Não Olhe!
Capítulo 21
Enquanto eu era conduzida para o meu aposento, fui surpreendida pelo comando de uma voz feminina delicada e, ao mesmo tempo, incrivelmente ácida:
— Eu cuido da híbrida agora, soldado. Pode ir.
Olhei pra trás e levei um susto.
Samantha? Aquela loura de cabelos espetados do colégio também era uma zirquiniana?
— Preciso levar a híbrida até seu aposento — retrucou o soldado.
— Terei uma rápida conversa com ela — rebateu a loura de bate-pronto. — Que quarto ficou reservado para ela?
— O superior da ala oeste.
— Tudo bem. Eu mesma a conduzirei até ele. — Ela esfregava as mãos. — Está dispensado, soldado.
Samantha não tinha o olhar amistoso. Pelo contrário, ele parecia feroz e, enxergando através de olhos não mais inocentes como aqueles que a viram em Nova Iorque, recordei-me de que já era assim desde então. A loura usava uma roupa semelhante à das guerreiras de Storm. Semelhante, mas não igual. Como de costume, seus seios estavam quase saltando de dentro de sua blusa absurdamente apertada e decotada. Sem contar o principal detalhe de todos: no seu pulso direito destacava-se o brasão de Windston envolto em uma faixa vermelha: Samantha era a resgatadora principal dali!
— Por aqui, híbrida! — Ela apontou para um lindo jardim. Já havia anoitecido e o lugar era iluminado por tochas. Antagônico à Zyrk, havia muito verde, muitas flores, em especial rosas amarelas e girassóis. Tudo extremamente bem cuidado, como uma pintura. — Pelo visto, você não se contenta em acabar com Wangor. Quer destruir este reino e, quem sabe, toda Zyrk, não? — começou o seu ataque.
— Por que tem tanta raiva de mim, Samantha?
— Raiva? — A loura soltou uma gargalhada forçada e explodiu: — Porque eu simplesmente não acredito que minha dimensão será destruída por causa de uma garota inútil e amaldiçoada! É por isso!
— Nada vai acontecer — enfrentei-a. — Meu avô sabe o que faz.
— Sabe o que faz?! — desdenhou num grunhido. — Não! Ele não sabe porque você o cegou, assim como faz com todos, sua bruxa! O que fez com John, hein? E com Richard?
— Richard?! — indaguei feroz. — O que Rick tem a ver com isso? O que você tem a ver com ele?
— Você o chamou pelo apelido de Rick? — Ela estreitou os olhos de águia e mordeu os lábios rosados para segurar um sorrisinho que lhe escapava. — Por que tenho a sensação de que você não gostou quando toquei no nome dele?
Eu recuei. Que ótimo! Só me faltava agora ela perceber que morria de ciúmes daquele cretino!
— Você é paranoica — disse com os dentes trincados e sem coragem de encará-la.
— Eu estou de olho em você — ameaçou. — Custe o que custar, eu vou fazê-los enxergar a maldição que você realmente é.
— O que está havendo aqui? — John apareceu de repente, surpreendendo-nos com o olhar interrogativo. — Nina, tudo bem? — Ele procurava pistas em nossas faces.
— Fico feliz em ver que está bem, John — Samantha se adiantou. — Foram tantos os comentários...
— Que comentários? — A fisionomia de John se enrijeceu.
— Ora, John! Da sua fuga de Storm, é claro! Do que esta híbrida o obrigou a fazer.
Assim como eu, John pareceu aliviado com aquela resposta. Não era sobre a nossa desastrosa investida naquele pântano macabro que a loura instigava.
— Eu não o obriguei a nada — rebati entredentes.
— Sério? — Ela emitiu uma risadinha falsa. — Conte isto para Kaller. Aliás, conte isto para todo mundo. — A loura passou as mãos nos cabelos espetados e especulou: — Aliás, onde vocês se esconderam durante esses dias, hein? Quem lhes deu cobertura?
Engoli em seco.
— Ninguém — John rosnou. — Ou já se esqueceu de que também tenho meus truques?
— Todos em Zyrk têm ciência do ocorrido, John. Estavam apenas aguardando vocês aparecerem. Agora é questão de tempo, você sabe muito bem — Samantha liberava as palavras com ferocidade, desviando o olhar de mim para ele. — O que essa bruxa híbrida lhe obrigou a fazer?
“Questão de tempo”? “Bruxa”?
— Pare com isto, Samantha! Tudo que fiz foi por vontade própria! — John retrucou impaciente. — Você sabe que não sou do tipo que se deixa mandar!
O semblante da garota se modificou um pouco. Poderia jurar que vi um brilho diferente em seus olhos azuis acinzentados.
— Eu sei disto. Mas sei também que ela é uma híbrida cheia de poderes. Poderes que nós nem sequer sonhamos imaginar. Posso jurar que ela o impeliu a isso, sem que você percebesse a gigantesca besteira que estava fazendo. — A acidez de sua voz havia desaparecido. Para minha surpresa, ela estava aveludada. — Acorde, John! Não percebe que é apenas uma marionete nas mãos dela? Que ela está te manipulando?
— Não! — John coçava a testa e andava de um lado para o outro. — Já acabou?
— Quer fazer o favor de me escutar, droga! É tão óbvio! Ela está te usando para atingir seus próprios interesses!
Samantha berrava, ou será que implorava? Estava difícil captar o que havia por detrás das suas frases envenenadas porque o sentimento de culpa me vestia com perfeição. Ela tinha meia razão: eu havia me utilizado de John. Sempre soube que era capaz de gerar algo forte nele e me aproveitei do fato.
— Saia, Samantha! — O semblante hostil de John a fez recuar, seu rosto angelical em brasas de tão vermelho.
— Ótimo! — Ela grunhiu e se recompôs. — Você vai ver que eu tenho razão. O problema é que, quando descobrir, talvez já seja tarde demais!
— Que assim seja! — John não mais a confrontava. Seu olhar pairava em mim, pensativo. Eu me encolhi.
— Não me diga que eu não lhe avisei! — voltando-se para mim, ela ameaçou: — Não pense que vai conseguir enganar a todos, híbrida! Eu vou te destruir muito antes do que imagina!
— Saia! — trovejou John. Samantha se calou, fechou os punhos e se foi.
Eu e John ficamos calados por um momento que pareceu uma eternidade. Eu quebrei o silêncio.
— Por que Samantha tem tanta raiva de mim?
— Ela é assim mesmo. Não tem raiva só de você.
— Por quê?
— Não sei. Acho que foi depois da proclamação dela.
— Depois do quê?
— Depois que o Grande Conselho decretou seu parceiro de procriação.
— Seu parceiro de quê? — indaguei estupefata. John achou graça.
— O zirquiniano com o qual ela deverá ter filho — arfou. — Nós não escolhemos, Nina. O Grande Conselho é quem define o parceiro de cada um de nós.
Atônita, eu caí na estupidez de fazer o comentário seguinte:
— Caramba! Ela deve odiar este pobre coitado, não?
— É fácil não gostar dele. — John franziu a testa e eu perdi o ar.
Não podia ser.
— Richard? Parceiro de Samantha? — minha voz saiu esganiçada e meu sangue foi completamente drenado das minhas veias. Senti um aperto descomunal dentro do peito. Então eles... Então ela... Ela teria aquele tipo de contato íntimo que eu nunca poderia vir a ter com Richard? Droga! Eu sabia que ele era perigoso e que não valia nada, mas, imaginar que outra garota poderia usufruir daquilo que eu jamais teria acesso conseguiu me tirar do sério e me fazer tremer de raiva. Explodindo de ciúmes, perdi o raciocínio e a cor. Contenha-se, Nina! O que é que você tem a ver com isso, hein?
— Nina? Tudo bem? — John me estudava com suas sobrancelhas arqueadas.
— Tudo. Vocês se conhecem há muito tempo, não? — disfarcei meu estado perturbado.
— Sim — respondeu com certa amargura. — Samantha era de Storm.
— Como assim? Ela não é daqui de Windston?
— Não. Veio para cá depois de adulta — assinalou. — Brincamos juntos na infância porque fomos criados pela mesma estéril. Ela era muito alegre e nós éramos muito unidos. Porém, depois que assumimos nossas posições no exército, ela começou a ficar estranha e isso piorou após a proclamação. Então, sem mais nem menos, ela abandonou Storm e veio tentar a sorte aqui, em Windston, e nós perdemos o contato.
— Eu não podia imaginar, eu...
— Shhh! Deixe isso para lá — suspirou. — Vamos falar de coisas mais interessantes? — Seus olhos cor de mel voltaram a brilhar. — Você conseguiu, hein? Acordou Wangor!
Nossa! Mal aconteceu e ele já sabia? Imagine se houvesse internet por ali!
— Sim — confessei feliz e, apesar de estar cada vez mais ciente do poder que possuía sobre eles, ainda me sentia muito perdida e sem conseguir decifrar o papel que deveria desempenhar naquela dimensão.
— No final das contas nossa escapada valeu a pena — piscou, colheu uma flor e entregou-a para mim, deixando-me pouco à vontade. Recordei-me de nosso beijo e me senti péssima. Como poderia ser tão egoísta? Tinha total compreensão de que ele gostava de mim e, apesar de saber que meu coração batia freneticamente por outro zirquiniano, não conseguia abrir mão de John, da sensação agradável que ele gerava em meu corpo e espírito.
— Obrigada — dei um sorriso idêntico ao meu vestido: amarelo. Ele não seria capaz de perceber a diferença entre os meus inúmeros sorrisos. Ou seria? — O que ela quis dizer por questão de tempo? — voltei ao assunto que me preocupava.
— Para virem atrás de você. — Ele hesitou, mas acabou respondendo.
— Ah, não!
— Relaxe. — John passou as mãos pelos fartos cabelos ruivos. — Não há muito que fazer. Temos apenas que nos proteger enquanto aguardamos a próxima jogada dos nossos adversários. A situação agora é outra.
— Como assim?
— Em poucas horas toda Zyrk estará sabendo que Wangor despertou do seu estado de inconsciência. Os líderes terão que planejar muito bem o ataque. Sabem que terão que partir para a guerra aberta porque seu avô, diferentemente de Kaller, não aceitará qualquer tipo de proposta. Ele nunca negociaria a sua vida, Nina. Acho que isto nos dará alguns dias.
— Dias? — indaguei desolada.
— Posso participar da conversa? — Era Wangor, exibindo um largo sorriso ao nos interromper.
— Senhor! — John se inclinou em respeito.
— John de Storm?
— Sim, meu senhor.
— É um enorme prazer conhecê-lo pessoalmente.
— Obrigado, senhor.
— Eu é que tenho que lhe agradecer. Você devolveu a minha vida.
John ficou sem ação. Faltando-lhe palavras, repetiu as anteriores:
— Obrigado, senhor.
— Pare com tantos obrigados, homem! Gostaria de lhe pedir o favor de me deixar a sós com a minha neta. Temos muitos assuntos para colocar em dia.
— Claro, senhor! Com licença. Até amanhã, Nina — disse lançando-me um último olhar.
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Após uma longa sabatina sobre minha vida, meus gostos e sobre a fuga para Windston, senti-me mais à vontade em lhe fazer uma pergunta que me angustiava desde o início de nossa conversa:
— Fale sobre meu pai, por favor.
— Seu pai era diferente, assim como você, só que em menor intensidade. Eu acredito que ele já tinha bons sentimentos. Era de se esperar que acabasse por se interessar por uma dos seus — explicou Wangor, pensativo.
— Você sabia que eu existia?
Ele confirmou com um lento balançar de cabeça.
— Inicialmente só o nosso clã foi atrás de você. Era o único que sabia da sua existência. Na verdade, eu era o único que sabia da sua existência — pigarreou, mas sua voz fraca confidenciava a culpa que o consumia há anos. — Os outros clãs sabiam apenas que Dale havia falhado em sua missão, quero dizer, na busca de sua mãe. Não tomaram conhecimento de que ele tinha se envolvido com ela e muito menos que haviam gerado algo impossível para nós até então: uma filha — passou as mãos trêmulas no rosto. — Em termos práticos isto significaria dizer que outro clã poderia assumir e até mesmo concluir a sua missão fracassada. O que, para nós zirquinianos, sempre foi e ainda é fonte de vergonha e desprestígio, além de sofrermos a perda de parte do nosso território para o clã que a concluísse.
— Quando um clã conclui a missão de outro ele se apodera de parte do território do seu adversário?
— Exato. São as regras — suspirou enquanto escolhia uma rosa amarela no canteiro. — Algum tempo depois de ter partido, seu pai retornou para Windston. Tomado por euforia, ele fez a loucura de chegar aqui de madrugada. — A voz dele falhou novamente e seus olhos vermelhos denunciaram o que estava sentindo: dor. — Dale estava desesperado. Tinha pressa porque não concebia deixar vocês duas desamparadas enquanto permanecia fora. Ele veio me dizer que um milagre havia acontecido. Que ele havia se apaixonado por uma humana e que ela havia gerado um filho dele. Ele pediu para que eu a protegesse, para que a deixasse crescer aqui conosco, assim que fosse possível.
— Assim que eu fizesse o meu primeiro aniversário?
— Exato. E sabe o que eu fiz?
Eu apertei os lábios, já imaginando a resposta. Ele prosseguiu.
— Eu o excomunguei! — Wangor tinha a voz embargada e não mais tentava camuflar a vergonha que o devastava. — Ele me implorou de joelhos e eu lhe dei as costas — arfou. — Que tipo de pai faria isto?
Um nó se formou em minha garganta.
— Um monstro talvez fosse melhor para a sua própria cria! — respondeu nervoso. — Eu falei que ele era um fraco, um incompetente. Que não era digno de um dia ser o líder de Windston e muito menos de ser meu filho. E sabe o que ele me disse?
“Não quero nada para mim, pai. Não quero ser líder, e entendo que possa me excomungar por quebrar as regras, mas aceite este bebê. Ele é inocente e indefeso.” — Mas eu o empurrei porta afora e ordenei que ele nunca mais voltasse aqui. Nem ele, nem a sua maldita filha — confessou entre espasmos.
Não consegui ter raiva de Wangor. A dor esculpida nas rugas de sua fisionomia era a prova incontestável da sua condenação pelos últimos dezessete anos.
— O que houve depois disto?
— Seu pai voltou para a segunda dimensão e, segundo informantes, ainda viveu por quase dois anos junto a você e sua mãe. Deve ter ensinado todas as artimanhas para que passassem despercebidas por nós, o que sua mãe fez muito bem e nos surpreendeu com tamanha astúcia e superação. Só posso acreditar que o sentimento ao qual vocês, humanos, chamam de amor é capaz de gerar uma força indescritível, deixando-os sobre-humanos.
— E o que houve com ele depois disso?
— Vocês três viviam como errantes. De país em país, uma cidade diferente a cada dia. Seu pai escondia as duas. Você porque era preciosa demais para ele e sabia que ninguém do nosso mundo poderia tomar conhecimento da sua existência. Também protegia sua mãe, porque sabia que algum resgatador de outro clã iria atrás dela, mais cedo ou mais tarde, para concluir sua missão inacabada e com isto reclamar parte do nosso território — suspirou. — Um dia, entretanto, vocês foram descobertos e Dale teve que enfrentar um resgatador para protegê-las. No conflito, acabou matando este resgatador. Era Daniel, principal resgatador de Marmon, filho de Leônidas. Segundo tais informantes, Dale, que sempre foi um rapaz muito justo, caiu em desespero por ter matado um dos nossos para salvá-las. Sabia que estava se afundando em erros, sabia que não poderia fazer Windston se arruinar por sua culpa e, num ato de loucura, acabou tirando a própria vida. Ele se condenou ao Vértice por minha culpa!
— Ele se suicidou? — Uma dor obstrutiva rasgou meu peito em dois com aquela confissão. Culpa. Pela primeira vez realmente me senti como um ser amaldiçoado. Responsável pela morte das duas pessoas que mais me amaram: minha mãe e meu pai.
Wangor percebeu meu estado de atordoamento e tentou me confortar segurando uma de minhas mãos.
— Ele sabia que, se permanecesse com as duas, vocês seriam um alvo muito mais fácil. Acredito que ele também não queria que Windston perdesse parte de seu território, sua força e seu prestígio só porque não havia concluído a sua missão. Assim, ao se matar, cancelaria a busca de sua mãe por resgatadores de outros clãs que não o nosso. Além do mais, hoje tenho certeza do que vou lhe dizer: ele acreditava na força de sua mãe. Na força do amor que ela nutria por você.
— E o que houve depois da morte dele? — Mesmo com o coração sangrando, eu tinha que ir até o fim. Precisava saber dos detalhes.
— Meu reino enviou um novo resgatador principal para buscar a sua mãe e te eliminar. — Ele balançou a cabeça de forma pesarosa. — Minha dor foi transformada em rancor. Eu tinha ódio das duas. Entenda, Nina: nós não compreendemos o que é amar. Mesmo todos dizendo que eu sempre fui um líder pacifista, estava além do meu entendimento. O que era aquilo que Dale sentia por vocês duas que o fez desistir de mim e de Windston? Estava convencido de que sua mãe havia enfeitiçado meu filho e que você era a desgraça dele, de Zyrk, de tudo. Então, após três anos de buscas incessantes, nossos resgatadores caíram numa cilada muito bem planejada por sua mãe. — Wangor esmagou a pequena rosa entre os dedos e novamente tornou a olhar o céu nanquim. — Você devia ter uns cinco anos de idade na época.
— O que Stela fez?
— Stela... Hum. Era este o nome dela? Não consigo me recordar — franziu a testa, absorto em pensamentos distantes. — Hoje eu sinto muito pela morte dela, Nina. Se fosse há alguns anos eu festejaria de alegria, mas hoje eu a admiro. Hoje eu agradeço aos céus a mulher guerreira que ela se tornou por sua causa. Se não fosse por ela, você não estaria aqui comigo — abraçou-me agoniado.
— Fale, por favor. — Minha voz saiu abafada em seu peito.
— Sua mãe foi muito habilidosa — disse ele após acariciar meus cabelos de leve e me soltar. — Sempre que alguma pista começava a se desenhar, ela, de repente, desaparecia. Como mágica!
— Nós nos mudávamos — balbuciei.
— Sim — ele suspirou. — Quando você tinha cinco anos de idade, ela executou sua jogada de mestre.
— Como assim?
— Ela forjou um acidente de carro. Não sei como, mas sua mãe conseguiu dois cadáveres, pertencentes a uma mulher e uma menina que deveria ter a sua idade. Com a explosão, eles ficaram desfigurados. Ela teve a astúcia de injetar o sangue de vocês naqueles corpos, pois os resgatadores que chegaram ao local captaram a essência das duas. Além de também ter colocado um tipo de lentes de contato especiais na menina, pois a mesma tinha as pupilas iguais às nossas. Alguns objetos que pertenciam a Dale também foram encontrados junto aos corpos.
Naquele momento me dei conta do quanto era fácil enganá-los quando se tratava de algo subjetivo. Da enorme dificuldade que tinham em confabular o abstrato. Não desenvolveram a capacidade de conjecturar. Para eles a vida sempre foi uma questão de tudo ou nada, sim ou não.
— E aí vocês cessaram as buscas?
— Sim. O dia que deveria ser o mais feliz da minha vida se tornou o dia da minha condenação. Caí em desgraça, frustração e desespero. Nos últimos anos havia alimentado a minha alma de uma vingança sem reais motivações. Uma vingança mesquinha por ter meu orgulho ferido, por ter sido deixado em segundo plano. Só que uma vingança deste tipo não alimenta. Quando ela acontece, a gente percebe que está completamente desnutrido de tudo. Sem vontade para prosseguir, de viver. Até porque a própria vingança em si já era uma desculpa por ter falhado como pai. Que imbecil! Por que não fui atrás das duas para ajudá-las? Pelo menos você eu teria conseguido salvar. Por que não atendi ao último pedido de meu querido filho? Não! Meu orgulho era maior que tudo! Este mesmo orgulho me fez entrar em uma tristeza profunda. Minha vida não tinha mais sentido e adoeci por anos.
— Então o senhor estava desacordado há quase doze anos?
— Praticamente. Toda ligação que eu tinha com a vida vinha através do meu fiel Zymir. Eu já tinha desistido de mim, mas Zymir não. Era ele quem, incansavelmente, me trazia informações sobre tudo que ocorria em Zyrk. Mesmo sabendo do meu estado quase inconsciente, ele costumava sentar-se ao meu lado e, por horas a fio, contar as novidades. Eu ouvia tudo de forma aérea, quase ausente. Mas quando ele veio com uma bombástica notícia, há aproximadamente um ano, tudo mudou — empertigou-se e explicou: — Von der Hess, um mago muito poderoso de nossa dimensão, havia identificado uma força desconhecida. Ele previu a existência de uma híbrida na segunda dimensão e que deixá-la viva seria um incomensurável perigo para a existência de Zyrk. Sob o consentimento do Grande Conselho, espalhou a notícia aos quatro ventos, convocando todos os clãs e seus principais resgatadores para a sua busca. O clã que a eliminasse teria um aumento considerável em seu território e o resgatador que efetuasse tal proeza teria seu nome gravado na história de Zyrk. Um grande passo para vir a se tornar um líder no futuro. — Wangor abaixou a cabeça, reflexivo, enquanto esfregava a testa com seus dedos longos e trêmulos. — Como eu lhe disse, meu reino caminhou por conta dos meus fiéis conselheiros. Como nunca mencionei sobre você para ninguém, Zymir acreditou que estaria me agradando caso te achasse e eliminasse. Foi o que ele fez ao enviar Samantha no seu encalço.
— Então o ódio que Samantha tem por mim é porque não conseguiu me matar e ficar com os louros para si?
— Ódio?
Confirmei com a cabeça.
— Pode ser que sim... — Ele franziu a testa. — Ou, talvez, porque eu mudei as regras no meio do jogo — confessou. — Após Zymir ter me contado que você estava viva, algo se mexeu dentro de meu peito congelado, fazendo-me recobrar parcialmente os sentidos. Antes de retornar a ficar inconsciente, consegui confidenciar-lhe parte da história de Dale. Implorei que Zymir inventasse uma desculpa para o nosso conselho e enviasse com urgência um mensageiro ao encontro de Samantha com a intenção de mudar as ordens dadas a ela. Pelo novo comando, o nosso clã determinava que a sua eliminação deveria ser realizada no seu dia de passagem. Zymir precisava manter você viva até a data da sua passagem para Zyrk enquanto era definida uma estratégia para trazê-la para Windston sem que os demais clãs tomassem conhecimento do fato.
— Wangor! — uma voz aflita entrava pelo jardim.
— E falando nele... Pois não, Zymir?
Acelerado, o velho senhor se aproximou e sussurrou algo em seu ouvido.
— Mercenários? A esta hora?! — bradou Wangor. — Nina, vá para o seu quarto — ordenou ele fazendo sinal para que um soldado me acompanhasse.
— Mas, vovô...
— Shhh! Está tudo bem, minha menina — disse ele com firmeza, mas não me convenceu. — Descanse. Vai ficar tudo bem.
Olhei para Zymir que desviou o olhar de mim.
Não gostei.