Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 26 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 26

 

— Soltem os cavalos. Teremos que correr para nos aquecer.

John dava os últimos comandos enquanto Tom e eu permanecíamos catatônicos, verdadeiramente congelados por aquela visão tenebrosa. Uma densa névoa branca criara uma muralha ao redor da sinistra floresta, tornando-a ainda mais fantasmagórica e impenetrável. Era impossível avistar qualquer coisa a mais de um metro à nossa frente.

— Coloquem suas mantas. Nina, eu não quero que fique olhando ao nosso redor. Siga-me sem olhar para os lados, fui claro? — John dava os comandos de forma incisiva.

— Por quê?

— Porque sim! — ele trovejou e vi uma veia latejar em seu pescoço. — Tom, eu vou à frente de Nina e você vai atrás.

Tom balançou a cabeça. O coitado conseguia estar mais branco do que a névoa que nos cercava. Por fim, sua voz saiu rouca, quase incompreensível:

— Nina?

— O que foi, Tom?

— Desculpe o meu nervosismo, ok? Eu sei que tudo que estamos fazendo é para o bem de Zyrk. — E, dando-me um tapinha que mais pareceu um empurrão, soltou: — Mesmo que não fosse, eu ainda assim estaria dentro desta maluquice toda.Você vale a pena, garota.

— Obrigada, Tom — segurando a emoção, banquei a durona e lhe lancei um sorriso amarelo: — No momento não estou em condições de memorizar nada. Vai ter que repetir essa frase amanhã.

— Tudo bem. O que foi mesmo que acabei de dizer? — Ele também tentava fazer piada da nossa desgraça iminente. John nos observava comovido.

— Posso fazer duas perguntas estúpidas? — indaguei assim que os vi liberando os animais. Eles se entreolharam antes de me encarar. Talvez estivessem preocupados com o tipo de resposta que seriam obrigados a dar. Zirquinianos não eram dados a rodeios. — Mesmo que consigamos... — rocei a garganta. — É só uma questão de tempo, não? Quero dizer que... Mesmo que a gente consiga, outros resgatadores irão atrás de mim assim que eu voltar para a minha dimensão, certo?

— Isto não ocorrerá por algum tempo.

— Como assim?

— Não sei explicar. Foi o que Wangor pediu que lhe dissesse — John replicou meio afoito.

— Mas e...

— Rápido! — ordenou. — Qual a segunda pergunta?

— Por que as feras não entram nesta floresta?

— Porque assim como o pântano negro, este lugar também é assombrado por algum tipo de feitiço. É bom que saiba que cada portal é como um ninho das feras durante a noite. São misteriosamente protegidos por elas. Por isto esperaremos até o amanhecer. Acabou?

Assenti com um tremor involuntário.

— Ótimo. Então, antes de entrarmos, é preciso que a nossa estratégia esteja clara. —Ele tinha a expressão concentrada. — Assim que amanhecer nós teremos uma vantagem de uns trinta minutos em relação aos nossos adversários. A Floresta Fria é o ponto mais próximo deste portal. Mas, ainda assim, precisaremos ser rápidos.

— Você não acha que os exércitos também enviarão homens para esta floresta? — rebati.

— Não — acrescentou categórico. — Lá fora ainda existe alguma chance para nós, zirquinianos. Já aqui dentro... — John não precisou completar a frase. Eu havia entendido: chance zero. O horror ameaçou me dominar, mas consegui me controlar a tempo. Não ia abrir outro berreiro.

Cobertos com nossas mantas, começamos a horripilante corrida contra o tempo em seus dois sentidos. John apertava o passo e eu ia logo atrás, seguida por um Tom restaurado. Parecia que ele tirava suas forças das situações mais difíceis. Como John me ordenou, não olhei em hipótese alguma para os lados, mantendo-me concentrada ao sincronizado ranger de neve provocado pelas nossas passadas. A névoa havia se dissipado, dando lugar a um branco absoluto que fazia questão de queimar nossas retinas. O frio começava a incomodar. À medida que adentrávamos no coração daquele freezer, ele começava a nos castigar de forma impiedosa. A sensação era de que a floresta nos enviava um sombrio aviso. Os finos flocos de gelo que nos atingiam foram rapidamente substituídos por uma forte nevasca, dificultando sobremaneira o percurso traçado. Em fração de minutos nossas pernas afundavam em camadas de neve fofa, exaurindo nossas forças com brutal velocidade. Pouco tempo depois, a nevasca começava a se modificar, transformando-se em uma chuva de afiados granizos gigantes. O exército frio havia nos advertido para não continuarmos nossa marcha suicida, e como não lhe demos ouvido, começava seu feroz ataque contra nós. Sua artilharia de pedras de gelo nos feria sem a menor hesitação.

— Rápido! Ali! — berrava John. — Para debaixo daquele tronco!

Enquanto me arrastava para um local mais protegido, desobedeci à ordem de John e finalmente olhei ao redor. Meus olhos avistaram o pavor que nos envolvia. Não havia uma alma viva sequer! Não apenas as árvores, mas absolutamente tudo estava morto e congelado. Tom tinha razão: era um cemitério a céu aberto, só que com requintes de morbidez. Os corpos dos animais silvestres, pássaros de todos os tipos e tamanhos, e, principalmente, das pessoas caídas e congeladas pelo caminho tinham a expressão de sofrimento. Muitas delas retorcidas, outras encolhidas como fetos. Teriam sido atacadas por uma tempestade de granizo como esta? Atordoada, eu me via dentro de uma cena de terror que parecia ter sido solidificada de forma abrupta. Eu tremia e não era de frio.

— Droga! — Tom urrava de dor enquanto estancava o sangue em seu ombro. Tinha sido alvejado por granizos cheios de arestas cortantes, como cacos de vidro, enquanto me dava cobertura. — Estes granizos são afiados como lâminas!

— Vamos aguardar aqui! — John tentava, de forma inútil, imprimir um tom de normalidade em sua voz.

— Não poderemos ficar neste local por muito tempo. Logo estaremos submersos! — bradava o gigante.

— Eu sei — retrucou John com a testa lotada de vincos e sem conseguir parar de olhar para os lados. Estaria ele procurando uma saída? No fundo ele sabia, nós três sabíamos que não possuíamos armas que pudessem nos defender daquele ataque sobrenatural.

— Vamos voltar! — soltei determinada. Era a primeira vez que eu dizia alguma coisa desde que começáramos nosso horripilante trajeto.

— O quê?! — os dois responderam em uníssono.

— Não percebem? Não temos como continuar! — guinchei. — Ou voltamos ou morreremos congelados!

John evitou olhar para seu escudeiro.

— Negativo — disse ele, inflexível. — Vamos continuar.

— Mas John, nós... — insisti.

— Não adianta! — trovejou. — Não podemos mais voltar atrás! Vamos! — agarrando-me pelo braço, precipitou-se para o deserto branco enquanto protegia o meu corpo com o dele.

— Por Tyron! Por que não trouxe o meu escudo? — reclamava Tom, vindo logo atrás de nós.

— Era muito peso e acabaria atrasando ainda mais a nossa corrida. Além do mais, não contávamos ter que entrar nesse lugar!— respondeu John irritado.

— Aiii! Raios! — O gigante era ininterruptamente alvejado. — Parece que tenho ímã para estes malditos granizos!

Tom era, sem sombra de dúvida, o mais atacado pelo exército de gelo. John por vezes reclamava de uma ou outra ferida, enquanto eu permanecia ilesa até então, quer por uma inusitada sorte, quer por proteção dos dois. Como chicotadas afiadas, as feridas cresciam de forma rápida à medida que se uniam umas às outras e começavam a abatê-los com maior intensidade. As rajadas de pedras de gelo cortantes me ladeavam, mas nunca me atingiam.

— Vocês voltam e eu continuo! — berrei ao perceber que a nossa corrida ficava cada vez mais difícil e desencontrada.

— Não. — John fechou a cara, mas não conseguiu disfarçar seu estado de tensão.

— Não percebem? Por algum motivo estes granizos não me atingem!

— Argh! — Tom gemia, estancando as feridas. John estava atordoado com o sofrimento do amigo. Não havia lugar onde pudéssemos nos proteger.

— Mostre-me a direção e vocês retornam daqui! — Eu gritava em meio ao pânico. Estava difícil sobrepujar os urros de dor de Tom.

— Nós não podemos... — Olhando sem parar de mim para o companheiro que era ferozmente abatido, John não tinha condições de me contradizer.

— John, por favor! Eu não quero que vocês morram. É a nossa única chance.

— Não!

— Não vê que vocês dois é que estão me atrasando? Eu já poderia ter cruzado o portal a uma hora dessas! — esbravejei.

— É verdade! Nós dois é que estamos na mira. Nina, não — arfava Tom com a voz impregnada de dor.

— Nina, ainda falta muito e...

— Mostre-me a direção! — tornei a ordenar impaciente. Não suportava mais vê-los sendo incessantemente feridos por mais e mais rajadas de cacos de neve cortante e não fazer absolutamente nada. Para piorar a nefasta situação, a névoa tornara a aparecer, dificultando qualquer tipo de proteção prévia. — Fale logo, John! — rugi.

— Você seguirá para o sul — disse ele, finalmente.

— Como saberei qual é o lado sul? — Pergunta óbvia para uma garota criada em metrópoles.

— Você deverá acompanhar as cores do céu de Zyrk. Se não reparou, nosso céu tem vários tons de cinza — explicava-me com pressa. — O mais claro é o de Storm, e vai escurecendo. Como um dégradé.

— Qual é a ordem?

— Storm, Windston, Marmon e Thron. O céu de Thron é muito escuro, quase negro. O anterior a ele será Marmon. O portal estará entre o cinza médio de Windston e o cinza escuro de Marmon.

— Entendi.

— Desculpe, Nina — murmurou John com sangue escorrendo pelo rosto. Seu semblante era de frustração. Ele sabia que era impossível lutar contra aquele tipo de adversário.

— Obrigada — sussurrei.

— Eu que agradeço — respondeu com jeito tímido e, sem que eu percebesse, já havia me jogado sobre ele. Ele retribuiu o abraço com vontade e, por entre meus cabelos, fez uma declaração que mexeu com meu coração: — Eu nunca trocaria você por dinheiro algum.

— Hã?

— No Saara... — ele tentava se explicar: — Quando eu disse que também a trocaria pelas moedas de ouro... Não era verdade. Você vale muito para mim. Por você valeu tudo o que eu fiz. E faria de novo, tantas vezes quanto fosse preciso. — Seus lábios tremiam. — Você é o maior prêmio que alguém como eu poderia ter, Nina.

— John, eu não valho esse seu sentimento, eu...

— Shhh! — colocou um dedo em meus lábios e secou uma lágrima. — Hei! Eu sou o que vocês humanos chamam de morte, lembra-se? Não preciso de palavras que me confortem. Eu só preciso de você. E bem viva, compreendeu? — John abriu um sorriso que chegou a me aquecer por um instante, um lindo e breve instante.

— Ai! — Uma dor lancinante fez meu braço esquerdo arder.

— Abaixem-se! — gritou Tom à distância.

John se jogou no chão comigo, protegendo-me sob seu corpo.

— É uma emboscada! — berrava o escudeiro, escondendo-se atrás da carcaça de uma árvore congelada.

— Nina, você está bem? — John interrogava-me aflito.

— Meu braço está queimando!

— Uma flechada! — berrou John verificando o ferimento com absurda rapidez. — Você vai ficar bem! Foi só de raspão.

Novas flechas atingiram a neve ao nosso lado.

— Rápido! Saiam daí! — bradava Tom.

— Você tem que fugir, Nina. Agora! — Naquele momento era John quem me impulsionava. — Ahrrr!

Urrando de dor, ele se contorceu sobre mim e levou uma das mãos à perna.

— John?! Meu Deus! Você foi atingido!

Ruídos de passos farfalhando folhas semicongeladas ficavam cada vez mais altos.

— Saiam já daí! — trovejava Tom apavorado.

— Tome. Pode ser que precise. — John me passou um reluzente punhal. — Eu cometi um erro em ter lhe negado lá no pântano. Você saberá decidir se deverá utilizá-lo ou não.

— Obrigada — disse num sussurro. — Por tudo.

— Tem de correr o mais rápido que puder — ordenou-me. — Lembre-se de que você tem pouquíssimo tempo assim que clarear.

— John, se eu não conseguir...

— Você vai conseguir. — Ele me interrompeu. — Eu sei que você é durona quando precisa e é por isso que eu a acho especial. — Erguendo meu queixo, deu o apito final: — Escute bem, assim que eu me levantar você se manda, ok? — Nós nos olhamos uma última vez e eu acenei a cabeça, obstinada. Ele sorriu com os olhos e berrou: — Agora!

Em minha corrida ensandecida, deixei uma erupção de silvos, gemidos e berros ferozes para trás. Não me permiti olhar. Se olhasse, perderia a minha determinação. Tudo haveria de ser por um motivo nobre. Tinha de ser. Não queria acreditar que aquele horror seria parte de um grande castigo a mim empregado, uma dívida a ser paga com juros de morte.

O pavor gerado pelos rumos dos terríveis acontecimentos havia me feito esquecer completamente do ambiente em que me encontrava. A trégua do frio chegara ao fim e ele voltara a me assolar. Redemoinhos de granizo acompanhados por uma nevasca incessante me envolviam em uma execrável tentativa de confundir meu solitário trajeto. Quase conseguiram. O céu, em uma primeira impressão, era todo nanquim. Com insistência, ele me confessou seu peculiar e salvador dégradé. À medida que eu avançava, o número de corpos congelados pelo caminho reduzia de maneira expressiva até desaparecerem por completo. O pavor foi substituído pelo alívio de não ter permitido que John e Tom me acompanhassem. O silêncio se avolumava como pancadas estrondosas de medo em minha mente. Eles teriam sobrevivido? Richard teria sobrevivido? Algum dia tornaria a vê-lo? De que adiantaria sobreviver se não havia um motivo, se não haveria alguém por quem viver? Por quanto tempo os zirquinianos me deixariam em paz? Como poderia vir a ter uma vida normal depois de tudo pelo que passei e presenciei?

Eu não era normal, afinal de contas. Eu era uma híbrida.