Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 18 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 18

 

Meu corpo foi envolto em um lençol e carregado às pressas. Barulho de portas sendo arrombadas em meio a berros de horror. Após uma série de espasmos, eu não conseguia mais respirar, como se milhares de mãos resolvessem me estrangular, como se centenas de facas perfurassem meus pulmões, como se estivesse presa e amordaçada dentro de um carro nas profundezas de um oceano. Eu estava sufocando! A única certeza que eu tinha era de que haviam colocado ácido sulfúrico em minhas vísceras. Eu queimava por dentro. Uma ardência desesperadora. Meu corpo se retorcia de dor, como se meus ossos estivessem sendo triturados e transformados em pó. Não havia som que conseguisse sair de dentro de mim, a não ser gemidos ininterruptos. Em uns breves instantes a ardência cedia e eu conseguia captar vozes discutindo, prantos acalorados, e então ela voltava, mais cáustica e dilacerante do que antes. Impiedosa.

— O que houve com ela, Rick?! — um berro. — Não pode ser! O que você fez, filho? — Finalmente reconheci o rosto que me encarava dentro das imagens borradas: era o da Sra. Brit e ele não conseguia camuflar o pânico avassalador que o tomava. Cristo! O que estava acontecendo comigo?

— Eu não entendo! — Com as feições deformadas, Richard soltou um ganido animal. — A energia dela estava perfeita! Eu a tinha sob controle!

— Energia? Que tolice é essa que você está dizendo, Rick? Você é um zirquiniano! Você sugou a energia dela. Foi isso o que aconteceu! — Guimlel gritava, passando as mãos na cabeça. Ele parecia estar mais apavorado com a reação de Richard do que com o meu estado.

— Nina? — Richard implorava aos urros. — Nina, fale comigo! Por que ela está assim? Por que ela não fala comigo, Brita? — Ele estava transtornado. — O que você está sentindo, Tesouro?

Eu estava em chamas! Eu queria falar. Precisava berrar, pedir socorro. Não encontrei a minha voz. Uma cola terrível havia unido minhas cordas vocais e fechado minha garganta.

— “Tesouro”? — indagou Guimlel desorientado.

— Fique quieto, Rick! — ordenou nervosa a Sra. Brit.

Quanto mais força eu fazia para falar, mais o fogo se espalhava e me queimava por dentro. Tudo que eu conseguia fazer era me contorcer e gemer alucinadamente.

— Por favor, Brita. Não a deixe sofrer — Richard berrava.

— Como pôde fazer isso, Rick? Eu não acredito! Logo você! — Na bronca de Guimlel havia mais que reprovação, exalava surpresa.

— O pulso dela está fraco demais! Eu não posso perdê-la, Brita! Eu não posso! — Richard bramia feito louco, apertando-me contra seu corpo febril. Eu tinha pena dele, mas precisava que ele se afastasse. Seu contato me gerava dor e piorava a ardência que me consumia.

— Saia daqui, Rick! Você está atrapalhando — ralhava ela.

— Eu... eu a matei, Brita! Eu achei que conseguiríamos e que... — Novos soluços lançados ao ar. — Tyron me castigou desta vez, Brita. Ele me castigou porque falhei com ele de novo. — Richard urrava em meio a um pranto apavorante.

— Não diga isso, filho. — A voz da Sra. Brit estava embargada. — Deixe-me checá-la. Coloque-a na cama — pediu a Sra. Brit, empurrando-o para o lado. — A energia dela está oscilando como nunca vi acontecer em minha vida. Não sei o que isso significa... — constatou agitada após colocar a mão sobre minha testa. — Sinto uma essência diferente nela, alguma coisa errada.

— Eles violaram as regras! Foi isso o que aconteceu de errado aqui, raios! — esbravejou o mago. — Que líquido é esse em seu rosto, Rick? — perguntou Guimlel de repente. — Isto é...

— Suor! — interrompeu a Sra. Brit supernervosa. — Não está vendo, Guimlel! Os dois estão completamente suados!

— Que se dane o líquido que está no meu rosto, porra! Ajudem-na! — Richard retrucou descontrolado, ajoelhando-se e colocando a testa sobre minhas pernas. — Nina, não desista! Por favor, Tesouro, fique comigo!

— Você está se atolando em erros, Rick! — Havia fúria na voz de Guimlel. — Você acabou de estragar tudo, seu tolo! Se ela morrer por sua causa estará tudo acabado!

— Está tudo acabado de qualquer maneira! Tudo! — ele rebateu no mesmo tom.

— Como assim? — Guimlel o agarrou pelo braço. — O que há de errado com você? — tornou a perguntar o mago, encarando-o estupefato. Agoniada, a Sra. Brit sussurrava um tipo de oração enquanto colocava um pano gelado em minha cabeça e enfiava uma papa amarga em minha garganta. — Rick, você está sentindo alguma dor? Por que sua energia está vacilando também?

Sem resposta.

— Você não tentou possuí-la apenas por curiosidade? — Os olhos do mago se arregalaram e suas pupilas se estreitaram após um momento de compreensão. — Por Tyron! Não me diga que... — Novo instante de silêncio seguido de uma gargalhada nervosa e compulsiva. — Não pode ser! Você achou que... Que tinha sentimentos fortes por ela, Rick?

— Oh, Tyron! — exclamou a Sra. Brit ao meu lado. — A garota está mal, não percebem? Pare de afrontá-lo, Guimlel! — pediu. — E você precisa esfriar a cabeça, Rick! Saia já daqui.

— Você achou que conseguiria ter algum contato íntimo com ela? Responda-me! — Impregnado de sarcasmo, Guimlel pouca atenção deu ao pedido desesperado da Sra. Brit e continuava a imprensar Richard. — Imaginou que procriariam, quero dizer, que fariam amor como dois humanos?

— E por que não? — Richard contra-atacou, mas sua voz vacilou. — Eu sei que ela gosta de mim, droga!

— Gosta? — Guimlel envergou os lábios e soletrou a palavra com desprezo. — Desde quando começou a se comportar como um humano, hein?

— Ela é uma híbrida e a lenda é verdadeira!

— Não seja ridículo, Richard! A lenda é tão verdadeira que a garota está quase morrendo só porque teve um contato maior com você! — trovejou o homem apontando para meu corpo em sofrimento.

— Ela não vai morrer! — A afirmação de Richard saiu sem força. Balançando a cabeça de um lado para o outro, sua testa estava lotada de vincos, suas pupilas completamente verticais.

— Tudo bem — ponderou o homem após alguns instantes. Ele passava os dedos pela trança da barba e fazia força para se controlar. — Digamos que a híbrida sobreviva e que a lenda seja verdadeira, filho. — Guimlel nos estudava. — Ficou claro então que ela não o ama e que você não é o escolhido, não?

Fogo em pólvora. Explosão de dor e tristeza ao escutar aquela constatação. Meu coração não suportava aceitar que ela fosse verdadeira, mas a ardência que aniquilava meu corpo assentiu, avançando como uma bomba pelo meu espírito combalido.

— E-ela ainda podia estar tomada por mágoa pelo que eu a fiz passar — Richard gaguejou. — Pode não ter me perdoado por completo, mas eu sei que Nina tem fortes sentimentos por mim, ela...

— Não, filho. Ela não tem. Talvez a pobre garota nutra alguma atração por você. Talvez ela até acredite que tem bons sentimentos, mas está claro que ela não os possui. Não com relação a você, Rick.

— Não! — No ganido de Richard havia uma mistura de dor, raiva e pavor. — Ela só precisa me compreender melhor, nós só precisamos de mais tempo juntos, e...

— Não se iluda, filho. Ela não te ama.

— Cale a sua boca, Guimlel! — Richard ameaçou partir para cima de Guimlel, mas travou no meio do caminho e, transtornado, levou as mãos à cabeça.

— Vá embora, Rick. Pare de importuná-lo, Guimlel! — ordenou em pânico a Sra. Brit ao envolver meu corpo em um lençol embebido com um líquido quente e de odor repugnante. — Ela está piorando com essa discussão de vocês!

— Por favor, não a deixe sofrer, Brita. — Desolado, Richard tornou a cair prostrado ao meu lado.

— Eu consigo compreender que as sensações que ela gera em você sejam fortes demais para querer se abster, mas aceite os fatos: ela não o ama, filho. — Guimlel não dava trégua. — Se a lenda fosse realmente verdadeira e se ela de fato o amasse, vocês teriam conseguido, Rick. Não é óbvio?

— Chega, Guimlel! — esbravejou a Sra. Brit pela primeira vez. — Você está piorando tudo!

— Faça-o enxergar que ao menos um dos elos é falho, Brita! — continuava o mago.

— Deixe-o em paz, Guimlel! Por Tyron! Não é hora para discussões!

— Talvez você também não a ame, filho. — Guimlel estava irredutível. — Pode estar apenas fissurado nas sensações que ela gera em seu corpo.

— Eu gosto dela!

— Você “gosta” é das sensações que ela provoca em você, Rick! É muito diferente. Não se esqueça de que ela é uma híbrida.

— Não! Não pode ser — Richard murmurava desconsolado. — Não, eu...

— Não se esqueça também de que você é um zirquiniano, Rick. E um dos exemplares mais fortes que essa dimensão já produziu. Mesmo para uma híbrida, sua força é grande demais, filho. Você iria matá-la de qualquer maneira.

Senti meus pulmões desintegrarem e a pele do meu corpo arder por inteira ao escutar aquela afirmação.

— Eu não ia... Tyron me ajude! — Richard gemia com a cabeça tombada sobre o corpo curvado.

— Não vire as costas para a sua missão, Rick. Sabe o que vai acontecer se desrespeitar o livro sagrado — ameaçou o mago de forma sinistra.

— CHEGA! — rugiu novamente a Sra. Brit, abraçando-me com desespero. — Ela está piorando! Desapareçam os dois daqui!

Richard beijou minha mão e, levantando-se num rompante, socou a porta com violência. Antes de sair, detectei sangue escorrendo por entre seus dedos.

 

#

 

A partir dali, perdi a noção do tempo. A ardência em meu corpo era tanta que conseguiu fundir dias, noites, minutos e horas e me arrancou da realidade. Vozes, berros, brigas, orações e lamentos da Sra. Brit e Guimlel iam e vinham como um trailer mal-acabado de um filme de última categoria. Comecei a sentir uma falta terrível de Richard. Todas as minhas células pediam por ele. Dane-se o que havia acontecido comigo! Eu tinha certeza de que o amava. Precisava saber como ele estava, fortalecer sua fé no nosso amor, não deixá-lo desistir de mim. Precisava desesperadamente dele ao meu lado, dos seus braços fortes me envolvendo, da paz que só ele conseguia trazer ao meu atormentado espírito que piorava a cada instante sem o ver ou escutar a sua voz. Ele havia partido? Meu coração berrava, convencendo-me que Richard estava sofrendo e que não havia me abandonado dessa vez.

— Guimlel, traga-me mais umas mudas de sucupira e folhas de macadâmia — pediu a Sra. Brit.

— Acho melhor você ir buscar.

— Não posso sair daqui, você sabe muito bem. O escape de força está muito forte e a energia dela ainda é inconstante. Não entendo por que ela não está respondendo às minhas ervas.

— Acho melhor você dar uma conferida em nosso filho, Brita. Eu cuido dela enquanto isso.

Rick? Ele ainda estava ali! Minhas emoções despertam num rompante.

— O que houve com ele? — indagou ela, olhando-o pelo canto do olho.

— Não quis te alarmar, mas o estado de Richard está começando a me preocupar — disse o mago, não conseguindo esconder a aflição que impregnava suas palavras. — Fale com ele, Brita. Rick não quer me ouvir.

— Oh, não! Por que Tyron está fazendo isso conosco? Que provação é essa? — lamuriava-se a pobre senhora. — Tudo bem. Eu mesma vou buscar as ervas e tentar falar com ele. Você sabe como é o gênio do nosso garoto...

Guimlel assentiu com um tenso balançar de cabeça. Eu queria berrar, dizer à senhora Brit que precisava dele, que queria vê-lo. Forcei a voz usando todas as forças que me restaram, mas ela não respondeu aos meus comandos e novo torpor tomou conta do meu corpo. Uma desesperança terrível tornou a me invadir e, quando dei por mim, havia lágrimas encharcando minhas bochechas pela primeira vez desde que fui acometida por aquele fogo incessante. As lágrimas pareceram abrandar as labaredas e lavar minhas cordas vocais e, para minha surpresa, consegui balbuciar o nome dele.

— Ri-char-d. Eu preciso... — as palavras saíam muito baixas, um sussurro.

— O que você disse, híbrida? — O mago se aproximou de mim, os olhos arregalados.

— Rick. Chame ele.

— Não estou te escutando — repetiu o homem.

— Rick. Eu quero Rick — implorei.

— Hã? Você disse alguma coisa?

Ele não conseguia me ouvir? O choro piorou e minha voz se perdeu no ar. O fogo estava de volta e tornava a me massacrar. Arrasada, afundei a cabeça no travesseiro. Minhas forças se dissiparam novamente e me senti aprisionada em uma caverna de escuridão, solidão e torpor. Vozes perdidas no ar, como uma canção distante, eram a minha única companhia.

“— É muito triste, muito triste — choramingava a Sra. Brit.

— Será melhor para os dois — retrucou Guimlel.

— Esperamos por tanto tempo para quê? Para nada? — Ela estava desolada.

— Para cumprir o destino traçado e não para apostar em lendas. Não podemos arriscar, Brita.

— Mas foi você quem me fez acreditar na lenda e agora age desta forma?

— É o melhor caminho.

— Não desta maneira... não assim...

— Você fez um juramento, Brita. Não se esqueça disso.”

Batidas de leve na porta do quarto. Outro diálogo sussurrado ao longe.

—Não. Ela não chamou por você, filho.

A voz rouca e desolada que fez meu coração dar sinal de vida no peito emudeceu após ouvir tal afirmação. Eu não podia permitir que isso acontecesse. Os dedos abrasadores do fogo insistiam em desviar a minha atenção e fincavam suas garras em mim, mas dessa vez eu haveria de lutar e me livrar deles. Chega! Ordenei meu cérebro a suportar aquela dor e, aos poucos, meu corpo foi aceitando o comando.