Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 22 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 22

 

— Se precisar de alguma coisa, moça, é só acionar o sino da sua cabeceira. Estarei por perto — concluiu o soldado com uma piscadela e se retirou, deixando-me boquiaberta e plantada diante da porta. Era uma agradável surpresa saber que não seria vigiada por aias ou uma guarda sempre atenta. A prova da confiança que meu avô depositara em mim e a confirmação de que em Windston eu não era uma prisioneira. Pela primeira vez desde a morte de minha mãe sentia-me realmente amada e feliz e todos os pensamentos de fuga e retorno para a segunda dimensão haviam sido apagados de minha mente. Ao menos, temporariamente.

O quarto era simples. Constituído pelas mesmas pedras cinza claro do castelo, tinha uma cama de madeira marrom claro e um tapete bege bem fofo em seu centro. O destaque ficava por conta dos inúmeros vasos de vidro com flores de todas as cores espalhados pelo chão e uma travessa com pêssegos e ameixas sobre a cabeceira ao lado da cama. Não havia banheiro e uma banheira de madeira transbordando de água quente fazia seu papel e ocupava um dos cantos do aposento. Pendurado em um cabideiro de madeira na parede ao fundo, um belo vestido vermelho com bordados em dourado aguardava por mim.

Exausta e decidida a finalmente não pensar em nada e ter apenas uma noite de descanso, tranquei a porta do quarto, peguei a travessa de pêssegos, retirei a roupa e mergulhei na banheira. O banho quente me fez relaxar e devo ter adormecido porque acordei tremendo de frio dentro da água que agora estava supergelada. O vento forte chicoteava a cortina do quarto e me fazia arrepiar ainda mais. Encolhida de frio, saí da banheira e me enrolei na toalha que estava sobre a cama. Novas lufas de vento acentuavam o calafrio e caminhei até a janela com a intenção de trancá-la quando escutei uma discussão acalorada no jardim situado no andar abaixo do meu quarto. Cristo! Era entre John e Samantha! Forcei a audição, e, apesar de não ter acesso ao conteúdo da conversa, detectei forte tensão no ar. Droga! O que estava acontecendo? Consegui captar palavras soltas como: “ataque a Windston por causa da híbrida”, “destruição de Zyrk por causa da híbrida”, “mercenários” e “Richard”.

Com o coração bombeando sangue alucinadamente em meus ouvidos, penteei meu cabelo de qualquer maneira, coloquei o vestido vermelho que estava no cabideiro, calcei as terríveis sandálias de couro e saí do quarto ao encontro deles. Eu precisava estar a par do que acontecia ao meu redor, entender a real grandeza do perigo que Windston corria. Não podia ser uma mera telespectadora de um mundo em desmoronamento por minha causa.

Tentando me desviar ao máximo das pessoas que surgiam pelo caminho e manter a direção do lugar onde John e Samantha se encontravam, acabei me perdendo em meio ao sobe e desce das escadarias e saí no jardim que dava para uma área que parecia ser os fundos do palácio de pedra. Rodei e rodei e não vi sinal deles. Resolvi caminhar um pouco, determinada a digerir melhor, não os pêssegos, mas o furacão de terríveis possibilidades que poderia acontecer somente pelo fato de eu existir. Eu precisava respirar. Precisava pensar, destilar a adrenalina que latejava em minhas veias. Não conseguia acreditar que minha existência fosse tão letal, que em questão de dias tudo ali poderia ser destruído por minha causa. Não podia aceitar que o simples fato de saber que Richard experimentaria com Samantha um tipo de contato que jamais poderia ter comigo me gerava um ódio enlouquecedor. Eu estava tomada de ciúmes de um rapaz que eu não poderia ter e que eu deveria odiar. Oh, Deus! Eu precisava ser mais forte! Eu tinha de ser mais forte! Saí dos jardins, caminhei para a área externa do castelo e andei sem olhar para trás até o lugar mais afastado que minhas pernas pudessem me levar. Queria ficar longe de tudo e de todos, e, se fosse possível, até de mim também. Quando dei por mim, já estava próxima à grande muralha, na divisa com a área das assustadoras sombras.

Parei.

Alguma coisa estava errada por ali. Por que não havia uma alma viva sequer? Onde estavam os guardas que vigiavam o local? Deveria haver ao menos uma dúzia deles por aqui... Tentava me convencer da normalidade da situação até ouvir passos. Assustada, encostei-me no muro de pedra que rodeava a torre maior da guarda local e desatei a contorná-lo lenta e cuidadosamente. Outros ruídos e o oxigênio à minha volta entrou em combustão e evaporou.

— Não! — Em estado de choque, liberei um grito baixo antes de levar as mãos à boca. Um soldado de Windston acabara de soltar um gemido e cair morto assim que uma espada ensanguentada irrompeu do seu abdome. O assassino não precisou olhar para trás para eu saber quem era.

— Nina?! — sua voz saiu mais grave que de costume. Richard finalmente se virou e parecia tão assustado quanto eu. — Não... não era para você ter presenciado isso.

— Não era para eu ter visto você matar outra pessoa?! — berrei descontrolada. Foi a primeira vez que realmente tive medo dele. — Foi isso que você quis dizer?

— Eu precisei. Era ele ou centenas de outros — arfou acelerado. — Ele ou você.

“Richard é o resgatador mais sanguinário dessa dimensão.” Essa frase de John me assombrou como nunca.

— Mentira! O que quer de mim agora? — retruquei nervosa e senti minhas unhas se enterrando nas junções do cimento da parede às minhas costas.

— Eu a quero viva, droga! — a voz dele saiu entrecortada.

— Viva para salvar a própria pele, não? — enfrentei-o.

— Não é nada disso! Se você não tivesse fugido, eu...

— Você teria me levado para o seu líder! — rebati feroz. — Você acha que sou tão estúpida assim para cair na sua conversa novamente? Cristo, eu tenho amor próprio, Richard!

— Você entendeu tudo errado! Windston será atacada ao amanhecer e Wangor não terá a mínima chance!

— Chega! Eu entendi muito bem, Richard. Você é inescrupuloso e inconstante! Quer me ver viva? Então suma daqui e me deixe em paz!

— Você quer me ouvir, raios! Uma guerra vai explodir assim que o dia clarear. Eu preciso te tirar daqui agora, Tesouro! — Agitado, ele passava as mãos pelos cabelos negros e tentou se aproximar da presa acuada: eu.

— Tesouro uma ova! — guinchei. — Eu já sei de tudo que preciso e não quero ouvir mais nada! — Tomada de pavor em ficar ali sozinha com ele, dei-lhe as costas e comecei a correr em direção ao castelo. Ridícula tentativa. Se já seria difícil escapar de Richard em condições normais, com aquele vestido esvoaçante parecia uma piada. Ele me alcançou em menos de meio segundo. — Não! — rugi quando ele me agarrou à força, levantou meu corpo como se fosse uma boneca de pano e me jogou por cima do ombro.

— Se não quer me ouvir por bem, vai ter que ser por mal!

— Me solta! — ordenei em vão. Minha pele estava sendo eletrocutada de cima a baixo. Eu sabia que ele tinha que me largar logo. Sabia que ele era uma doença contra a qual meu corpo não havia sido vacinado.

— Você vem comigo!

— Não vou! Me larga, Richard!

— Ah! Vai sim!

— Solte-a, agora! — Um rugido nos atingiu por trás.

Richard estancou. Eu congelei. Era John.

— Vá embora, John — Richard respondeu ainda de costas, mas senti seu corpo enrijecer abaixo de mim.

— Só depois que você a libertar — determinou John.

— Ela vem comigo — informou Richard num tom de voz baixo e ameaçador.

— Vai ter que me matar primeiro. — Aquela resposta me fez estremecer.

— Isso é fácil — Richard simulou uma risadinha e, virando-se para encará-lo, colocou-me no chão. Ele ainda me segurava com força.

— Largue-a e venha ver se será tão fácil assim.

— Eu não quero matar você, John — rebateu. Eles mal piscavam, olhos azuis-turquesa em linha direta com olhos cor de mel.

— Fique tranquilo. Você não vai me matar. Eu é que vou acabar com a sua raça. — John sacou a espada da bainha e ficou em posição de combate. — Solte-a.

Meus sentimentos e certezas estavam em um sangrento conflito e me deixaram em total estado de inércia. Naquele momento uma pedra teria mais reação do que eu.

— Ninguém me dá ordens. — Richard estava ficando nervoso.

— Ótimo! Pois então, venha me calar — John o desafiava.

— Você não vai me tirar do sério, John. — Richard tentava demonstrar autocontrole, mas suas sobrancelhas se aproximavam.

John olhou diretamente para mim e disse com candura: — Nada vai lhe acontecer, Nina. Eu vou cuidar de você.

Foi o suficiente para fazer a respiração de Richard acelerar. Seus músculos se contraíram e seus dedos afundaram em minha pele.

— Nina, eu não vou deixar que ele lhe faça nenhum mal. Você não precisa ter medo — John continuava e, piscando, lançou-me um sorriso diferente. — Eu estou aqui.

— Medo?! De mim? — atordoado, Richard rugiu e me soltou. Acho que queria olhar diretamente dentro dos meus olhos, mas não teve tempo.

— Para o castelo! — comandou John aos berros. — Corra, Nina!

Não sei se o impulso foi dado pelo susto ou pelo medo, mas meus reflexos agiram imediatamente e eu corri. Richard não esperava por aquilo.

— Nina! Não! — Richard bramiu.

Em meio à corrida, olhei por cima do ombro e vi John interceptando-o com sua espada.

— Você vai ter que passar por cima de mim! — Foi a resposta determinada de John.

— Como quiser!

Senti um mal-estar imediato, mas apertei o passo e, quando já estava a uns cem metros de distância dos dois, ouvi o som propagado pelo choque das espadas. O aperto no peito se transformou em algo muito pior: culpa. Eu não poderia viver sabendo que um dos dois morreu por minha causa. A lista dos que eu já havia condenado à morte era grande demais para suportar tamanha perda. Eu não podia deixar isso acontecer. Contrariando a ordem de John, voltei.

— Parem com isso! — gritei ao me aproximar, mas eles não escutaram. O grau de concentração na luta os fazia desligar de tudo ao redor.

Então eu fiz uma estupidez: corri em direção aos dois na intenção de apartá-los. John não me viu aproximar. Sem imaginar que a irresponsável aqui teria retornado, ou talvez pensando que se tratava de algum comparsa de Richard, ele se virou com violência e me desferiu um golpe. Só não me acertou em cheio porque Richard se lançou sobre ele, encravando a espada em seu antebraço esquerdo. Eu caí. John também caiu.

— Nina?! O que está fazendo aqui? — John estava perplexo. — Por que não me obedeceu?

Richard pareceu achar graça da pergunta e soltou uma gargalhada jocosa.

— John, eu... — Eu não conseguia raciocinar vendo tanto sangue saindo de seu braço.

— Volte, Nina! — Ele tornou a comandar, mas não lhe dei ouvidos.

Richard ameaçou se aproximar de mim. Nervoso, John me mandava sair dali.

— Você está sangrando muito! — Agoniada, comecei a me arrastar na direção de John com a intenção de ajudá-lo.

— Isso não é nada perto do que este sanguinário poderá fazer com você caso fique aqui! — John esbravejava.

— Sanguinário?! Eu?! — Richard deu um berro estrondoso e suas pupilas contraíram no mesmo instante. Como um animal possuído por um misto de cólera e atordoamento, partiu para cima de John. Ele ia matá-lo. Tomando impulso, joguei-me sobre o corpo de John, que me abraçou no mesmo instante.

— NÃO! — gritei, colocando-me na mira da lâmina afiada da espada de Richard. — Assassino! Você vai ter que me matar primeiro!

Foi tudo tão rápido que só consegui enxergar a espada congelar no ar.

— Matar... você. Primeiro? — As palavras despencaram da boca de Richard. Visivelmente em estado de choque, ele não conseguia entender o que estava acontecendo.

— Deixe-nos em paz! Vá embora! — berrei.

Richard arregalou os enormes olhos azuis e, com as mãos trêmulas, desatou a nos examinar em silêncio. Senti os braços de John contraindo ao meu redor. Sangue da sua ferida escorria por minha pele.

— Você... E ele? — Richard perdeu a cor e sua espada tombou. — V-vocês dois?! — Ele não conseguia disfarçar o ciúme, a decepção em forma de dor que o invadia. Meus pensamentos se embaralharam com sua reação, tristes, porém determinados. Respirei fundo. Pelo nosso bem e de Zyrk, sabia que tinha de colocar um fim na nossa história de uma vez por todas. — E-eu não quis acreditar. Então... Então foi por isso que fugiu com ele?

Não respondi.

— E-eu não acredito. — Atordoado, guardou a espada e afundou o rosto nas palmas das mãos. Seu sofrimento era visível e parecia sangrar mais que a ferida de John. Uma pontada de arrependimento quis se insinuar em meu coração, mas eu a sufoquei no mesmo instante. Seria melhor assim. — Eu achei que você e eu... que nós... — sua voz estava baixa e rouca, sem sua força característica.

John me estudava com os olhos contraídos. A boca fechada em uma linha fina não era de dor, mas decepção. Compreendera que eu tinha mentido para ele e que algo realmente havia acontecido entre mim e Richard. Droga! Eu era phd em magoar todo mundo!

— Desapareça da minha vida, Richard.

— Nina, por favor, não faça isso. — Sua voz saía cambaleante, fraca.

— Saia daqui.

— Vem comigo, Tesouro — ele praticamente implorava.

— Vá embora — rosnei e me obriguei a olhar em outra direção. Sabia que não conseguiria enfrentar a tristeza estampada em seu rosto perfeito. — Não está satisfeito com a quantidade de sangue que derramou?

A resposta demorou como a eternidade, mas, quando veio, estava tão ou mais afiada que a lâmina da espada dele.

— Eu vou. — Seus olhos ficaram negros, seu semblante, sombrio. Cabisbaixo, dirigiu-se lentamente à saída. Antes de contornar a lateral do palácio, ele se virou e, encarando-me, finalizou de forma ácida: — Espero que ele consiga te proteger, como você acabou de fazer com ele. Espero que ele seja tão bom com a espada assim como você é com as palavras. — Richard balançou a cabeça e, antes de desaparecer, abriu um sorriso duro, daqueles que só ele era capaz de criar: — Boa sorte. Vocês vão precisar.