Não Olhe!
Capítulo 12
Exausta, tirei as roupas suadas e caí na enorme cama. Meu peito estava agitado e meus pensamentos se atropelavam. O que estava acontecendo? Estaria John se interessando por mim? Negativo! Provavelmente seu interesse era em sentir alguma coisa, isso sim! Deixei esta ideia de lado e tentei não pensar em nada. Apenas descansar. Em vão. Meus estúpidos neurônios tinham vontade própria. E voltaram a pensar nele. Sempre nele: Richard. Meu peito estava agoniado com o que John havia dito sobre ele ser o filho do mal. Minha cabeça não conseguia processar aquela informação. Se ele era realmente tudo aquilo que comentavam, então... Oh, meu Deus! Eu havia me apaixonado pelo Mal? Todas as evidências estavam ali, piscando como um enorme letreiro de neon e bem na minha frente. Porém, meu coração, apesar do terror que o consumia, queria fazer-se de cego. Ele sabia que era puro masoquismo, quase uma doença, mas não admitia esquecê-lo, desrespeitando a ordem emitida por minha razão. Doía toda vez que pensava nele, mas ainda assim pensava, e muito. Era comum vagar entre pensar nele e a pergunta que me assombrava incessantemente: O que acontecera no aposento de Collin?
Flashes num sonho sem definição. Muitos deles. Um lago em meio a uma névoa. Dois corpos nus se abraçando com desespero e paixão. Uma discussão. Collin gargalhando. Richard bêbado. Lamentos de tristeza. Gritos de horror. Uma fuga às escondidas. Sangue em minhas mãos.
— Acorde, vista-se, minha querida! — disse Meredith acelerada. — Kaller ordenou que a levasse até ele.
— O que está havendo? — indaguei assustada ao ver o movimento frenético das camareiras dentro do quarto.
— Parece que o exército de Thron está marchando para Storm — soltou Sophia agoniada. Meredith me puxava pelo braço e tentava, de qualquer maneira, enfiar um vestido bege pela minha cabeça.
— Thron? — perguntei, mas no fundo eu sabia que aquilo poderia acontecer mais cedo ou mais tarde. O tempo mostrava sua face. Tinha de me manter atenta porque o jogo estava avançando e cada jogada seria mais decisiva que a anterior.
— Parece que sim. Por Tyron! Como descobriram?
Meredith me conduziu até o salão principal, onde Kaller e seus homens de confiança se encontravam. John estava entre eles. Nossos olhares chegaram a se cruzar por um instante e eu podia jurar que notei algum tremor em suas pupilas.
— Venha, Nina — ordenou Kaller.
Obedeci e sentei-me próximo a ele. Os homens me encaravam e pareciam atônitos com a grave situação.
— Mas, meu senhor — um oficial começou a falar —, por causa dela, Storm sofrerá uma grande destruição, quiçá total. Toda Zyrk tem ciência do poderio bélico de Thron.
— Eles estão blefando! — O líder retrucou de forma áspera. — Como saberiam que ela está aqui? Limitamos todas as saídas de Storm durante esses dias.
— E se algum dos nossos resgatadores tiver batido com a língua nos dentes? E se houver algum espião camuflado entre nossos homens? E se alguma de nossas sombras percebeu e vendeu a informação? — acrescentou agitado um dos conselheiros mais idosos.
— Não podemos arriscar perder o nosso reino por causa de uma garota! Acreditar na lenda é loucura! — acrescentou o comandante em tom agressivo.
— E se for verdade? — objetou Kaller. — Não tivemos tempo de descobrir.
— Nós podemos vencê-lo! — exclamou John. — Nosso olheiro afirmou que é apenas uma divisão do exército de Shakur.
— Mesmo que nós vençamos esta batalha, acabaremos perdendo muitos homens! — bradou o chefe da guarda. — Você sabe que não teremos muitas chances em uma segunda investida de Shakur. É só uma questão de dias.
— Ele tem razão! — outros se pronunciaram.
— Faremos o que o senhor ordenar, Majestade — anunciou outro oficial que até então permanecera calado. Parecia ter a mesma idade de Kaller e, pelo modo como se dirigia ao líder, devia ser seu amigo de longa data.
Kaller esfregava o crânio por entre os dedos. Um silêncio angustiante reverberava pelas paredes de mármore. Tirando-nos do martírio da dúvida, um estrondo se fez ouvir ao choque das aldravas nos imponentes portões de bronze. Um mensageiro entrou correndo pela comprida passarela de veludo vermelho. Quase sem conseguir respirar, ele se curvou diante de Kaller e pôs-se a falar:
— Senhor, Shakur está entre eles! — Havia pânico em sua declaração.
— Shakur? — Os homens indagaram em uníssono.
Kaller pôs-se de pé no mesmo instante, o rosto visivelmente perturbado.
— Sim. Ele veio junto! — O mensageiro continuava de cabeça baixa. Parecia amedrontado só pelo fato de dar aquela notícia.
— Não pode ser verdade! — retrucou nervoso o chefe dos soldados. — Shakur não sai de Thron há anos. Desde o terrível episódio, senhor.
— É uma armadilha! — rebateu John. — Não acredite nele, pai. Shakur não tem certeza de nada.
— Mas se eu não for até ele, a resposta estará dada — respondeu Kaller.
— Se for, ele também a terá — John rebateu nervoso.
— Shakur mandou dizer que deseja apenas conversar. Manteve seu exército bem distante do ponto de contato — explicou o mensageiro que finalmente arrumara coragem para levantar a cabeça.
— Concordo com John, Majestade. Shakur não é confiável — argumentou alarmado outro oficial.
— O que acha, Paul? — Kaller se dirigiu para o grisalho oficial que parecia ser seu amigo de longa data.
— O senhor sabe o quanto confio em suas acertadas decisões, Majestade. Portanto, tudo que determinar, aceitarei de bom grado. — Meio a contragosto, Paul roçou a garganta e deixou sair o que pensava: — Só peço que não se esqueça com quem está lidando. Com todo respeito à notável inteligência de Vossa Majestade, cumpre ressaltar que a perspicácia de Shakur sempre foi acima da média. Não jogue com ele, meu senhor. Blefar está na essência daquele estranho homem, e não na sua.
Kaller estava pálido e desorientado.
— Talvez estejamos nos preocupando demais. É possível que não seja nada do que estamos imaginando — retrucou outro homem. — Talvez não precisemos derramar sangue.
Os homens se entreolhavam tensos. Após um longo momento de introspecção, Kaller se dirigiu ao mensageiro.
— O exército de Shakur está mesmo em campo neutro?
— Sim, meu senhor. Ele vem acompanhado apenas de Richard.
— Richard? — indagou John sobressaltado antes de olhar furtivamente para mim.
Richard?Em Storm? Ouvir o som daquele nome já foi o suficiente para acelerar minha respiração e fazer o sangue pulsar mais forte em meus ouvidos. Sua tola! Será que não tem vergonha na cara?
— Muito bem! Diga a Shakur que apenas ele e Richard têm permissão para passar pelo primeiro nível. E que deverão vir desarmados.
— Ele nunca aceitará esta proposta, senhor.
— O interesse é dele, não meu — retrucou o líder. — Diga-lhe que meu exército o escoltará pelas sombras até o pátio de entrada e que levarei apenas meu filho comigo. Deixe claro que jogo limpo. Qualquer armação, eles morrem.
— Sim, senhor.
— Mas, Kaller... — disse o velho amigo que foi logo interrompido pelo líder.
— Fique tranquilo, Paul. Shakur é perigoso, mas não ia colocar seu rosto à mostra se realmente desejasse partir para um confronto. Se ele aceitar minhas condições para entrar em Storm, é porque está desesperado.
— Tenho minhas dúvidas — ponderou o velho amigo.
— Além do mais, Richard está desarmado e tenho John para me proteger.
— Meu senhor, não se esqueça de que Richard é muito forte e que John ainda está em convalescença — retrucou Paul.
— Tem razão. Deixe uma guarda de prontidão. Se ele aprontar alguma, morre —Kaller se empertigou. — Paul, quero você e meus homens de confiança tomando conta dela — acrescentou, apontando para mim. — Não a deixem ir a lugar algum.
— Perfeitamente, Majestade.
Kaller e John vestiram suas armaduras e, escoltados a certa distância por seus soldados, partiram ao encontro dos adversários. Dois minutos depois, Paul foi convocado pela guarda e teve que sair às pressas.
— Não saiam daqui e fiquem de olho na híbrida — ordenou ele aos soldados antes de se retirar.
Ordem dada e imediatamente esquecida. As vozes nos chegavam sem a menor cerimônia, prova palpável de que o diálogo começara acalorado entre os líderes. Consumidos pela curiosidade em ver se o temido Shakur estava realmente em seu pátio, os guardas que me vigiavam adiantaram-se na direção de uma estreita e discreta janela do magnífico castelo de mármore.
— Por que Shakur tem o corpo todo coberto? — um dos guardas indagou num sussurro para o outro.
— Deve ter sido durante o terrível episódio. Dizem que ele teve o corpo todo queimado. Comentam que ele só sobreviveu porque tem um pacto com a besta — respondeu o colega sem tirar os olhos lá de baixo.
— Com Malazar?
— O próprio.
Aproveitando-me da distração dos mesmos, espiei por uma pequena fresta da janela e, em uma fração de segundo, meus ávidos olhos o encontraram.
Lá estava ele, todo vestido de negro e com semblante de poucos amigos, como de costume. Montado em seu cavalo, Richard tinha os braços cruzados à frente do peito e, calado, observava a conversa com atenção felina. Meu coração quase veio à boca de excitação. Olhar diretamente para ele era como ter uma miragem. Richard era lindo demais e, ao mesmo tempo, absurdamente amedrontador! Sua beleza só não era perfeita, porque parecia sempre atormentada. Até suas terríveis cicatrizes conseguiam me tirar do sério e chacoalhar alucinadamente meus hormônios. Meu corpo respondia como se tivessem injetado uma droga qualquer em minhas veias: minhas pernas tremiam, o sangue pulsava em meus tímpanos e algo congelava dentro de minha barriga. Droga! Só de olhar para ele todas as minhas certezas se esvaíam.
— Ora, ora... Shakur em Storm? E desarmado? Quem imaginaria isso? — saldou Kaller, começando a conversa de forma apimentada.
Os cavalos de Kaller e John bufavam sob eles, de alguma forma ameaçados pelo musculoso animal à sua frente. Escoltado de perto por Richard, Shakur montava um cavalo bem maior que os demais. De porte altivo, o bicho exibia uma sinistra proteção composta por uma carcaça preta com afiadíssimas pontas de lanças. Em conjunto com o seu animal, Shakur usava um tipo exótico de armadura e a máscara negra metalizada que ocultava metade de sua face estava adornada lateralmente por gigantescas presas de animais. Apesar de tê-lo visto de perto, não tinha noção da majestosa envergadura daquele sombrio líder.
Shakur soltou uma gargalhada diabólica e o ar ficou pesado, quase sem oxigênio. Ele nunca havia gargalhado daquela maneira enquanto estive em Thron. Então por que eu tinha a sensação de que já a ouvira? Por que ela mexia comigo? Senti uma compressão estranha no peito, como se me importasse com ele, como se ele fosse familiar...
Que loucura é essa agora, Nina?
Novos flashes. Eu corria por um parque repleto de flores. Cenas de minha mãe feliz, sentada sobre uma toalha quadriculada e nos chamando para lanchar. Nós quem? Uma mão grande e morena, masculina, oferecia-me uma rosa branca. Quando aceitei o presente, veio o choque. Meus dedos eram tão pequeninos. Era eu uma menininha? De repente, eu não estava mais naquele parque e sim num lugar escuro. Dois homens finalizavam uma troca. Um choro e gemidos de dor. Pare, Nina! Jesus! Você está pirando!
— Pensou que eu fosse um fantasma, Kaller? Pelo visto, não suportou a curiosidade e quis ver com os próprios olhos, não é? — retrucou Shakur com jeito debochado.
— Não é muito comum um líder desaparecer por tantos anos.
— O comum é descartável. O extraordinário, imortal.
“O comum é descartável. O extraordinário, imortal?” Céus! Eu conhecia aquela frase...
Novo calafrio se espalhou por minha pele, lançando uma descarga elétrica em meu cérebro. Sem névoa ou fragmentos desconectados, o filme de que eu não conseguia me lembrar desde que despertei na caravana de Max agora transcorria com riqueza de detalhes e em sua íntegra na minha mente e no meu coração. Todos os sentimentos estavam de volta: medo, atração, mágoa. Recordava-me de minha entrada tumultuada no sombrio reino de Thron, Richard me levantando em seus braços e sendo ovacionado, das conversas dele com seus comparsas, dos flertes com as mulheres, do nosso encontro no lago, dele declarando seu amor por mim e, depois, me descartando, optando por Thron quando imprensado por Collin. Só uma lacuna ainda permanecia em branco: O que havia acontecido quando enfrentei Collin? Como saí de lá?
— Não vejo singularidade alguma no seu desaparecimento. Serviu apenas para fazer os boatos crescerem e se multiplicarem — Kaller retrucou.
— E quais seriam eles? — indagou Shakur.
— Não dou atenção a fofocas. Meu reino depende de meu comando — respondeu Kaller de forma ácida. — Acho melhor pararmos com esta conversa fiada e irmos direto ao assunto que o interessa, não?
— O que seus homens fizeram com Collin? Onde está meu filho? — a voz de Shakur saiu num estrondo e pegou a todos de surpresa.
— Como é que é? — empertigou-se Kaller com os olhos arregalados. — Do que você está falando?
— Devolva-me a híbrida! — tornou a vociferar Shakur, segurando a crina do seu cavalo que remexia a cabeça sem parar.
— Ela não está em meu poder — Kaller rebateu no mesmo tom.
— Não tente me enganar, Kaller! — ameaçou Shakur.
— Mesmo se ela estivesse em Storm, o que lhe dá o direito de vir aqui e reivindicá-la? Fui eu quem pagou por ela. Fui eu quem perdeu uma enorme fortuna com esta loucura toda e não você. Se alguém aqui tem o direito de estar furioso, este alguém sou eu!
— Kaller, se existe um clã que não desejo destruir, este clã é o seu. Sempre admirei seu gosto por construções. — Shakur olhou em volta e soltou uma risadinha infame. Kaller o fitava sem piscar. — Mas nada me impedirá de colocar as mãos nela, fui claro? Você sabe o futuro que lhe aguarda se decidir não me entregar a híbrida, não sabe?
— Estamos prontos para qualquer combate, caso esteja me ameaçando — Kaller revidou nervoso.
— Não vim com esta intenção! — trovejou Shakur. — Quanto ao pagamento, sei muito bem que você recuperou seu investimento.
— Recuperei? Como assim?
— Foi muita audácia sua mandar homens de Storm atacar Thron disfarçados de mercenários — rosnou o líder mascarado. — Uma jogada perfeita. Tão perfeita, que qualquer tolo entenderia.
— Do que você está falando? — Kaller trincou os dentes e perdeu a cor.
— Do esquema que você bolou para me roubar a híbrida. — A voz de Shakur era fria e ameaçadora. — Quero que saiba que vou descobrir o espião que você plantou dentro de Thron e que vou fazê-lo sofrer como nunca nenhum homem sofreu nessa dimensão.
— Esquema? Eu? — Atordoado, havia uma pontada de preocupação nas palavras de Kaller. — Não sei do que você está falando.
— Pois é melhor começar a desconfiar de seus homens. Se seu próprio filho foi capaz de vender o que é seu, imagine os demais — John interrompeu a tensa conversa dos líderes.
— Cale-se, John — ordenou Kaller ainda aturdido.
— Não é só ele que esconde coisas do pai — alfinetou Richard em tom sarcástico.
— Traição é sempre vil — respondeu John no mesmo tom.
— Omissão é para os fracos — rebateu Richard.
— O que você está insinuando, seu verme? — enfrentou John, aproximando seu cavalo do de Richard.
Richard não esboçou movimento, mas o encarava com ferocidade.
— Contenha-se, John! — bradou Kaller.
— Pela descrição dos meus olheiros, uma caravana de grande porte se dirigiu à Storm logo após a híbrida desaparecer de Thron — continuou Shakur com a cabeça inclinada e a voz modificada. Ele estava tão surpreso com o desenrolar daquela conversa quanto Kaller.
— Então eles estão com a garota, não nós — retrucou Kaller. — É provável que Collin esteja entre eles.
— Não tente me enrolar, Kaller.
John deu uma risada forçada.
— Não gosto de brincadeiras. Onde você quer chegar, rapaz? — Shakur dirigiu-se a John e parecia estudá-lo pela primeira vez.
— Que você não precisa ir muito longe — John abriu um sorriso petulante.
— Cale-se, John! — Kaller levantou o braço direito e evidenciou o punho cerrado.
— Ir longe? Como assim? — insistiu Shakur.
— Quem olha muito para longe acaba não enxergando o que está debaixo do próprio nariz — tornou John a instigar.
— Se você disser mais uma palavra, vou arrancar a sua língua — ameaçou Richard sem alterar o tom de voz.
— Com as mãos? — John soltou uma gargalhada irônica. — Pois tente. Terei enorme prazer em deixar a maior das cicatrizes nelas. Aliás, terei muito prazer em arrancá-las do seu corpo.
— Eu não preciso de armas para acabar com você — rosnou Richard sem hesitar, avançando lentamente com o cavalo para cima de John.
John sacou sua espada e meu corpo inteiro congelou. Aliás, todos os que assistiam à discussão estavam catatônicos, atordoados. Eles iam se matar ali? Bem na frente de nossos olhos e ninguém faria nada? Agoniada, aproximei-me ainda mais da janela e os homens que me vigiavam mal perceberam.
— Parado, Richard! — bradou Shakur.
Contrariado, Richard puxou as rédeas do animal.
— O que você sabe, John? — indagou o líder de preto.
— Pergunte a ele. — Apontou para Richard.
— Cale a boca, John! — ordenou Kaller enfurecido.
— Você ousaria me ocultar alguma coisa, Richard? — a voz de Shakur saiu arrastada.
— É evidente que não, meu senhor. Ele está tentando envenená-lo, não vê? — Richard respondeu ao líder sem tirar os olhos felinos de John. Os quatro tinham suas pupilas completamente verticais naquele momento. — Eu disse que seria perda de tempo vir até aqui.
Shakur abaixou a cabeça por alguns segundos. Parecia meditar.
— Kaller, mesmo seu clã sendo uma pedra no meu caminho, saiba que o respeito como líder, e, só por isso, lhe darei mais três dias para me entregar a híbrida e me deixar a par do paradeiro de Collin — declarou num tom alterado.
— Eu já lhe disse que ela não está aqui. É possível que a esta altura ela esteja morta. — Kaller tentou argumentar, mas não havia muita convicção em sua voz.
Shakur balançou a cabeça e soltou uma risadinha sarcástica.
— Não a mate, senão... — ameaçou. — Virei buscá-la ao meio-dia do terceiro dia. Não falhe, ou seu povo sofrerá as consequências.
Kaller não proferiu qualquer resposta. Shakur e Richard deram meia-volta. Antes de partir, Shakur lançou a última cartada:
— Você mente muito mal, Kaller. Pode ser que não saiba de Collin, mas agora tenho certeza de que a híbrida está em seu poder. — Shakur estava blefando? — Fui bem claro, não? Três dias e nada mais. — Fez um aceno com a mão direita e bateu em retirada. Logo atrás do líder, Richard olhou por cima do ombro em direção ao palácio e, antes que os soldados me puxassem para dentro, tive a impressão de que, por meio segundo, nossos olhares se encontraram.
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— Saiam todos. Tragam a híbrida! — ordenou Kaller assim que tornou a entrar no grande salão. — Precisamos ter uma conversa.
— Ele está blefando — John tentava argumentar.
— Tenho minhas dúvidas — retrucou Kaller nervoso. — O que você está me escondendo, John?
— Nada! O pupilo de Shakur me tira do sério, só isso.
— Conhece a fama daquele rapaz. Não se arrisque.
— Não tenho medo dele.
— O medo é o pai da precaução, meu filho. Todo cuidado é pouco quando se lida com homens de Thron.
John fingiu não escutar o conselho e insistiu no assunto que o preocupava: — Shakur tem dúvidas, pai! Ele não vai nos atacar sem ter certeza.
— Preciso pensar — o líder ponderava.
— Depois de tudo o que passamos para resgatá-la?! Todos os homens que perdemos nesta missão... Você não estará pensando em entregá-la, ou está?
— Ainda não me decidi — ruminou o líder. — O preço é alto demais. Storm tem muito a perder.
— Mas e a lenda? Você não pode...
— Cale-se! — berrou Kaller. — Saia, John!
John acatou a ordem e, pela sua fisionomia, eu já pressentia o pior.
— Quero que saiba que eu sinto muito, garota. — Kaller tentou explicar quando ficamos a sós. — Não posso colocar em risco a vida do meu povo. O poderio bélico de Thron é muito maior do que o nosso.
Eu já havia entendido. Ele também desistira de mim. Eu era um problema, um complicado e insolúvel problema.
— Virão buscar você em três dias.
— Então por que não me deixou ir com Shakur? Por que tenho de ficar mais três dias aqui? — questionei desconfiada.
— Para estudos. — Sua voz titubeou e eu reconheci o maldoso brilho de excitação em seu olhar.
— Que tipo de estudos? — imprensei.
— Não vem ao caso. Pode se retirar.