Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 10 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 10

 

Dois soldados me conduziram até o meu aposento. Ele era requintado, como tudo em Storm. Duas aias aguardavam pela minha chegada ao lado da enorme cama feita de mármore rosa. À exceção dela, a cômoda e os demais móveis eram de marfim. Lindos desenhos folheados a ouro destacavam-se neles. Cortinas de seda rosa-clara com detalhes em bege enfeitavam a passagem que dava para a varanda também revestida de mármore. Nossa! Quanto rosa! Em nada se assemelhava aos aposentos vazios e tristes de Thron.

— Você quer se banhar, híbrida? — indagou a aia mais idosa, e eu perdi a cor ao me lembrar dos maus momentos que passei naquele banheiro coletivo em Thron. Ah, não!

— Não. Ninguém vai tocar em mim! — ameacei quando ela se aproximou demais. — Eu... — Esmaguei a manta entre os dedos, assustada. As unhas sujas de sangue e meus pés imundos piscavam para mim.

— Tocar em você? — A mulher estreitou os olhos. — Ah! Entendi seu receio... A bebida é proibida aqui em Storm, híbrida. Sem o álcool no sangue, nossos interesses não são tão óbvios quanto os dos humanos — rebateu com um sorriso sarcástico. — Se mudar de ideia, a banheira já está preparada e, se precisar de algo, é só chamar. Meu nome é Meredith — finalizou chamando a garota ao seu lado, que parecia mais nova do que eu e que tinha os olhos grandes e vivos. — Venha, Sophia!

Surpresa com aquela resposta, relaxei. Obriguei-me a não pensar em Thron, em Richard ou na minha tumultuada chegada àquele reino. Eu precisava descansar para raciocinar com clareza. Tinha que entender tudo pelo que havia passado, obter respostas que pudessem explicar a minha conturbada existência e tentar programar meu futuro. Assim que as aias saíram, fui até o local indicado por Meredith e respirei aliviada ao abrir a porta e me deparar com um banheiro luxuoso e particular. Depois do banho, caí na enorme cama e, exausta, dormi um sono agradável e reparador pela primeira vez em muito tempo.

 

#

 

Assim que me viram despertar, as aias me arrumaram como para uma festa. Enjaulada num belo vestido vermelho de cetim, sentia-me extremamente estranha e com saudade de meu uniforme: jeans, tênis e camiseta.

— Venha — disse Meredith, pegando-me pela mão. — Kaller a aguarda.

Após o almoço, Kaller me levou ao que ele chamou de pátio central. Um pequeno chafariz de mármore rosa destacava-se em seu centro. Dentro dele havia uma escultura de um anjo assustado. O querubim olhava para trás, parecia fugir de algo apavorante, e derramava a água do jarro aprisionado entre suas mãos gorduchas na pequena piscina aos seus pés. Rodeado por mesas redondas também de mármore, o chafariz conferia elegância mas também umidade ao local. Todo o entorno era recoberto de uma fuligem cinza.

— Não chove há anos em Zyrk. Storm já foi um reino de chuvas torrenciais constantes, daí seu nome. Tudo que nos restou foi o grande lago — reclamou o líder. — O que vem para piorar a situação. Se já somos de uma dimensão hostil por natureza, imagine com a possibilidade de uma terrível seca a nos assombrar.

— Uma guerra? — questionei, e ele confirmou com um balançar de cabeça.

— Nossas reservas estão se esgotando. Por sorte, Storm foi construída sobre uma grande mina de ouro, mas o dinheiro não compra tudo... — ele matutava, passando os dedos na barba ruiva.

Como Thron poderia ser considerado o reino mais forte e poderoso de Zyrk, se Storm era tão rico? Se a ganância era uma forte característica dos zirquinianos, por que o dinheiro não havia comprado um exército para Storm?

— Mas vamos ao que interessa: o que você quer saber? — indagou de maneira amistosa.

— Você conheceu o meu pai?

Ao menos, uma coisa de positiva eu poderia obter daquele terrível furacão que devastou a minha vida e a lançou em outra dimensão.

— Sim. Nós tínhamos idades próximas e fomos resgatadores principais na nossa época. Os líderes deixavam esta incumbência para nós, seus filhos. Acreditavam que isto nos ajudaria no futuro, caso um dia viéssemos a tomar seus lugares.

— Como ele era?

Ele abriu um discreto sorriso.

— Você é muito parecida com ele, Nina, se é o que quer de saber. Os mesmos cabelos, o mesmo tom de pele. Mas sua expressão facial é diferente.

— Diferente como?

— Você irradia muita vida. Tem um brilho próprio.

— Meu pai não tinha esse brilho?

— Tive pouco contato com Dale — desconversou.

— Dale?! — balbuciei atordoada. Lágrimas instantâneas brotaram em meus olhos.

Kaller franziu a testa e emudeceu por um instante.

— Você não sabia o nome dele? — arguiu em baixo tom.

Balancei a cabeça e senti aquele nome vibrar em minha alma. Stela nunca disse o nome de meu pai. Ela afirmava de maneira irredutível que não queria mais nenhuma recordação dele, absolutamente nada que a fizesse relembrar o passado. Já havia desistido de perguntar e brigar. Com o tempo, acostumei a digerir a palavra “pai” sem dificuldades, mas agora ela tinha um nome próprio e estava ali, agarrada, queimando-me a garganta.

— Deparei-me com Dale em algumas de nossas missões. Era um rapaz calmo, de poucas palavras. Suas mortes eram limpas. O que já era uma grande façanha porque os zirquinianos, enquanto jovens, costumam empreitar mortes mais elaboradas, quero dizer, gostam de mortes estrondosas.

— Você quer dizer do-dolorosas? — gaguejei.

— Infelizmente, sim, mas seu pai era diferente. Mesmo com pouca idade, suas mortes eram semelhantes às dos nossos mais experientes resgatadores: serenas. Ele parecia ter compaixão pelos seus resgatados — disse e tornou a ficar pensativo.

— Ele já tinha sentimentos? — questionei, apertando os olhos. Estava difícil respirar.

— Creio que sim, mas acho que nem mesmo ele percebia isso. Então sua mãe surgiu na história... — soltou. — Era a vez dela, e Dale não conseguiu cumprir sua tarefa.

— Ele se apaixonou por ela. — Um murmúrio triste saiu de minha boca.

— E ela por ele. É a única explicação para você existir, Nina — acrescentou com o olhar penetrante. — Apesar de eu não conseguir compreender como eles conseguiram ter um contato mais profundo — balbuciou. — Foi por isto que você foi concebida. Sem amor, não há concepção.

— Vocês já... — travei.

— Nós o quê? — Kaller percebeu minha hesitação.

— Já tentaram com outras humanas? — Sem graça, fiz a pergunta olhando para minhas mãos.

— Sim. Tentamos o contato carnal com humanos de ambos os gêneros.

— E?

— Nada. Nunca houve sequer consumação do ato, quanto mais concepção. Você é a única desde a maldição.

Senti um peso enorme ser despejado sobre minhas costas. Por que eu? Eu não pedi para nascer. Eu não queria este maldito carma sobre mim.

— E o que houve com o meu pai?

— Não sei ao certo. Dizem que, depois que você foi concebida, ele ficou completamente transtornado e não realizava mais nenhuma missão, a despeito da ira de seu líder. Dizem que ele se matou de tanta dor e saudade das duas.

— Se matou? — afundei as mãos no rosto, o corpo trincando de dor. Não era carma, mas sim o peso da culpa que me esmagava.

— Dizem também que ele foi morto pelos soldados do próprio pai, entre tantas outras histórias.

— Do próprio pai... — O oxigênio se fora.

— No nosso mundo isto não diz muita coisa, garota. Nós reproduzimos por necessidade, não por que desejamos. Não desenvolvemos qualquer sentimento por ninguém, nem pelo nosso próprio filho. Cuidamos dele porque, em geral, desejamos manter a continuidade do nosso sangue no poder.

— Quem era o pai dele?

— Wangor.

— Wangor?! — engasguei. — Então... Então Wangor, o líder de Windston, é meu avô?! — A notícia inesperada arrancou o chão sob os meus pés e a sensação era de estar caindo em um abismo. Felicidade e decepção duelavam dentro do meu peito estupefato. Eu tinha um parente vivo e que me queria morta. — Mas, mas ele também mandou me matar!

— Já lhe disse, Nina. Em Zyrk um filho ou um neto é o mesmo que qualquer subordinado. Não existe diferença — arqueou as sobrancelhas. — Além do mais, não sei se foi ordem dele. Ouvi dizer que Wangor está muito doente. Seu reino está praticamente abandonado, às moscas.

— Doente?

— É o que dizem. Não sei se é verdade — acrescentou pensativo. — Os reinos não interagem há tempos. Isso dá margem a boatos que, se mal empregados, têm o poder de deflagrar terríveis reações — ponderou com olhar distante. — Deixe isto para lá! Nada acontecerá.

— Como pode ter tanta certeza?

— Porque ninguém sabe que você está aqui conosco — lançou-me um sorriso triunfante. — Tudo foi feito com muito cuidado. John me garantiu.

John... Como não pensei nisso antes! Teria ele alguma participação naquela trama também?

— Ele está bem? — perguntei ao abrandar minha respiração.

— Praticamente recuperado — Kaller confirmou com um discreto sorriso. — John é um bom guerreiro. Pressinto que meu clã estará em boas mãos quando eu não estiver mais aqui. Por isso prezo pela vida dele, assim como prezo pelo meu clã.

— E a mãe dele?

— Mãe dele?! — O líder parecia surpreso com a minha pergunta. — O que tem ela a ver com a história?

— Você não preza por ela?

— Não — soltou indiferente. — Não sei se está viva ou se a reconheceria.

— Mas... Ela não sente saudades dele? Ou ele dela?

— Não. — Ele alisava sua lustrosa barba ruiva. — Nossas mulheres já estão acostumadas às nossas leis: gerar um único filho em vida e entregarem-no para as estéreis. Estas últimas ficam com eles até que estejam aptos a lidar com as armas e a combater. Só não entregam o filho do rei se for um menino. Neste caso, ele é criado em nosso castelo, para não corrermos risco de troca — deu de ombros. — Não que isto faça muita diferença para nós, mas é como manda a tradição.

— Troca?

— Ouvimos falar de alguns casos... — sua voz saiu baixa. — São comentários tolos.

— E se for menina?

— É o único caso em que tentamos novamente, até vir um menino.

— E como ficam as meninas?

— Ora, em geral são criadas como qualquer zirquiniano, quero dizer, para guerrear. Aquelas em que não observamos aptidão para este ofício são designadas para tarefas domésticas. É o caso das aias, cozinheiras, etc. As crianças executam tarefas de baixa complexidade e são sempre supervisionadas por algum adulto. Aos idosos é facultativo resgatar ou guerrear. Se desejarem, podem ser designados para as tarefas administrativas de cada clã.

— Mas por que quase não vejo mulheres por aqui?

— Porque é assim mesmo. Existem poucas mulheres em Zyrk. Não sei se é devido à maldição ou à intervenção dos magos do Grande Conselho — suspirou. — É melhor deixarmos este assunto para outra hora.

— Todos eles são resgatadores? — indaguei apontando para algumas pessoas que passavam por nós.

— Não. São os nossos empregados e soldados, o que presta para habitar um reino. — Kaller abriu um sorriso mordaz. — Os resgatadores são a nossa elite, os melhores guerreiros de Zyrk. Já os demais... — uniu os lábios em uma linha fina.

— Vivem como aqueles que estão do lado de fora deste muro? — indaguei, relembrando-me daquelas arrepiantes pessoas que vi quando cheguei a Storm.

— Você se refere às nossas sombras?

— “Sombras”? — repeti, arregalando os olhos.

— É como chamamos os mais vis exemplares da nossa espécie — comentou com desdém. — Aquela gente não vale nada. Deviam nos agradecer por estar vivos. São uma doença sem cura.

— Mas são muitos!

— Sim. Infelizmente eles são a maioria. Entenda de uma vez por todas, garota: Zyrk é má, assim como quase a totalidade dos seus filhos.

As mesmas palavras de Richard...

— Essas malditas sombras pararam de respeitar as regras do Grande Conselho e praticamente triplicaram nas últimas décadas. Temos realizado ataques contra essa horda de miseráveis, mas não são suficientes. Storm não pode correr o risco de ter uma forte baixa de soldados.

— Por que não se unem contra elas?

— Os reinos pararam de se reunir já faz um bom tempo. Sem contar que muita coisa aconteceu desde então.

— Como o quê?

— Shakur ter enlouquecido. Windston ter sido paralisada pelo seu conselho de imbecis e Marmon... Bem, pelo que ouvimos, esse clã aguarda apenas a morte de Leônidas para que Von der Hess, o mais inescrupuloso mago de Zyrk, suba ao poder.

— Shakur... É louco?

— De temperamento tempestuoso e instável, Shakur continua um enigma a ser decifrado. Apesar de Collin ter herdado a força física do pai, não é ágil e nem inteligente. Comenta-se em Zyrk que isto deixa Shakur, que foi um exímio lutador e estrategista, extremamente inconformado. Daí ele preferir, de forma evidente, o mais cruel dos seus resgatadores: Richard. — Arregalei os olhos enquanto Kaller se explicava: — Thron possui os resgatadores mais sanguinários de Zyrk, Nina. Eles são incapazes de se apiedarem de suas vítimas e suas mortes são tão assustadoras e sem compaixão quanto eles.

— Como estamos indo? — uma voz conhecida saiu por detrás de um caramanchão de mármore e nos pegou de surpresa.

John!

— A híbrida é complexa, mas acho que estou progredindo. Tenho assuntos pendentes a resolver e já estou atrasado. — Kaller olhou para o céu. — Fique com ela — ordenou e se despediu de nós.

— Pode deixar, pai.

John tinha boa aparência. De banho tomado, os cabelos ruivos encontravam-se penteados para trás e suas sardas menos evidentes. Achei bonito vê-lo chamar Kaller de pai.

— Quer caminhar um pouco? — John se voltou para mim.

— Você consegue andar?

Ele confirmou com a cabeça, mas ainda mancava, traído por sua panturrilha em recuperação. John me guiou para uma área mais afastada da construção central. Andamos em silêncio até chegarmos a uma quadra de formato oval. Na verdade, fazia lembrar uma grande arena. Estupefata, peguei-me observando a complexidade das lutas em andamento. Elas eram mais limpas e agradáveis de serem vistas do que os violentos treinamentos de Thron. E entre elas havia mulheres! Pela primeira vez eu as via como guerreiras e fiquei admirada. Treinavam e lutavam como homens. Não recebiam qualquer tipo de privilégio. Tinham a musculatura bem torneada e eram muito ágeis. Cheguei a sentir uma pontada de inveja. Apesar de saber que possuia uma boa estatura e um corpo bem feito, minhas curvas não eram musculosas. E agilidade? Passou longe de mim! No máximo, um apurado instinto de sobrevivência. Pude notar que a minha aparição por ali gerou um discreto frisson entre elas.

— Cuidado! — John berrou quando uma flecha passou raspando por meu ombro esquerdo e meu pensamento distraído. A garota que veio buscar a arma era mais alta e bem mais forte do que eu. Tinha os cabelos negros encaracolados presos em um coque fofo.

— É melhor tirá-la daqui — advertiu e, virando-se para John, abriu um largo sorriso: — Vejo que já está recuperado, chefe.

“Chefe”? Claro! John era o resgatador principal dali.

— Quase, Allis — respondeu ele, satisfeito.

— Que bom! Você já estava fazendo falta nas nossas buscas.

— Logo estarei de volta.

John olhou para a perna ferida.

— Espero que sim, chefe. — A musculosa garota fez uma espécie de cumprimento e sacou outra flecha de uma sacola presa nas suas costas. — Acho melhor tirar a híbrida daqui.

— Venha para cá — disse John, puxando-me pelo braço. À exceção da faixa vermelha que o envolvia, John usava o mesmo tipo de bracelete que vi no braço de Kaller. Olhei ao redor e percebi que todos ali usavam aquele adereço em seus pulsos. — Você está em uma área perigosa. — Apontou para um alvo mais adiante.

— Este é o brasão de Storm? — indaguei ao segurar seu braço cheio de sardas. Senti um aperto imediato no peito ao me recordar da explicação de Richard quando estávamos a sós naquela gruta de Thron. Tão pouco tempo se passara e tanta coisa havia acontecido desde então.

— Sim. — John tinha o olhar vidrado em mim e rapidamente soltei seu braço.

— É a primeira vez que as vejo lutando — comentei e desviei o olhar para as guerreiras em treinamento.

— É porque não são muitas. Sem contar que as poucas que existem com aptidão para guerrear estão em constante treinamento. — John se encostou em uma pilastra com desenhos de círculos esculpidos no mármore cinza e deixou a perna machucada descansar no ar. — Elas têm que compensar com espetacular habilidade a sua desvantagem.

— Que desvantagem?

Ele elevou as sobrancelhas.

— A força física, Nina.

Ah!

— Com tantos boatos fervilhando por Zyrk, achamos melhor intensificar os exercícios — prosseguiu.

— Que boatos?

— De todo tipo — disse e acenou para um rapaz de uns dois metros de altura que acabava de passar por nós. Ele me fez lembrar outro gigante.

— Tom está melhor? O ferimento foi bem profundo.

— Tom é um touro e já passou por outras piores — ponderou. De repente, ele parou de olhar para as lutas na quadra e me encarou. — Talvez a coragem na hora certa valha mais que toda a força do mundo.

— Hã? — O que ele queria dizer com aquela frase de impacto? — O que você disse?

— Que talvez nenhum de nós estivesse aqui se não fosse por você. Fiquei impressionado com a sua atitude lá no deserto.

— Não teve nada de mais, John — respondi sem graça. — Agi por instinto.

— Teve sim. — John levantou meu rosto com delicadeza. Olhei bem dentro de seus olhos cor de mel e senti um leve arrepio se espalhar por minha pele. John percebeu minha reação e se afastou. — Obrigado pelo que fez por mim e pelo Tom. Mesmo queimando de febre, você foi muito corajosa. Valente mesmo.

— Eu também não estaria viva se não fosse por vocês dois — respondi recuperando o ar.

— Não tenho tanta certeza disso — ele soltou um suspiro cheio de amargura.

— Como não? Se não fosse por vocês dois, eu teria sido capturada e morta por Kevin ou Collin.

— Mas eu não lhe poupei das mãos daquele crápula — murmurou. — Ele é tão vil, que não mediu as consequências de entrar com você em Zyrk à noite!

— Richard?

— Tyron quis que nada acontecesse — arfou. — Para onde ele levou você depois que atravessou o portal?

— Eu não me recordo — menti e John franziu a testa.

Acabava de efetuar minha primeira jogada.

— Não? — havia ansiedade em sua voz. — Até que momento você se lembra, Nina?

— Até...

— Nina? — John insistiu, apertando uma de minhas mãos.

— Até o momento em que o cavalo de Richard atravessou aquele maldito portal.

— Não se lembra de mais nada depois de lá?

— Acho que foi a febre alta. — Meneei a cabeça sem olhar para ele.

Perdido em seu próprio mundo, John deu alguns passos e ficou de costas para mim. Assim permaneceu por um tempo considerável. Não gostei daquela reação.

— Não se recorda de mais nada após sua passagem pelo portal?

— Não — blefei. — Quando acordei estava dentro de uma carroça e sendo trazida para cá — retruquei dissimulada ao vê-lo andar de um lado para o outro. Aquilo começou a me agoniar. — O que está afligindo você, John? Você tem ideia do que aconteceu comigo quando entrei em Zyrk?

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Infelizmente, não. Perdi muito sangue e fiquei desacordado boa parte do tempo.

John falava a verdade? Não podia pressioná-lo porque ele perceberia meu blefe. Uma flecha caiu a alguns metros de nós e uma inquietação vibrou dentro de mim. Ia efetuar minha segunda jogada.

— Eu também quero! — soltei empolgada, os olhos faiscando.

— Quer o quê? — John me fitava sem compreender.

— Aprender a lutar.

— O quê?!

Apontei para as guerreiras:

— Eu quero aprender a usar as armas delas.

Ele esboçou um sorrisinho irônico e depois fechou a cara.

— Impossível! Quer morrer?

— Eu só quero aprender!

— Estas mulheres lutam desde crianças. Quando começaram a aprender, ainda usavam fraldas!

— Elas poderiam me ensinar coisas básicas. Ao menos como utilizar algumas das armas e...

— NÃO! — Ele respirou profundamente. Era a primeira vez que eu o irritara e aquilo me pegou desprevenida. — Elas não podem parar os treinamentos adiantados para ensinar a você o bê-a-bá. Não podem perder tempo, fui claro?

— Mas você pode — insisti. — Por ser homem, você não precisa treinar tanto quanto elas e... já que está em recuperação, podia me ensinar alguns golpes.

— Sinto muito. — Ele girava a cabeça de um lado para o outro.

— Por favor, John?

— Nem pensar. Se realmente quiser, vai ter que pedir autorização a Kaller.

— Kaller? — Meu estômago se revirou. — Deixa pra lá.

— Venha. Está na hora de se recolher.

John pareceu satisfeito com o fim daquela conversa e me acompanhou até meu aposento — eu não conseguiria mesmo encontrá-lo naquele labirinto — e depois sumiu.

Literalmente.