Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 19 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 19

 

— Onde ele está? — Mal reconheci a voz que saiu da minha boca. Ela estava fragmentada e não correspondia à intensidade real da minha angústia.

— Finalmente! — soltou exultante a Sra. Brit. — Vou preparar um leite morno com...

— Onde ele está? — insisti, vasculhando cada canto do quarto.

— Quem, meu amorzinho? — perguntou-me a Sra. Brit com falso jeito displicente.

— Vocês sabem! Onde está Richard? — consegui ser mais incisiva.

— Ele... bem...

— O que está havendo?! — guinchei e olhei para o meu corpo sobre a cama. — Quanto tempo fiquei aqui?

— Cinco dias. Acalme-se, meu bem. — A voz esganiçada da bondosa bruxa era a confirmação de algo errado. —Você não pode se agitar. Ainda está fraca.

— Eu não vou ficar aqui e... — Comecei a me levantar da cama com dificuldade.

— Não, minha filha, você não pode.

— Deixe-a, Brita — ordenou Guimlel.

— O que houve com ele?! — exigi. — Digam-me! — Minha voz falhou, meu peito doía e meus olhos começaram a arder. A Sra. Brit fungou e saiu para buscar o copo de leite. Seu intuito era claramente outro: disfarçar seu semblante de comoção.

Guimlel roçou a garganta e se aproximou de mim.

— Não deveria ser agora — ele arfou. — Não com você nestas condições, híbrida. Mas já que insiste e como sei que não desistirá enquanto não obtiver uma resposta plausível, vou direto ao X da questão.

A dor no meu peito se alastrava pelos meus membros. Tudo formigava.

— Ele fez alguma besteira? É isto que estão escondendo de mim? Richard está morto?

— Quase.

— Quase o quê? — gritei. Lá na cozinha ouvi o som de vidro quebrando e a Sra. Brit praguejando.

— Ele quase morreu... — inspirou profundamente. — De culpa. E sofrimento.

Senti um soco na boca do estômago e perdi a voz.

— Não consegue juntar as peças, híbrida? — Guimlel me fitava com seu olhar felino. — Onde e como você estava da última vez que o viu? — Aquela pergunta ácida me remeteu direto a um dos momentos mais sublimes da minha vida. — Não se recorda? — O mago segurou a minha mão esquerda entre as dele e me encarou com o olhar duro e cheio de repreensão. — A regra imutável, minha jovem: não pode haver qualquer contato maior entre as nossas espécies! Você e Richard sabiam disto e não deram atenção.

— Nós... — Eu não consegui ir adiante.

— Vocês infringiram as regras! E por um milagre não foram seriamente punidos! — rugiu.

— Nós não chegamos a infringi-las — argumentei sem coragem de encará-lo.

— E já foi o suficiente para quase matar os dois! — rebateu feroz.

— Mas a lenda diz...

— Eu sei muito bem o que a lenda preconiza, garota! — Passou a mão pela careca que agora já não estava tão lustrosa quanto antes. — Ninguém pode garantir se o que a lenda diz é a pura verdade. Ficou claro para todos nós que... — arfou e confessou de forma enfática: — Richard não é o escolhido. Se existe um zirquiniano que vai verdadeiramente lhe amar, este homem não é Rick, Nina.

— Não é verdade — rebati infeliz.

— Ele pode até achar que possui um forte sentimento por você, mas não passa nem de longe daquilo que você imagina ser. Não é amor o que ele nutre por você, híbrida. Se fosse, nada desta quase tragédia teria acontecido. Será que ainda não compreendeu? O fato de você sentir algo forte por ele não significa que ele também nutra o mesmo por você. Ele não é o eleito! É inegável o que aconteceu: sua energia vital foi quase aniquilada pela força dele.

— Mas nós...

— Não existe nenhum “mas” ou “nós” diante das evidências! Além do mais — Guimlel se levantou com sofreguidão —, se tiver um mínimo de piedade para com Richard, você se afastará dele. Acho que ele já sofreu o bastante por toda uma existência. O flagelo que ele se impôs por pensar ter sido o causador da sua morte foi mais do que penoso, foi devastador.

— Eu...

— Richard vem se afundando em erros por sua causa, híbrida! Erros cada vez mais graves... Está trilhando um caminho sem volta — suspirou infeliz. — Não consegue enxergar que a existência dele entrou em desgraça por sua causa? — tentando controlar o tremor em suas pupilas, inspirou profundamente. — Por favor, se você realmente tem alguma estima por Richard, afaste-se dele.

— Eu não vou me afastar dele, eu não...

— Você quer vê-lo morto? É o que deseja? Ótimo! Então vá em frente, garota! — rosnou e eu me encolhi. — É tão cega que não consegue perceber que se tornou a fraqueza dele? Por sua causa, ele ficou vulnerável, raios! Por sua causa, o melhor guerreiro de Zyrk agora tem um ponto fraco e seus adversários não custarão a se aproveitar disso!

“Eu era a fraqueza dele. Seu ponto fraco.” Senti um nó se formar na boca do meu estômago e a sensação de culpa pairar no ar. Eu quase podia tocá-la.

— Não deveria, mas vou lhe dar uma informação que poucos têm conhecimento, para que você raciocine melhor e reavalie sua postura. — Guimlel andava de um lado para o outro, alisando a barba sem parar. — Rogo para que você perceba a grande estupidez que está cometendo, que deixe de lado esse seu egoísmo humano infantil e que compreenda a forte razão para se afastar definitivamente de Richard.

Ao ouvir aquelas palavras do mago, meu corpo inteiro se enrijeceu, minha nuca arrepiou e minha visão ameaçou turvar. Já conhecia aquele tipo de reação e fui tomada por um pressentimento ruim.

— Você tem que me prometer que não contará isso a ninguém, pois colocaria a vida de Rick em grande perigo. De acordo? — perguntou e eu assenti sem vontade. Uma voz interior afirmava que eu não ficaria feliz com o que estava prestes a tomar conhecimento. Guimlel puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado: — Zyrk não pode perdê-lo. Nossa dimensão precisa de Richard porque o descendente dele é o predestinado — confessou cabisbaixo e eu me vi mais perdida do que nunca. — Segundo o livro sagrado, o filho dele será o melhor da nossa linhagem. Aquele que nos livrará das feras que nos aprisionam, demônios que assombram a nossa dimensão há milênios, garota.

— Eu não estou entendendo nada, eu...

— Shhh! — disse acelerado ao escutar alguns passos. — Não posso te dizer mais nada. Peço apenas que acredite no que estou lhe afirmando: vocês não têm um futuro juntos e, caso insistam nessa loucura, estará condenando Zyrk porque Richard acabará morto. Não haverá descendente, não haverá liberdade. Seremos prisioneiros do medo para sempre.

— Eu não entendo... — rebati sentindo um peso terrível em minha alma. — A lenda fala sobre o amor e...

— Amor? Lenda? — ele balançava a cabeça, agitado. — A lenda pode até ser verdadeira para você, não duvido. Mas está claro para quem quiser enxergar que tal lenda não se referia a Richard, garota. O seu futuro ainda não foi determinado, mas o de Rick, sim. Por mais que você não consiga aceitar os fatos, o tempo vai lhe mostrar que estou falando a verdade e que o futuro dele não é ao seu lado. O destino de Richard está traçado no livro sagrado desde o dia do seu nascimento.

O nó no peito se apertou e se transformou em uma dor aguda, dilacerante. A tristeza em saber que eu estava arruinando o futuro glorioso de Richard era opressora, mas ter ciência de que toda aquela dimensão precisava dele para se libertar e que meu amor cego estava colocando em risco não apenas a sua vida como a de milhares de pessoas era terrível e definitivo. Arrasada diante dos fatos, não tinha como contestar e me restava apenas aceitar o que não quis dar ouvidos, mas que sempre pressenti que fosse a cruel verdade: nunca haveria um futuro para nós, não juntos. E, se eu realmente o amava, deveria abrir mão dele para que sobrevivesse e cumprisse sua digna missão. Senti minha garganta se fechando e uma lágrima quis rolar por minha bochecha, mas levei as mãos ao rosto, encobrindo-a rapidamente.

— Posso contar com você? — perguntou com o semblante preocupado à medida que caminhava até a porta. Eu assenti e meu coração se contraiu, ficando menor que um grão de mostarda. — Ótimo! — disse ele que, após aguardar alguns segundos, abriu a porta. — Pode entrar, filho

Meu coração tornou a se expandir, pulsando freneticamente e ameaçando rasgar meu peito. Quando dei por mim, não sabia se ficava feliz ou arrasada. Saindo por detrás da Sra. Brit, o rapaz que lentamente cruzava a sala em minha direção pouco se assemelhava ao meu guerreiro de outrora. Não que eu estivesse em condições melhores, mas Richard estava... destruído! Visivelmente mais magro, estampava profundas olheiras, cabelos oleosos e barba por fazer. A figura do abatimento, da dor, do sofrimento máximo. O que eu havia feito a ele? Onde estava o meu Richard de uma semana atrás? Eu havia sido muito mais letal a ele do que ele a mim e aquela descoberta me estraçalhou por dentro. Guimlel tinha razão: eu era a fraqueza dele e, se eu tivesse piedade, se eu não fosse egoísta ao extremo, tinha de me afastar.

Estudando cada movimento como um felino, ele se aproximou de mim. Mesmo lutando contra, fiquei hipnotizada pelo brilho dos magnéticos olhos azuis-turquesa mais perfeitos e fulminantes com os quais havia me deparado em toda a minha vida. Sem falar nada, Richard parou ao meu lado e, após titubear por um momento, passou as pontas dos dedos na palma da minha mão esquerda, exatamente como havia feito quando me resgatara do deserto do Saara. Eu tremi e cedi ao calafrio maravilhoso que seu toque desencadeava em cada uma das minhas células. Então, uma voz berrou em meu crânio, alertando-me da promessa que havia feito. Instintivamente fechei a mão e retirei o braço do seu alcance. Seus olhos arregalaram e seu queixo tombou mais rápido que a sua mão sobre o colchão da cama. Ele estava sem reação e aquilo fez meu coração ficar em brasas. Lutando contra o desejo enlouquecedor de me aninhar em seu peito e abarrotá-lo de beijos, desviei a cabeça e respirei profundamente.

— Está se sentindo bem? — Sua voz rouca abafou todos os ruídos, todas as advertências que massacravam minha consciência. Melodia. Ela era a sinfonia perfeita para os meus ouvidos. A música da minha alma. — Nina? — Seu semblante era de alguém em máxima aflição. Tive pena.

Olhei para Guimlel e para a Sra. Brit. Enquanto ela coçava os olhos vermelhos, o mago me observava com a fisionomia tensa. Tornei a encarar minhas mãos e apenas confirmei com um lento balançar de cabeça. Havia tanto o que dizer... Mas as frases eram vetadas, pela promessa que fiz, antes mesmo de serem formuladas.

— Bom. — O timbre de sua voz começou a se modificar. Ele estava entrando na defensiva, incorporando seu habitual padrão rude. — Vejo que foi bem tratada — constatou olhando lentamente por cima do ombro para a plateia que nos assistia em absoluto silêncio. — Está precisando de alguma coisa? — Sua respiração estava difícil, vacilante. Eu sufoquei a Nina que havia dentro de mim e me mantive em silêncio e com o olhar distante. — Algo que queira daqui ou da sua dimensão? Eu posso ir buscar, eu...

Não aguentei vê-lo quase implorar por uma resposta, por uma mínima reação minha que lhe desse esperanças. Não podia fazer aquilo com ele. Eu ia falar com ele, contar a verdade, dizer que eu também estava sofrendo e que não me importava com o que havia acontecido comigo. Precisava tranquilizá-lo, afirmar que o amava acima de tudo e que o desejava ainda mais do que antes.

— Rick, eu não, nós não...

Um roçar de garganta de Guimlel. A camuflada advertência que me fez congelar e trouxe minha severa consciência pelas mãos. Não! Você não pode, Nina. Lembre-se de sua promessa, droga! Você quer matá-lo?

— E-eu não preciso de nada — gaguejei. — Obrigada.

Seus olhos se fixaram em mim por mais um breve momento e então, como mágica, perderam o brilho e se apagaram.

— Que bom. — Com a testa lotada de vincos, ele pairou o olhar sombrio em Guimlel e, após tragar o ar com dificuldade, esfregou o rosto com as mãos. Levei um choque ao visualizar novas e profundas cicatrizes nelas. Cristo! O que havia acontecido com ele? — Dei sorte — murmurou. — Tyron livrou minha cara mais uma vez.

Hã?

— Ainda bem que sobreviveu, híbrida — acrescentou secamente. Híbrida?— Eu seria um homem morto se a tivesse matado. — Abriu um sorriso frio em sua face ilegível. Aquelas afirmações me fizeram perder o fio da meada e nublar meu raciocínio. — Agora posso me mandar.

Não podia ser! Ele estava mentindo. É claro que estava... Ou não? A dualidade de sua personalidade e o gênio instável de Richard apunhalaram minhas certezas e me vi perdida. Um ciclone de terríveis hipóteses rodopiava dentro de minha cabeça em frangalhos. Então ele não... Ele não estava sofrendo por mim, mas sim porque tinha medo de alguma punição?

— Para onde você vai, filho? — questionou a Sra. Brit ao vê-lo se retirar. Com ar debochado, Richard levantou uma sobrancelha e deu de ombros. — Ah, não! Você não pode fazer isso! — Havia desespero em sua reclamação. — Shakur vai te matar! — A Sra. Brit soltou um berro.

— Acho que não. Ele ainda precisa de mim e tenho negócios que lhe interessam.

— Shakur é louco! Ninguém sabe o que se passa em sua cabeça doentia, Rick!

— Talvez eu saiba — ele respondeu petulante e me olhou de um jeito que me fez arrepiar.

— O que você quer dizer com isso? Você não está pretendendo... — A mulher levou a mão à boca, horrorizada.

— Isso mesmo — ele disse olhando para mim e uma expressão demoníaca tomou conta de sua face. Eu compreendi e o ar se fora dos meus pulmões. — Eu vou levá-la comigo.

— Como é que é? — vociferou Guimlel, apoiando-se no batente da porta. — Você enlouqueceu de vez?

— Shakur não vai aceitar as suas desculpas, Rick! — gritava a Sra. Brit descontroladamente.

— Com a híbrida a tiracolo, ele vai sim.

O quê? Eu me mataria, mas não voltaria para Thron. Jamais retornaria para as garras de Collin!

— Não! — implorou a Sra. Brit. — Você prometeu que não voltaria para ele, Rick! Você me prometeu. — Desesperada, ela agarrou a blusa dele. — Por favor, filho. Não faça isso.

— A situação mudou, Brita. Eu preciso ir. É só tempo de comer alguma coisa, tomar um banho e preparar meu cavalo — determinou impassível e saiu do quarto sem olhar para trás. Tão desorientados quanto eu, a Sra. Brit e Guimlel foram atrás dele e me largaram ali sozinha, consumida pela minha raiva e atordoamento. Eu sabia que precisava agir. Tinha prometido a mim mesma que seria a senhora do meu destino e era dado o momento de provar isso para mim mesma. Tinha de ser agora!

Fazendo caminho oposto ao dos berros desesperados da Sra. Brit e das inúmeras ameaças de Guimlel, consegui sair pé ante pé pela porta do quarto que dava para a área externa e, atravessando o quintal, dirigi-me ao aposento de John. Forcei a fechadura, mas a porta estava trancada.

— John? — sussurrei dando batidinhas aceleradas. Por um eterno segundo, meu coração veio à boca ao imaginar que talvez ele já não estivesse mais ali, que meu plano estava arruinado muito antes de iniciado. — Sou eu. Abra a porta.

A resposta lá de dentro veio mais rápida que um foguete e me inundou de alegria.

— Nina? — Sua voz exultava de felicidade e surpresa. — Você está bem?

— Estou ótima!

Melhor agora em ouvir a sua voz!

— Graças a Tyron! — soltou ele.

— E você?

— Cem por cento.

— Abra a porta, John — tornei a pedir.

— Estou preso. Eu escutei tantos berros, tantas orações envolvendo seu nome. Não consigo acreditar que esteja viva — respondeu emocionado. — Você ficou tanto tempo submersa no pântano negro. Eu não consegui te achar, eu...

Coitado! Ele achava que eu ainda estava me recuperando das queimaduras do maldito pântano. Pobre John!

—Você fez o seu melhor, John. Se não fosse por você eu não teria conseguido fugir de Storm — interrompi. — E agora sou eu quem vai te ajudar a sair daqui. Mas antes preciso encontrar a chave.

— Arranje-me uma faca e passe-a por debaixo da porta de ferro — comandou ele.

— Você vai arrombá-la?

— Consiga-me uma. Rápido!

Vasculhei por todo o quintal e não encontrei nada cortante que pudesse entregar a John ou que passasse pelo espaço abaixo da portinhola. Se eu fosse até a saleta principal, na certa seria descoberta. O que fazer? Recordei-me então da adaga com que Richard havia arrombado a porta do meu quarto e, sem fazer barulho, retornei ao meu antigo aposento. Ao abrir a pequena porta, meu coração encolheu no peito. Tudo estava exatamente do mesmo jeito que deixei quando Richard me retirou dali às pressas: os farelos das broas de milho na travessa, o jarro de limonada praticamente vazio, a cama desarrumada, o vestido amarelo caído no chão... Rechacei qualquer recordação daquela noite, respirei fundo e não demorei a encontrar a adaga largada no tapete ao pé da cama. Segurando a emoção que ameaçava me paralisar, eu a peguei e, sem olhar para trás, saí rapidamente dali.

— Aqui está, John! — sussurrei, passando-a por debaixo da porta.

— Excelente! Vai ser fácil, fácil — escutei ele vibrar do lado de dentro e em questão de segundos a porta se abria. Caramba! Todos eles aprendiam como arrombar portas no jardim de infância?

Sem conseguir segurar o largo sorriso no rosto, John apareceu na minha frente mais ruivo e feliz do que nunca.

— Nina! — disse exultante ao me abraçar emocionado. Uma sensação de bem-estar me invadiu e o abracei de volta. John me trazia paz. Os poucos momentos de tranquilidade que tive naquela dimensão foi ele quem havia me proporcionado. — Você está... Está perfeita!

— Você também — respondi satisfeita. Com o rosto aninhado em seu peito, disse entredentes: — Nós vamos fugir daqui. E tem que ser agora! O tempo está contra nós!

John fungou e eu me afastei.

— O que houve? — perguntei atordoada.

— O lugar está cercado por magia, Nina.

Eu perdi a voz e o chão.

— Não vai ser tão rápido assim descobrir a saída verdadeira — constatou.

Um ruído fino nos atingiu e, assustado, John me puxou para junto dele.

— Não se eu puder ajudar. — A Sra. Brit surgiu como um fantasma bem atrás de nós. Sua expressão normalmente leve e feliz havia sido substituída por uma taciturna, quase sombria. — Vamos. Vocês não têm muito tempo. Calce seus sapatos, rapaz. — Pude captar profunda amargura em sua voz. Ela estava retribuindo com a mesma moeda de Richard: traição. Ela nos ajudaria a fugir e sabia o alto preço que teria de pagar ao tomar aquela decisão: ela perderia o filho de vez. Seu gênio difícil na certa o faria odiá-la para sempre e a ruptura seria definitiva. — Vocês terão de correr — explicou com frieza. — Ele é rápido.

— Ele? — John a encarou desconfiado e a seguir virou o rosto em minha direção.

— E-eu não... — engasguei.

— Eu disse “eles”, rapaz! — A Sra. Brit rapidamente se corrigiu e, disfarçando, lançou-me um olhar de advertência. Eu havia entendido: não era para comentar sobre Richard.

— Por que vai nos ajudar a sair daqui? De quem estamos fugindo então? — John insistia.

— Não há tempo para explicações, rapaz. — A Sra. Brit era astuta. — Vocês foram descobertos por homens de Thron. Precisam sair daqui agora. Venham!

John olhou para o céu e constatou:

— O único lugar que conseguiríamos alcançar é Windston.

— Sim. É para lá que vão. Já está tudo acertado e Zymir os aguarda — explicou ela, conduzindo-nos por um estreito corredor esculpido dentro da montanha rochosa que cercava o lugar.

— Zymir? Como conseguiu? — John estava cismado. Ele era esperto também.

Ela franziu a testa e não respondeu. Um discreto trepidar de suas pupilas confirmava seu estado de tensão.

— Por ali. — Apontou para um redemoinho de vento no fim do túnel. — Há um animal esperando por vocês do lado de fora. Torço para que você seja rápido, filho de Kaller.

— Eu sou — ele balbuciou acelerando as passadas em direção à saída e sem notar que eu havia ficado para trás.

— Sinto muito, filha — disse ela em baixo tom ao segurar meu braço e estancar meu passo. Seu semblante triste por alguma razão me fez recordar o de minha mãe. Senti meu corpo estremecer com aquela despedida.

— Obrigada por cuidar de mim, Sra. Brit. — Segurando o fôlego e as lágrimas a todo custo, eu a abracei com vontade.

— Tem alguma coisa errada nessa história, filha. Richard também está sofrendo e... — Seu sussurro em meu ouvido foi interrompido.

— O que ela disse, Nina? — indagou John preocupado ao ver minha fisionomia emocionada. Ele havia retornado às pressas.

— Nada de mais. Eu estava lhe agradecendo por me salvar — disfarcei. — Acho que você devia fazer o mesmo.

John arregalou os olhos e se empertigou.

— Sim, eu... Eu agradeço... O que fez por mim, Sra. Brit — murmurou sem graça. Então ele fez algo que jamais poderia imaginar: segurou a mão dela e, de cabeça abaixada, ajoelhou-se na sua frente. — Não existem palavras, no entanto, que possam lhe agradecer por ter salvado a vida de Nina, Sra. Brit.

— Por Tyron! Esse sentimento seu... Então você também...? — Surpresa, ela arregalou os olhos e começou a sacudir a cabeça.

— O quê? — John rapidamente removeu sua mão do toque da bondosa bruxa.

— N-nada, filho. Nada.

— Agora entendo por que sua fama é lendária.

— Obrigada, rapaz. — Ela se recompôs com um suspiro cheio de apreensão. — Mas não é apenas a mim que você tem que agradecer.

John nada respondeu e uma veia latejou no seu pescoço antes mesmo que ele tornasse a se levantar. A Sra. Brit referia-se a Richard. Apesar de ter sido a pedido meu, ele o havia resgatado do pântano negro e trazido para os cuidados dela. Querendo ou não, John lhe devia essa.

— Não comentem com ninguém sobre o que houve com Nina no pântano e que vocês estiveram aqui. Para todo o efeito vocês permaneceram escondidos nas minas — explicou acelerada. — Zymir os aguarda na entrada oeste de Windston. Vistam isso — comandou estendendo-nos duas mantas verde-escuras. — Ah! Seu soldado gigante vai acompanhá-los até lá.

— Tom? — John arregalou os olhos e o esboço de um sorriso surgiu em seu rosto.

A Sra. Brit confirmou com um rápido balançar de cabeça.

— Que Tyron se compadeça de nós — murmurou e, arrumando o avental na larga cintura, deu-nos as costas e se foi.