os olhos.
—Você me ouviu — soltei entredentes. — Passe-me o punhal.
— Não — rosnou ele. — Você não tem condições de... Argh!
— John! — gritei apavorada ao vê-lo pisar em falso num desnível agudo e afundar. Instintivamente mergulhei para ajudá-lo, mas meu corpo foi bruscamente repelido para trás assim que minha cabeça tocou o líquido escuro. O que havia causado aquilo: a muralha de gritos ensurdecedores ou as mãos do sujeito de dentes escuros? Era o sujeito! E o maldito me puxava para trás, levando-me em direção aos comparsas. Seus colegas pareciam amedrontados com o rumo dos acontecimentos. Olhei para trás e o líquido viscoso daquele maldito pântano ainda estava agitado no local onde John havia afundado. Pobre John! Ele ainda lutava! O formigamento em minhas mãos crescia na mesma proporção da minha fúria.
— Você devia ter dado ouvidos ao John — sorri sarcástica. — Porque você vai morrer comigo! — acrescentei feroz para o homem que me arrastava, jogando-me sobre ele. Propositalmente, desatei a fazer barulho, berrando como uma louca enquanto o socava com todas as minhas forças. A água começou a se agitar como nunca abaixo de nós, bolhas e mais bolhas estouravam na superfície, trazendo com elas todo o horror das profundezas daquele inferno. Você vai partir comigo, infeliz!
— Pare! — ordenou ele perturbado enquanto tentava agarrar meus braços. Por alguma razão, ele parecia fugir das minhas investidas ao invés de tentar segurar minhas mãos. Ele demonstrava mais medo de mim do que das almas e da ininterrupta agitação da água ao nosso redor. — Segurem-na! — comandou aos capangas. Quando olhei para o lado, detectei os dois homens retornando para a margem de onde vieram. Eles estavam fugindo?
— Eu vou te matar! — O sujeito bramiu horrorizado e, sacando o punhal que estava preso em sua cintura, avançou sobre mim. Meu reflexo alerta ainda conseguiu fazer com que eu virasse o corpo a tempo, mas não impediu que a lâmina afiada me atingisse. Ela afundou em meu antebraço e eu me curvei de dor. O homem recuou, deixando transparecer um misto de raiva e incompreensão em sua face. Ele tornou a atacar, mas, quando a lâmina estava prestes a me furar, joguei meu corpo para trás e minha mão de alguma forma conseguiu interceptar o golpe, porque o punhal mergulhou no pântano no mesmo instante em que o sujeito puxava o braço em direção ao peito. Ele tinha o rosto crispado de dor. O que havia acabado de acontecer? — Sua bruxa! Você vai ver... — urrou o homem de dor e pulou sobre mim. — Arrrr!
— Oh! — berrei assustada e saltei para trás ao ver os olhos do meu inimigo arregalarem e suas pupilas migrarem do mais fino estado vertical para a dilatação máxima. Antes de ele desabar morto do meu lado, detectei uma espada trespassada no seu abdome e a figura abatida de John crescer às suas costas. — John! — exclamei feliz e dei um passo em sua direção, mas não encontrei chão.
Então tudo aconteceu.
Ouvi um ruído estridente sobrepujar todos os demais e, quando dei por mim, senti minha perna arder e mãos agressivas me puxarem para baixo. Eu estava afundando. Lutei como nunca, fazia força contrária, mas de nada adiantou. Eu era tragada com violência.
— Nina! NÃO!
Escutei os gritos de John ficando para trás e o som abafado daquela lama negra gelatinosa sendo revirada com violência, talvez mergulhos desesperados. Utilizei todas as minhas forças. Inútil. As ferozes mãos continuavam a me puxar mais e mais para o fundo. Os bramidos ensurdecedores foram rapidamente substituídos por um silêncio absoluto e amedrontador. A escuridão era total e eu estava sendo conduzida a outro lugar. Dentro de mim algo afirmava que aquela luta estava além das possibilidades de John, que ele não conseguiria me encontrar. Meus braços e pernas começaram a arder e meu ar a se esgotar, ao mesmo tempo em que percebia minha consciência se esvair. Eu ia desmaiar... Um inesperado e agressivo movimento dentro daquele líquido viscoso chacoalhou meu cérebro e minhas pálpebras. Foi o suficiente para detectar uma figura embaçada, uma espécie de espectro alaranjado sorvendo-me com absurda rapidez para as profundezas daquele sinistro local, em direção a uma pequena claridade que se destacava dentro do negrume absoluto. O espectro, que inicialmente não tinha uma forma definida, começava a se delinear com perfeição à minha frente. Possuía um corpo cadavérico camuflado por diversas camadas de um tecido fino e todo rasgado. Um emaranhado de tiras que efetuavam um sincronizado e horripilante movimento de balé. Como uma derradeira injeção de ânimo, um pensamento me invadiu: eu precisava me libertar! Sem imaginar de onde surgira aquele último resquício de força, comecei a travar uma luta contra o estranho ser de força descomunal. Em vão. Quanto mais força eu empregava, com mais violência ele me tragava. Em uma atitude impensada, senti-me impelida a ver o rosto do meu algoz. Desatei a puxar as faixas do tecido que rodeavam sua face e o improvável aconteceu bem diante de meus olhos: a figura de uma mulher esquálida e com o rosto deformado por terríveis queimaduras me consumiu, mas de tristeza. A claridade que dela emanava nada mais era do que fogo. Sim. Fogo dentro d’água! Aquele sofrido ser era perpetuamente queimado por uma espécie de fogo incessante. O que se sucedeu foi uma série de incompreensíveis acontecimentos. Desconectados. Agi sem pensar, até porque meu raciocínio já não funcionava mais. Lembro-me apenas de ter sido movida por compaixão. Estendi o braço, transpondo a barreira de fogo, e pousei minha mão sobre a pobre face deformada. Para minha surpresa, a ardência foi estranhamente suportável. Os olhos da mulher então se arregalaram e ela ficou paralisada. Acredito ter visto o esboço de um sorriso suplantar sua fisionomia atormentada. De repente as pesadas mãos se afrouxaram e me soltaram, permitindo que o meu corpo inerte flutuasse em direção à superfície. O silêncio deixou de reinar absoluto e, à medida que me aproximava da superfície, comecei a captar vozes nervosas.
— Onde está ela? Onde?! — um rugido animal.
Meu corpo estremeceu ao reconhecer a voz.
— Fale, John! — ordenava Richard furioso.
— Ela foi puxada! Eu não consegui... Eu... — A voz de John tinha um misto de desespero e dor.
— NÃO! — outro berro de cólera. — Eu vou te mat... Você sentiu? O que foi isso?
Silêncio e então...
Novo impacto! Outras mãos me puxavam, só que agora em sentido contrário. Engoli ferozmente e de bom grado o ar que me fora servido, a consciência ainda difícil.
— Nina?! — O grito de Richard travou em sua garganta. Ele quase engasgou. — Por Tyron!
Senti suas mãos trêmulas me envolverem e me puxarem rapidamente para junto de seu corpo febril. Ofegante, ele afundou o rosto na curva de meu pescoço, como costumava fazer nos momentos de tensão, e assim ficou por algum tempo.
— Solte-me — consegui finalmente emitir um murmúrio fraco. — O que quer de mim agora?
— Já esqueceu, Tesouro? — Havia emoção em sua voz rouca. — Eu comprei todas as rifas — disse estampando um largo sorriso no rosto. O azul de seus olhos resplandecia como nunca.
Foi o suficiente para me fazer perder o ar que mal havia recuperado. Céus! Como ele ainda conseguia fazer aquilo comigo?
— John? O-onde está John? — Fraca, recuperei o raciocínio antes que a visão de seu rosto perfeito eliminasse o que sobrara da minha razão.
Senti o corpo de Richard enrijecer e o sorriso desaparecer de seus lábios. Suas sobrancelhas quase se tocaram tamanha foi a contração de sua testa. Ele virou a cabeça em outra direção e eu acompanhei seu movimento. O que vi a seguir fez tudo tornar a escurecer: John tinha o corpo todo queimado e estava desacordado na margem do pântano. De repente uma ardência enlouquecedora começou a se alastrar sobre minha pele, como se milhares de águas-vivas resolvessem me atacar ao mesmo tempo ou como se eu tivesse tomado banho com álcool e alguém ateasse fogo em mim. Eu estava em chamas. Olhei para baixo e não pude acreditar no que vi: meus braços e pernas tinham queimaduras horrorosas, dispostas em desenhos assimétricos e entrelaçadas como chicotadas. A pele rasgada em diversos pontos na perna direita expunha parte de músculos e ligamentos. — Você precisa de cuidados urgentes, Tesouro — assinalou Richard aflito. — Conheço alguém que pode nos ajudar.
— Não... sem... ele — soltei cambaleante ao sentir que um buraco se abria no chão e ameaçava me engolir. Já estava familiarizada com aquela maldita sensação: eu ia desmaiar.
— Hã? — Richard indagou atordoado.
— Não vou... sem ele — concluí e, usando o último resíduo de força que o sentimento de gratidão poderia me fornecer, apontei para John. Eu não ia deixá-lo para trás. Não depois de tudo que ele passou por mim.
Richard xingou uma dezena de palavrões e só sei que apaguei em seus braços.