Não Olhe!
Capítulo 20
Disfarçados pelas capas e cavalgando aceleradamente pelas áridas planícies de Zyrk, já era quase noite quando chegamos a Windston, um clã completamente diferente de Storm. Não estava situado dentro de um vulcão e nem era rodeado por um belo e estratégico lago. Como um forte militar em meio a um deserto quase lunar, seus altíssimos muros eram formados por grandes blocos de pedras que, dispostos uns sobre os outros, ocultavam-no completamente. As pedras estavam talhadas de uma maneira ameaçadora: exibiam vértices afiados voltados para fora, como se milhares de pontas advertissem os que se atrevessem a se aproximar.
— Você confia nela? Tem certeza de que não é uma armadilha? — indagava Tom a cada segundo à medida que nos aproximávamos da enorme muralha. Minhas recordações não lhe faziam jus. Ele parecia maior e mais forte do que na última vez em que o havia visto. E mais gente boa também.
— A Sra. Brit me assegurou que Zymir estaria nos esperando na ala oeste e deve ser verdade porque não vejo qualquer movimento dos arqueiros no passadiço — respondeu John.
— Não sei não — Tom ruminava em voz alta, conseguindo sobrepujar os uivos do vento cortante do deserto. — Logo vai anoitecer e estaremos ferrados.
— Olhem! — apontei para um discreto movimento no gigantesco portão de entrada. Todo constituído por rochas, ele foi se abrindo de um jeito intricado e lento. Sem uniformidade, as pedras começaram a se afastar umas das outras em sentido lateral e criaram uma discreta fenda, suficiente apenas para que permitisse a nossa passagem. Um soldado surgiu por ela e fez sinal para que nos aproximássemos.
— Proteja-a. Eu vou à frente — ordenou John após um momento de hesitação. Tom piscou assentindo.
— Rápido! — comandava o soldado. — Temos pouco tempo.
— Onde está Zymir? Onde estão todos os soldados? Como saberei se não é uma cilada? — John rebateu desconfiado.
— Zymir não poderia vir até aqui porque chamaria a atenção. O conselho de Windston não permitiu a entrada dela.
— Não estou gostando disso — resmungou Tom.
— Olheiros de confiança avisaram Zymir sobre a aproximação de vocês. Deu tempo para que ele ordenasse a presença dos guardas desta ala em outro serviço, mas logo eles retornarão às suas posições. Por isso, teremos que ser rápidos. Venham!
Apreensivos, John e Tom se entreolharam.
— Eu vou pagar para ver — respondi decidida, desvencilhando-me das enormes mãos de Tom.
— Ela tem razão — John esboçou um sorriso e assentiu, vindo logo atrás de mim. Tom praguejou alguma coisa, mas também nos seguiu.
— Cubram seus brasões e mantenham sua marcha no centro do corredor. Não caminhem nas margens — advertiu o homem para Tom e John. — Por aqui.
Ao entrar, novo choque: um túnel escuro nos conduziria a outra área. Gritos de advertência, gemidos e ameaças nos atingiam enquanto nós o atravessávamos. John caminhava ao meu lado, rígido.
— O que está havendo? — sussurrei ao perceber seu desconforto.
— Logo você verá — respondeu seco.
— Continuo não gostando — reclamava Tom, logo atrás de nós.
Diferentemente do que aconteceu em Storm ou do que me recordava de Thron, em Windston eu pude identificar com detalhes o terror que rodeava a periferia de cada clã. Quando fizemos uma curva, vi o corredor de pedras ter ambas as suas paredes substituídas por grades de ferro e senti meu estômago revirar com a deprimente visão do que nos margeava: uma multidão de mendigos se amontoava por um terreno arenoso e mórbido. Até onde consegui enxergar, não havia casas, mas sim grutas que se destacavam dos amontoados de rochas. Sem vida ou cor ao redor, um véu de areia cobria toda a paisagem destruída, como se tivesse sido abandonada havia séculos e sofrido a implacável erosão do tempo. Como prisioneiros, os maltrapilhos seres catapultavam suas mãos imundas pelas grades no intuito de nos alcançar. Suas fisionomias sombrias e adoentadas me fizeram vacilar. John me puxou para perto dele ao perceber meu estado catatônico.
— Não se aproxime demais — ordenou entredentes. — E evite olhar para eles.
— Aqui eles ficam presos?
— Cada reino faz o que acha melhor com as suas sombras.
— De onde vêm esses encapuzados? — berrou um homem com o rosto sujo e com os lábios tomados por feridas.
— Pelo andar, não parecem ser de Thron — respondeu outra voz em meio à multidão de mendigos.
— É uma garota ou uma criança entre eles? — questionou outra voz.
— É a híbrida. — De início parecia só um sussurro, mas então a voz bem idosa começou a berrar e repetir sem parar: — É a híbrida! — Eu me virei e me deparei com acusatórios olhos opacos. — Sintam essa forte vibração no ar! É claro que é ela! — gritava um senhor cego.
— Eu avisei que o fim dos tempos estava próximo! — choramingou uma mulher morena mais à frente.
— Temos que matá-la! — retrucaram vozes em meio a urros e ganidos que vinham de ambos os lados. — Ela tem que morrer!
— Não dê ouvido a eles. — John acelerou o passo.
— O que você veio fazer aqui, sua amaldiçoada? Veio arruinar a nossa dimensão de uma vez por todas? — questionou uma senhora bem idosa, encarando-me com olhar demoníaco.
Amaldiçoada. Aquela palavra queimava-me por dentro.
— Pragas! Calem a boca! — esbravejou Tom ao perceber a alteração do meu estado.
— O que você vai fazer, grandão? — enfrentou a velha em uma gargalhada falsa.
— Eu vou arrancar sua língua e...
— Pare, Tom! — comandou John. — Eles querem instigá-lo para que se aproxime. Não está vendo que está caindo no jogo deles?
— Vermes malditos! — rosnou o gigante.
— Deixa pra lá, amigo — concluiu John. — Venha, Nina.
Caminhamos mais algum tempo até deixarmos aquele terrível lugar para trás. O túnel escuro terminava em uma curva acentuada que se abria para um pátio. A súbita claridade era tanta que fechei os olhos para amenizar a dor momentânea. Quando tornei a abri-los, fiquei chocada. Na verdade, maravilhada. Windston não era sombria como Thron, muito menos luxuosa e imponente como Storm. Era muito verde, simples e fascinante. Possuía árvores adequadamente arrumadas em uma grama tão perfeita que parecia um tapete sob os nossos pés. Havia muitas flores espalhadas por todos os cantos, e, se não fosse pelo céu acinzentado, a linda paisagem seria comparável à de uma cidade encantada dentro de um conto de fadas. O castelo tinha proporções bem menores que o de Kaller, e, assim como o lugar, era desprovido de qualquer luxo. Construído das mesmas pedras de sua muralha, o único destaque ficava por conta das altas e estreitas janelas que, fazendo papéis de vitrais, tinham suas vidraças preenchidas por pinturas coloridas. Uma escadaria de pedras conduzia até o portão principal feito de toras de madeiras sobrepostas umas sobre as outras e amarradas entre si. Dois soldados ao pé da escada nos aguardavam com suas armas em punho. Vi Tom estremecer ao meu lado.
— Zymir é um homem de palavra e estes soldados são da sua confiança. Eles estão aqui para proteger vocês — tranquilizou o homem que nos guiava. Ele era forte, de traços bem feitos e aparentava ter mais de quarenta anos. — Mas vocês dois terão de ficar escondidos aqui enquanto eu a conduzo até ele — explicou.
— Negativo — retrucou John com os dentes trincados. — Nós iremos também.
— Entrar somente com ela já será uma tarefa perigosa, rapaz. Não temos como disfarçar a entrada de vocês dois também — lançou um sorriso meio sarcástico ao olhar para o gigante Tom. — Lembrem-se de que vocês não são bem-vindos aqui e serão executados caso sejam capturados.
— Eu vou — rebati determinada ao perceber a gravidade da situação.
— Mas, Nina, eles...
— Já poderiam ter nos matado há muito tempo — adiantei-me agitada. — Estamos perdendo tempo nessa discussão. Deixe-me ver o que esse Zymir tem a nos oferecer.
John ponderou e acabou assentindo com uma piscadela.
— Troque sua capa por essa daqui — disse o soldado estendendo-me uma capa cinza escuro. — Siga-me.
Contornamos a entrada principal e entramos por uma porta lateral do castelo que dava para uma pequena antessala.
— Fique de cabeça baixa todo o tempo e não fale com ninguém — sussurrou ele. — A capa que está vestindo é a utilizada por nossas serviçais e espero que ajude a disfarçá-la. Venha.
Cruzamos rapidamente o salão principal, e, pelo canto do olho, não vi nada reluzir. Ele tinha seu piso feito de tábuas escuras e compridos bancos de madeira ficavam dispostos ao redor das paredes, abaixo dos belos vitrais. Toda a parte central desocupada dava a sensação de amplitude ao lugar e destacava o trono no pequeno altar. Ele também era esculpido em madeira e exibia discretos frisos dourados em seu encosto e braços.
— Coloque isto nos olhos — ordenou, lançando-me um pedaço de pano preto.
— Uma venda?!
— A ordem é para que você não grave o caminho.
— Não! — O horror se desenhou como um filme. Lembrei-me instantaneamente daqueles rapazes no navio.
— Não vou te causar mal algum, garota — explicou calmamente. Respirei fundo e assenti. Pagaria para ver o que o destino me reservava desta vez e, por conta própria, coloquei a faixa. — Rápido! — Ele me puxou pelo braço, conduzindo-me por uma série de corredores desnivelados. Já estava enjoando com aquele sobe e desce incessante quando finalmente paramos. — Aguarde aqui — ordenou e ouvi o ruído surdo de batidas ritmadas de metal em madeira, talvez um tipo de senha de acesso. Distingui o barulho de uma porta rangendo, cochichos, e, logo a seguir, outros sons de portas distantes sendo abertas e fechadas.
— Entre, moça — disse a voz gentil de uma senhora. — Já pode tirar a venda.
Com alívio, removi aquela claustrofóbica faixa e meus olhos doeram com a claridade do local. O aposento era de um branco etéreo, calmo e lindo. Lençóis, móveis, paredes, tudo branco. Apenas algumas flores amarelas espalhadas em vasos de cristal davam alegria ao ambiente.
— Olá, Nina. Sinto muito pelas más notícias — introduziu-se um senhor bem idoso, de baixa estatura e pele enrugada. Sua voz angulosa não era compatível com a frágil aparência. — Eu tentei, mas o conselho não permitiu a sua presença em Windston.
— Zymir? — perguntei e ele confirmou com a cabeça.
— Tinha que fazer isto pelo seu avô, por nossa velha amizade — suspirou. — Deixarei que o veja, mas prometa-me que não tocará nele. — Ele não parecia confortável com a situação. — Compreenda que estou arriscando a minha vida. Posso ser banido para o Vértice se descobrirem o que estou permitindo que aconteça aqui e agora. — E, olhando o soldado e a camareira, acrescentou com um discreto sorriso: — Tenho a felicidade de ter pessoas de minha total confiança. Terminada a visita, deverá recolocar a venda e se retirar. Estamos de acordo?
— De acordo — balbuciei.
— Wangor acharia lindo. — De repente suas feições ficaram leves. — Ele sempre gostou do amarelo — confidenciou-me com ar nostálgico, apontando para o novo vestido amarelo que a Sra. Brit me arrumou.
Dava para notar que Zymir tinha um profundo carinho por Wangor. Falava dele com respeito, e, mesmo agora, na sua inconsciência, ele mantinha uma postura de obediência e admiração.
— Pode vê-lo mais de perto — disse e virou o rosto em direção à cama.
Assenti e, muito lentamente, fui caminhando em direção ao leito à minha frente. De início, estava mais curiosa do que comovida, mas, ao avistar o rosto adormecido do líder, congelei. Minha herança genética era óbvia demais. Eu era parecidíssima com ele! O mesmo formato de face, o mesmo nariz e boca.
— Ele também possuía os seus volumosos cabelos castanho-claros, mas, como pode ver — Zymir apontou para a cabeça prateada do líder —, o tempo se encarregou de desbotá-los. — Seus olhos também são muito parecidos com os de Wangor, com exceção deste risco amarelo em sua pupila — acrescentou Zymir, assim que me viu comparando nossas mãos.
Senti minhas pernas começarem a tremer e fraquejei, caindo de joelhos ao lado da cama. Quebrei a promessa de não mais chorar. Um dilúvio de lágrimas rolava descontroladamente pelos meus maxilares. Lacunas em branco de um triste filme eram preenchidas em minha mente e coração destroçados: o filme da minha vida. Eu tinha uma história. Não era apenas o apêndice de um livro em branco. Eu não era filha apenas de uma mulher. Eu tive um pai e um avô. E o sangue deles corria em minhas veias. Ali, bem naquele momento. E para sempre.
Num ato impensado, agarrei-me ao corpo desacordado de Wangor, abraçando-o com todas as minhas forças. Meu tremor sacudia seu corpo inanimado, minhas lágrimas encharcavam seu rosto pálido e sem vida. Zymir deve ter ficado paralisado sob o choque daquela cena inimaginável, pois não veio em minha direção. Não apartou Wangor de meu desespero desenfreado. Acho que se compadeceu por alguns segundos.
— Basta! Solte-o, minha filha. Não complique as coisas para o seu lado — ele me advertia em estado conturbado.
Imprudentemente comecei a beijar a testa de Wangor e a implorar coisas impossíveis. Minhas lágrimas escorrendo por suas rugas e abrindo caminho pelos cabelos brancos.
— Acorde, por favor! Fale comigo, vovô. Sou eu, Nina! — minha voz saía entrecortada em meio aos soluços.
— Solte-o! — As trêmulas mãos de Zymir tentavam me puxar, completamente transtornadas com a situação.
— Não! — gritei, desvencilhando-me de Zymir e voltando a abraçar Wangor. — Acorde, vovô. Por favor! — Eu insistia, chorando e sacudindo seu corpo adormecido.
— Pare! — berrou Zymir, mas eu não conseguia obedecê-lo. A dor que invadia minha alma não admitia que aquele contato seria tudo o que eu levaria dele. Tudo que poderia ter de meu avô. De meu único parente vivo. — SOLTE-O! — tornou a rugir e, sem mais forças para resistir, liberei meu avô de meu abraço desesperado.
—Eu... — Senti meu corpo pesar e afundar, como se tivessem enfiado dez toneladas de chumbo na minha boca.
— Você vai sair daqui agora! — rosnou Zymir, recolocando a venda de forma agressiva e me dirigindo de volta aos corredores do grande palácio. Sua respiração ofegante denunciava seu estado de tensão. — Vocês, humanos, não têm palavra! São todos traiçoeiros! Sairá de Windston e de nossas vidas para sempre! — sussurrou com raiva.
— Eu... eu sinto muito, Zymir. Eu não fiz por mal. — Minhas lágrimas umedeciam a faixa que me cegava.
— Fez sim! Que idiota eu fui! — ruminava.
Um grito.
— Teresa? O que houve? — Zymir interrompeu suas passadas aceleradas e soltou um berro aflito, mas não obteve resposta.
— Wangor! Céus! Volte, Zymir! — A voz assustada da camareira ecoava pelo corredor.
— Por Tyron! O que aconteceu? — foi a resposta apavorada de Zymir.
Não tendo onde me largar e comigo atrelada a ele, Zymir pôs-se a correr o mais rápido que pôde de volta ao quarto de Wangor. Era lento, em virtude de sua idade adiantada, permitindo-me acompanhá-lo com facilidade, mesmo nas minhas desfavoráveis condições. O que teria acontecido com Wangor? Oh, não! Será que eu o havia matado?
Meu peito angustiado comprimia-se como uma mola, mas estava prestes a expandir-se de júbilo. Entramos no grande quarto. Frases alegres ecoavam no ar misturadas aos sons de orações indecifráveis. Retiraram a minha venda. Agora não foi a claridade que me cegou, mas uma visão: Wangor estava sentado, recostado sob a cabeceira da cama branca. Ainda abatido, olhou primeiramente para seu companheiro de longa data e fez um aceno com a cabeça que foi imediatamente correspondido pelo amigo, só que num aturdido movimento de reverência. Depois se virou para mim, encarando-me de forma séria antes de abrir um sorriso. Fez um movimento com as mãos, pedindo para que eu me aproximasse.
— Nina? — perguntou o líder com os olhos vidrados.
— Sim — respondi emocionada enquanto caminhava em sua direção.
Antes mesmo que eu acabasse de me aproximar, ele já havia me puxado e me apertava contra seu peito. Emocionado, beijava-me a testa sem parar.
— Minha Nina! — Seu peito arfava e seus suspiros eram entrecortados pela respiração trepidante. — Tyron me perdoou, Zymir! Dale me perdoou, meu amigo!
Os olhos arregalados de Zymir confirmavam que ele estava em estado de choque.
— Vovô... — Meus olhos encharcaram no mesmo instante, minha garganta se fechou e perdi a voz. Não dava mais para segurar o sentimento que me devorava por dentro. Minha agonia se dissolveu em soluços, um choro de alívio. Minhas lágrimas transbordavam felicidade, esperança.
— Minha neta! Minha neta! — Wangor se afastava de mim para me observar melhor e tornava a me abraçar.
— Vovô eu...
— Psssiu! — Wangor me interrompeu para dar vazão ao seu compulsivo pranto sem lágrimas. Zirquinianos não conseguiriam chorar por emoção. Mas o meu choro era de pura felicidade e valia por nós dois. Sem dizer uma só palavra, ficamos muito tempo ali, de mãos dadas e olhando extasiados um para o outro. Por fim, ele se ergueu com certa dificuldade e deu voz de comando. — Zymir?
— Sim, meu senhor? — perguntou um rouco Zymir.
Estaria ele também emocionado?
— Hoje é o dia mais feliz da minha vida, amigo! Ordene que preparem os salões como nunca antes em Windston! Amanhã presenciaremos a maior festa que este reino já teve em sua história.
— Mas, Wangor, não podemos perder tempo com festas! — A voz de Zymir saía trêmula. — Temos que traçar planos! Eu a trouxe aqui sem a autorização do nosso conselho e...
— Você fez isso? — Wangor estava surpreso. — O que seria de mim sem você, Zymir? O que seria de Windston sem você? — soltou um longo suspiro. — Obrigado, amigo.
— Não há nada para me agradecer, meu senhor, é que... — A fisionomia de Zymir permanecia aflita.
— O que está lhe preocupando, meu caro?
— Toda Zyrk já deve saber que a híbrida, quero dizer... que ela está aqui! Corremos enorme risco!
— Acalme-se, Zymir. Eu sempre soube que quando a tivesse em meus braços seria uma época muito tensa para Windston, para Zyrk. Sei dos riscos que corremos e é exatamente por isso que temos que comemorar!
— Mas, Wangor, você precisa descansar! Recuperar suas forças!
— Já descansei demais, homem! Eu estou ótimo! Nunca me senti melhor!
— O tempo está se esgotando, Majestade! Tenho muito que lhe falar. Amanhã poderá ser tarde demais — disse lançando um olhar grave para o líder.
— Só Tyron sabe como será o nosso amanhã! — Wangor o interrompeu. — Por hora, esta é a minha ordem. Quero a maior de todas as festas! Vá, Zymir!
— Perfeitamente, senhor — Zymir recuou. Ele estava contrariado. Wangor percebeu.
— Depois conversaremos, meu caro. Com certeza, temos muitos assuntos para colocar em dia — o líder tentava argumentar. Em vão. Inconformado e sem olhar para nós, Zymir balançou a cabeça e se retirou.
Wangor segurou uma de minhas mãos, e, agitado, despejou-me uma avalanche de perguntas:
— Você está bem? Não te machucaram?
— Não, graças a John.
— John?
— Sim. John, o principal resgatador de Storm.
— O filho de Kaller? — indagou surpreso.
— Sim, Wangor.
— Por favor, gostaria que você continuasse a me chamar de vovô. Não me negue tamanha felicidade, está bem?
Eu assenti com a cabeça e enrubesci, num jorro de constrangimento e comoção.
— Eu não estou compreendendo... Não foi nenhum dos nossos que a trouxe para cá? — Wangor parecia confuso.
— Não. Eu fui levada para Storm, onde fiquei por alguns dias. John me ajudou a fugir de lá.
Por alguma razão, não fiquei à vontade em comentar sobre ter estado em Thron.
— Fugir?!
Identifiquei discreta contração em suas pupilas. Tentei acalmá-lo:
— Está tudo bem. Correu tudo bem — esclareci.
— O que houve? Por que você fugiu?
— Porque Kaller queria... Ele ia...
Wangor segurou meus ombros com força e olhou bem dentro dos meus olhos. Suas pupilas se estreitaram de imediato.
— Oh, não! — bramiu inconformado e senti o tremor em suas mãos. — Ele quis te possuir, não é?
Eu assenti com a cabeça.
— Desgraçado!
— Mas eu estou bem. Graças a John, nada aconteceu.
— Como chegaram até aqui?
— Pelo pântano.
— Que loucura vocês cometeram! — rugiu. — Nada aconteceu com vocês? Nem uma queimadura? — questionou, conferindo meu corpo da cabeça aos pés.
Só uma centena delas. Mas a resposta foi trancafiada pelos meus lábios. A Sra. Brit havia me pedido para não comentar sobre o ocorrido e muito menos que estivera em sua casa.
— Nina? — insistiu Wangor.
— Não. Nenhuma queimadura — menti e ele soltou um suspiro aliviado.
— Estou em dívida com este rapaz. Uma dívida de valor inestimável.