Não Olhe!
Capítulo 17
Vozes. Acordei com uma gritaria fora do aposento e vi meu corpo retorcido ao lado de um adormecido John. Assustada, meu pescoço reclamou quando tentei me levantar num rompante. Eu havia dormido na cama dele!
— Porra! — a voz de Richard estava descontrolada. — Eu não acredito nisso! Como você permitiu, Brita?
— Fale baixo! — ela ordenava. — Eu não sabia, filho. Fiquei dentro de casa todo o tempo e acabei adormecendo cedo porque estava exausta da noite anterior. Pensei que...
— Pensou o quê? — ele a interrompeu sem diminuir o timbre de voz. — Ela dormiu na cama do filho de Kaller, merda! Na cama dele!
— E o que isso tem de mais, Rick?
— O que tem de mais?! — Ele jogou as mãos para cima, exasperado. — Ela é uma híbrida! Eu a vi voltar viva daquele pântano depois de mais de quinze minutos submersa! Ninguém me contou, droga! Eu vi e agora tenho certeza de que a lenda é verdadeira e poderosa! Você não podia ter permitido que ela dormisse no quarto dele!
— John não tem forças nem para abrir os olhos!
— Não me interessa se ele pode abrir os olhos ou não, Brita!
— O que lhe interessa então, Richard? — inquiri feroz, abrindo repentinamente a portinhola que dava para o quintal.
— Nina? — ele se virou para mim, surpreso. — Você se sente bem, Tesouro? — balbuciou com os olhos brilhando e deu dois passos em minha direção. Recuei e fiz um gesto com as mãos para que ficasse onde estava.
— Para sua ciência — respirei fundo enquanto destacava cada palavra com um sorriso sarcástico —, enquanto eu puder, durmo onde e com quem desejar, entendeu?
Ele fechou a cara, a expressão sombria aniquilando como um raio o sorriso de felicidade estampado em seu rosto perfeito.
— Você quis dormir com ele? É o que quer dizer? — indagou e vi uma veia latejar no seu maxilar.
— Vai morrer com essa dúvida — enfrentei-o e tive um discreto mal-estar. Uma dor de cabeça se alastrava rapidamente.
— Você está bem? — perguntou preocupado ao perceber a alteração no meu comportamento.
— Não sei. Você é quem pode me dizer — rebati. — O que pretende fazer comigo agora, Richard?
— O que eu sempre quis, Nina. Manter você viva — respirou fundo, tentando domar seu gênio a todo custo.
— Crianças, parem com isso — intercedeu a Sra. Brit com os olhos arregalados.
— Deixe-a falar, Brita. Pelo visto ela precisa desabafar, como dizem os humanos — disse, encarando-me.
— Desabafar? Eu? — indaguei ultrajada. — Só se for para começar a xingar você e essa dimensão amaldiçoada!
— Acalme-se, minha filha — pedia a Sra. Brit visivelmente perdida em meio à nossa discussão.
— Me xingar? Porque salvei a sua vida novamente? — bradou Richard com acidez. — Eu sou um idiota mesmo!
— De idiota você não tem nada, Richard. Você é um mentiroso! Um sádico, isso sim! — rugi. — Você me entrega aos leões e, depois de quase me ver morrer, me tira de dentro da boca deles e vem dizer que é meu herói protetor? Rá! Rá!
— Foi preciso, Nina! Era para te salvar, sua cega! — Ele passava as mãos pelos cabelos negros e andava de um lado para o outro.
— Filho, o que está havendo? — A Sra. Brit segurou seu braço quando ele ameaçou se aproximar de mim novamente. Outra vez eu recuei, dando um passo para trás. O semblante dele ficou ainda mais felino. — Rick, que energia é essa? Por Tyron! — exclamou a Sra. Brit com os olhos ainda mais esbugalhados.
— Ela está me enlouquecendo, Brita! É isso o que está acontecendo! — rosnou ele.
— Eu? — guinchei. — Só me faltava essa! Fui eu quem foi enganada, usada e descartada nessa história e agora sou acusada de deixá-lo enlouquecido — soltei uma gargalhada forçada. — Você sempre foi louco!
Outra veia latejou em seu pescoço e, após dar uma grande tragada no ar, abaixou a cabeça e fitou o chão.
— Você tem razão, Nina. Desculpa. Eu falhei com você. Mas nem tudo é o que parece — disse e, ao olhar para mim, vi sua expressão suavizar. Ele quase implorava.
— Rick, que bonito! Você pediu desculpas! — soltou impressionada a Sra. Brit, dirigindo-se a ele como uma mãe a um filho de cinco anos de idade. Richard não a ouvia e seus olhos ardiam nos meus.
— Tenha paciência, por favor. Quando puder, vou lhe explicar tudo, Tesouro — pedia carinhosamente.
— Não me chame mais assim. — Estranhamente não tive coragem de olhar para ele enquanto dava aquela ordem. Eu devia odiá-lo, mas não era assim que as emoções se processavam em meu peito. Ele parecia sincero e aquele pedido de desculpas me pegou desprevenida.
— “Tesouro”? — perguntou a Sra. Brit com um sorriso escancarado no rosto, a fisionomia transbordando felicidade.
— Eu preciso de respostas, Rick — disse eu em baixo tom.
— Eu vou lhe dar, Nina. — O azul nos olhos dele cintilava. — Mas, por enquanto, quanto menos você souber mais protegida estará.
— Proteção até ser descartada novamente? Para quem você vai me vender agora? — indaguei com escárnio. Não suportava mais aqueles tipos de charadas.
— Eu sou um estúpido mesmo! — Richard levou as mãos às têmporas, as cicatrizes evidenciavam o tremor de suas mãos. — Por que fui tentar ajudar?
— É, de fato, uma ótima pergunta. Por que, Richard?
— Parem com isso, crianças! Guimlel está chegando — intrometeu-se a Sra. Brit repentinamente agitada. — Nina, você está fraca. Precisa se alimentar. Vou preparar um lanche para nós — E, olhando para o céu, constatou: — Parece que vai anoitecer mais cedo. Rick, eu preciso de lenha para o fogão. Vá buscar, filho.
— Faça-a comer, Brita. Ela precisa começar a raciocinar! — Irritado, Richard bufou e saiu dali trotando.
— Eiii! — reclamou um homem magro e muito alto que acabava de chegar quando Richard esbarrou em seu ombro. — Vejo que está bem, filho. Conseguia captar sua energia, mas ela estava instável, sem continuidade. Fiquei preocupado.
— Você vem me observando? Que gasto inútil de tempo para um mago do seu porte, não? — com a cara amarrada, Richard beijou-lhe a mão e se retirou.
— O que deu nele? — perguntou o homem com os olhos arregalados enquanto vinha em nossa direção.
— Guimlel! — exclamou satisfeita a Sra. Brit. — Que surpresa você por aqui! Quanto tempo, querido!
— Você parece cansada, Brita — observou ele antes de se virar para mim. Então aquele era o tal mago que havia criado Richard também? Com quase dois metros de altura, Guimlel tinha uma calvície lustrosa e uma barba negra arrumada em uma comprida trança. Ele usava uma manta azul clara com uma faixa prateada amarrada em sua cintura. — Algo me diz que ela é a causa desse clima estranho — ele me estudou de cima a baixo.
— Richard anda tenso, só isso — respondeu a Sra. Brit apertando o avental na cintura.
— Acho que o nosso garoto tem motivos para isso, não?
— Ainda não consegui ter uma conversa decente com ele — resmungou ela.
— Não sei se uma “conversa decente” lhe terá serventia no momento. Rick fez burrada e Zyrk está de pernas para o ar, Brita.
— Pare de criticá-lo, Guimlel. Por acaso prefere que ele volte para aquela cobra negra?
— Shakur... — matutou o mago enquanto passava as mãos pela barba. — Não sei o que é pior nesse momento, Brita.
— Pois eu sei! Eu não quero que ele se vá novamente e também não quero que você o deixe mais nervoso do que já está. Ele terá de partir amanhã cedo.
Raios! Eu era viciada nele. Só podia ser. Era quase uma doença. Não conseguia acreditar que o aperto terrível que senti no peito foi por ter escutado que Richard partiria na manhã seguinte. Que ótimo! Aquela notícia só serviu para fazer minha cabeça latejar ainda mais.
— Richard é um touro, mas, como você mesmo notou, sua energia está vacilando — adiantou-se ela. — Ele precisa de paz de espírito para restaurá-la.
— Eu vou para o meu quarto, Sra. Brit.
— Mas você acabou de acordar, querida. Precisa comer.
— Obrigada, mas comerei depois.
— Está bem. Beba um pouco de água e descanse. Mais tarde levo algumas broas de milho para você. — E deu um salto. — As broas de milho! Ah, não! Esqueci no forno! — ela soltou um gritinho e saiu às pressas.
— Quem acreditaria que a lenda era verdadeira, não? — Guimlel me observava de um jeito estranho. Não gostei. — Você tem família, híbrida?
— Tinha. Vocês a destruíram — respondi hostil e levei as mãos à cabeça. Uma fisgada lancinante fez minha testa contrair de repente.
— Tudo bem com sua cabeça, híbrida?
Ele me estudava.
— Sim. Com licença — disse, sentindo-me incomodada com sua presença e, disfarçando a terrível enxaqueca, fui para o meu quarto.
O fogo da pequena lareira criava espectros dançantes de luz nas paredes revestidas por toras de madeira e no tapete quadriculado nas cores marrom, verde e vermelho ao pé da cama. Apesar de ser mais aconchegante, meu aposento era muito semelhante ao de John. Subitamente tomada por sede, procurei pelo jarro com água, mas minha cabeceira estava vazia. A enxaqueca era tanta que deixei a sede de lado e me joguei na cama, puxando o lençol sobre minha cabeça.
Já era noite quando batidinhas na porta de ferro me fizeram despertar.
— Quem é?
— Sou eu — respondeu Richard com a voz baixa e serena. —Trouxe broas de milho para você.
— Eu como depois — disse com os olhos ainda fechados. Na verdade, eu estava morrendo de sede.
— Para de bobeira, Nina. Você deve estar faminta. Não come há mais de vinte e quatro horas — suspirou com uma pitada de impaciência bem característica dele. — Brita disse que o sono é mais reparador que a comida, mas ela não lida com humanos como eu. Leila sempre disse que vocês precisam estar bem alimentados para que o sono tenha tal efeito curativo. Nesse quesito Leila sempre foi superior a Brita.
Abri os olhos com dificuldade e sorri ao ver um jarro de água na cabeceira. Graças a Deus! A Sra. Brit provavelmente o colocou ali enquanto eu dormia. Sorri mais ainda ao perceber que não era água, mas sim uma limonada bem fraquinha e deliciosa.
— Eu não sou humana, Richard — murmurei sarcástica enquanto bebia um copo de limonada atrás do outro. Não houve resposta por alguns segundos.
— Eu sei — murmurou ele finalmente. — Mas coma, por favor — pediu de forma gentil. — Abra a porta.
Eu tive de ceder porque ele tinha razão: a fome começava a incomodar. Ao abrir a porta, quase enfartei com a visão à minha frente: segurando uma tigela cheia de broas de milho, Richard estava descalço e trajava apenas uma calça comprida branca! Os cabelos negros molhados e caídos no rosto evidenciavam que ele havia acabado de tomar banho. Seu cheiro de almíscar impregnou meu quarto, meu cérebro e, para meu desespero, despertou meus hormônios.
— Acabei de esquentá-las — explicou ele, lançando-me um raro sorriso tímido. Sem voz, acenei com a cabeça e tive que piscar umas três vezes para ter certeza de que não se tratava de uma peça que meu subconsciente resolveu me pregar. Não. Aquilo não era um sonho porque a queimação dentro de minhas veias era forte demais, meu corpo fervia por inteiro e as broas de milho tinham um cheiro maravilhoso! — Ficam melhor assim.
— Pode colocar na cabeceira — respondi concentrando-me em respirar enquanto segurava a porta e me obrigava a não olhar para ele. A dor de cabeça não dava trégua. — Obrigada, Richard. Agora pode sair.
— Nina, eu... — Achei inusitado vê-lo tenso daquela maneira para um sujeito que era capaz de enfrentar calmamente o ataque simultâneo de doze homens. — Eu sei que a magoei de novo, mas era preciso. Tem muita coisa envolvida. Você corre risco de vida iminente.
— Sempre corri — sorri debochada. — Desde o dia em que nasci, lembra-se? Já estou ficando acostumada a isso e, sinceramente, não me assusta mais.
— Mas agora é real e pode acontecer a qualquer instante. A situação complicou demais e...
— Shhh. — Eu fiz um sinal para que ele se acalmasse e falasse um pouco mais baixo. A dor de cabeça avançava. — O que quer de mim agora?
— Eu vim me desculpar — disse com a voz rouca e o azul de seus olhos escureceu. — Brita tem razão. Eu lhe devo explicações e é seguro aqui.
— Seria bem interessante ouvir as suas explicações, mas, sabe de uma coisa? Eu cansei — comentei com sarcasmo. — Não caio mais nas suas mentiras, Richard.
— Nina, preciso que você me escute!
— Foi-se o tempo em que a tolinha aqui acreditava em você e aceitava ser levada de um lado para o outro sem compreender absolutamente nada sobre o que ocorria ao seu redor — rebati encarando-o friamente. — Ter fugido com John me deu forças e a certeza de que posso lidar com vocês, que ainda tenho algum poder sobre meu próprio destino.
— Essa dimensão é amaldiçoada, Nina. Existe muita magia em jogo, feitiços que até mesmo um resgatador principal como eu desconhece.
— Pois bem — cruzei os braços. — O que tem a me dizer, Richard?
Ele apertou os lábios e levou as mãos à cintura.
— Ainda não obtive a permissão para a sua entrada em Windston e não sei por quanto tempo Brita conseguirá esconder você aqui. A situação complicou muito — disse ele cheio de receio e sem a sua força característica. Estava na cara que aquele não era o assunto principal.
— Você já disse isso — alfinetei e ele se empertigou.
— Eu parto amanhã.
— Boa viagem — murmurei. O aperto em meu peito aumentou e tinha medo de começar a ceder.
— Eu queria ter um tempo a sós com você e... — Seu típico olhar presunçoso havia desaparecido e foi substituído por um apreensivo, quase carente.
— E?
— E-eu senti sua falta, Tesouro — gaguejou. Acho que era a primeira vez que o via gaguejar e aquilo mexeu comigo. — Precisava ver você de perto, conversar com você — continuou após tomar fôlego. O azul em seus olhos começou a brilhar com mais intensidade e prendeu, para meu desespero, a minha respiração. — Mas, se não quiser conversar comigo, deixe-me apenas lhe fazer companhia enquanto dorme.
Soltei o ar e uma risada.
— Como é que é? Aqui no meu quarto? — indaguei com as sobrancelhas levantadas. — Se não me falha a memória, acordei refém de outro grupo de resgatadores na única vez em que você dormiu no mesmo quarto comigo, Richard.
— Eu já pedi desculpas por isso, Nina. — Ele estava agitado. — Por favor, deixe-me ficar aqui.
— Por quê?
— Porque eu quero me explicar e eu posso te proteger e...
— Você sabe que não precisa — retruquei. — Você mesmo acabou de confirmar que existe algum tipo de magia protegendo esse lugar.
Controlando os passos, ele se aproximou de mim. O ar se deslocou e meu coração deu um pulo em resposta.
— Não consigo parar de me lembrar de nós dois naquela gruta em Thron, Tesouro — murmurou. Eu abaixei a cabeça e, atordoada, fiquei mirando meus pés. — Foi o dia mais feliz da minha vida — disse baixinho e bem próximo a mim.
— Sinto muito que sua vida seja tão infeliz assim — respondi ainda sem o encarar.
Com delicadeza, ele levantou meu queixo. O toque dos seus dedos eram pontos de eletricidade gerando pequenos choques. Tremi.
— Não sei o que o destino nos reserva, mas vou me odiar até o último segundo de minha existência se me permitir gastar o pouco tempo que tenho com você com uma briga estúpida, Nina.
— Eu não vou brigar com você, mas também desisti de querer te entender, Richard — deixei minha armadura cair. — Eu tentei muito. Acredite — suspirei infeliz. — Eu tentei encontrar um milhão de justificativas para o horror e decepção que você me fez passar, quis enganar minha razão diversas vezes. Dizia para mim mesma que devia haver uma forte explicação para isso tudo, que você não seria tão mau ou mentiroso assim. Aí, no instante seguinte ao que você jurava que nunca mais ia me abandonar e que ia dar a vida por mim, eu era dispensada sem a menor hesitação.
— Não é verdade! Se eu não tivesse feito o que fiz, não haveria qualquer chance para nós! Não percebe que era exatamente o que Collin queria? — Ele perdeu a cor.
— Nós? Deixe de ser hipócrita! Nunca houve nós, Richard!
— Nina, eu...
— Espere. Deixe-me acabar — interrompi incisiva e recuei. — Até aí eu posso entender, Richard. Que valor eu teria diante da coroa de Thron, não? Mas ser largada sem hesitação nos braços assassinos de Collin? — rosnei. — Sinto muito, mas isso foi demais para mim. Vai ter que arrumar outra híbrida para enganar a partir de agora.
— Raios! Será que você não consegue enxergar? Eu não tive opção, Nina!
— Teve. E novamente não optou por mim — soltei ácida. — Por que é covarde e não confirma logo, hein? Sei que me salvou para me ter como prisioneira de novo. O que está planejando agora?
Desesperado, ele segurou a minha mão.
— Droga, Nina! Todos que lidam comigo começaram a notar. Até Shakur já anda desconfiado. Se eu escolhesse você em vez de Thron, eles teriam certeza e estaria tudo acabado! — soltou agoniado.
— Certeza do que, Richard? — retruquei feroz.
— De que nutro bons sentimentos por você, sua cega! Sentimentos inconcebíveis para um zirquiniano! — esbravejou e eu senti meu corpo enrijecer e amolecer, como se passasse do estado de um diamante bruto a um sorvete derretido em uma fração de segundo. Tambores estridentes reverberavam em meu estômago e, ainda assim, não conseguiam sobrepujar as batidas frenéticas do meu coração. Tonta de emoção, segurei a onda e tentei me concentrar nos fatos: Richard era mestre no quesito traição e não seria diferente agora.
— Shhh! Chega, Rick — desvencilhei-me dele e fui me sentar. — Estou muito cansada. Vá embora.
— Por favor, Tesouro — ele implorava. — Eu nunca tive medo de nada na vida e, quando achei que a havia perdido, eu... — A voz dele falhou. — Eu morri durante os quinze minutos que você ficou submersa naquele pântano maldito. O brilho em seus olhos é o que me mantém vivo, Nina. Por favor, não me afaste de você.
— Não dá mais, Richard. — Minha voz saiu arranhando. Tive pena dele, mas mal conseguia raciocinar com as fisgadas em minha cabeça. — Deixe-me descansar um pouco.
— Que droga, Nina! Por que você não facilita as coisas e me escuta? — ele estava agitado.
— Alguma vez você facilitou as coisas para mim? — retruquei com sarcasmo.
— Não estou em condições para conversa, Rick — suspirei. — Talvez amanhã, antes de você partir.
— Por quê? O que está havendo? — ele me estudava. — Está sentindo alguma coisa?
— Não. Eu sinto sono. Acho que preciso dormir mais — levei as mãos à cabeça. Um misto de sensações estava me deixando angustiada: dor, mágoa e desejo se misturavam em meu peito em chamas e mente perturbada. — Não quero brigar, Rick. Só vá embora, por favor.
Visivelmente inconformado, ele me encarou por um longo momento com suas pedras azuis-turquesa, e, com os ombros curvados, retirou-se do quarto sem contestar. No instante em que ele saiu, tranquei a porta.
Desesperada de dor de cabeça e fome, servi-me sem cerimônia da tigela de broas de milho e tornei a me sentar na cama. Senti a dor de cabeça ceder um pouco.
Nova batida na porta.
— Nina, abra! Preciso ver como você está — ordenou ele.
— Eu estou ótima, Richard!
— Nina, abra! — Ele estava rude agora. Perfeito. Era mais fácil lidar com ele assim.
— Não.
— O que está planejando fazer, hein? Ir para o quarto do filho de Kaller na calada da noite? É isso?
Forçava-me em me manter focada, mas foi dificílimo segurar o sorriso que ameaçava rasgar meu rosto em dois. Richard estava se roendo de ciúmes de mim!
— E se fosse? Não lhe devo satisfações sobre o que resta da minha vida, Richard. A vida que você arruinou, recorda-se?
Um momento de silêncio.
— Nina — pediu com uma calma contida, mas eu o conhecia e sabia muito bem que ele estava prestes a explodir —, por favor, deixe-me entrar. Eu preciso, eu preciso...
— Pois quebre a fechadura, porque não vou abrir.
— Você acha que uma simples fechadura conseguiria me impedir de falar com você? — explodiu.
— Vá dormir, Richard, e me deixe em paz.
No instante seguinte ouvi um barulhinho fino seguido de um som oco. Ele havia enfiado a ponta de uma adaga na lingueta da fechadura e, fazendo uma alavanca com o próprio corpo, arrombou a porta rápida e silenciosamente e entrou quarto adentro.
— O que você está fazendo? — berrei, jogando-me para trás na cama.
— Shhh! Não quero que eles nos escutem.
— Saia daqui, Richard, ou vou começar a gritar — ameacei.
— Mas que merda, Nina! O que eu preciso fazer para que você me escute e me perdoe? — Ele estava desorientado como um animal acuado. Quando falou, tive a sensação de que um choro fino se infiltrava por sua garganta. Senti nova fisgada na cabeça, minhas mãos começaram a suar e meu coração ricocheteou alucinado no peito. — Eu sou assim, porra! Eu não queria ser! Queria ser do jeito que a agradasse, mas quanto mais eu tento, mais parece que me afundo em erros. — Ele passava as mãos trêmulas nas têmporas. — Eu não sei ser gentil, droga! Lido com armas desde que nasci, conheço seu manejo de olhos fechados, mas ninguém me ensinou como tratar uma mulher! Como você merece ser tratada! — A voz dele saiu mais rouca do que nunca. — Com exceção da Brita, eu fui criado por homens, Nina! A primeira vez que fui apresentado a uma garota foi só para transar. E todo o contato que tenho com elas até hoje é só para isso. Eu mal converso com elas!
— Pode parar, Richard. Eu vi seu “pouco contato” com elas lá em Thron. Você gosta de uma farra e adora ser disputado a tapas por elas.
— Isso era antes de te conhecer! E não há sentimento algum com elas. É apenas sexo — respondeu de bate-pronto.
— Pensei que os zirquinianos não ligassem para sexo já que não sentem nada — retruquei feroz.
— Nós não sentimos! — bradou. — Meu corpo era frio antes de te conhecer, Nina — arfou. — Os outros clãs não praticam isso, mas Shakur tem suas próprias regras... — Ele estava acelerado e suas explicações me confundiam ainda mais. — A bebida era a recompensa para seus melhores homens em batalha. E como ele sempre acreditou que o sexo deixava o espírito dos guerreiros livre para a luta, uma coisa era consequência da outra! Talvez fosse esse o motivo da superioridade dos meus homens em relação aos nossos adversários: a recompensa. O sexo regado à bebida nos permitia essa liberação de energia, como uma válvula de escape para as nossas tensões. E sempre deu certo para mim. Até você aparecer, Tesouro — concluiu com o olhar quase suplicante. — Agora nem completamente bêbado consigo fazer sexo com elas. Não tenho interesse. Meu corpo tem vontade própria e ele simplesmente as rejeita, mas quando você está por perto ele fica a ponto de explodir. Você é o fogo que me mata e me dá forças para reerguer todos os dias, Nina. Estou descontrolado e minhas ações perderam o sentido. Eu penso em você dia e noite, Tesouro. Tudo que digo é verdade. Por favor, acredite.
— Rick, não...
— Nina, por favor, me escute — pediu com candura, os ombros tombados. — Quando eu fugi daqui, há quase dez anos, eu não tinha a menor ideia para onde iria, mas uma voz interna me dizia que era o certo a fazer, que eu não deveria olhar para trás.
— Por que você fugiu?
— Eu me fiz essa pergunta por anos a fio e não tive a resposta até você surgir em minha vida. Agora acho que sei o porquê.
— Sabe?
— Acho que, mesmo naquela época, eu já era capaz de ter sentimentos. Emoções que Brita e Guimlel não admitiam existir e que a maioria dos zirquinianos nunca compreenderão eram o combustível para a minha determinação acima da média. Essa mesma força que me fazia vitorioso em tudo que se referia a batalhas e poder entrou em colapso e se transformou quando se deparou com você, Nina.
— Se transformou no quê?
Ele balançou a cabeça e sorriu.
— Você é quem pode me dizer — piscou e segurou minhas mãos, sua urgência absurdamente arrebatadora. Minha nuca arrepiou. — Que tipo de sentimento é esse onde uma pessoa está disposta a dar sua vida pela de outra?
Nova taquicardia e eu engoli em seco.
— Eu custei muito a aceitar e posso até estar enlouquecendo, mas agora tudo faz sentido e começo a acreditar... — Ele estancou e começou a balançar a cabeça de um lado para o outro.
— Acreditar em que, Rick? — tentei lutar contra, mas senti meu corpo cedendo aos seus encantos. A tensão no ar era tão intensa que chegava a ser palpável.
Sem que eu esperasse, Richard ajoelhou diante de mim e, visivelmente agoniado, enterrou o rosto perfeito em minhas mãos.
— Me perdoe, Tesouro — balbuciou. — Desde cedo fui acostumado a dar ordens e ter tudo ao meu modo. Eu sei que não sou um sujeito fácil de lidar. Eu não estava preparado para você, para nós.
— Responda, Rick — pedi com o coração disparado ao sentir sua respiração acelerar entre os meus dedos. — No que você começou a acreditar?
Ele hesitou por um instante.
— No quê, Rick? — insisti.
— Na lenda, Nina. No que eu sinto por você — confessou e eu perdi o chão. Senti toda saliva congelar na minha garganta e bloquear a passagem de ar. Uma. Duas. Três tentativas de aspiração. — Eu lhe rogo: ajude-me a ser do jeito que você gostaria que eu fosse. Ensine-me como devo agir para agradá-la. Eu aprendo rápido. Você verá. Por favor, tenha paciência comigo porque sei que meu temperamento vai me fazer falhar. Eu sou um bruto, Nina. Um zirquiniano de corpo e alma. Não compreendo as pequenas demonstrações de carinho que vocês, humanos, realizam. Flores nunca tiveram significado para mim, a lâmina de uma espada, sim. Não sei usar as palavras certas na hora certa, mas mataria cem, mil homens para te manter viva, minha pequena. Daria minha vida pela sua sem hesitar. Isso eu sei fazer, Tesouro. E farei, se preciso for. Tudo que mais desejo é me transformar no homem que você merece ter. Quem sabe assim, um dia você vai me perdoar e voltar a... — ele respirou fundo, a rouquidão da sua voz era quase um pranto desesperado. — Voltar a sentir por mim o que sinto hoje por você.
— Você acredita mesmo na lenda, Rick? — indaguei emocionada, e, passando as mãos trêmulas em seus cabelos úmidos, virei seu rosto para mim. De repente me senti afogando em seus olhos suplicantes. Fui seguindo a linha da sua face perfeita e continuei pelo seu pescoço abaixo até o amontoado de cicatrizes sobre sua clavícula e torso musculoso. Sua postura submissa me pegou desprevenida e senti meu coração tamborilar freneticamente no peito, meu corpo se retorcer em cãibras. Eu não sabia distinguir o sentimento que se desenvolvia em minha alma. Richard havia me traído, me trocado e me salvado diversas vezes. Quem era ele afinal das contas: meu anjo atormentado ou meu cândido demônio? Quem era aquela pessoa de joelhos na minha frente? Parecia imprudência, quase insanidade, mas seu gênio instável me assustava e me fazia desejá-lo ainda mais.
— Juro que sim. Por Tyron. Pela minha vida. — Ele balançou a cabeça e abriu seu sorriso magnético e emocionado. — E se você me ajudar, eu posso me corrigir. Nós podemos recomeçar do zero. Acredito na lenda como nunca antes porque o desejo de mantê-la viva é maior do que a estima que tenho pela minha própria vida. O que sinto por você é completamente desinteressado, profundo e verdadeiro demais para ser menos do que o sentimento que os humanos costumam chamam de amor.
Meu queixo despencou em queda livre, minha pulsação parou e meu coração ficou a ponto de explodir no peito. Cristo! Richard havia confessado que me amava!
— Ah, Tesouro! — Ele percebeu meu estado catatônico e, levantando-se rapidamente, me puxou para junto dele. Com a cabeça afundada nas cicatrizes do seu peitoral musculoso e perdida em meu furacão de emoções, custei a perceber que o abraço foi ficando cada vez mais forte e apertado. As mãos de Richard agarravam meus braços e costas com avidez. De repente ele começou a me beijar, beijos quentes demais, desesperados demais. Ele queria mais?
— Rick? — olhei para ele e detectei o semblante voraz que me fazia ir à estratosfera e voltar. Com seu olhar felino de volta, havia fogo incandescente em suas pedras azuis-turquesa.
— Eu sou louco por você há muito tempo. Não vou mais refrear isso dentro de mim — disse fuzilando-me com fúria e desejo. — Estou faminto, Tesouro. Faminto e desesperado para tocar em você, para ter você só para mim. Cansei de lutar contra.
— A gente não pode, Rick. Você mesmo disse isso — balbuciei sem conseguir me afastar dele.
— Talvez a gente possa — arfou, pegando-me de surpresa. — Eu vou te preparar. Com o tempo...
— Hã?
— Surgiu uma equação que até então não existia: consigo captar sua energia como nunca antes e não... — ele apertou os lábios. — Não vou tentar nada que você não queira ou que a coloque em perigo, Tesouro — disse com o olhar sério.
— Eu não sei, eu... — Tentando resistir, engasguei, engoli, tropecei nas palavras. Minha cabeça estava em frangalhos, girando dentro do persistente tornado da mágoa. Bem no fundo ela sabia que Richard tinha meu coração em suas mãos, mas não queria ceder.
— Eu acredito no sentimento que nos une apesar de tudo — suspirou enquanto acariciava minhas bochechas. — Mas não vai acontecer nada hoje. Não vim aqui para isso. Se você me aceitar do jeito que sou e me ajudar a ser um homem merecedor da sua confiança e amor novamente, esperarei o tempo que for necessário. Seus abraços e beijos me bastam, Nina. Não quero e não preciso de mais nada.
Richard me encarou com tanta emoção que era possível escutar as trincas que faziam meu orgulho se rachar ao meio.
— Você me magoou muito, Rick — confessei, fitando seus lábios com avidez. Por mais que tentasse, não conseguia refrear o desejo que esquentava minha pele.
— Eu sei. Eu sou um estúpido quando se trata de sentimentos. Mas não estou mentindo quando digo que darei a minha vida pelo seu perdão, Nina. Por favor, Tesouro, me desculpa — pediu beijando minha testa sem parar e deslizando seu nariz pelo meu. Seu cheiro penetrou em minha pele e estava em toda parte, intenso, viril. Seus lábios avançaram pelas minhas bochechas e desceram até a base do meu queixo. Richard agarrou meus braços e, após abarrotá-los de beijos, envolveu seu pescoço com eles. Então suas mãos passearam pelas minhas costas, chegaram à minha cintura, agarraram meus quadris e puxaram meu corpo para junto do dele. Toda a pressão e calor estavam de volta. Descargas elétricas percorriam minha pele febril. Não poderia esquecer que Richard era um fio de alta tensão desencapado. — Eu sou seu, Tesouro. Completamente seu — confessou ao parar sua investida e, afastando-se de mim, disse com o olhar ardente: — Não quero e não preciso de mais ninguém além de você. Posso e vou esperar até estar pronta pra mim. A minha vida toda, se for preciso.
Fogo! Aquela confissão foi a faísca, a droga que meu corpo viciado precisava para começar a incendiar. Um calor arrebatador se espalhava pelos meus membros tal como lava derretida.
— Eu quero, Rick — respondi puxando-o para junto de mim novamente. — Não sei se terei um amanhã e nem se existirá um futuro para nós. Tudo que sei é que tenho o agora e, nesse agora, é você quem eu quero para mim. Eu quero você, Rick.
— É melhor não, Tesouro — disse acariciando meu rosto com calma, mas sua respiração entrecortada o desmentia. Ele também queria!
— Eu quero você, Rick — insisti e passei as pontas dos dedos em seus lábios grossos e tentadores. Ele abriu a boca e deixou o ar escapar num gemido discreto.
— Você tem... certeza? — Os magníficos olhos azuis se arregalaram e ele quase engasgou de empolgação.
Eu confirmei com a cabeça e um sorriso sedutor.
Sua gargalhada nervosa foi rapidamente substituída por um semblante selvagem e voraz. A fisionomia que me fazia ter calafrios de excitação estava de volta. Todos os músculos do meu corpo responderam e começaram a se contrair num ritmo descompassado e enlouquecedor. Trajando apenas aquela calça branca e sorrindo sem parar, ele era a minha visão do pecado, meu fruto não mais proibido.
— Elas não... não te incomodam mesmo? Eu posso vestir uma camisa e... — questionou receoso ao me ver passando as mãos nas cicatrizes do seu abdome musculoso. Eu sorri.
— É estranho, Rick, mas elas me atraem demais. Tudo em você me atrai. — Era a pura verdade. As cicatrizes não me geravam repulsa. Pelo contrário, elas causavam euforia dentro de mim, um tesão enlouquecedor. Ele umedeceu os lábios e abriu um sorriso malicioso. Segurando meu rosto entre suas enormes mãos, Richard começou a beijar os cantos da minha boca muito lentamente. Os beijos foram ficando mais fortes e molhados e, quando dei por mim, ele avançava a língua pela minha boca com uma fome avassaladora enquanto suas mãos me destruíam, desesperadas, quase febris. Havia uma necessidade urgente e fervorosa dentro de mim que jamais experimentei antes. Tinha certeza de que estava prestes a explodir em milhares de pedaços de desejo ardente.
— Ah, Nina! O que está acontecendo comigo? Meu corpo está incendiando! — arfou puxando meus cabelos para trás e enterrando os lábios no meu pescoço. — Você me deixa louco demais.
— Eu sempre quis você, Rick. Sempre — confessei e, ao levantar a cabeça para procurar seus lábios, encontrei Richard me encarando, paralisado, incrédulo. Sua respiração entrecortada, seu sorriso gigantesco, arrebatador. Sorri de volta e, no instante seguinte, meu rosto estava de novo em suas mãos, meus lábios em seus lábios.
Sim! Richard estava faminto por mim. Meu ego inflou como um balão e, extasiado, fez-me perder todas as amarras e puxá-lo ainda mais para junto de mim. Transformamos dois corpos em um amontoado de pernas, braços, línguas e suor. Meu coração respondia num ritmo frenético às investidas cada vez mais audaciosas e à respiração ofegante de Richard. Meu autocontrole se desmanchava em minhas veias. Em meio ao desespero desenfreado dos nossos corpos, os dedos de Richard roçaram a alça do meu vestido. Senti o sangue bombear ainda mais forte em meus ouvidos, o oxigênio entrar em combustão e a dor de cabeça avançar sem cerimônia. Meu corpo fervia por inteiro, mas eu estava congelada pela expectativa. Richard percebeu e, diminuindo suas investidas, sussurrou em meu ouvido: — Vamos devagar. É melhor esperarmos, Tesouro.
— Não é isso — balbuciei, corando ferozmente.
— Eu entendo seu receio. Eu sei que serei o primeiro — disse com os lábios roçando minha orelha e me fazendo enlouquecer. — Eu quero você, mas na hora certa.
Sem parar de olhar para ele, minhas mãos fizeram o que minha boca não conseguiu responder. Por conta própria meus dedos foram até as finas alças em meus ombros e, trêmulos, desfizeram os laços que seguravam o vestido amarelo de algodão. Quando o vestido tombou no chão, Richard tinha o olhar maravilhado, quase em êxtase de tanta emoção. Sua respiração acelerada fazia seu peitoral largo subir e descer descompassadamente. Naquele instante me senti uma deusa sendo idolatrada e era como se estivessem derramando mel em meu espírito. Meu mundo era açúcar, a vida, doce.
— Por Tyron, Nina! Você é linda demais — Richard gemeu e tornou a avançar sobre mim, beijando-me sôfrega e desesperadamente. Meus seios afundaram em seu corpo quente, as cicatrizes deixando suas marcas em minha pele, como uma assinatura de nosso amor. — O que você está fazendo com meu corpo, Tesouro? Eu... Eu te desejo tanto... Eu te quero tanto... — murmurava sem parar entre gemidos agoniados.
Enquanto sua língua passeava por minha boca, segurou minhas mãos e, pressionando-as contra seu abdome, ele as conduziu até o cordão que prendia sua calça comprida. Deslizei meus dedos sutilmente por sua pele febril abaixo do cós. Richard começou a arfar e me senti poderosa. Quem diria! O destemido guerreiro também estava tenso por ter de me enfrentar! Minha taquicardia assumiu níveis perigosos. Sabia disso porque já não conseguia mais encontrar oxigênio naquele minúsculo quarto e minha cabeça dava sinais de que ia explodir a qualquer instante.
— Meu tesouro, meu tesouro. — Seu sussurro quase parecia um mantra, uma oração de adoração. — Você é minha. Só minha — excitado, ele murmurava sem parar enquanto passava os dedos pelo cós da minha anágua transparente. Beijando sem parar cada milímetro da minha pele, ele se abaixou com destreza e, com um cuidado às vezes até exagerado, me deitou na cama e subiu sobre mim. Sentir seu peso sobre meu corpo era quase tão prazeroso quanto sufocante, mas a dor de cabeça não estava disposta a ceder e entrava no patamar do insuportável. Tinha a sensação de que meu crânio ia desintegrar, se fragmentar em milhares de pedaços a qualquer instante. Tudo latejava, qualquer movimento me deixava tonta.
— Nina, você está bem? — perguntou ele preocupado, afastando-se um pouco ao perceber que eu contraíra fortemente a testa. Não permitiria que nada estragasse aquele momento magnífico. Nada.
— Nunca estive melhor — puxei-o de volta para cima de mim, mantendo-me de olhos fechados e com um largo sorriso estampado no rosto. Eu não ia parar! Eu queria Richard ali e naquele momento e não seria uma dor de cabeça filha da mãe que faria isso comigo!
Ele gargalhou e aceitou satisfeito aquele chamado apaixonado. Sua respiração estava vacilante assim como a minha, mas a minha não estava apenas vacilante, estava estranha demais, quase ausente. Não dei atenção àquele detalhe. Precisava sentir nossos corpos suados se entrelaçando num perfeito e sincronizado balé, nossas batidas cardíacas aceleradas e em uníssono, nossas emoções rasgando o ar com gemidos de prazer e felicidade extrema. Mas o ar estava pesado demais, inacessível demais... Ignorei o estranho mal-estar e joguei minhas mãos por sua nuca, entrelaçando meus dedos nos seus fartos cabelos negros. Tateando, afrouxei o cordão da sua calça e puxei seu quadril para junto do meu com vontade quando seus beijos molhados e cada vez mais intensos inundaram meu pescoço. Ele soltou um ganido alto de satisfação. O fogo abrasador estava de volta. Combustão, desejo, desespero. Eu estava muito tonta, talvez fosse a hora de parar um pouco para respirar, mas não consegui interromper o frenesi enlouquecedor que subiu pela minha coluna, a eletricidade que me levou ao delírio quando suas mãos perfeitamente ávidas e nervosas deslizaram pelas minhas pernas e avançaram pela parte interna das minhas coxas e começaram lentamente a levantar a anágua transparente. Meu corpo começou a tremer e entrar em convulsão e, de repente, escutei um grito de pavor.
— Nina, não!!!
Um choro de dor rasgou a madrugada de Zyrk.