Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 29 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 29

 

Pedindo a Deus que Kevin tivesse desistido de matar Richard para vir atrás de mim, comecei minha cavalgada alucinada em direção ao portal. Com o seu sol escondido atrás de nuvens pesadas, o dia acordara em luto. Nebuloso demais. Cinza demais. Como meu coração. Rechacei qualquer pensamento negativo de minha mente e, inclinando meu corpo sobre o animal, envolvi seu largo pescoço em um abraço agoniado.

— Obrigada — disse perto de sua orelha. Assumi o discreto tremor na musculatura dele como um ‘de nada’. Olhei para trás e vi que estava sendo seguida pelos homens de Kevin em seus cavalos. Eles pareciam cavalgar bem mais rápido do que eu. Vasculhei o horizonte e detectei, ao longe, outro grupo de soldados vindo na minha direção. Flechas apontadas em nossa direção me fizeram estremecer. — Mais rápido! — berrei para o meu animal, mas o coitado já estava imprimindo seu ritmo máximo. — Acelera! Mais rápido! — O pobre animal se esforçava, mas não era o suficiente. Não precisava checar para sentir a aproximação de meus inimigos. A certeza que me invadiu era de que eles não queriam arriscar me ferir mortalmente, pois já teriam me acertado com suas flechas. Eles desejavam me capturar e isso parecia muito pior do que morrer.

Perdida em meus martírios, finalmente notei o enorme rochedo que crescia rapidamente à minha frente. Uma pedra destacava-se dentro dele e reluzia para mim. O portal!

Um relinchar alto e meu cavalo empinou nas patas traseiras. Uma flecha o havia acertado de raspão e ele estava assustado. Teriam eles mudado de ideia e resolvido me matar de uma vez por todas?

— Ôooo! — berrei apavorada, segurando-me em sua crina para não cair. Meu animal continuava nervoso. — Calma, amigo.

Agitado, ele recuperou sua respiração e tornou a cavalgar em velocidade máxima. O número de flechas que nos ladeavam aumentou exponencialmente à medida que nos aproximávamos do portal. Meu cavalo continuava muito nervoso. Foi quando percebi o que estava acontecendo. Malditos! Era por isso que as flechadas eram sempre baixas! Eles queriam acertá-lo e não a mim. Queriam me impedir de chegar ao portal. Nova rajada de vento. Essa veio mais forte que as demais. A flecha passou raspando pela cabeça do animal. Poucos centímetros a menos e teria acertado seu crânio em cheio. Olhei para a frente e vi o portal a uma pequena distância. Foi a minha vez de travar.

— Pare! — comandei, puxando sua crina. O animal bufou e freou bruscamente. Pulei de cima dele. — Não vou permitir que o matem também. — O cavalo me fitava com seus olhos grandes e assustados. Havia um brilho diferente neles: uma mistura de incompreensão e agradecimento. — Adeus, amigo.

As flechadas cessaram, dando-me oportunidade de acariciar de leve seu focinho antes de sair desabalada em direção ao salvador portal. Corri como nunca antes na vida. Meus cabelos se embrenhavam no rosto suado e me atrapalhavam. Os sons dos cascos dos cavalos dos meus inimigos ficavam cada vez mais audíveis. Seus berros também. Com o coração tamborilando no peito, cheguei à base do rochedo. O portal reluzia um pouco mais acima. Céus! Teria de escalar duas sequências de pedras desniveladas até chegar a ele! Sem olhar para trás, comecei minha jornada de vida ou morte. Para minha surpresa, venci o primeiro nível sem dificuldade. Faltava pouco. Avancei confiante pela segunda sequência de rochas e vi o portal crescer, resplandecente e poderoso à minha frente. De repente meu corpo reduziu o ritmo. Eu deveria correr, mas minhas pernas caminhavam para o portal como quem marcha para a forca. Por mais que fizesse força contra, meus pesados pés arrastavam-se, como se tivesse chumbo nas sandálias de couro, como se uma energia trabalhasse em sentido contrário ao rumo que eu havia tomado. Rechacei aquela ideia da cabeça e, a cada passo dado sem olhar para trás, convencia-me de que tudo ficaria bem e que havia tomado a decisão correta. Que, de fato, eu devia voltar para o lugar a que pertencia, minha velha e conhecida dimensão, que Richard era forte e sobreviveria, que ele arrumaria um jeito e viria atrás de mim. Podia sentir uma brisa quente e agradável vindo daquele amontoado de pedras resplandecentes. Seria o vento do Saara dando boas-vindas? Cinco passos da entrada. Quatro. Três. Dois...

— Se der mais um passo ele morre, híbrida! — O grito me congelou e uma corrente polar percorreu minhas veias gerando calafrios. Os piores que já havia sentido. Não precisava me virar para saber quem me ameaçava.

Kevin.

— Vá agora, Nina! Argh! — um apavorante ganido de dor.

— Richard! — gritei ao vê-lo de joelhos, com os olhos contraídos e maxilares trincados. Ele não tinha condições de ficar em pé. Dois homens o imobilizavam, puxando violentamente seus braços para trás. Uma ferida em seu ombro jorrava sangue. — Não!

A ficha caiu: eles demoraram a me alcançar porque traziam ninguém menos que Richard. Ele era a moeda de troca de Kevin. Crápula! Ele o usaria para me chantagear, assim como havia feito com Richard em relação a mim.

— Se quiser que ele viva, venha cá, híbrida — ameaçou Kevin. Ele obtivera reforços e agora liderava um grupo bem maior, uns vinte homens talvez.

— Ele vai me matar de qualquer maneira, Nina. Fuja! — Richard bradou nervoso, suas pupilas tão finas quanto um fio de cabelo. — Argh! — tornou a gemer quando Kevin chutou violentamente sua perna ferida e, curvando-se de dor sobre o próprio corpo, Rick caiu com a testa de encontro ao chão.

— Não o matarei se você voltar — rebateu Kevin, a voz ofídica, perigosa. — Dou-lhe minha palavra.

— Você não tem palavra — disse atordoada.

— Então lhe dou o benefício da dúvida. — Abriu um sorriso ilegível. — Mas saiba que ele morre no mesmo instante que você atravessar esse portal.

O pavor secou minhas lágrimas e paralisou meu raciocínio. Cristo! O que fazer? Se eu fosse embora, Richard seria assassinado?

— Está bem — murmurei dando um passo em direção a Kevin e seu grupo.

— Não! — Richard conseguiu forças para um último grito de advertência.

Um dos comparsas do crápula puxou a cabeça de Richard pelos cabelos para que Kevin pudesse lhe acertar uma sequência de socos. Uma ferida abriu em seu supercílio e mais sangue jorrou pelo seu rosto lindo.

— Vou matá-lo agora! — bradou Kevin, sacando um punhal da cintura.

— Não! — implorei em pânico.

— Soltem-no! Quem vai torturar e matar este traidor sou eu! — trovejou uma voz imponente vinda de outro grupo que se aproximava. Senti novo aperto no peito.

Shakur.

Ele vinha à frente de um pelotão fortemente armado. Vestidos de negro como o líder, Shakur trazia consigo o triplo de homens que Kevin possuía. A visão daquela figura montada sobre seu cavalo negro era assustadora. Os soldados de Kevin recuaram e minhas pernas cambalearam. Meus olhos estavam perdidos, dançando preocupadamente entre o punhal na mão de Kevin, a máscara negra de Shakur e a cabeça de Richard tombada sobre o pescoço.

— Fique onde está — advertiu Kevin, mas Shakur não se intimidou. Sua presença ali era a prova contundente da severidade da situação.

— Solte-o, Kevin — tornou a ordenar Shakur. — Do contrário, você vai acabar pagando pela dívida de outro. Se me tirar esse prazer, você e seus homens serão reduzidos a pó em seguida.

— Nunca! — retrucou a víbora. Ele tornou a levantar a cabeça desacordada de Richard e, pondo-se atrás dele, posicionou a lâmina afiada de seu punhal no pescoço do adversário. — Venha para cá, híbrida! — rugiu para mim.

— É meu último aviso, garoto — ameaçou um feroz Shakur.

— É melhor ficar onde está, mascarado. Você não tem a arma que eu possuo — disse com ar triunfante, exalando seu usual veneno.

O que aquele monstro queria dizer com aquilo?

Shakur soltou uma sonora gargalhada, e, neste momento, detectei Richard abrir lentamente os olhos azuis-turquesa e movimentar os lábios em mímica. Não era mais uma ordem, como costumava fazer, mas um pedido desesperado, quase me implorando: vá embora, por favor!

Com o coração sangrando mais que o corpo do meu amado, finalmente concordei. Minha presença de nada adiantaria ali. Eu sabia. Ele sabia.

Vagarosamente dei um passo para trás em direção ao portal. Nenhum dos grupos percebeu, de tão concentrados que estavam entre si, imersos na tensão perturbadora que antecede uma batalha. Dei um segundo e um terceiro passo, que também passaram despercebidos. Richard assentia em mímica, seus olhos atentos emitiam um discreto brilho de satisfação.

Só mais um passo...

— Espere, híbrida! Você não reconhece esse cordão? — indagou Kevin, estendendo uma das mãos na minha direção e deixando claro que não estava tão distraído assim.

Travei.

Ah, não! Ele havia encontrado meu amado amuleto da sorte.

— Chega! Você pediu, Kevin — Shakur sacou a fulgurante espada da cintura.

— E esse cabelo? — insistiu Kevin, levantando o outro braço. Ele segurava uma mecha de cabelos com as pontas dos dedos e a exibia como um troféu. Exultante, a víbora encarou o líder de negro por um momento e depois se voltou para mim.

A espada de Shakur paralisou no ar. Meu corpo tremeu da cabeça aos pés. Richard franziu a testa e dizia Não! Não! Não! em mímica ao me ver titubear.

— Tem ideia de quem seja, Nina? — provocou Kevin, reprimindo um sorriso.

Minhas pernas quase dobraram de emoção e meu coração veio à boca. Aquilo era algum truque? Não podia ser verdade...

— E essa fotografia? Por acaso a reconhece? — Kevin vibrava com o próprio show. Ele abandonou a posição e, fazendo sinal para que seus homens continuassem a imobilizar Richard, mostrou rapidamente a foto para Shakur, que pareceu ficar em choque. Em seguida, veio na minha direção. Os olhos de Richard se fecharam e, sem esboçar a menor reação, seus ombros tombaram. Sua atitude me fez perder o chão.

Como assim? Ele não precisou olhar? Já sabia do que se tratava?

De onde eu estava não dava para enxergar o retrato que Kevin exibia na outra mão. Os homens ao redor pareciam tão atordoados quanto eu, e a metade exposta da face de Shakur havia perdido a cor, como se ele tivesse visto um fantasma. O líder de Thron estava petrificado.

— Olhe com seus próprios olhos, híbrida — Kevin continuava a se aproximar, escalando lentamente o caminho de pedras, como se tivesse medo de alguma atitude inesperada da minha parte. Meu coração dava pancadas frenéticas dentro do peito. O calafrio subira todos os patamares suportáveis e meu corpo não mais tremia, ele era chacoalhado com violência.

— O que... O que está acontecendo? — zonza, dei um passo em falso para trás e senti o sopro ardente que exalava do portal acertando minha nuca gelada. Ciente do meu estado perturbado, Kevin levantou as mãos e pediu que eu me acalmasse. Por que ele parecia temer que eu atravessasse o portal?

— Seu “protetor” não lhe contou? Ele escondeu isso de você?

— O que... O que Richard não me contou? — indaguei sem forças, sentindo meu corpo inclinar para trás. Meus náufragos olhos procuraram pelas ilhas azul-turquesa, mas elas haviam afundado e me levado junto consigo. De cabeça baixa, Richard afogava todas as minhas certezas.

— Shhh! Calma. Não se mexa — Kevin insistia num falso sussurro. — Não vou me aproximar de você, ok? Deixo a fotografia aqui e me afasto.

— Eu não... Eu não... — Atordoada, sentia o vento quente do Saara me envolver sedutoramente e oferecer seus braços a meu corpo e à minha alma desamparados.

— Aqui. — Kevin se abaixou e depositou a mecha de cabelo junto com um pedaço de papel na depressão de uma pedra a uns dois metros de distância de onde eu estava. O vento parou e o dia pareceu desbotar ainda mais. A atmosfera estava mais cinza e mórbida do que nunca. — Veja com seus próprios olhos, híbrida — pediu e se afastou.

Meus pés começaram a se arrastar por conta própria. Não havia cérebro naquele instante que pudesse comandá-los. Um estranho magnetismo puxava meu corpo ao encontro daquilo que parecia ser a explicação da cena dantesca: Kevin exultante, Shakur paralisado num semblante de dor e perturbação, os soldados tensos, e Richard dobrado sobre o próprio corpo. Rechacei a ideia, mas algo dentro de mim afirmava que o que ele tinha sobre os ombros curvados não era apenas sofrimento gerado pelas terríveis feridas.

Senti novo aperto no peito. Não, Rick! Diga que não me traiu novamente. Por favor, não faça isso comigo.

— Richard? — No meio do caminho parei, hesitante, e, sem conseguir segurar a palpitação enlouquecida no meu peito, berrei por ele: — Richard, por favor, olhe para mim! O que está acontecendo?

Kevin soltou uma risada prazerosa e ordenou:

— Levantem a cabeça deste infeliz e façam-no responder!

Os homens tornaram a envergar a cabeça dele para trás, puxando-a pelos cabelos sujos de suor e sangue. Destroçada. Esta era a imagem do meu nobre guerreiro. Richard mal conseguia manter a cabeça erguida e os olhos semiabertos fizeram questão de fugir dos meus.

— Rick, por favor? O que está acontecendo? — implorei sem conseguir segurar as lágrimas que rolavam por minha face.

Sem resposta.

— Eu vou acreditar em você. Por favor, diga-me que tudo isso não passa de uma grande armadilha. Diga, Rick, e eu não vou sequer olhar essa fotografia e partirei para a segunda dimensão agora mesmo. — Minha voz saía entre soluços. O ar estava estático e tão pesado quanto tudo por ali. Richard finalmente se virou em minha direção, deixando que nossos olhares febris se encontrassem por um mísero segundo. No instante seguinte vi o azul-turquesa de seus olhos escurecer e ficar negro. Ele tinha a fisionomia mortal ao mirar Kevin.

— Eu... Vou... Matar você! — Com a voz rouca, Richard fez questão de destacar cada palavra.

— Só se nos encontrarmos no Vértice, porque em Zyrk suas chances se esgotaram, camarada — rebateu Kevin achando graça da situação.

Senti um soco na boca do estômago. Culpa! Aquela reação de Richard era uma confissão de culpa. Mas, do quê?

— Veja com seus próprios olhos, Nina. — Kevin me seduzia e, sentindo que seria estraçalhada com o que veria em seguida, estava difícil demais conseguir dar aqueles passos finais.

Chega, Nina! Deixe toda essa loucura para trás e se mande daqui!

A energia pulsante que crescia em minhas veias não me permitia recuar, convencia-me de que eu precisava ver o que estava causando tamanha comoção entre eles. Poderosa e instigante, ela venceu. Trêmula e em câmera lenta, aproximei-me daquilo que Kevin havia depositado sobre a pedra desnivelada. O pedaço de papel foi tomando forma. De fato, era uma fotografia. Cheguei mais perto. O retrato foi começando a ganhar definição. Nova descarga de adrenalina. Algo em mim dizia que eu o conhecia. A mecha de cabelo ao seu lado... Cabelos negros encaracolados? Cristo! Aquela mecha de cabelo pertencia à... minha mãe? Como o cabelo de Stela estava ali se nada da segunda dimensão poderia entrar em Zyrk?

Olhei para Kevin e seus olhos faiscavam uma excitação demoníaca. Como assim? O crápula a havia matado e cortara uma mecha do seu cabelo só para me torturar? O que ele ganharia com isso que pudesse deixar todos ao meu redor tão desorientados quanto eu? Aquela atitude não tinha lógica, nada fazia o menor sentido. Levada pela emoção, apanhei o retrato com meus dedos trêmulos. A resposta ardia na palma de minha mão, mas eu ainda não tinha coragem de olhar. Uma batalha sangrenta era desenvolvida por dois sentimentos em meu peito: medo e curiosidade. Medo de ver o que não gostaria, medo de sepultar definitivamente meu passado e aniquilar meu futuro, medo de me ver na pele de uma garota condenada a uma terrível maldição.

Se não enfrentasse aquele pedaço de papel, talvez não sofresse tanto, talvez conseguisse reerguer minha nova vida sobre as ruínas do meu passado... Mas como passaria incólume ao fantasma daquele retrato em minha mente? Com certeza ele me assombraria pelo resto de meus dias. No fundo, eu sabia que aquela atitude nada mais seria do que um anestésico a curto prazo, uma fuga provisória. Estaria disposta a viver com a sombra da covardia me seguindo aonde quer que eu fosse?

Não! Eu ia enfrentá-lo!

Esfreguei meus dedos pelo papel de textura lisa e senti uma onda de calor se espalhar pelo meu corpo. Uma energia quente pulsava dele para minha pele. Levei-o até bem perto do meu rosto, fechei os olhos e puxei o ar com força. No instante seguinte eu encarava a foto como um viciado em período de abstinência ao ver seu objeto de vício por trás de uma parede de vidro intransponível. Minha boca secou, perdi a respiração e vi meu mundo girar. Zonza e sem forças, caí de joelhos no chão e comecei a chorar. Um choro compulsivo, profundo, dilacerante.

Um uivo de cólera e amargura me atingiu: Richard. Naquele momento nem seu berro conseguiria transpor a bolha de sofrimento que me envolvia, deixando-me alheia a tudo ao meu redor e curvada sobre o meu próprio corpo.

Tremendo incessantemente, tornei a examinar a fotografia.

Era uma foto minha entre meus três ou quatro anos de idade sentada no colo de uma sorridente Stela. Sua bela fisionomia ainda não havia sido afetada pelas rugas da angústia que carregara durante toda nossa vida de fugitivas. Atrás de nós, um homem forte, moreno, de olhos azuis brilhantes sorria um sorriso de tirar o fôlego de tão bonito. Ele parecia tão feliz quanto ela e tinha os braços musculosos envolvendo nós duas num abraço cheio de ternura e felicidade.

Aquele homem não... Aquele homem não era o meu pai!

Eu não era em nada parecida com ele. Eu vi Wangor, meu avô, e reconheci minhas características físicas nele. Nossos cabelos castanhos, nossa pele clara, nossos traços longilíneos em nada se assemelhavam aos daquele homem corpulento e bronzeado da foto. Quem era aquele sujeito, afinal de contas? Senti meu estômago nausear e uma tontura ameaçar me dominar.

— Quem é esse homem, Kevin? — levei as mãos ao pescoço e perguntei em meio às lágrimas.

— Pensei que você pudesse me dizer, afinal encontrei essa daí entre as coisas dela — soltou sarcástico, aproximando-se de mim.

“Coisas dela”?

— Pretendia nunca mais voltar, híbrida? Que estranho!

O sorriso exultante do crápula foi rapidamente substituído por um frio. Poderia jurar ter visto uma pitada de preocupação nele.

— Nunca mais voltar? — questionei desorientada.

— Ora, ora... — Arregalou os olhos verdes e, visivelmente surpreso, soltou uma risada debochada. — Também não sabia?

— Onde você quer chegar? — balbuciei em meio ao pranto devastador.

— Essas pedras do seu cordão... — ele matutava em alto tom. — Como conseguiu?

Perdi a voz. Mesmo leves como uma pluma, as pedras pesaram em meu pescoço. Eu sabia! Senti que Richard estava diferente quando as colocou em minhas mãos.

— Foi seu suposto salva-vidas quem lhe deu, não? — Kevin balançava a cabeça, como se não conseguisse acreditar no que estava acontecendo.

— O que há com essas pedras? — perguntei, apertando-as entre meus dedos suados.

— Por que não pergunta a ele? — indagou mordaz.

Eu não quis olhar para Richard. Podia sentir a decepção e o rancor multiplicando-se como um terrível vírus dentro de minhas células. A voz da razão berrava dentro de mim e afirmava que ele havia me traído. De novo.

— O que Richard me escondeu, Kevin? — tornei a indagar, aflita.

— Como as conseguiu, hein? — ele gritou para Richard, mas não houve resposta. — Tem alguma ideia, Shakur?

Encarei o líder de preto e ele estava tão paralisado, tão em choque, que tive a certeza de que algo hediondo estava acontecendo bem diante de meus olhos. Só não conseguia enxergar o que era.

— O que você carrega em seu pescoço são as chamadas pedras-bloqueio. São pedras raras, amaldiçoadas — Kevin finalmente explicou. — Como tudo que vem do Vértice, possuem um feitiço irreversível.

“Do Vértice”? “Irreversível”?

— Eu não... eu...

— Richard não lhe disse para que serviam? — Kevin concluía seu massacre, não mais conseguindo esconder o sorriso de satisfação. — Não explicou que, ao chocá-las entre si após passar por esse portal, você jamais poderia retornar a Zyrk e que seria envolta por uma magia tão forte que nunca mais nenhum dos nossos conseguiria vê-la, senti-la ou tocá-la e vice-versa?

Nunca mais...

Outra mentira. Nova dor. Richard sabia que nunca mais nos veríamos. Sempre soube e me fez acreditar que ele iria ao meu encontro, que tentaríamos, que haveria a possibilidade de um futuro para nós...

Um futuro... Eu teria um futuro... Só meu e onde ele não estaria... Talvez, nesse futuro incerto, tê-lo amado loucamente não fizesse a menor diferença, talvez...

— Nina? — A voz de Kevin estava distante. Ou era eu quem estava longe?

Pouco importava e, de onde eu menos poderia esperar, surgiu uma força que me fez levantar. Uma ideia começou a reverberar em minha cabeça em frangalhos: se eu sair daqui agora e chocar essas malditas pedras entre si ao entrar na minha dimensão, eles nunca mais poderiam me trazer de volta. Talvez, longe da cáustica presença dos zirquinianos, eu poderia resgatar minha vida, voltar a sonhar e, quem sabe um dia, amar alguém em quem eu pudesse confiar de corpo e alma.

Tentei disfarçar o tremor em minhas pernas e dei um passo para trás. Kevin titubeou. Dei outro passo e a fisionomia dele se transformou em uma ameaçadora. Eu conseguiria correr? Conseguiria ser mais rápida do que ele e me mandar dali? Eu estava a poucos passos do portal... Sim, eu ia tentar.

Dei mais dois passos para trás e Kevin outros dois para a frente. Conseguiria ele saltar sobre mim a tempo de me impedir? Só mais dois passos... Dois passos e estaria de volta à minha dimensão, ao meu mundo, à minha antiga vida.

Era agora!

Inspirei fundo e, enquanto girava nos calcanhares para dar o impulso final, Kevin me paralisou com uma ameaça sutil e, ao mesmo tempo, poderosa:

— Se eu fosse você, não iria embora sem antes dar uma olhada na foto de trás, híbrida. Vai se arrepender amargamente pelo resto da sua existência.

Congelei.

“Foto de trás”?

— Fique onde está, Kevin! — guinchei trôpega.

Parada a meio metro do portal e ameaçando entrar a qualquer instante caso ele se aproximasse, fechei os dedos ao redor da fotografia e pude sentir que não havia diferença de textura entre frente e verso. Senti que não era realmente apenas uma única folha de papel. Havia espaço nos locais onde a cola tinha falhado. Dois retratos? Eram realmente dois retratos com seus versos colados entre si ou mais uma jogada de Kevin? Eu entraria naquela aposta? Ele podia estar blefando novamente e aproveitaria meu instante de distração para saltar sobre mim e me impedir de fugir. Mas, e se eu arriscasse ir embora? O que haveria de tão importante ali a ponto de deixar Richard, Shakur e todos os restantes daquele jeito apático? Será que eu me arrependeria pelo resto dos meus dias por não ter visto o conteúdo daquela segunda fotografia?

Completamente aturdida, traguei outro gole de ar e, muito lentamente, girei a fotografia na palma da minha mão encharcada de suor e a trouxe até o alcance de minha visão. Quando meus olhos pousaram sobre o que ali estava, meu coração deu uma quicada tão violenta dentro do peito que quase me fez cair de boca no chão. A náusea ficara avassaladora e fui tomada por sensações contraditórias. Uma dor terrível me fez entrar em choque, como se tivessem rasgado minha alma a dentadas, e uma felicidade transbordante, daquelas que você é capaz de se jogar do Empire States e plainar no ar, surgiram como numa onda e turvaram meus sentidos.

Não podia ser!

O retrato mostrava uma mulher muito abatida, montada num cavalo, e envolta em um tipo de manta utilizada pelos zirquinianos. Até aí nada de mais, se, atrás do cavalo, não estivesse evidente uma branca muralha de gelo e névoa inesquecível — a Floresta Fria —, se, no céu, um astro em forma de pupila contraída não fizesse o papel de lua e, principalmente, se aquela mulher não fosse...

Stela!

Cristo Deus! Minha mãe estava viva! Viva e ali em Zyrk?

E, se eu fosse embora, nunca mais a veria?

 

O céu trincou e o peso do mundo desabou sobre minhas costas.

Mas eu não tombei.

Pelo contrário.

Senti-me forte, verdadeiramente viva pela primeira vez.

Uma fênix.

Minhas cinzas...

Complexas, defeituosas, lindas.

Aquelas que me fariam reerguer:

Minha mãe.

Meu avô.

Richard.

Dos sinais que custei a entender...

Eu tinha de ficar e lutar.

Eu era parte de Zyrk e Zyrk de mim.

Maldição ou milagre?

O que eu era? Quem eu era?

Minhas ações haveriam de determinar.

Afinal, eu era uma híbrida.

A única entre todas as dimensões.

 

Senti um puxão e os dedos gelados de Kevin afundarem no meu braço.

— Pensou demais, híbrida. Perdeu sua chance de escapar — destilou seu típico veneno.

Eu sorri.

— É aí que você se engana.

 

FIM

 

Veja como termina essa incrível história no último livro da trilogia que está dando o que falar!

Você terminou Não Olhe!

FML Pepper

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