Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 5 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 5

 

 

— Nem pense em entrar aí. Se tentar, morre — advertiu-me uma serviçal na tarde daquele dia ao constatar que eu olhava pensativa para a porta ao lado do meu aposento. Tori tinha ficado muito chateada e havia me proibido de sair depois do incidente no pátio de treinamento.

— É o quarto de Shakur, não é?

Ela confirmou com um balançar de cabeça. Toda de negro, a mulher era magra e usava o cabelo escuro preso num coque alto. Devia ter uns trinta anos de idade.

— Para o banho, híbrida — lançou rispidamente.

— Agora?

— Sim. São ordens de Shakur — respondeu impaciente. Comecei a desconfiar que o modo Imperativo talvez fosse o único usado por ali. Sua testa enrugada e seu olhar enfezado confirmavam que não se tratava de uma pessoa muito amistosa. — É bom aprender a não questionar as ordens dele, ouviu? — alertou, puxando-me sem tato pelo braço.

Fui seguindo a mulher por corredores desconhecidos do castelo, por entre as dezenas de fileiras de rochas e becos sem saída entrelaçados, um verdadeiro labirinto esculpido entre as pedras carbonizadas. Pouquíssimas pessoas passaram por nós.

— Onde está todo mundo?

— Descansando para mais tarde. Se ainda não percebeu, Thron está em festa por sua causa, híbrida — rosnou entredentes, balbuciando em seguida: — E Shakur está mais estranho do que nunca. É a primeira vez que ele dá folga para todo mundo após os treinamentos. Quer dizer, “quase” todo mundo.

“Quase”? Entendi! Ela estava aborrecida porque tinha que trabalhar enquanto a maioria aproveitava para descansar. E o que ela queria dizer com “mais estranho do que nunca”?

— Por aqui e...

— Ai!

— Cuidado, híbrida! As pedras estão molhadas — alertou rabugenta. — Não vá me arrumar problema!

Agarrei-me a uma reentrância na parede, e por pouco não caí. O caminho que fazíamos parecia de pedras ensaboadas, de tão escorregadias. Recuperei a respiração e continuei seguindo seus passos por um comprido túnel iluminado por tochas que desembocava em uma ampla câmara. A penumbra não foi capaz de me impedir de congelar com o que vi: água em abundância brotava de uma fenda da alta parede vulcânica e formava uma espécie de piscina natural na sua base. Arregalei os olhos e minha boca despencou quando identifiquei o que me aguardava.

— Vocês tomam banho aqui?... Juntos?

Não havia chuveiros individuais nem nada parecido. Homens e mulheres completamente nus banhavam-se sem o menor constrangimento bem na nossa frente. Eu travei.

— Sim — respondeu ela como se fosse a coisa mais banal desse mundo.

E era. Para eles, mas não para mim. Zirquinianos não sentem atração física, certo? Sim, se eu fosse uma zirquiniana ou uma humana. Mas você é uma híbrida, Nina!, alertava meu cérebro apavorado.

— Eu não vou entrar aí — disse petrificada.

— Vai sim. São ordens de Shakur.

— Não vou ficar nua na frente de todos — guinchei.

— Ah! É isso? — Ela elevou as sobrancelhas e segurou o riso. — Ninguém se importa com “isso” por aqui.

— Mas eu sou uma híbrida! — rebati.

— É verdade — retrucou com malícia e mordiscou o lábio inferior. — Nesse caso, não sei o que pode acontecer...

Sob o choque da inesperada notícia, comecei a me afastar disfarçadamente, dando alguns passos para trás.

— Aonde pensa que vai, híbrida? — indagou ela impaciente, ameaçando me agarrar à força.

— Eu não vou...

— A híbrida não está cooperando? — um rugido me atingiu por detrás.

Aquela voz fez todos os pelos da minha nuca arrepiarem. Olhei por cima dos ombros. Ao vislumbrar aquela imagem tentadora, meus lábios despencaram de vez. Descalço, sem camisa e usando apenas uma calça preta, Richard tinha os cabelos úmidos e desarrumados, alguns fios caíam sobre seu rosto perfeito. Uma ferida recente destacava-se no abdome exposto e definido. As cicatrizes piscaram para mim e eu perdi o foco. Oh, Meu Deus! Ele era tão assustadoramente lindo... Tão sexy!

— Ela não quer tomar banho, Rick — reclamou a mulher. Suas bochechas estavam vermelhas de raiva.

— Ela vai tomar — respondeu ele com semblante indiferente enquanto vestia a camisa e me encarava.

— Foi ordem de Shakur. Se não for por bem, será por mal — determinou ela e ameaçou vir para cima de mim.

Richard foi rápido, interceptando-a: — Claro. Mas não podemos correr o risco da híbrida ter escape de energia.

A mulher perdeu o argumento e se calou.

— Vou levá-la até Shakur e ver o que ele decide. Está dispensada por hoje, Mogy.

— Sério? Obrigada, Rick! — Finalmente vi os dentes da tal de Mogy. Satisfeita, ela abriu um sorriso enorme. Havia conseguido sua tão desejada dispensa.

Assim que a mulher desapareceu do nosso campo de visão, Richard pegou minha mão e, ainda sério, entrelaçou seus dedos nos meus e me conduziu em outra direção. Será que ele ainda estava bravo comigo pelo que havia acontecido no pátio de treinamento?

— Você vai mesmo me levar para Shakur? — perguntei desconfiada ao constatar a fisionomia alerta dele.

— Não antes de você tomar um banho.

— Eu não...

— Shhhh! Quieta! — ordenou acelerando as passadas por caminhos cada vez mais estreitos e complicados que os anteriores. — Aqui.

— Para onde está me levando? — indaguei preocupada quando, depois de cruzarmos um sem-fim de becos escuros, ele me apontou uma pequena abertura entre um aglomerado de pedras no chão.

— Vamos entrar aqui — disse ele, checando os corredores a todo instante.

— De jeito algum — bati o pé, apavorada.

— Você confia em mim?

— Não — retruquei no ato, e ele achou graça. Pelo menos ele estava de bom humor!

— Você quer tomar um banho com privacidade? — reformulou a pergunta com jeito malicioso.

Gelei. O que ele queria dizer com aquilo?

— Seu cheiro não está dos melhores — acrescentou, deixando-me sem graça.

De fato, há muito tempo eu precisava de um banho decente. Durante todo o período em que fui refém deles na minha dimensão, poucas vezes tive a oportunidade de me lavar. Por um motivo ou por outro, fosse porque o asqueroso do Collin não permitia nenhum atraso, fosse pela apatia e pela febre que me consumiram nos dias anteriores à minha entrada em Zyrk, os banhos eram sempre tensos, rápidos, até mesmo na casa da Leila e na pousada do Saara.

— Quer ou não? — tornou a perguntar e, brincalhão, prendeu o nariz entre os dedos. Vê-lo descontraído me fez perder a razão. Como alguém podia ser tão inconstante assim? Pela manhã, ele não parecia esse sujeito gentil que eu via agora na minha frente.

Trêmula, assenti. Não reconhecia mais o odor de meu corpo e, de fato, eu precisava de um banho há muito tempo.

— Ótimo — soltou satisfeito. — Vou entrar neste buraco e esperar por você lá embaixo.

Temerosa, dei uma espiada na fenda próxima a meus pés e não consegui enxergar absolutamente nada.

— É muito alto?

— Eu te seguro.

— Você não respondeu à minha pergunta — insisti.

— Você confia em mim? — tornou a indagar.

— Eu já disse que não.

— Boa garota! — Ele tornou a sorrir, mas no instante seguinte me observou com profundidade, uma emoção insondável no olhar ardente.

Desviei o rosto.

— Acredite em mim, Nina. Eu sei que às vezes sou um pouco rude, mas tudo que faço é para proteger você.

Ele segurou meus ombros delicadamente, deixando seu rosto a poucos centímetros do meu. O calor que emanava de suas mãos fazia minha pele arder e tudo queimar dentro de mim. Aturdida, não sabia para onde olhar. Tinha certeza de que, se o encarasse, estaria perdida de vez. Fechei os olhos, mas fui traída por meu olfato. Recém saído do banho, Richard exalava um cheiro tão viril e tentador que era difícil me concentrar no que ele dizia. Que sensação enlouquecedora era aquela que ele provocava em mim?

— Nada de ruim vai lhe acontecer, Nina. Nunca mais — disse ele, puxando meu queixo com cuidado em sua direção. Tornei a abrir os olhos e o vi piscar de volta. Então ele se abaixou e, com a agilidade de um gato, saltou no buraco. Fiquei parada ali como uma boba, meu coração dando saltos triplos mortais carpados dentro do peito. Naquele momento eu seria capaz de saltar do Everest por ele.

Richard assoviou.

Você vai ser louca de pular, Nina? Vai cair de novo na conversa fiada dele, sua tola? Tampei os ouvidos à minha razão, respirei fundo e, antes que eu desistisse da ideia, saltei no vazio.

— Aaaai!

Mal deu tempo de berrar e ele já me tinha aprisionada em seus braços de aço. Eu não conseguia enxergar nada, tamanha a escuridão, mas, para ser sincera, eu nem queria. Sentir sua respiração quente invadir meus cabelos e seu corpo me envolver sem cerimônia era ainda mais enlouquecedor do que os calafrios que ele me provocava. Calafrios? Interessante... Richard não me causou calafrios.

Ele acariciou meu rosto e soltou um suspiro.

— Venha comigo. Devagar.

Segurando seu braço e tateando as paredes de rochas na escuridão, fui seguindo seu passo lento e preciso.

— Pronto! — disse ele empolgado assim que fez um contorno para a direita. — Chegamos.

Quando minha visão finalmente conseguiu se adaptar, fui tomada por um alívio seguido de fascinação. Um filete de água quente drenava por uma fenda vulcânica e formara um diminuto lago negro. A pouca claridade incidia diretamente nele e, somando-se ao vapor que emanava da água, refletia a luz de uma forma diferente, cintilante, como se houvesse purpurina espalhada pelo ar.

— Que lindo! — exclamei estupefata com aquela visão inesperada no ambiente sombrio de Thron.

— Descobri este lugar por acaso, quando ainda era pequeno — explicou em baixo tom. — Um dia, tropecei e caí naquele buraco em que acabamos de pular, mas, como ainda não tinha altura para retornar à superfície, comecei a procurar pedras soltas que pudesse fazer de trampolim e acabei me deparando com essa maravilha — contou ele olhando para o lago. — Desde então é meu abrigo secreto. O lugar para onde fujo quando quero ficar sozinho.

— Ninguém o conhece?

— Só eu — esclareceu sem me encarar. — E agora, você.

Comecei a queimar por dentro. Vindo dele, sabia que aquilo era quase uma confissão. Não lhe dê ouvidos, Nina! É tudo mentira!

— Nem a Galega? — alfinetei.

— Não, Tesouro. Só você.

— E por que eu, Richard?

— Porque sim — sua voz continuava baixa e cadenciada. — Porque você poderia ser afetada pela presença dos nossos e enfraquecer. Eu já disse que não vou deixar nenhum zirquiniano lhe fazer mal, nunca mais.

Ele realmente ia cuidar de mim? Eu devia odiá-lo por tudo que me causou, por minha vida arruinada. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ele não fizera aquilo por ser mau e sim porque esta era a sua função: ele era um resgatador de vidas. Eu não podia mudar os fatos; tinha de aceitar de uma vez por todas que Richard era diferente de mim.

— E quanto às minhas dúvidas?

— Não temos muito tempo — alertou de forma amistosa, arqueando as sobrancelhas e sentando-se no chão de cascalhos negros. Imitei-o, acomodando-me ao seu lado. — O que quer saber?

Ele estava sereno.

— Que bracelete é esse que todos usam?

Que pergunta ridícula, Nina! No fundo, eu sabia que estava ganhando tempo. Não queria estragar o clima entre nós com a minha enxurrada de acusações.

— O brasão de Thron.

Ele pareceu surpreso e igualmente aliviado com aquela pergunta imbecil.

— O seu é o único com essa faixa vermelha ao redor. É por que você é o resgatador principal?

Ele assentiu com um piscar de olhos.

— Por que a flor? Não tem nada a ver com Thron — continuei.

— Ninguém sabe por que Shakur o modificou. — Deu de ombros e repuxou o lábio. — Dizem que o brasão era um vulcão lançando chamas, mas isso foi há muitos anos, antes dele sofrer um terrível acidente em uma missão complicada na sua dimensão — comentou pensativo. — Shakur não permite que falemos sobre esse assunto. Acho que o afeta demais. Até hoje, parece sofrer pelo que lhe aconteceu.

— Por isso ele é tão intolerante?

— Talvez — murmurou. — Tyron não foi muito tolerante com ele também, não acha? A morte teria sido um fim decente para um guerreiro notável como ele e não... — Ele parecia respirar com dificuldade. — Não ficar do jeito que ficou — Richard me encarou sombrio e, inclinando-se para frente, abraçou os joelhos. Sua camisa levantou e evidenciou o ferimento recente nas costas. A injúria que, sem intenção, acabei causando por tê-lo distraído durante seu treinamento. Senti um discreto mal-estar ao ver um líquido transparente sair do corte ainda aberto. Hesitante, passei os dedos delicadamente ao redor da ferida. Ele se enrijeceu com o meu contato.

— Desculpe por isso — balbuciei.

— Foi de raspão — ele respondeu em baixo tom, segurando um sorriso irônico. — É apenas mais uma para a minha coleção.

— Por que tantas cicatrizes, Richard?

Ele se empertigou e seu olhar tornou a ficar duro.

— Elas te assustam? — indagou de forma casual, mas pude sentir a preocupação contida nas entrelinhas.

Balancei a cabeça negativamente e ele piscou, aliviado.

— Imprudência, Nina. Este é o porquê delas — deu de ombros. — Mas, para falar a verdade, aprendi muito com elas também. Hoje, essas cicatrizes servem como alerta de falhas passadas. Erros estúpidos que não pretendo mais cometer — comentou, olhando para as próprias mãos.

— Hoje de manhã, eu... — titubeei ao retornar ao assunto. — Eu tive medo de que aquele Sthepan o matasse. Eu não queria causar aquela confusão, não queria que você perdesse a luta... E-eu sinto muito.

— Isso acabaria acontecendo algum dia — respondeu taciturno e fitando o vazio. — Talvez minha força esteja começando a falhar.

— Não, Rick. Não está. Fui eu quem lhe distraiu. — Aproximei-me um pouco mais dele. — Fiquei maravilhada em ver você lutar. Você é simplesmente... magnífico! — Sem olhar para mim, ele virou a palma de uma das mãos para cima e, mais rápido que uma pulsação, meus dedos já haviam sido atraídos para ela e infiltravam-se entre os dele.

— Não tenho mais tanta certeza. — Ele envolveu minha mão com vontade, fechou os olhos e suspirou. Richard era sempre tão petulante, irradiava tanta vida, que algo dentro de mim não gostou de vê-lo abatido. — Não sou mais quem costumava ser quando... — Ele parou e me fuzilou com suas pedras azuis-turquesas abrasadoras. — Quando estou perto de você, Nina. E isso pode complicar tudo.

— Complicar o quê?

— Minha racionalidade. — Sua voz readquiriu o tom rude que eu não gostava. — Perto de você não sou capaz de lutar com o espírito livre. Meus adversários logo... — Ele engoliu em seco, semicerrou os olhos e eu entendi o que ele não conseguiu dizer.

— Logo eles se darão conta disso e me usarão contra você — murmurei, sem saber ao certo se me sentia feliz ou arrasada com aquela constatação.

Ele confirmou com um leve aceno de cabeça.

— Por isso não devem nos ver juntos. — Suas pupilas vacilaram um instante enquanto sepultava o assunto. O alerta era real. — Mais alguma pergunta? — indagou friamente, mudando o rumo da conversa e soltando as minhas mãos.

— Onde está Ben? — Engraçado, mas senti falta do ingênuo companheiro de Richard.

— Ainda em missão. Deve retornar com o grupo de Collin.

— Por que vocês lutam com espadas e recursos tão arcaicos se conhecem as sofisticadas armas da minha dimensão?

— Por causa da discrepância temporal entre nossos mundos. Porque apesar de coexistirmos, nossas dimensões apresentam uma distância evolutiva muito grande. Vocês estão centenas de anos à nossa frente e a tendência é que essa diferença aumente ainda mais.

— Eu não entendo.

— Minha espécie sempre foi vil e destrutiva, Nina, e, para piorar, cada geração vinha mais cruel que a sua antecessora. Para conter a onda de caos e miséria que se espalhava por Zyrk e ameaçava aniquilá-la de vez, há alguns séculos um grupo de magos se uniu e criou o chamado Grande Conselho. Com a participação dos líderes dos quatro clãs, o conselho determinou regras rígidas para o acasalamento e reprodução do nosso povo. — Ele travou e abriu um sorriso sardônico.

— E?

— A qualidade dos nossos exemplares melhorou consideravelmente: passamos a reproduzir menos ainda e o caos foi controlado com mão de ferro — suspirou. — Ano após ano, Zyrk tem um número de habitantes significantemente menor que o da segunda dimensão e, como se não bastasse, boa parte desse contingente é de péssima qualidade. — Havia um misto de raiva e frustração naquela explicação. Estaria ele falando daquelas pessoas assustadoras que nos abordaram na entrada de Thron?

— Não existe interesse no progresso? — indaguei incrédula.

— Até há, mas é muito pequeno, se comparado à sua espécie — repuxou os lábios. — Poucos cérebros úteis e escassos corpos interessados em trabalhar são sinônimo de baixo desenvolvimento de um povo.

— Isso é ruim.

— É. Mas o pior de tudo é ter de deixar minha moto para trás — ele arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso desanimado.

— Por que você não a trouxe? Por que não trazem esses recursos da segunda dimensão para cá?

— Porque, apesar do contrário ser possível, nada da sua dimensão pode entrar em Zyrk. Nada, à exceção disso — piscou e delicadamente tocou o meu cordão. O contato de seus dedos em minha pele me fez arrepiar, mas era um arrepio bom. Ele percebeu e recuou.

— Por quê? — questionei, brincando com o pingente entre os dedos.

— Castigo, talvez. Dizem que faz parte da maldição de Zyrk — respondeu balançando a cabeça de um lado para o outro.

— O que foi, Rick? — perguntei.

— Zyrk é muito perigosa para você. Mesmo em Thron, você não estará segura — ele ponderou melancólico. — Viu o que aconteceu lá no campo de treinamento? Tenho que te vigiar o tempo todo e não sei como farei isso quando estiver em missão, eu... — franziu as sobrancelhas e concluiu: — Deixa pra lá.

— Algum dia vou poder voltar para a minha dimensão? — finalmente tomei coragem para começar a sabatina que me interessava.

— Viva, não — confessou cabisbaixo, e engoli em seco.

— Você sabia que ia me abandonar naquela pousada do Saara?

— Sim. — Sua voz estava fraca e a testa lotada de vincos. — Nunca me arrependi tanto de algo que tenha feito na vida, Nina — arfou e confessou algo que mexeu com meu coração: — Eu sentia algo estranho crescer dentro de mim toda vez que precisava me afastar de você. Só tive a dimensão do tamanho dessa dor, dessa dependência que meu espírito sentia do seu à medida que os dias iam passando e a sensação dentro do meu peito crescendo, queimando, destruindo minhas certezas. Depois que abandonei você naquela pousada, dias depois, eu ainda lutava para não querer você, mas parecia um combate impossível de vencer. As sete mil moedas de ouro em meu bolso perderam seu valor e fiquei perambulando por Zyrk, perdido em meu próprio mundo. Até que tive a ideia de convencer Shakur da importância de tê-la aqui conosco e barganhei sua vida, juntamente com as moedas de ouro, pelo trono de Thron.

Ele me pegou desarmada. Definitivamente, eu não estava preparada para aquele tipo de resposta.

— Shakur não suspeitou de nada?

— Pelo contrário. Ele até me surpreendeu aceitando de bom grado essa proposta — respondeu ele, piscando os longos cílios negros para mim. — Ele disse que, se eu conseguisse resgatá-la do grupo de John e a trouxesse viva para Thron, não apenas me passaria o trono quando ele morresse como me permitiria ficar com as moedas de ouro. Mas me fez jurar que...

— Quê?

As palavras dançavam na sua boca e não saíam.

— Quê? — insisti.

— Que eu jamais permitiria que John entregasse você a Kaller. Mesmo que, para cumprir esta missão, eu tivesse de... matar você.

— Por quê?

— Estratégia e poderio, Nina. É assim que Thron se mantém forte nestes tempos difíceis. Fazer o adversário perder uma jogada pode ser tão ou mais interessante do que ter os dados na mão.

— Shakur não questionou o fato de você ter enganado Collin, seu próprio filho?

— Não. — Ele mordeu o lábio, provavelmente achando graça de algo que eu disse. — Não é assim que as coisas funcionam entre mim e Shakur. Somos muito objetivos, pragmáticos em nossas ações. Shakur sabe que não entro em campo para perder — concluiu e, tornando a ficar com semblante ilegível, virou-se para o lago à nossa frente. Seu olhar distante me fez vacilar. — Não posso negar que tal acordo mexeu com meu orgulho, minha vaidade. Afinal, mesmo sem ser o filho de Shakur, eu deixaria de ser o resgatador principal daqui para me transformar no líder de Thron. Mais do que isso, eu seria o zirquiniano que traria a híbrida para a terceira dimensão. Meu nome seria gravado com letras de ouro na história de Zyrk. Era o prêmio e a desculpa perfeita que dava para as loucuras vinha fazendo... — travou e, após um instante de meditação, murmurou: — Mas no fundo eu sabia que estava me enganando.

— Não demonstrou isso quando me resgatou do grupo de Collin e entrou portal adentro comigo nessa dimensão — retruquei porque ainda recordava com amargura de sua postura fria e do semblante sombrio no exato momento em que me resgatou.

— Tem razão — franziu a testa e soltou o ar aprisionado. — Naquele momento eu ainda estava em conflito comigo mesmo. Por mais que lutasse contra e estivesse decidido de que era o certo a fazer, foi só eu colocar os olhos em você que minhas certezas se arruinaram. Percebi que, querendo ou não, todas elas tinham sido um mar de desculpas para salvá-la, que eu estava desesperado e disposto a tudo para mantê-la viva.

Meu Deus! Aquilo era uma confissão? Ele estava se declarando ou seria outra jogada de mestre?

— Sinto muito por tudo o que lhe causei, Nina, mas não tive saída — continuou, resgatando-me do transe. — Ou trazia você para cá ou você acabaria sendo eliminada. O Grande Conselho ainda não havia definido sobre seu futuro e sua vida estava em risco.

— E agora? O que tem em mente para mim?

— Mantê-la viva e a salvo dos meus. Mas, antes, você precisa estar com sua força recuperada e, para isso, um banho virá bem a calhar.

— Eu me sinto bem e ainda tenho muitas perguntas — rebati agitada ao vê-lo se levantar.

— Depois. Senão vão acabar dando por sua falta — balançava a cabeça enquanto alongava o corpo. — É melhor começar a se banhar — acrescentou com a fisionomia voltando a ficar marota: — Eu não vou olhar.

Eu arregalei os olhos e, constrangida, perdi o raciocínio e a respiração. Ai, não. E agora?

— Quer que eu saia? Posso voltar em uns alguns minutos, uns vinte minutos, se preferir. — Ele tinha um sorriso torto no rosto.

Aliviada, confirmei com a cabeça.

— Você não vai me largar aqui, vai? — perguntei preocupada. Já imaginava um daqueles filmes de terror onde a pessoa é encontrada morta e com o corpo em decomposição dias depois.

— Claro que não! Depois desse trabalho todo para manter você viva? — assinalou com ar brincalhão enquanto se afastava. — Ah! Às vezes aparecem algumas cobras na água. Cuidado.

— O quê? — guinchei assustada, mas ele já havia desaparecido.

Cobras? Na água? Calma, Nina! Você consegue. Você tem vinte minutos. Dezenove. Dezoito. Falava em voz alta tentando afastar o pavor que me invadia enquanto retirava o volumoso vestido. Raios! Seria tão mais fácil tirar minha calça jeans e minha camiseta!

Dando uma última checada para ver se Richard não me espiava de algum canto qualquer, deixei cair a última camada do vestido, que mais parecia uma anágua dos tempos da minha bisavó. Completamente desconfortável, apavorada e nua, entrei pé ante pé no lago. Contando o tempo e checando qualquer movimento ao meu redor, fui lentamente caminhando em direção ao fundo e deixando a água morna atingir todas as partes de minha pele. Como eu precisava daquele banho! Uma sensação de calma e prazer me invadiu e me deixei levar por ela. Pensei em todas as explicações que Richard me dera, na sua luta por me manter viva e senti meu espírito regozijar-se. A sensação era de bem estar, como se estivesse lavando a minha alma também. Em meio a um mergulho eu ouvi um ruído fino. Assustada, procurei ao meu redor, mas não havia nada. Nada que conseguisse enxergar, pois o vapor que emanava da água dificultava de sobremaneira a visualização da parte do meu corpo que se encontrava submersa. Recuperei a respiração e, quando tornei a mergulhar, senti algo gelado tocar minha pele. Forcei a visão e quase surtei de susto. Uma cobra! Uma não, um batalhão delas! E quanto mais eu tentava me afastar ou enxotá-las, mais elas me cercavam por todos os lados. Em pânico, comecei a berrar a plenos pulmões:

— Socorro, Richard! Rick!

— Nina? O que houve? — Ele chegou correndo.

— Cobras! Tem cobras por todo lado! Ah, minha mãe! — eu gritava desesperada.

— Venha para a margem! — ele comandou lá da beirada. Não conseguia enxergá-lo direito devido à grande quantidade de vapor que subia pela agitação da água.

— Não dá! Elas estão me cercando!

— Vou ter que entrar! — berrou de volta e arrancou a camisa.

— Não! — Fui trazida à realidade: eu estava nua. — Fique onde está!

— Eu não posso ajudar de onde estou! — ele retrucou nervoso.

— Ai!

Avançando sem a menor cerimônia, elas começaram a deslizar sobre minha pele. Meu Deus!

— O que houve? Nina? Eu vou entrar e pronto! — rugiu e desabotoou a calça.

— O que você está fazendo? — guinchei com os olhos arregalados.

— Tirando a minha roupa. Não posso sair daqui com ela molhada!

— Não! — protestei. Neste momento, algo horroroso aconteceu e desatei a chorar desesperada: uma das cobras se enrolou na minha perna esquerda, seguida por outras. — Ah, na minha perna, Rick! Socorro!

Ouvi um mergulho e braçadas na água. Comecei a me debater feito uma louca, mas eu estava tão apavorada que mal me dei conta que Richard já estava a poucos metros de distância e me observava com o olhar vidrado. Com a água na cintura, minha única reação foi levar as mãos aos seios, escondendo-os desajeitadamente. Porém, as malditas cobras continuavam a subir na minha perna e eu me remexia sem parar.

— Shhh! — disse ele, aproximando-se muito lentamente. — Fique quieta, Tesouro — sussurrou.

— Eu não consigo!

— Consegue sim — repetiu em baixo tom e cada vez mais perto. Em meio ao vapor, ele surgiu como uma visão espetacular e senti meu ar e meu raciocínio escapando por todos os poros do meu corpo. Suas cicatrizes avermelhadas pelo calor destacavam-se na musculatura perfeita de seu peitoral e eram tão hipnotizantes quanto assustadoras. — Shh! Não se mexa — ordenou ele com suavidade enquanto fazia movimentos na água a seu redor.

Obedeci, fechei os olhos e aguardei com o coração na garganta. A minha dúvida naquele momento era se meu coração estava à beira de um suicídio, jogando-se para fora da minha boca devido às cobras ou pelo fato de Richard estar completamente despido e a uma mínima distância de meu corpo também completamente nu. A água morna parecia ter triplicado de temperatura e eu estava fervendo por dentro. Senti o sangue pulsando alucinadamente em meus ouvidos e descobri que não sabia mais respirar.

— Calma — ele tornou a comandar. Sua voz estava mais perto ainda. Oh, Deus!

Quando reabri os olhos, as malditas cobras já haviam se afastado e nadavam em direção a Richard. Todas, exceto a nojenta insistente que continuava subindo pela minha coxa.

— Ainda tem uma na minha perna esquerda — choraminguei com voz aflita, dando chutes na água na inútil tentativa de me ver livre dela.

— Não faça isso! — Richard alertou sério, e parei no mesmo instante. O olhar dele era como um pavio aceso, deixando em chamas o ar entre nós. — Fique quieta. Vou removê-la.

Removê-la? Como assim? Ele ia mergulhar e puxá-la? Mesmo com todo aquele vapor ao nosso redor, o que seria ele capaz de enxergar do meu corpo submerso? Aquele pensamento me deixou mais apavorada do que ter o desgraçado réptil gelado de outro mundo grudado na minha pele.

— Não se mexa! — comandou, aproximando-se vagarosamente.

Como se fosse preciso pedir isso! Eu já estava em estado de choque!

No instante seguinte Richard surgiu na minha frente, todo molhado e com água cobrindo até a cintura. As gotas d’água reluziam em seu peitoral, seu cabelo molhado e jogado para trás deixava seu rosto ainda mais perfeito. Constrangida e sentindo meu sangue entrar em ebulição, eu me vi apertando os seios, como se pudesse escondê-los um pouco mais. Não havia mais espaço entre nós e ele estava ali: nu, lindo e a poucos centímetros de mim. Cristo Deus! E agora?

Pane. Eu implorei por algum comando interno, mas meu cérebro deixara uma placa de aviso: fora de expediente. Filho da mãe! Ele havia parado de funcionar e me deixado na mão num momento como aquele?

— Shhh! — tornou a pedir. — Eu não vou mergulhar, se é isso que a preocupa — explicou com a fisionomia marota, parecendo adivinhar meus constrangedores pensamentos. Às vezes me perguntava se ele não era capaz disso.

O brilho de malícia estava de volta aos seus magníficos olhos azuis-turquesa. Como um felino faminto diante da presa acuada, Richard estudava sua aproximação. Minha pulsação disparou e enrubesci furiosamente sob seu exame minucioso. Desconcertada, senti um tremor involuntário e, agarrado na garganta, meu coração começou a me sufocar no momento em que ele segurou a minha cintura e, sem parar de me encarar, começou a abaixar e deslizar as mãos pela lateral do meu corpo. Lentamente elas percorreram minhas coxas até chegarem à panturrilha esquerda. Nova descarga elétrica. Agora eu não sabia mais o que estava sentindo: Calor? Frio? Vergonha? Medo? Desejo? Uma coisa era certa: o choque tinha sido tão violento, que até a maldita cobra acabou sendo eletrocutada e se desprendeu da minha pele.

— Pronto, você está a salvo — sussurrou ele à medida que se levantava lentamente, sem se afastar de mim. Suas mãos agora percorriam minhas costas.

— Mas não de você — balbuciei sem coragem de encará-lo.

— Não de mim. — Acariciando meu queixo, Richard elevou meu rosto e eu me tornei um fio elétrico na água. Quando dei por mim, estava me afogando em seus olhos e não sabia o que dizer. — Ah, Tesouro! O que eu não faria por você? O que eu não daria para ter você só para mim — suspirou e, segurando meu rosto entre suas enormes mãos, encostou sua testa na minha.

Minha alma tremeu num misto de alegria e profunda tristeza. Deveria estar feliz com aquela confissão, mas ambos sabíamos que não havia pontos que pudessem nos unir. Um era o dia; o outro, a noite. Senti um nó se formar na boca do meu estômago e um sentimento de perda de algo que nunca tive me invadir. Ele gosta mesmo de você, Nina! Disse uma voz tímida dentro de mim, pegando-me de surpresa.

— Rick?

O que você vai fazer, Nina? Advertia minha razão aos berros.

Ele tornou a me olhar com profundidade.

— O que foi, Tesouro?

— Você jura que não está me enganando novamente? Promete que vai cuidar de mim?

Um sorriso estonteante surgiu em sua face e senti todo o ar se esvair dos meus pulmões. Ele não era apenas sexy, viril e amedrontador: sua beleza era de tirar o fôlego. Respira, Nina!

— Sempre. Eu lhe juro pela minha vida, Tesouro.

— Você nunca mais vai me abandonar?

— Nunca. E também não deixarei que ninguém lhe faça mal. Eu prometo — sua voz saiu rouca e suas pupilas me surpreenderam. Ao invés de se contraírem, elas se dilataram, prova real da emoção que fluía dentro dele. Senti a amargura e o rancor que eu ainda trazia guardados dentro de mim começarem a se dissolver em minhas veias e uma sensação de euforia preencher os espaços vazios.

Feliz, fui capaz de fazer o que eu jamais imaginaria: deixei meus braços escorregarem, caindo ao lado de minha cintura. Os olhos dele se arregalaram, sua respiração acelerou no mesmo instante e ele me puxou para junto dele. Nossos corpos se colaram, o relevo de suas cicatrizes deixando marcas na minha pele. Nosso sentimento palpável no ar, como uma explosão de centelhas flamejantes. Cristo! O que era aquilo que Richard gerava em mim? O que eram aquelas contrações enlouquecedoras que atingiam todos os músculos do meu corpo? Cega de desejo, eu queria que ele afundasse seus lábios nos meus e me beijasse com fúria, mas Richard limitava-se a me abraçar com avidez, como se estivesse desesperado.

— Ah, Tesouro! O que você está fazendo comigo? — gemeu e tornou a me olhar, suas pupilas completamente verticais agora. Todas as partes do seu rosto ficaram comprimidas em linhas de tensão e emoção profundas.

Aproximei-me perigosamente, mas, com sutileza, ele desviou o rosto e tocou seu dedo indicador em meus lábios úmidos de desejo.

— Não podemos, Nina. — Havia frustração evaporando de sua voz.

— Por favor — pedi.

— Não — rebateu taciturno.

— Rick, eu...

— Eu consegui uma graça e não vou me arriscar a perder você novamente, Tesouro.

— É só um beijo. E você já me beijou antes.

— Não. — Seu tom era afável, mas incisivo. Tremi. Ele percebeu e tornou a me abraçar, puxando-me no mesmo instante para o aconchego do seu peitoral. Com o queixo em minha cabeça, confessou algo que me deixou ainda mais atordoada: — Não é só um beijo, Nina. Quando beijei você lá naquele deserto, eu... — hesitou.

— Você?

— Eu ainda não sentia nem metade, nem um décimo do que eu sinto agora por você. E, quanto maior a reação que você gera em mim, maiores são os riscos de eu sugar sua energia vital, por menor que seja o contato, entende? — arfou.

— Você quer dizer que quanto mais você gostar de mim, maiores os riscos de me matar?

— Sim. — Richard contraiu a testa por um instante. — Além do mais, você ainda está fraca. Sua energia não está completamente recuperada.

— Mas eu não tenho mais sentido aquela fraqueza e a tontura quando estou perto de você — argumentei.

— Não? — Seus olhos brilharam com intensidade por um instante, mas, mesmo assim, passando nervosamente as mãos pelo cabelo, ele travou o maxilar: — Nós não podemos ter nenhum contato maior e ponto final. Ninguém tocará em você. Ninguém! — Visivelmente agitado, Richard finalizou a conversa com rispidez: — Vamos embora. Daqui a pouco darão por sua falta.

Richard se soltou de mim e, desconcertada, tornei a me cobrir. Lançando-me um sorriso incompreensível, Richard virou de costas e saiu em direção à margem do lago. Como alguém podia mudar de atitude tão bruscamente?

— Pode me seguir. Não vou olhar para trás — soltou com descaso.

Onde estava todo aquele carinho de dois segundos atrás? Seria puro fingimento? Meu sangue tornou a ferver, só que de raiva.

— Ninguém vai tocar em mim? — berrei feroz, e ele estancou o passo, mantendo-se de costas para mim. — Ah, entendi! — rosnei. — Eu sou o seu grande troféu, não é mesmo, Richard? Todos podem olhar e admirar, mas nunca tocar em sua conquista, certo? É assim que vou passar o resto da vida enquanto você vai curtindo noitadas com as suas amiguinhas zirquinianas? É isso que planeja para mim?

Ele não respondeu e continuou parado, mas pelo movimento de subir e descer de suas costas, sua respiração estava acelerada.

— Responda! — ordenei furiosa.

Permanecendo de costas para mim, Richard girou ligeiramente a cabeça em minha direção. Pude captar a angústia deformando os traços do seu perfil irretocável.

— Sim, Nina. É o que tenho em mente — confessou e me fez perder o chão.

— Não! — meu rugido saiu fraco e senti a lâmina da amargura amputando meus melhores sentimentos. — Por quê? Você é louco ou sádico? Por que faz isso comigo, Rick?

— Vamos embora! — Ele tornou a vestir sua repugnante couraça de indiferença.

— Responda! — berrei, segurando as lágrimas.

Imóvel, ele não respondeu. Após um tempo que pareceu interminável, Richard finalmente se virou para me encarar. Mesmo distante e em meio ao vapor que nos rodeava, era possível enxergar a tensão em sua face.

— Porque sou homem e porque sou um zirquiniano, Nina. E porque você nunca poderá me dar o que elas podem — disse com um sorriso frio. — Então bebo, fecho os olhos e imagino que é você que está ali em meus braços. Guardo seu perfume em minhas lembranças e, quando as possuo, fantasio que é você quem está em meus braços e meu corpo sente algum prazer. — Ele franziu a testa como se estivesse sentindo algum tipo de dor e acrescentou em baixo tom: — Mas eu trocaria todas as noites da minha vida e todas as mulheres do mundo, desta ou da sua dimensão, se pudesse ter você inteiramente para mim. Eu daria minha vida para que você fosse realmente minha, nem que fosse por uma única vez.

Meu queixo desabou. Aquela confissão me fez perder o chão. Richard tinha o peculiar dom de destruir todas as minhas certezas.

— Mas, como eu já disse antes — ele esfregou as mãos no rosto molhado e continuou com a voz restaurada e mordaz —, não vou mais arriscar sua vida e sou egoísta demais para abrir mão de você. Sinto muito.

Em outras palavras: pouco importava o sentimento que ele dizia ter por mim. Querendo ou não, eu seria sua prisioneira intocada para o resto da vida.

— Ande depressa! — ordenou e recomeçou sua caminhada com passadas firmes.

Eu o segui, mas notei que elas também... As cobras!

— Ah, não! — gemi logo atrás.

— Elas são inofensivas — gargalhou ao confessar a farsa. Ele ainda não olhava para mim. — Só captam o movimento. Assim que você ficar imóvel, elas se afastarão.

— O quê?!

Filho da mãe! O que acabava de acontecer fora apenas uma encenação? Um joguinho para ele vir até mim e tirar algum proveito?

— Você não vale nada! Você queria era ver meu corpo nu, seu cretino! — esbravejei irada.

— Eu não precisaria disso — comentou com displicência ao alcançar a margem do lago. Antes de recolher as roupas no chão, ele sacudiu o corpo molhado sem o menor constrangimento. — Mas foi muito bom.

— O que você quer dizer com isso? — indaguei confusa.

Sem que eu pudesse esperar, ele virou o corpo desnudo para mim e, exibido, abriu os braços e um sorriso cafajeste. Desviei o olhar, consumida pela ira e pela vergonha.

— Pode olhar. Não tem problema — soltou implicante. Permaneci de cabeça baixa. — Porém — ele continuou impertinente —, não posso negar que foi ótimo relembrar alguns detalhes do seu corpo, Tesouro. Podem me ajudar na hora H, quando a noite chegar.

— “Relembrar”? — retruquei, mas ainda não tinha coragem de levantar a cabeça.

— Já pode olhar — ele soltou outra gargalhada endiabrada. — Vou esperar você na entrada do túnel. Quando acabar de se vestir, é só me chamar.

Idiota!

Aguardei um pouco e, por fim, olhei. Richard não estava mais lá. Ótimo! Seguida pelas malditas cobras, trotei até a margem e, bufando, recoloquei o vestido. Não chamei por ele, como o cretino esperava. Pelo contrário, fui ao seu encontro, tateando pelas paredes do escuro corredor, e acabei trombando nele. Pelo visto, ele já tinha notado minha aproximação, mas se fez de morto para me testar e ver até onde eu conseguiria ir.

— Muito bem — parabenizou-me e segurou meu braço. Era irritante o tom debochado de sua voz. — Da próxima vez, você pode vir sozinha.

— Não haverá uma próxima vez — devolvi, desejando me livrar logo dele, mas não enxergava absolutamente nada e sabia que precisava de Richard para me conduzir até a saída. O medo e a claustrofobia falaram mais alto.

— Não? — Ele ria.

— Não voltarei aqui — rosnei. — Prefiro tomar banho com os outros a ficar a sós com você novamente.

Ele ficou mudo e senti seus dedos afundando em minha pele. Sem enxergá-lo, de repente notei sua respiração bem próxima à minha orelha direita, as mãos afastando os cabelos molhados de meu pescoço.

— Não. Você não prefere. E não. Você não vai — sussurrou com a voz entrecortada e ameaçadora. — Vamos embora. Já demoramos demais.

Ele me tirou rapidamente dali e, muito sério, levou-me até o meu aposento sem pronunciar uma única palavra.

— Descanse, mas antes enxugue bem o cabelo — ordenou. — Thron é muito úmido e não quero que você se resfrie.

— Boa ideia! — debochei. — Adoeço, morro, e me livro logo de você e desse lugar horroroso! — trovejei e bati a porta do quarto na cara dele.