Não Olhe!
Capítulo 8
Incomodado por estar sendo sacolejado de um lado para outro, meu corpo deu o alerta. Ao abrir os olhos e levantar a cabeça, percebi que estava numa carroça, sendo conduzida às pressas para não-sei-onde e por um lugar assustadoramente diferente. Uma atmosfera nublada e um relevo repleto de crateras que me faziam lembrar a superfície lunar. Um ambiente inóspito, cinza e de temperatura amena.
— Onde estou? — atordoada, berrei para os homens que guiavam a charrete. Eles mal me olharam e continuaram a açoitar sem piedade os pobres animais à frente deles. Tinham pressa. — Ei, respondam!
— Finalmente! — bradou uma voz que me atingiu pelo lado esquerdo. Deparei-me com um sujeito de calvície reluzente. Ele montava o cavalo que ladeava a minha carroça. O homem me encarava, expondo um sorriso logo abaixo de seu volumoso bigode avermelhado. O que vi em seguida foi como uma bofetada em meu rosto, trazendo-me de volta à realidade: suas extasiadas pupilas verticais me saudavam, abrindo-se e fechando-se sem a mínima timidez. — Bem vinda a Zyrk, híbrida!
— O quê?! — Perdi o fôlego e tombei, golpeada pelo novo capítulo do filme de horror que se tornara minha desgraçada vida. A palavra Zyrk trouxe de volta uma série de lembranças a uma mente em estado de total confusão.
— Já estava na hora de acordar! — O sujeito conversava comigo cavalgando em altíssima velocidade.
Afinal, por que tanta pressa?
— Acordar?
Eu permanecia zonza. E piorava com aquela carroça trepidando como uma britadeira. Ordenava meu cérebro a me confidenciar o que precisava urgentemente compreender: o que havia acontecido? Como havia chegado ali? Mas nada. Ele se recusava a fornecer qualquer pista, quanto mais uma resposta plausível. Pistas. É isto! Teria que ir atrás delas. Atordoada, fiz uma varredura a meu redor e o que vi me fez chegar à conclusão de que ainda estava dormindo. Só podia ser. Tudo aquilo não passava de mais um de meus terríveis pesadelos. Tornei a coçar os olhos, só que com um pouco mais de violência.
— Está com sede? — A mesma voz me atingiu como um golpe. Não era sonho algum! Assustada, tentei me levantar, mas fui impedida pelo meu estado de letargia e pelas cordas.
— Cordas? Por que estou presa? Solte-me! — rugi.
— Depois. Não temos tempo, híbrida. — Ele açoitava o cavalo sem parar.
— Solte-me agora! — comecei a me debater, tentando me livrar das malditas cordas.
— Calma! — ele berrava sem diminuir o ritmo alucinado em que nos encontrávamos.
— Argh!
— Está bem! Está bem! — esbravejou o homem agitado. — Eu sei que vou me arrepender disso — confessou antes de puxar as rédeas de seu cavalo e soltar um assovio alto.
Paramos.
— O que houve, Max? — Um grito chegou até nós.
— Nosso tempo está muito apertado! — reclamou outra voz nervosa.
— Vai ser rápido — gritou de volta o tal do Max para os seus homens. Ele parecia o líder do bando. — Fique calma, híbrida. Você estava presa para a sua própria segurança. Vou soltá-la, mas segure bem a manta — concluiu enquanto me desamarrava. Max era corpulento e sua calva reluzia tanto que incomodava.
Segurei com força a manta felpuda que me envolvia e notei que estava nua por debaixo dela. — Onde estão minhas roupas? — indaguei apavorada.
— Elas ficaram para trás — confessou. — Nossas roupas e utensílios podem entrar na sua dimensão, porém nada do seu mundo pode entrar no nosso. — Naquele momento seus olhos pousaram em meu pescoço. — À exceção deste seu estranho cordão.
— Como assim? — Senti o ar sair com força e minha boca despencar em queda livre. — Mas eu não estava usando roupas da minha dimensão! — bradei. — Eu estava usando roupas de Thron!
— Do que você está falando? — ele franziu a testa e inclinou a cabeça.
— Como saí de Thron e vim parar aqui? O que aconteceu com Collin? — levei as mãos à cabeça.
— Você nunca esteve em Thron, híbrida. Está se sentindo bem?
“ Nunca estive em Thron”?
Havia vestígios de sangue nas unhas de minhas mãos.
— Mentira! Diga como me tiraram de lá! — rugi.
— Pense o que quiser — respondeu arredio. — Já perdemos tempo demais e seus amigos não estão em boas condições.
Afinal, do que ele estava falando?
— Que amigos? — questionei perturbada com o rumo daquela conversa. Eu não estava ficando louca! É claro que estive em Thron! Apesar de sentir meus sentimentos estranhamente anestesiados e uma névoa insistente ofuscar os detalhes das cenas que presenciei, minha memória se lembrava de tudo. Ou melhor, de tudo até o momento em que desafiei Collin e ele partiu como um bicho raivoso para cima de mim. Depois dali, minhas recordações vinham em flashes aleatórios, fragmentados e sem o menor sentido.
— Ora, os que protegeram você no deserto da segunda dimensão.
— No deserto do Saara? — meus olhos saltaram das órbitas e minhas pernas bambearam. — Você quer dizer... John? Tom?
Ele consentiu, abrindo e fechando as pupilas e não as pálpebras.
— Pelo que fiquei sabendo, eles se sacrificaram um bocado para manter você viva — emendou.
— Eles... Eles estão muito feridos? — indaguei atordoada.
— Sim. Principalmente o grandão.
— Não é possível — murmurei, começando a duvidar da minha lucidez. — Há quanto tempo estou em Zyrk?
Estudei meu pulso direito enfaixado com um pano manchado de sangue. Já não tinha certeza em qual braço Collin havia me ferido... Teria sido aquela ferida em meu pulso a causada pelo comparsa de Collin no deserto do Saara? Será que eu estava realmente bem? Agonia envolta num manto de dúvida crescia em meu peito. Quanto mais força eu fazia para me lembrar, mais confusa ficava. “Isso tudo faz parte de um jogo, Nina.” A frase de Richard martelava em minha cabeça. Ele realmente havia dito aquilo ou foi pura invenção de uma mente levada ao limite?
— Como vim para aqui? — tornei a indagar.
— Você deu sorte — rebateu agitado.
— Acho que estamos arriscando demais, Max — alertou nervoso outro homem que se aproximava de nós. Ele era forte e mal encarado. — O dia está muito estranho. Precisamos ir embora.
— Eu sei — Max respondeu tenso. — Deem água aos cavalos. Vamos sair daqui agora!
— Certo, Max.
— Você vem comigo, híbrida — determinou ele, colocando-me no seu cavalo.
Olhei ao redor e vi que estava sendo escoltada por um batalhão de homens, centenas talvez. Sentia-me num filme épico. Os comandados eram rudes e trajavam roupas que faziam lembrar guerreiros árabes de uma época antiga. Vi que John e seu fiel escudeiro estavam amarrados, puxados por rebuscadas carroças feitas de couro e troncos secos de árvores.
— Zyrk é toda assim? — perguntei, olhando para o relevo cinza escuro, árido e mórbido do lugar.
— Quase toda — respondeu ele de forma tão seca quanto tudo por ali.
— Sem sol?
— Este é o nosso sol — sem paciência, apontou o nariz para cima enquanto checava a paisagem ao nosso redor.
— Você chama esta mínima claridade de sol? — objetei. — Está nublado! Aliás, parece que vai cair um temporal de tão escuro.
— Não vai cair temporal coisa nenhuma! — bradou e enxugou a testa. — Está anoitecendo fora de hora, isso sim! Você entenderá o que realmente é escuridão quando a noite cair, híbrida — rosnou entredentes enquanto amarrava algumas presilhas de maneira apressada e olhava para o horizonte. — Já perdemos tempo demais! Raios!
Reconheci o que havia por detrás do olhar não apenas de Max assim como de todo o grupamento: medo. Mais que isso. Havia pavor em suas feições. Devia ser algo muito assustador o que estava prestes a acontecer.
— Por que está tão nervoso? — indaguei. A aflição deles começava a me contagiar.
— Fique quieta.
Max tocou um berrante, dando finalmente o comando de partida para os seus assustados homens. A sensação era de que havia escurecido em um minuto o que deveria acontecer em uma hora. Os cavalos corriam mais velozes do que antes e fechei os olhos para não ficar tonta. As trincas do chão árido aumentavam o ruído propagado pelos cascos dos animais na planície desértica e, ainda assim, ele não conseguia sobrepujar o som das batidas aceleradas dos corações que me rodeavam. Escurecia. Os cavalos eram açoitados sem piedade. Nós voávamos mas, a julgar pela fisionomia daqueles homens, nosso ritmo alucinado não parecia suficientemente rápido. A claridade se despedia de nós.
— Não vamos conseguir! — Os gritos ficavam cada vez mais altos.
— Temos que conseguir! Acelerem! — ordenava Max.
Cristo! O que estava acontecendo?
— Raios! — praguejava Max, balançando a cabeça de um lado para o outro.
— O que está havendo? — berrei de volta para ele.
— Eu não podia ter parado! — trovejou.
— As carroças estão ficando para trás, Max! — Um dos rapazes alertou, cobrindo de chibatadas o pobre animal por debaixo dele.
Max berrava palavras incompreensíveis. Podia jurar que ele estava xingando.
— Deixe-as, se for preciso! — finalmente respondeu o líder. Naquele instante vi suas pupilas e elas estavam completamente verticais. Perigo à vista!
Segui o seu olhar. Tudo levava a crer que o pavor contido nele tinha a ver com o acelerado pôr do sol de Zyrk. Era isso? Eles estavam fugindo da sinistra escuridão? Mas, por quê?
— Do que estamos fugindo? — gritei.
— Quieta! — retrucou nervoso.
Tornei a olhar para trás e vi a pouca claridade ser afugentada por uma sombra gigantesca. A mesma sombra que parecia crescer com fúria em nossa direção, como se quisesse nos engolir.
Um forte tremor sob nós. Um terremoto?
— Ôooo! — Max controlava o cavalo, e eu me agarrava à sua cintura. O animal ameaçou empinar. Homens berravam ao nosso redor. — Mais rápido! Mais rápido! — Max ordenava ao grupo.
Olhei adiante e vi surgir uma construção imponente circundada por um lago de dimensões gigantescas. Devia ser para onde estávamos indo. Os tremores que aconteciam de tempos em tempos começavam a ficar cada vez mais fortes e frequentes. A escuridão estendia seus tentáculos sobre nós. O pouco que restava de luz deixava claro que aqueles eram seus instantes finais. O pânico se apoderava do grupo.
— Eles não querem nos deixar entrar, Max! — gritou um rapaz que havia chegado ao lugar antes de nós. Pálido, não parecia haver uma gota de sangue em seu rosto.
Novos tremores. O que era aquilo, afinal de contas?
— Avisaram que estamos com John? — inquiriu Max nervoso. Sua calva estava encharcada de suor.
— Sim, mas eles não acreditam.
Max voou em direção à beira do lago. Parecia ser bastante profundo, pois o cavalo bufou, estancando na hora.
— Precisamos entrar! — ele rogava aos brados para um soldado que se avistava no passadiço do castelo.
— Vocês não têm permissão para entrar! — contra-atacou o sujeito de lá de cima.
— Está anoitecendo! — Com as mãos à cabeça, Max tentava argumentar.
Os tremores aumentavam de intensidade. A sensação era de que, o que quer que fosse que os provocassem, estava cada vez mais perto de nós.
— Não daremos retaguarda a um grupo de mercenários! — retrucou o soldado.
Mercenários? Minha cabeça dava voltas. Nada fazia sentido.
Sem mais nem menos, a noite caiu, espalhando uma escuridão quase absoluta. A única claridade vinha da grande construção. Os tremores não paravam mais. Tudo sacudia. Os cavalos relinchavam, tão ou mais nervosos que os cavaleiros. Os homens discutiam e não diziam mais coisa com coisa. Uns ameaçavam fugir, outros mergulhar no lago à nossa frente. O horror se apoderara de todos, e eu, que também deveria estar com medo, me sentia cada vez mais atordoada. Perdida naquele caos.
— Deixem-nos entrar, por favor! — implorava Max aos berros. — Vamos morrer!
O tremor cessou.
— Oh, não! Por Tyron! Vai acontecer! — alertou Max em pânico.
— Vai acontecer o quê? — perguntei, sentindo uma descarga de adrenalina avançar pelo meu corpo e me fazer tremer. Alguma coisa terrível ia ocorrer ali. Eu podia pressentir.
— Durante a noite, as...
— Subam a ponte. Agora!
Max foi interrompido por um rugido que veio do grupo. Aquela voz fez meu coração dar um pulo de alegria dentro do peito. Eu a reconhecia. Olhei para trás e vi John sendo amparado por dois homens de Max.
Subir a ponte? Será que eu havia compreendido direito?
— John! É você? — indagou assustado o soldado do passadiço.
— Sim. Rápido, imbecil! — ele ordenou tenso, checando o horizonte às suas costas.
John falando daquela maneira agressiva? Cristo! A situação não era nada boa.
— Mas, John... Eles são... — argumentava o sujeito.
Um som estridente rasgou o ar pesado e, em seguida, foi substituído por um silêncio amedrontador. O que era aquilo? Olhei para trás, mas não consegui ver nada. Não apenas porque o negrume era absoluto como também porque uma barreira de homens dava cobertura ao nosso cavalo.
— Sou o resgatador principal deste clã e lhe ordeno que suba essa ponte, homem. Agora! — John tornou a comandar assim que um vento quente nos atingiu.
— Tudo bem! — soltou o homem. — Subam a ponte!
Resgatador principal dali? Então aquele era o reino de Storm!
Naquele momento me dei conta do mundo espetacular que se desenhava ao meu redor. Deparei-me com Storm. Era diferente de tudo o que já tinha visto na vida ou em meus adoráveis filmes de ficção. Ficava estrategicamente protegida dentro de um vale, uma espécie de fortaleza natural. Fazendo o papel de fosso, um enorme lago rodeava e protegia uma ilha em seu centro. E esta ilha, cercada por espessos muros de pedra batida, era Storm. Observei que as águas do lago começaram a se agitar, ganhando incrível força, como se fosse um gigantesco gêiser, e, de dentro dele, surgiu bem diante de nossos olhos uma enorme ponte de aço maciço unindo a margem à ilha.
Um berro de dor seguido de um uivo cortou meu momento de transe.
— O que foi isso? — perguntei com coração na boca.
— Começou — disse Max num murmúrio sofrido. — Não olhe para trás! — ordenou nervoso, puxando meu rosto para junto do dele quando ameacei virar a cabeça.
— Hã?
Uma nuvem de areia começou a impregnar minhas narinas e o campo visual. Novo urro de dor, um trepidar e um cheiro de algo estragado no ar.
— O que foi isso, Max? — tornei a perguntar e dei graças a Deus por Max ter amarrado meu corpo ao dele. Minhas mãos suavam tanto, que eu tinha certeza de que não conseguiria me segurar em lugar algum.
— Shhhh! Estamos quase lá! Rápido! Rápido! Droga! — O pavor se evidenciava em sua voz. Não sei se eram meus nervos entrando em colapso, mas a sensação era de que a ponte subia em câmera lenta de propósito. — Agora! — bradou Max para o grupo assim que a ponte finalmente firmou e começamos a sua travessia.
Novos e horripilantes gritos de homens nos alcançavam e aumentavam a taquicardia no meu peito. Cada vez mais nítidos, os uivos de dor multiplicavam-se e se avolumavam em meio a xingamentos e gritos de pavor.
Cristo! O que estava acontecendo atrás de mim?
— Droga! Não. Não. Só mais um pouco... — repetia Max para si mesmo. Observei que ele nem precisava chicotear o cavalo. O animal corria desesperado por conta própria. Na verdade, ele não estava correndo, ele estava fugindo. Do quê? E o fim da maldita ponte não chegava nunca! Storm parecia cada vez mais distante, quase inalcançável.
Os cascos dos cavalos vibravam no metal da ponte e confidenciavam que o grupo vinha logo atrás de nós e em grande velocidade. Os urros de pavor atingiam nossos tímpanos com violência.
— Quase lá! Quase lá! — Max comandava, sua face vermelha e deformada de pavor. — Não olhe!
Não consegui obedecê-lo. Minha cabeça girou involuntariamente para trás. Por reflexo, fechei os olhos quando uma lufada de vento quente lavou meu rosto. Ouvi um uivo estranho e, ao tornar a abrir os olhos, um corpo desfigurado foi jogado a poucos metros de nós. Berrei quando um líquido quente atingiu meu rosto. Sangue cobria nossos corpos.
— Não olhe, híbrida!
— Não! — Não cheguei a ser ouvida, porque novos gritos resgataram-me daquele horror. E, graças aos céus, eram de euforia. Quando dei por mim, estávamos atravessando a grande muralha e finalmente me lembrei de respirar assim que o grande portão se fechou atrás de nós. Uma a uma, as faces foram resgatando a cor perdida, as pupilas tornando a ficar redondas. Todos se entreolhavam denunciando um misto de atordoamento e alívio. Quase todos. Alguns cavalos chegaram desocupados.
— E os outros? — indaguei, apontando os animais para Max. Ele nada respondeu, soltando apenas um muxoxo triste.
A resposta parecia sinistra demais.