Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 28 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 28

 

 

— Como assim?

Ele não me ouviu. Estava agitado demais.

— Está clareando mais cedo do que previ. Por sorte temos algum tempo de vantagem porque esse é o local mais próximo do portal. Vamos para lá agora mesmo. O cavalo veio bem a calhar — explicou agitado.

Uns discretos estalidos o fizeram fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás e, como um felino selvagem, Richard parecia captar o cheiro da ameaça no ar. No instante seguinte ele estava rígido e os olhos abertos exibiam suas pupilas completamente verticais. Ah, não!

— Merda! — ele excomungou.

— O que houve? — Minha garganta secou instantaneamente.

— Homens. Muitos deles — explicou puxando-me acelerado para junto dele. — Não temos tempo para mais nada. Preste atenção: eu vou distraí-los enquanto você foge.

— Não! — gemi apavorada. — Eu não vou sem você, Rick!

— Shhh! — ele pousou os dedos em meus lábios e, apesar de suas pupilas terem retornado ao tamanho normal, não conseguiu camuflar o tremor que o invadia. No fundo eu sabia que ele temia não pela própria vida, mas sim pela minha. — Você vai montar naquele cavalo e cavalgar com a maior velocidade que conseguir em direção ao portal. Vai distingui-lo porque é uma pedra reluzente dentro do único rochedo dessa planície árida.

— Não!

— Não temos opção, Tesouro. — Ele segurou meu rosto com as duas mãos.

— Mas você disse que são muitos, Rick! — Eu me adiantei, aflita, esfregando as palmas de minhas mãos suadas no vestido. — Como vai se livrar de todos eles?

— Eu dou o meu jeito.

— Vem comigo — implorei e uma lágrima rolou por minha bochecha.

— Se eu for, eles vão me matar e você será capturada. Vou entrar nessa floresta. Por alguma razão consigo resistir a ela, eles não.

— Você estava quase morrendo de hipotermia quando me encontrou, droga! — retruquei.

— Mas eu te encontrei, minha linda — suspirou e, por um breve segundo, um sorriso cheio de ternura abrandou seu rosto febril. — Enfim — chacoalhou a cabeça —, vou entrar nessa Floresta. Eles sentirão seu cheiro, pensarão que você é minha prisioneira e irão atrás de nós. Rogo a Tyron que isso lhe dê tempo suficiente para fugir.

Eu estava paralisada. Que loucura era essa agora? Nada era como eu pensava que haveria de ser! Sempre que alguma estratégia era desenhada, em um piscar de olhos ela era apagada e um novo e assustador plano era traçado às pressas.

— Rick, por favor, vem comigo — pedi desolada. — Eu te amo.

— Shhh! Não faz isso comigo, Tesouro. — Seu olhar suplicante quase me fez tombar ali mesmo. — Perdoe-me — sua voz saiu rouca e ele mirou a perna ferida. — Eu lhe rogo que me perdoe... por tudo.

— O que está havendo, Rick? Sua perna está muito ruim? Você está me escondendo alguma coisa, não está? — Minha garganta estava fechando e a sensação é de que haviam jogado ácido em meus olhos de tanto que eles ardiam.

— Diz que me perdoa, Nina. Por favor?

Richard implorando? Céus!

— Eu o perdoo se você prometer que vai atrás de mim, que vamos ficar juntos assim que toda essa loucura acabar — ameacei, afastando-me para olhar bem dentro de seus olhos. Ele quis desviar o rosto, mas segurei seu queixo. Percebi o azul dos olhos escurecendo ao ponto de ficarem negros. — O que foi, Rick?

— As pedras... não... não... — Ele segurou as pedras pingentes do meu cordão. Seus dedos tremiam. Ele tornou a inspirar e soltou desanimado: — Não... se esqueça de batê-las ao sair pelo portal. Eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance, Tesouro — disse baixinho. — Vá, agora! Logo um mar de soldados estará aqui e eu não terei como lhe proteger. — Sua voz saiu fraca, arranhando um discreto choro. Foi o suficiente para que eu o abraçasse de forma tão desesperada como um náufrago ao encontrar uma tábua flutuando no mar. Ele retribuiu meu abraço de um jeito caloroso e demorado. — Eu — engasgou e me apertou com desespero, deixando sua respiração sair por entre mechas dos meus cabelos. — E-eu... — Ele parecia não ter forças para liberar as palavras aprisionadas e aquilo estava começando a me agoniar. — Eu também te amo, Tesouro.

Ele disse! Richard finalmente confessou que me amava! Por mais que suas atitudes apagassem qualquer sombra de dúvida a respeito, ouvir da sua boca fez toda a diferença do mundo. Meu coração pareceu se esquecer do medo que nos cercava e começou a ricochetear alucinadamente dentro do peito.

— Ah, Rick! — Abri um sorriso maior que o mundo e afundei meu rosto em seu peitoral quente.

— Nina? — sua voz estava fraca. Ao levantar a cabeça, assustei-me com o que vi: as linhas de expressão de sua face estavam trituradas, deixando transparecer uma mistura de aflição, desespero e preocupação. Desorientado, esta era a palavra correta. O prático e determinado guerreiro havia perdido seu rumo? Perdera-se dentro de sua própria batalha?

— O que foi? — perdi o ar ao vê-lo tão atordoado.

— Você arriscaria? Mesmo sabendo que nunca poderíamos ficar realmente... juntos, que é um erro? — perguntou agitado, as pupilas vibrando. — Você realmente esperaria por mim? Esperaria mesmo sabendo que o que posso lhe oferecer é tão... tão limitado?

Meus ouvidos não fizeram as conexões do que acabara de escutar, deixando os inocentes neurônios sem qualquer reação.

— Nina? Sinto muito, eu não quis... — Ele percebeu meu estado de perturbação.

— Não é questão de poder ou não, de certo ou errado, Rick — recuperei o raciocínio e, feliz, soltei sem respirar: — É apenas uma questão de escolha. E eu escolho você. Eu esperarei por você o tempo que for necessário, Rick!

— Mas você sabe que...

— Tudo que você puder me dar me bastará! — Eu o interrompi, colocando meus dedos em seus lábios trêmulos.

Mas os dedos não permaneceram ali nem por um segundo sequer. Com a fisionomia restaurada e um olhar arrebatador, ele os afastou e, segurando meu rosto entre as mãos, se inclinou sobre mim. Sedenta e nervosa, sua boca se afundou na minha. O fogo estava de volta e eu queimava por dentro. Não conseguia acreditar que podia ser melhor a cada novo toque ou carinho. Com Richard, a próxima vez conseguia ser sempre melhor que a anterior e eu sentia que estava ficando completamente viciada nele. Precisando cada vez mais de seu corpo me envolvendo e seus lábios me asfixiando para me sentir viva. Pressa, tensão, desejo ardente penetravam por minha pele e se infiltravam por dentro de minhas membranas, minando-as sem compaixão. Ele tremia. Eu tremia. Por um breve momento não havia a minha dimensão ou a dimensão dele. Tudo que existia era o nosso mundo, nossa paixão avassaladora.

— Nina? — Senti uns tapinhas em meu rosto quente. — Nina, você está bem? — Ele me sacudia preocupado. Eu sorri.

— Nunca estive melhor em minha vida — respondi ainda de olhos fechados. Ele estava preocupado em não sugar minha energia vital, mas mal sabia que era sua presença que me recarregava.

— Graças a Deus! — Ele suspirou aliviado enquanto tornava a me abraçar com vontade.

— Você disse Deus em vez de Tyron! Já é alguma coisa — brinquei enquanto reabria os olhos.

— Droga! — rosnou sobressaltado. — Eu não consigo ser razoável quando estou perto de você! A gente não podia ter perdido esse tempo, Tesouro — reclamou olhando para o céu que clareava rapidamente. Já era dia. — Não posso te ajudar porque preciso me afastar agora. Vá! — explicou, apontando-me o cavalo. Eu gelei e ele percebeu. — Fique calma. Use troncos como calço para conseguir montar. Não precisa bater para que ele acelere. Todo animal capta a essência do seu condutor. Mostre força e determinação nas suas palavras. Ele a entenderá. Vá agora! — ordenou dando um rápido beijo em minha testa.

— Até logo, Rick — sussurrei e ele me lançou um sorriso triste em troca. Quando pisquei novamente ele já havia desaparecido através da muralha de gelo atrás de nós.

Mesmo sem compreender a emoção que se agigantava em meu peito, sabia que era hora de partir. Corri até o cavalo e fiz exatamente como Richard me explicou: tentando fazer o menor barulho possível, arrastei um tronco congelado até a lateral do animal, desamarrei-o da árvore e consegui montar sem grandes dificuldades. O problema veio a seguir: o animal começou a andar lentamente, como se estivesse passeando, e em direção oposta à que eu deveria tomar. Eu falava com ele e nada. Quanto mais tentava colocar determinação em minhas palavras, mais o cavalo parecia não ligar para mim. Ele se exibia como se estivesse desfilando em uma passarela e comecei a entrar em pânico à medida que começava a me afastar cada vez mais do meu objetivo e via o tempo ser desperdiçado estupidamente. Aquele bicho era louco! Ao contrário de todos os demais que fugiam daquele lugar macabro, meu cavalo parecia estar tentando cometer suicídio, cavalgando tranquilamente para dentro da Floresta Fria. Esta última, por sua vez, tornava a dar seus sinais de advertência lançando uma repentina nevasca sobre nós. Desesperada, desobedeci às ordens de Richard e dei batidinhas em seu dorso malhado. Sem efeito. Meu desespero se transformou em angústia e minhas mãos começaram a formigar. Aumentei a força das batidas. O bicho arregalou os olhos, reclamou num relinchar, mas acelerou. Senti um misto de pena e alívio com a sua reação. Ótimo! Agora ele sabia quem estava no comando. Era apenas questão de colocá-lo na direção correta. Joguei o braço ao ar e, quando estava prestes a acertá-lo novamente, ouvi o tilintar de espadas se chocando, xingamentos, urros de dor e berros de cólera. Meu coração veio à boca.

Cristo! Era Rick!

O animal olhava para mim, como se esperando uma nova ordem.

— Desculpe. — Eu me abaixei e sussurrei em sua orelha. — Não vou fazer isso novamente se você cooperar. — O cavalo inclinou levemente a cabeça e pareceu entender o que eu estava lhe dizendo. Eu sorri. — De acordo? — indaguei, sentindo-me poderosa e ao mesmo tempo um tantinho idiota. Para minha grata surpresa, ele se virou para mim e me encarou de uma maneira calma e profunda.

Uau! Ele havia entendido!

— Nós temos que ir para o portal, mas antes preciso que você me leve até o lugar de onde vêm esses sons. Não podemos ser vistos, entendeu?

O cavalo não acenou com a cabeça, como eu esperava, mas começou a trotar lentamente em direção ao lugar de onde os berros se originavam. Ele não fazia os caminhos mais fáceis e, por consequência, os mais prováveis de serem utilizados. Pelo contrário. Cuidadosamente os ladeava, embrenhando-se por áreas de difícil acesso, saltando sobre amontoados de neve, troncos e pedras congeladas. Ele era esperto.

Paramos.

Camuflados atrás da vegetação congelada, tive que morder a língua para não soltar um berro de pavor com o que meus olhos acabavam de ver: vários homens mortos ou seriamente feridos caídos no chão, bem próximos de onde a luta prosseguia. A grande maioria dos corpos utilizava brasões de Storm, mas identifiquei outros dois com o brasão de Marmon. Visivelmente exausto e puxando o ar com dificuldade, Richard mancava. A mancha de sangue na coxa esquerda estava bem maior e Rick apoiava o peso do próprio corpo apenas na perna direita enquanto bravamente lutava contra sete homens ao mesmo tempo. Todos eles de Marmon. A Floresta Fria ajudava na sua luta porque, apesar do exército de gelo continuar seu ataque, ele parecia mirar principalmente nos seus adversários, dando-lhe a chance de se aproveitar dos momentos em que estes últimos se distraíam ao serem seriamente atingidos pelos granizos afiados.

Ainda assim a luta era injusta! Contei os corpos abatidos: oito. Outros sete atacando. Quinze adversários! Mesmo com a ajuda da Floresta Fria, Richard não ia aguentar por muito tempo. Era demais o esforço!

Senti o ar ser drenado dos meus pulmões, escapulir por minha boca e se congelar à minha frente. Quis desesperadamente avisá-lo quando avistei um dos homens caídos arrastar sorrateiramente em sua direção. Segurei meu grito ao vê-lo se aproveitar do fato de Richard estar concentrado na luta e agarrar a perna direita dele, fazendo-o desequilibrar e cair sobre a perna ferida. Richard emitiu um berro de dor e se arrastou para o lado, esforçando-se para se levantar rapidamente. Seu tombo o fez perder segundos preciosos e, no instante seguinte, já estava cercado pelos sete guerreiros de Marmon. Traiçoeira, a floresta amaldiçoada interrompeu a nevasca por um momento. Na certa não queria obstáculos que pudessem atrapalhar seu prazer em assistir àquele covarde confronto prestes a acontecer. As pupilas de Richard trepidavam, prova incontestável do perigo iminente. Eu não podia deixar aquilo acontecer. Eu precisava ajudar. Pulei do cavalo e, tremendo da cabeça aos pés, dei um passo à frente. Por entre as folhagens congeladas, vi Richard ser mortalmente encurralado. Não havia como sobreviver. Mesmo que ele suportasse a dor e o cansaço que o debilitavam e conseguisse matar três deles em um único golpe, os outros quatro já teriam se aproveitado desse momento para acertá-lo por trás e o eliminado. Dei outro passo e o cavalo fez um barulho estranho. Seria ele capaz de sentir o cheiro da maldade exalando no ar? Estaria ele tentando me advertir sobre o perigo? Eu precisava ajudar Richard e tinha de ser naquele momento. Se eu chamasse a atenção para mim, talvez eu os distraísse e lhe conferisse tempo para atacar seus adversários. Dera certo com John no deserto do Saara...

Senti meu peito ser rasgado em dois quando o vi eliminar um dos homens, mas ser acertado de raspão nas costas, tal como havia acontecido em seu treinamento no Ômega. Fechei os olhos. Não, Nina! Não, não, não! Volte! Você é a fraqueza dele, garota! Vá embora daqui! Monte naquele cavalo e corra para o portal! Não o deixe morrer em vão, sua estúpida!, berrava a voz da minha consciência. Inútil tentativa. Eu ia desobedecê-la.

Antes de correr em sua direção e acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas, olhei uma última vez para Richard. Mesmo muito machucado, ele parecia ter recuperado a constância da sua respiração e se acalmado. Suas pupilas estavam novamente redondinhas e, estufando o peito, ele ainda tinha a audácia de lançar um sorrisinho debochado para os adversários. Cristo! Ele era corajoso demais! Abri um sorriso de orelha a orelha, orgulhosa por amar um guerreiro valente como ele. Uma sensação de esperança me aqueceu e preencheu as lacunas, os danos que os estilhaços do horror haviam me causado por dentro, e me fez dar um passo para trás. Agora eu tinha certeza: Richard ia conseguir! Ele ia derrotar aqueles infelizes! Dei outro passo para trás, mas pisei em um tronco congelado que se deslocou, fazendo-me desequilibrar e cair.

Droga!

— O que tem lá? — Ainda caída, ouvi um dos homens berrar. Ele tinha sua espada apontada para Richard e olhava em direção ao lugar onde eu estava.

— Vá checar! — ordenou o que parecia o líder deles para o que estava mais próximo de mim.

Levantei rapidamente e, ao fazer a varredura do lugar, não encontrei o cavalo ali. Só me faltava essa! Ele havia se mandado! Escutei o som de neve rangendo.

— É a híbrida! — O alerta foi dado em alto tom e, antes mesmo que eu começasse a correr, senti uma mão segurar meu vestido com selvageria. Eu me virei e vi o sujeito salivando atrás de mim, seus olhos faiscando algo sedento e demoníaco.

— Me solta! — rugi e ouvi um berro de cólera ao longe. Era de Rick. O sujeito me puxou e segurou meu pescoço com força. — Argh! — Senti um solavanco e, quando dei por mim, o homem tinha os olhos arregalados e perdidos. Atordoada, pisquei com força e entendi o que acabara de acontecer: um punhal trespassara o pescoço daquele infeliz, que agora tinha seus membros frouxos ao lado do corpo e caía retorcido aos meus pés. Reconheci aquele punhal. Ele pertencia a Richard.

— Pegue a garota, Esmil! — ordenou o que parecia ser o líder para um sujeito de pele parda.

— Com prazer! — Foi a resposta berrada mas, antes que o rapaz desse três passos em minha direção, vi Richard assumir sua assustadora fisionomia mortal. Com as pupilas completamente verticais e as feições deformadas por ódio avassalador, ele levantou as duas espadas. Rodopiando-as no ar com absurda rapidez, girou sobre o próprio eixo e se desvencilhou dos inimigos, que inclinaram seus corpos para trás para se proteger de seu ataque inesperado e furioso. Então Richard se jogou no chão e deslizando velozmente atingiu a perna do tal do Esmil com a lâmina de uma de suas espadas. O homem urrou e, quando deu a impressão que ia cair de boca no chão, contra-atacou, virando-se no ar e lançando um punhal em direção ao rosto de Richard.

— Argh! — Richard berrou. Levei as mãos à boca para segurar meu coração que ameaçou se jogar e correr em sua direção mas, quando meus sentidos conseguiram captar a velocidade dos movimentos, entendi que o berro de Rick não havia sido de dor, mas sim de ira. Ele havia cravado sua espada no pescoço do adversário e a cabeça de Esmil separou-se de seu corpo, rolando lentamente em minha direção. Olhei para Rick e ele tinha sua testa coberta de sangue. Seu incrível reflexo tinha lhe salvado e o punhal de seu inimigo havia apenas passado de raspão por sua face.

Em fração de segundo e aproveitando-se do momento de hesitação e choque dos seus adversários, Richard me fulminou com seu olhar felino. Suas feições não omitiam o que ele estava sentido: raiva. Ele estava uma fera comigo. Droga! Eu havia arruinado tudo e sabia disso.

— Rick, me desculpe, eu... — comecei a balbuciar.

— Quieta, Nina!

— Rick? Nina? Estão tão íntimos assim? — O líder soltou uma gargalhada forçada. — Quem diria? A vadia híbrida e o desertor...

Eu pensei que Richard já havia alcançado sua cólera máxima, mas então seus olhos se contraíram, seus pelos se eriçaram e ele arqueou o corpo como um bicho selvagem, um tigre prestes a dar o bote. Antes de atacar, piscou para mim e balbuciou com a voz grave: — Vou acabar com eles num instante. Não saia daqui.

E foi o que ele fez. Com uma velocidade absurda, partiu sem hesitar para cima dos cinco homens como se aquele confronto fosse a coisa mais banal que pudesse existir. Chegava a assustar a facilidade com que Richard ia eliminando seus inimigos. Senti uma pontada de alívio quando vi o corpo do terceiro homem tombar no chão. Agora restava apenas o líder e um soldado franzino, ambos visivelmente acuados. Richard se preparava para o xeque-mate...

Então tudo aconteceu.

De novo.

Eu senti o calafrio rodopiar como um ciclone dentro do meu corpo e se espalhar por minha pele, arrepiando-me da cabeça aos pés. Uma respiração fria e venenosa me atingia pelas costas. Tentei me virar, mas a ponta afiada de um punhal tocou a pele do meu pescoço e me impediu.

— Acabou, Richard! A híbrida é minha. — A frase de Kevin fez Richard congelar. Com a espada apontada para seus inimigos, ele virou o rosto sem cor em nossa direção. — Como é que dizem os humanos mesmo?... Ah, sim! — Kevin fingiu se recordar, falando animadamente com os três capangas que lhe davam cobertura. — Ri melhor quem ri por último, os últimos serão os primeiros, etc. e etc. Neste quesito tenho que dar crédito a essa raça inferior. Eles sabem fazer ótimos ditados. — Ele riu. — Solte suas armas.

Richard achou graça, mas não conseguia esconder a tensão que o tomava esculpida nos vincos de sua testa. Os dois adversários que também eram de Marmon respiraram aliviados e caminharam em direção a Kevin e seus comparsas. Agora eram seis contra um.

— Largue suas armas — tornou Kevin a ordenar.

— Você não vai matá-la — Richard balançava a cabeça e começou a se aproximar lentamente de nós. Ele tentava parecer calmo, mas suas pupilas começaram a lhe trair. — Burro eu sei que você não é, Kevin.

— Grato pelo elogio. — A víbora parecia não se importar com a aproximação de Richard. Na certa já havia analisado seu deplorável estado e acreditava que ele e seus cinco homens o aniquilariam com facilidade. — Mas você vai morrer de qualquer maneira. Por que resiste tanto, hein? Pensou que conseguiria se safar do Vértice se ficasse com a híbrida?

Pegando a todos de surpresa, Richard abaixou a cabeça e começou a rir. De início era um riso baixo, mas logo a seguir ele foi crescendo e acabou se transformando em uma gargalhada alta e contagiante. Céus! O que estava acontecendo com ele?

Sob a ponta afiada daquele punhal, eu permanecia atordoada com o desenrolar dos fatos. Kevin e seus homens estavam paralisados, completamente perdidos diante da impensável reação do adversário. Richard não parava de gargalhar. Um minuto. Dois. Vinte respirações entrecortadas. Em uma fração centesimal de segundo compreendi o que acontecia ao meu redor: Rick arrumava um meio de se aproximar ainda mais de nós, mas hesitava ao visualizar o punhal de Kevin tão encostado em meu pescoço. Um pequeno erro, um mínimo movimento, e meu corpo desabaria sem vida ali mesmo. Tudo levava a crer que Kevin não me queria morta senão já teria me eliminado. Na certa ele precisava de mim como moeda de troca para as suas falcatruas, mas Kevin era um covarde antes de tudo. E, como eu sempre disse, covardes nunca arriscam a própria vida. Nunca.

Em meio à gargalhada enlouquecida de Richard, aguardei até que suas pedras azuis-turquesa encontrassem com os meus ávidos olhos castanho-claros. Sorri discretamente, fiz um gesto sutil indicando que ia agir e vi as pupilas dele tremerem em resposta. Ele havia entendido! Então tudo aconteceu em flashes: eu dei um solavanco e me abaixei, livrando minha cabeça do contato contínuo com a arma de Kevin, Kevin desequilibrando, um urro descomunal, Richard aproveitando o instante de distração de Kevin e voando como um bicho para cima de nós, meu corpo sendo lançado a uma enorme distância e Richard caindo sobre Kevin. Bati com a cabeça no chão e vi tudo girar. Quando minha visão se restabeleceu, Richard estava de pé e, apontando uma das espadas para o pescoço de Kevin, imobilizava-o no chão. O rosto louro de Kevin se encharcou de suor e pavor em meio ao gelo. Senti outra fisgada em meu pescoço. Droga! Tentei reagir, mas o sujeito que até a chegada de Kevin ficara como líder do grupo agarrava-me com estupidez pelo cabelo e passava a lâmina de seu punhal na minha pele. Senti uma ardência e gemi.

— Se a machucar outra vez, você morrerá antes de Kevin, Ivan — Richard o advertiu num rugido. — Solte a híbrida.

— Nunca! — Ivan o enfrentava.

— Se quiser que Kevin viva, solte-a agora! — Richard tornou a comandar.

— Solte a híbrida, Ivan! — ordenou o covarde do Kevin.

— Não!

— Solte a híbrida ou ele morre. — Richard começava a perder a paciência.

— Solte-a, Ivan!

— Não! Não vê que é isso que ele quer, Kev! Se a soltarmos ele nos atacará na mesma hora! Eu prefiro matá-la! — Tomado pelos nervos, Ivan estava perdendo a lucidez. Eu gelei. Richard percebeu a gravidade da situação. Aquele sujeito desequilibrado poderia enfiar o punhal em meu pescoço a qualquer instante.

— Solte-a e eu liberarei Kevin. Faremos uma luta limpa. Eu contra vocês seis — Richard tentava barganhar.

— Perfeito — disse Kevin num jorro de alívio. — Solte a garota, Ivan!

— Não, Kev!

— Solte-a, infeliz! — Kevin bradava.

— Você tem cinco segundos antes de seu líder morrer, Ivan. — As feições de Richard começaram a se modificar. — Cinco. Quatro.

— Solte-a agora, Ivan! — Havia pânico na voz de Kevin.

— Três.

— Não! — O homem tremia e tornou a me tocar com a ponta do punhal. — Você precisa saber de um fato importante, Kev!

— Dois! — Richard bramiu e levantou a outra espada no ar. Ele ia decapitá-lo!

— Solte-a, Ivan! — Kevin fechou os olhos e soltou um berro que era uma mistura de choro e gemido.

— Se você matá-lo, a híbrida morre na mesma hora. Estou falando sério! — ameaçou Ivan, tornando a passar o punhal afiado em meu pescoço.

— Argh! — gemi com a nova fisgada e a espada de Richard flutuou no ar, paralisada.

— Se tentar me matar, Trevor terminará o serviço — acrescentou Ivan chamando um colega para perto de mim. — Aponte sua espada para ela também e, se ele correr em nossa direção, mate-a antes mesmo de se defender. Fui claro? — ordenou ao soldado.

O tal do Trevor plantou-se atrás de mim e manteve a ponta da espada encostada nas minhas costas. Kevin reabriu os olhos, atordoado. Richard contraiu os dele.

— Eu sabia! — O tal do Ivan se vangloriava. — Era isso que queria lhe dizer, Kev! Richard se importa com ela.

Os olhos da víbora se arregalaram e agora faiscavam, excitados:

— Exponha o pescoço dela novamente, Ivan!

Perdi o ar e vi Richard tornar a abrir os olhos, as pupilas completamente felinas agora. Sua espada ainda estava parada no ar.

O capanga ficou desorientado por um instante, mas, assim que compreendeu a ordem, não conteve o sorriso de satisfação. Eu tentei me soltar, mas Trevor me impediu, afundando a espada nas minhas costas. Ivan inclinou minha cabeça para trás, puxando-me pelo cabelo, e levantou o punhal a alguma distância.

— Mate-a! — Kevin comandou com um sorriso incerto nos lábios e uma sobrancelha arqueada.

— Com prazer, Kev. — Ivan me olhou com ódio e aprumou o punhal na mão.

— Não! — A voz de Richard saiu trôpega.

— Espere, Ivan! — ordenou Kevin, ainda sob a sombra da espada de Richard. Ivan diminuiu a tensão em meus cabelos e empurrou minha cabeça de volta a seu lugar. — Então você se preocupa mesmo com ela? — As pupilas de Kevin vibravam. — Largue suas armas e eu a deixarei viver, Richard.

A expressão de falso triunfo no rosto de Kevin não deixava dúvidas: ele morria de medo de ser decapitado pela espada de Richard assim que meu corpo tombasse sem vida nos braços de Ivan. Mas Kevin sabia jogar e seu blefe foi perfeito.

— Largue suas armas — tornou a comandar para um Richard completamente atordoado. Ele olhou para mim por um instante, o olhar triste, quase perdido. Oh, não! Uma enxurrada de compreensão. As frases de Guimlel sendo berradas em um alto-falante dentro de minha cabeça. Seus temores se confirmando: eu me tornara o ponto fraco de Richard e agora seus inimigos se aproveitariam disso. Por amor a mim, o maior guerreiro de Zyrk ia perder a sua vida. Aflita, olhei bem dentro dos seus olhos e comecei a balançar a cabeça. Ele desviou o olhar de mim.

— Não! — berrei, por fim. — Rick, não! Eles vão matar você!

Uma espada escorregou da sua mão e caiu ao lado de Kevin. Como a outra espada de Richard estava encostada em seu pescoço, a víbora não ameaçou se mexer.

— Não, Rick! — implorei em desespero. Ele fingia não me escutar e encarava Kevin com a fisionomia taciturna. — Rick, não! Por favor, não faça isso! Por favor!

Um choro fino. Foi o que tive a sensação de escutar quando a segunda espada se desprendeu das mãos do seu dono e tombou combalida no chão. No instante seguinte ela já estava nas garras asquerosas de Kevin, que se levantou num rompante, levando-a junto consigo para um ataque contra Richard. Rick foi rápido e, jogando o corpo para trás, conseguiu se desviar da lâmina afiada da própria arma. Agora eram cinco guerreiros armados contra um desarmado.

— Fique com a híbrida, Ivan! Quero que ela veja o que vai acontecer com seu suspeito protetor. Suspeito? O que ele queria dizer com aquilo? — Os demais venham para cá! — comandou Kevin para seus homens. — Devagar — disse gesticulando como um maestro. — Vamos saborear. Preciso sentir o cheiro da vitória e do sangue no ar. — A víbora salivava com prazer demoníaco.

Mesmo estando Richard completamente desarmado, seus adversários não partiram de imediato para o ataque. Eles fizeram o pior tipo de emboscada possível: os cinco o cercaram e começaram a minar seu corpo e suas forças, acertando propositadamente pequenos golpes de raspão em seus braços, pernas, costas e peitoral. Exausto e sem ter por onde escapar, toda vez que Richard avançava sobre um deles este recuava e os outros quatro o acertavam covardemente por trás. Era este o showzinho macabro que Kevin queria que eu assistisse? Cada ferida que eles causavam no corpo de Richard gerava fisgadas lancinantes na minha própria pele. Vê-lo ter seu corpo e espírito torturados com requintes de crueldade era demais para mim. Rick começava a dar sinais de que não aguentaria por muito tempo. Completamente ferido, seus movimentos estavam cada vez mais lentos e desencontrados. Seu reflexo aguçado se fora. Eu não conseguia acreditar que ia presenciar a morte do meu grande amor. Paralisada pelo pânico, fui abatida por uma dor terrível que se espalhou pelas minhas entranhas e dilacerou a minha alma. Meu corpo queimava e minhas mãos ardiam. Captei três ruídos em sequência. Os dois primeiros me fizeram despertar daquele terrível transe, o terceiro me resgatou da minha vergonhosa apatia. Olhei por cima do ombro ao escutar um relinchar conhecido, mas rapidamente meus sentidos foram puxados de volta para a luta, ou melhor, para o som do ar sendo rasgado pelo voo impiedoso de uma adaga traiçoeira. O terceiro som esfacelou minha fé e fez meu coração sangrar.

— Argh! — Richard soltou um gemido de dor agonizante e me rasgou por dentro. Com o rosto crispado de dor, ele levou as mãos à perna sã e tombou arruinado no chão, afundando parte do corpo na neve fofa. A adaga havia trespassado sua coxa ilesa de um lado ao outro. A luta havia acabado. Ele não teria como se levantar ou se proteger. Rick parecia saber disso e, abaixando a cabeça, deixou os braços tombarem frouxos ao lado do corpo. Seu peitoral subia e descia com absurda rapidez, comprovando a tensão do momento. Jesus! Ele havia se entregado. Ia acontecer. Ivan aplaudia, emitindo risinhos de delírio ao meu lado. Pregos em brasa eram enfiados à força em minha garganta. Eu estava sufocando.

Não, Rick! Por favor, não desista! Você não pode se entregar! Não, Rick!

Descontrolada, senti minhas mãos em chamas e não consegui encontrar meus berros ao presenciar Kevin se aproveitar do momento de fraqueza de Richard e crescer sobre ele. A espada empunhada na direção de seu pescoço deixava claro seu intento: ele queria decapitá-lo assim como Richard ameaçou fazer com ele. Eu precisava fazer alguma coisa! Eu não podia deixá-lo morrer por minha causa! Não podia!

— Não! — Meu berro de dor forçou passagem e abriu caminho, achando uma saída por entre as mordaças de anestesia que envolviam meu espírito arruinado. Ele foi tão alto que reverberou por todo o lugar e poderia jurar que aconteceu em sincronia com a violenta nevasca que se abateu instantaneamente sobre nós.

— Céus! Agrrrr — Ivan berrou e largou a espada de repente quando, ao tentar me desvencilhar dele, soquei seu rosto repetidas vezes. Desesperado, levou as mãos ao rosto e se contorceu sobre o próprio corpo. Não tive tempo de entender o que havia acabado de acontecer porque, tomada por cólera extrema, no instante seguinte eu cravava aquela mesma espada em seu abdome. Ele urrou mais uma vez e caiu morto ao meu lado. Os demais soldados estavam catatônicos. Kevin havia congelado e Richard me encarava com seus lindos olhos azuis arregalados. Escutei o cavalo relinchar novamente e sorri.

— É a mim que você quer, Kevin? — Tomada por uma força sem precedentes, enfrentei-o com sarcasmo e assoviei alto. No segundo seguinte o cavalo malhado parava ao meu lado e eu me jogava sobre ele. — Sugiro que pare o que está fazendo e venha me pegar! — Abri um sorrisinho mordaz. — Para o portal! — bradei e meu animal entendeu perfeitamente, relinchando alto e saindo acelerado dali.

— Peguem-na! — Foi o berro de Kevin que deixei para trás.