Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 25 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 25

 

— John, o que está acontecendo? — perguntei completamente perdida diante dos inesperados fatos.

Mesmo dentro daquele escuro subterrâneo era possível constatar sua mórbida palidez. Ele deixou seu corpo desanimado escorregar por uma das paredes bolorentas enquanto Tom uivava, pisoteando meia dúzia de ratos idiotas que resolveram passear por ali naquele inoportuno momento.

— Existem alguns dias em que a claridade chega mais tarde ou anoitece mais cedo em Zyrk. Parece que, para nosso azar, hoje é um desses dias — confessou-me John com a voz arrastada.

— Então poderemos ficar escondidos aqui até clarear — tentei disfarçar minha decepção, dando um ar de bravura àquela frase.

— Não é tão simples assim — lamentou-se. — Ainda vai clarear... — Percebendo meu olhar de incompreensão, continuou: — Dizem que é magia negra, sei lá! Só sei que por duas a três vezes no ano acordamos sem o nosso lânguido sol, prisioneiros em nossos reinos até que alguma claridade venha nos libertar.

— Mas...

— Atrasada, mas ela sempre vem — apressou-se em explicar. — Se demorar demais a clarear, não conseguiremos completar nosso percurso ainda de dia. E, se ficarmos escondidos aqui até amanhã, seremos descobertos pelo exército que invadir Windston. Por uma questão de lógica será o primeiro lugar que irão procurar. Não temos saída, percebe? Nossas vidas dependem única e exclusivamente deste caprichoso sol de Zyrk.

— E se Windston não for invadida? — argumentei, observando Tom checar o periscópio a cada meio segundo.

— Tendo você como prêmio? — John me lançou um sorriso irônico. — Nós não acreditamos em milagres, Nina. Nas condições em que estamos a batalha é certa.

Milagres? Foi-se o tempo em que a bobinha aqui também acreditava neles. Quando se perdem todas as pessoas que você ama, quando se é proibida de amar alguém porque o estará condenando à morte, você deixa de acreditar em estúpidos milagres.

Com a cabeça girando a mil por hora, encolhi-me ao lado de John, incapaz de ter um mísero pensamento razoável. Eu sabia que tinha que pensar maior. Pensar não apenas no meu destino, mas no futuro de Zyrk. Deveria lutar para compreender o porquê de ter chegado até ali, mas não era assim que meu raciocínio se processava. Querendo ou não, o fato é que ele me direcionava o tempo todo para Richard. Sabendo da sua terrível fama, doía-me a alma imaginar que, enquanto ele era vil, frio e egoísta, o mundo caminhava aos seus pés, ele era amado e idolatrado. Porém, quando finalmente deixou seu egocentrismo de lado e se deixou levar por um sentimento maior, o pobre coitado se afundou em erros e se condenou ao Vértice. Tudo isso porque deixou de pensar em si mesmo e passou a cuidar de mim, a híbrida amaldiçoada. Todas as loucuras que cometeu e a que estava prestes a realizar, todas elas, sem exceção, para me manter viva. Imaginar que a esta altura ele já podia ter se entregado a Shakur fazia a dor dentro do meu peito ficar intolerável. Eu ia perdê-lo e sabia que era por minha culpa. Não importava mais se ele era rude ou não, de caráter duvidoso ou não. Tudo que eu queria era ele ali do meu lado. Simplesmente ele. Nem que fosse por pouco tempo ou uma última vez. Segurando o choro, afundei meu rosto entre as pernas.

— Não sofra — sussurrou John, afagando meus cabelos. Pobre John. Ele achava que eu estava sofrendo por mim, meu avô ou por todos eles. Em parte era verdade. Em parte. — Max conseguiu arranjar cavalos. Nós vamos conseguir escapar.

Escapar? Max? Como não pensei nisso antes?

— Você mentiu para mim — sibilei num sussurro para que Tom não nos escutasse. A dor é amiga íntima da cólera e, naquele momento, eu tinha raiva de mim, do mundo, de todos.

— O quê?

— Você sempre soube como eu escapei de Thron e fui parar em Storm — rosnei entredentes, encarando-o ferozmente.

— Aonde você quer chegar? — John fechou a cara e um discreto trepidar de suas pupilas confirmou que eu o encurralara.

— Você sabia que Richard havia pago Max para me levar até Storm e se fez de desentendido. Enganou até seu pai. Por quê?

John abaixou a cabeça.

— Responda!

— Nina, eu...

— Está clareando! Teremos que correr! — trovejava Tom, vindo satisfeito em nossa direção. — O que houve? Tudo bem com vocês? — Ele havia notado nossos semblantes modificados, mas deve ter acreditado que era devido à terrível situação em que nos encontrávamos.

— Tudo — respondeu John, levantando-se com urgência. Eu queria imprensá-lo, mas não tínhamos tempo para discussões que não levariam a nada. Principalmente se estivéssemos mortos no dia seguinte. — Os cavalos estão no acampamento de Bert.

Pinceladas de claridade e otimismo surgiram no horizonte, dando vida ao mórbido cinza escuro do céu zirquiniano. Mesmo assim, o dia acordava de má vontade à medida que travávamos nossa insana corrida contra o tempo. O caminho também em nada ajudava. A superfície irregular de Zyrk, lotada de pequenas crateras, fendas e depressões, tornava o percurso ainda mais penoso. Por vezes, diante de um mínimo sinal de cansaço de minhas pernas, um impaciente Tom me jogava nos ombros e me carregava como quem leva uma mochila vazia nas costas. Indiferente para ele.

— Já descansei! Pode me colocar no chão! — berrei irritada após algum tempo daquele nauseante sacolejo e com o sangue de todo o corpo congestionando meu crânio. No momento em que Tom me pôs de volta à superfície percebi uma alteração no seu semblante, uma espécie de tremedeira em sua córnea esquerda.

— O que houve? — especulei.

— Quieta. Siga-me sem olhar para trás — ordenou apressando o passo para alcançar John. — Estamos sendo seguidos.

— Eu já tinha notado. Não queria preocupá-los — John respondeu sem esboçar reação.

— E agora? — retruquei.

— Continue andando o mais rápido que conseguir. A tenda de Bert aparecerá logo após aquela pequena colina.

E assim aconteceu. Chegamos a um amontoado de tendas, como um pequeno mercado de pulgas. Bert era um senhor gordo e de baixa estatura, tinha a cabeleira grisalha e um volumoso bigode preto.

— É a garota?! — Ele me observava vidrado.

— Não temos tempo para conversas, Bert — John o alertava áspero.

— Ah! C-Claro. Que azar! — O homem tropeçava nas palavras ao nos conduzir até os cavalos. — Logo hoje tinha que demorar a amanhecer — resmungou. — Aqui estão. São os melhores que consegui nas atuais circunstâncias. — Ele apontou para dois animais. — O cavalo malhado foi Max quem me arrumou. Acho que pertenceu a um dos seus homens. O pobre animal ainda está muito arredio, sabe?

O tal do Bert gostava de um papinho.

— Max não confirmou, mas eu acho que esse animal sobreviveu a um ataque da besta. Está traumatizado, isso sim — continuava ele.

E de uma fofoca também.

— Tudo bem. Fico com ele. — Impaciente para sair dali, John checava as patas do animal.

— Ou talvez tenha a ver com a morte de Collin. — Bert não conseguia segurar a língua.

— Chega! — John rugiu e o sujeito se encolheu. — Temos pressa, homem!

Nervoso, John tentava liquidar com aquele assunto de qualquer maneira. Tão óbvio, mas só naquele momento eu compreendi o real motivo de suas mentiras: ciúmes. John não queria que eu soubesse que Richard armara a minha fuga de Thron e ficasse com os louros para si. No fundo, desconfiara de algum sentimento que eu já tinha por Richard e não queria que eu o alimentasse, pelo contrário. Teria inventado aquela história sobre ele ser o filho do mal? De início fiquei furiosa, mas logo a seguir fui tomada por pena. Pobre John! Ele também arriscara sua vida por mim, também abdicara do trono de Storm por mim. Ele fez o que fez porque gostava de mim, porque tinha ciúmes de mim.

— Aqui está parte das suas moedas de ouro, conforme combinado. — John entregou-lhe um saquinho de feltro na cor carmim. — O restante chegará após termos certeza de que permanecerá de bico calado.

— Oh! É claro! Mas e se vocês não conseguirem... O tempo está escasso e...

— Você as ganhará de qualquer jeito desde que cumpra com a sua parte.

— Sim... É que... Tudo bem.

— Vamos, John! — interrompeu Tom. O gigante vigiava cada sombra ou movimento ao nosso redor girando tanto o pescoço de um lado para o outro que em pouco tempo acabaria tendo um baita torcicolo.

— Grato, Bert.

— Por nada, John. Sempre é bom fazer negócio com pessoas honestas e...

Muito antes de ouvirmos o término de sua frase, acelerávamos em direção ao nosso destino. Agarrada à cintura de John, via o pobre cavalo malhado ser castigado por incessantes chicotadas. John cavalgava com muita agilidade, seguido por Tom que, em posição estratégica, dava-nos cobertura.

Após algum tempo de percurso, Tom emparelhou ao nosso lado:

— Ainda estamos sendo seguidos!

John não respondeu e parecia procurar a resposta olhando para o céu a cada minuto.

— John? — insistiu Tom ao ver a expressão aflita de John.

— Vamos para a Floresta. — A resposta saiu baixa, mas não precisou ser repetida.

— O quê?! Nunca! Não ponho os pés dentro daquela floresta amaldiçoada! — Tom rugiu ao puxar as rédeas do seu cavalo com violência. O animal relinchou sob o ataque de seus chutes e inclinou-se para trás, apoiando-se apenas nas patas traseiras. Ambos empacaram: cavalo e cavaleiro.

— Não temos outra opção! Não vê? O tempo está contra nós! — John deu uma meia-volta a contragosto e parou diante do amigo.

— Não vou! — bradou Tom de forma desesperada.

— A Floresta ou as feras? Você escolhe! — John revidou de forma hostil e Tom emudeceu. Ele sabia do pânico que Tom alimentava só em imaginar um confronto com as tais feras e aproveitou-se do ponto fraco do companheiro.

— Não sabia que existia uma floresta aqui em Zyrk — interrompi, tentando abrandar o momento de tensão entre os dois.

— Não é bem uma floresta, Nina — John justificou-se, ainda em um nada usual tom áspero. Parecia angustiado com a perda daqueles preciosos minutos.

— Claro que não é uma floresta! É um cemitério amaldiçoado! — retrucou Tom, inconformado.

— Como assim? — perguntei.

— Chama-se Floresta Fria — adiantou-se John. — Dizem os antigos que é uma floresta que tem vida própria e que...

— Mata a todos que nela entram! — berrou Tom, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Não é isto! — John argumentou. — Ela era uma linda floresta antes da nossa maldição: era verde, quente e cheia de vida. Segundo a lenda só o bom sentimento seria capaz de passar por ela, sobreviver a ela e...

— Nós não temos estes sentimentos, John! — rebateu Tom em desespero. — Nina pode até conseguir, mas nós vamos ficar pelo caminho! É suicídio!

— Mas ganharemos tempo! De lá existe um atalho até o portal!

— De que adianta atalhos se estaremos mortos? — Tom contra-atacou.

— Podemos enfrentar as feras, se preferir! Morrermos dilacerados por suas presas me parece bem mais interessante! — John rosnava e, como nunca antes vi acontecer, perdeu a paciência com Tom. Estaria tentando disfarçar o próprio medo?

Visivelmente aborrecido, Tom calou e assentiu. Cavalgamos mais algum tempo em silêncio, sempre seguidos à distância por um pequeno grupo de homens encapuzados, assim como nós estávamos. Travávamos uma corrida particular.

— Eles estão cada vez mais próximos, John.

— Eu sei, mas vai anoitecer e eles terão que se esconder.

— Por que nós também não podemos fazer o mesmo? — indaguei.

— Porque, a esta altura, segmentos dos três exércitos inimigos já estão a sua procura.

— Mas e as feras da noite?

— Eles terão que contar com a sorte — John deu de ombros e fez uma cara feia.

— É uma espécie de roleta russa! — trovejou Tom com a testa lotada de vincos.

— Alguns deles serão devorados por elas? É isto que vocês estão querendo me dizer? — Eu estava atônita.

— Eles já sabem disto. — John não me encarava mais.

— São tão suicidas quanto nós — acrescentou Tom, sarcástico.

— Pela manhã, aqueles que tiverem sobrevivido tentarão nos matar e te capturar. Percebe? Não temos muitas alternativas — concluiu John.

— Então, quando vocês resolveram me ajudar... Vocês já sabiam que iriam...

— Morrer? — suspirou. — Sim. Nós poderemos não estar vivos amanhã, assim como poderíamos morrer em batalha.

— Morrer em batalha é diferente! — bufou o gigante Tom. — Seria bem divertido.

— Você não pode fazer isto, John — refutei inconformada.

— É o melhor no momento.

— Eu quero descer. Pare esse animal — ordenei.

— Não — retrucou John, que, ao contrário, parecia estar acelerando ainda mais.

Ok. Se não quer parar por bem...

Propositalmente, joguei no chão a trouxinha com as broas de milho que a Sra Brit havia me presenteado.

— Pare, John! Minha sacola caiu — gritei, fingindo desespero.

— O quê?! — ele diminuiu o ritmo e parou.

Antes mesmo que ele olhasse para trás eu já havia me jogado do cavalo. Levantei-me da queda e comecei a correr em sentido contrário. Percebi a paralisação imediata do grupo de homens que nos seguia ao longe.

— Nina, volte! O que está acontecendo? — John berrava sobressaltado.

— Vá embora! Não venha atrás de mim — ordenei.

— O que você está fazendo? — ele ladeava-me ainda montado. A expressão de incompreensão estampada nas sardas de seu rosto.

— Estou poupando a sua vida e a de Tom! — rugi.

— Ah! — Ele esboçou um sorriso. — É isso?

— É, John! É isso! — esbravejava enquanto tentava imprimir um ritmo mais veloz em minha corrida. Maldito vestido!

Em um segundo achei que ele havia ficado pensativo e para trás, noutro ele já tinha pulado do cavalo e me alcançado. Ele paralisou minha corrida, segurando meu braço com força. Tentei me desvencilhar, mas minhas pernas não resistiram e, trêmulas, acabaram cedendo ao meu horror. Aos prantos, caí de joelhos naquele chão arenoso e inóspito. John se ajoelhou ao meu lado e me abraçou com vontade, enxugando minhas ininterruptas lágrimas.

— Eu sou a desgraça dos que me rodeiam, não percebe?

— Você não deve pensar assim, Nina.

— A lista dos que matei é enorme. Eu causei a morte de meu pai, de minha mãe, a esta altura já posso ter matado meu avô e...

— E?

— Ainda vou matar milhares de outras e... — tentei consertar o estrago feito pela minha língua enorme.

— E?

Inútil. Ele havia me encurralado. Senti o corpo de John se enrijecer e se afastar do meu.

— Richard — murmurou ele. A sensação que tive foi de que John fez uma força descomunal para pronunciar o nome do adversário. Como se a simples menção daquela palavra pudesse lhe causar um dano físico terrível, uma ferida em sua garganta. — É a morte dele que lhe aflige, não é? — sua voz estava áspera, seu olhar frio.

— Eu não quero que você e Tom morram por minha causa. Eu seria egoísta demais se permitisse que isto acontecesse.

— Mas não é por nós que você está chorando, é? — Suas perguntas estavam afiadas. Ele me espremia.

— Também.

— Também, mas não principalmente. Não é? — ele insistia e me deixava atordoada.

— John, eu... — Ele havia entendido muito bem a razão do meu desespero. — John, eu não queria, eu juro, mas eu... — Então liberei o ar e a dor que estavam aprisionados em meu peito e confessei: — Eu gosto dele. Como nunca gostei de ninguém em toda a minha vida.

Os olhos cor de mel de John ficaram enormes porque suas pupilas se contraíram ao máximo e se tornaram uma estreita linha vertical. Era cristalino o sofrimento em sua face. Sua fisionomia estava mais abatida do que quando saíra das lutas no Saara, ou mesmo do pântano negro. Eu o havia ferido profundamente. Droga! Eu não podia fazer isso com ele. Não com ele.

— Eu não devia ter dito isso, eu...

— Eu já sabia. — Ele tentou disfarçar a decepção que o tomava.

— Sabia?

— Eu percebia que suas expressões se modificavam sempre que alguém comentava sobre ele e tive a certeza ontem à noite. — Sua voz falhou ao olhar para o curativo no próprio braço.

— Sinto muito, John. — Foi tudo que consegui dizer.

— Eu também — murmurou olhando para as próprias mãos. — Sobre o episódio da sua fuga de Thron para Storm, eu... eu queria que você esquecesse Richard, que me admirasse, eu...

— Shhh! — coloquei um dedo em seus lábios trêmulos. — Eu entendo.

Para minha surpresa e pouco se importando com a presença de Tom, ele começou a secar as lágrimas do meu rosto enchendo-o de afagos e beijos delicados. Uma sensação quente e prazerosa tornou a me invadir.

Como assim? Por que não senti os terríveis calafrios? Será que eu não era mais susceptível a eles quando havia real afeto envolvido?

— Tudo tem seu tempo. As nossas verdades nem sempre são definitivas, Nina. E isto vale também para os nossos sentimentos — disse ele com firmeza, puxando-me pelos braços e me abraçando por um instante. — Vamos! Está anoitecendo. Até nossos companheiros já se dispersaram — comentou agitado ao constatar que o grupo de possíveis saqueadores que nos seguia havia desaparecido.

Espertos foram eles.