Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 11 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 11

 

Dois longos dias se arrastaram depois daquela conversa que tive com John. Talvez eu o tivesse aborrecido ou ele estivesse em alguma missão, pois desaparecera desde então. Ele e Kaller. As aias ficavam mais gentis e solícitas a cada encontro, mas estava cada vez mais difícil segurar a angústia que crescia em meu peito por não enxergar uma saída viável, uma forma de escapar dali. Apesar de bem tratada, eu era o tempo todo escoltada por soldados da guarda nos poucos locais em que era permitida a minha entrada. Em resumo: eu nada mais era do que uma prisioneira de luxo.

Até que os ventos começaram a mudar...

— Encomenda para a senhora — informou um serviçal que batia à minha porta na manhã do terceiro dia em Storm.

— O que é? — perguntei e, ao sair ao seu encontro, tive uma grata surpresa: não havia nenhum soldado vigiando meu aposento.

— John mandou a senhora vestir o que está aí dentro — disse ele olhando para o embrulho —, e que o encontre na arena assim que o sol começar a ficar a oeste.

— Sol a oeste? — contraí os lábios.

— Ah! John me disse para falar em horas... — Olhou para cima como quem faz cálculos. — Daqui a duas horas — explicou orgulhoso de si mesmo, entregou-me o pacote e saiu. Bati a porta e rasguei o embrulho ali mesmo. Agitada, senti meu coração bombear mais sangue que o normal. Seria o que eu estava pensando?

— Sim! — sorri satisfeita.

John havia me enviado o mesmo uniforme que as mulheres de Zyrk utilizavam quando estavam em treinamento. Finalmente me veria livre da montoeira de panos dos vestidos que era obrigada a vestir. Que felicidade em me deparar com um par de calças compridas! A blusa era um pouco larga, mas estava tudo bem! Aliás, estava tudo ótimo, exceto pelas horrendas sandálias de tiras de couro. Teria de me acostumar a elas.

As aias também não apareceram e, aproveitando meu momento de suposta liberdade, fui rapidamente para a arena. Não podia correr o risco de alguém me impedir. O treinamento devia ter dado uma pausa, pois a arena estava vazia e silenciosa. E parecia bem maior também, com o piso de mármore branco acinzentado refletindo a luz que penetrava pela claraboia do teto.

— O que está fazendo aqui? — Uma voz masculina me pegou de surpresa.

Eu dei um salto e meu coração veio à boca.

— John?! — guinchei. — Um susto pode ser mais letal que uma arma, sabia?

— Não. — Ele me lançou um sorriso brincalhão e estalou a língua. — Talvez então eu possa levá-lo comigo para uma missão.

— Engraçadinho — resmunguei enquanto ele ria da própria piada. — Onde você esteve?

— Sentiu minha falta? — rebateu ele.

— Não o encontrei em lugar nenhum.

— Ah! Então sentiu minha falta — concluiu com um amplo sorriso.

— Não é isso! É que...

Se ele soubesse o meu real interesse em procurá-lo...

— As roupas ficaram bem em você — interrompeu e deu uma boa checada no meu corpo. Corei. — Precisam apenas de uns ajustes.

Antes que eu pudesse compreender o que ele estava querendo dizer, John encontrava-se a poucos centímetros de mim e olhava avidamente para a minha cintura.

— O que está fazendo? — perguntei atordoada.

— Isso pode atrapalhar você.

Olhei para baixo e o vi dando um nó na barra da minha camisa. Seus dedos chegaram a tocar de leve a minha pele e todos os pelos de minha barriga se eriçaram. Ele percebeu e eu poderia jurar que ele gostou daquilo.

— As mulheres zirquinianas costumam fazer isto. Colocam o nó no lado oposto da mão principal. No seu caso, será no lado direito porque você é canhota — lançou outro sorriso enquanto tornava a se afastar.

— Você é um bom observador.

— Acho que estou ficando melhor neste quesito — rebateu, continuando a me fitar.

— Vamos começar? — apressei-me em dizer, constrangida com o rumo que a conversa estava tomando.

— Claro.

Ele caminhou até o centro da quadra. Jogou os fartos cabelos ruivos para trás das orelhas e me chamou para perto dele com um movimento de mãos.

— Kaller sabe que você vai me treinar? — perguntei logo.

Ele confirmou balançando a cabeça.

— E ele permitiu?

— Mais ou menos.

— Como assim?

— Ele me pediu que a distraísse.

— Sério?

— Uma forma de gastar meu tempo, uma vez que não consentiu minha partida para outra missão — suspirou e, desgostoso, apontou-me a panturrilha enfaixada. John ainda estava convalescente. — Meu pai também percebeu, Nina, que seu estado de ânimo vem piorando com o passar dos dias.

— E aí... — Levei as mãos à cintura e minhas sobrancelhas se arquearam.

— Ele não determinou como seria a distração — John piscou para mim, triunfante. — Achei que, dadas às circunstâncias, esta atividade a agradaria.

Sorri. E foi de verdade. Pela primeira vez desde que pusera os pés em Storm.

— Não se anime muito. Logo ele saberá, e não sei se permitirá que continuemos.

— Pensarei nisto depois. Com que arma vamos começar? — perguntei empolgada.

— Com nenhuma.

— Hã? Nenhuma?

Meu sorriso desapareceu.

— Vamos começar trabalhando os seus reflexos.

— Reflexos?! — questionei inflamada.

Que ótimo! Como fugiria dali utilizando apenas meus magníficos reflexos?

— Sim. Precisamos treiná-los.

— Mas eu queria...

— Aprender a lutar? Manejar armas? — Ele adquiriu uma expressão ininteligível. — Isto demoraria anos. E, pelo visto, acho que não se encaixa bem no que você deseja no momento, não é?

Engoli em seco. O que ele queria dizer com aquilo? Teria percebido minhas verdadeiras intenções? Seria tão óbvio que o que eu mais desejava era me mandar o mais rápido possível daquele lugar?

— Ok. Vamos trabalhar meus reflexos — assenti resignada.

— Bom.

Num rodopio, ele já estava atrás de mim, imobilizando meus braços.

— Ai! Como você fez isto? — queixei-me.

Ele me soltou e tornou a se posicionar à minha frente.

— Foco, Nina. Você tem que estar focada. Avalie os prováveis movimentos do seu oponente.

— Tá bom. Vamos tentar de novo... Ah!

E John já estava atrás de mim. Imobilizando-me. Novamente.

Fiz muita força para me livrar dele, mas nada. Tudo que consegui foi ser arremessada pelo túnel do tempo a um passado recente. Seus braços, apesar de não serem tão fortes e quentes quanto os de Richard, fizeram-me delirar por alguns segundos e revivi o furacão de emoções que aquele cretino gerava em minhas células. Por mais que tentasse extingui-lo de minha memória, a mínima lembrança de seu rosto perfeito e atormentado fulminava minhas certezas. Mas eu tinha de ser mais forte que minha mente. Tinha que afastar qualquer lembrança daquele mercenário para um lugar bem distante, apagá-las definitivamente de dentro da minha alma.

— Nina?

Ops! A viagem havia acabado.

— O que houve? Não está se sentindo bem?

John percebeu.

— Eu... eu fiquei um pouco tonta — menti.

— Quer parar?

— De jeito algum! — exclamei, recuperada de meus devaneios. — Vamos lá!

John voltou a sua posição inicial e deu o sinal de que ia atacar.

— Droga! — resmunguei ao vê-lo me prender novamente. Aquilo começava a perder a graça. Para mim. Não para ele, que parecia estar se divertindo bastante. Como os garotos daquela dimensão eram fortes! Tentei mordê-lo, mas meus dentes se depararam com uma espécie de barreira. — O que é isso? — assustei-me, sentindo fisgadas lancinantes nos dentes. Ele riu e me soltou.

— Você achou que se livraria de um guerreiro a dentadas? — Havia um misto de incredulidade e gozação em sua voz.

— Eu... O que você está usando, afinal? — John levantou a camisa branca até os cotovelos. Grossas faixas de couro cobriam seus antebraços. Claro! Como não pensei nisso antes?

— Estas proteções nos livram dos pequenos cortes que podem nos distrair durante uma luta. Têm a vantagem de serem flexíveis e bem mais leves que as armaduras metálicas — ele explicava olhando para elas.

Primeira lição: não adiantava mordê-los.

— De novo! — comandei, e num piscar de olhos, ele assumira a mesma posição anterior, ou seja, imobilizava-me por trás.

Meu Deus! Como ele era rápido! Desta vez não reagi, na verdade eu não tive nem como pensar nesta hipótese. Sua respiração quente me atingiu a nuca, paralisando-me com mais eficiência que seu golpe anterior. Um tremor seguido de um formigamento. Estávamos tão colados que eu não conseguia distinguir se aquele trepidar vinha do meu corpo ou do dele.

— Tente, Nina! — ele comandava com candura ao perceber meu estado petrificado. — Tente se livrar de mim. — Sua voz macia ressoando em minha orelha direita me deixou zonza.

— Eu não consigo! — arfei desanimada e ele me soltou.

— Você tem duas alternativas — ele se adiantou em explicar: — Antecipar o movimento do seu adversário ou libertar-se dele o mais rápido possível.

— Mas são alternativas de fuga — retruquei.

— Claro que são alternativas de fuga. São alternativas de sobrevivência! — ralhou. — O que você queria? Partir para o confronto? Usando espadas, dentes ou o próprio punho?

Sua resposta azeda me fez encolher.

— Eu... Desculpe — murmurei.

John gesticulou com a cabeça, aceitando minhas desculpas.

— Você tem que tentar se livrar do seu adversário o mais rápido possível. Não pode permitir ser imobilizada. Tem que agir antes, fui claro?

— O que eu tenho que fazer então?

— O oposto do que vem tentando.

— Hã?

— Seu oponente espera exatamente o que você está tentando fazer. É óbvio — lançou-me uma piscadela. — Você precisa surpreendê-lo. Precisa desequilibrá-lo. Esta é sua única saída.

— Mas, como? Vocês... Quero dizer, você é forte demais.

— Eu não sou tão forte assim — suspirou. — O que você tem de fazer é alterar o centro de resistência do seu adversário. — Meu olhar de ponto de interrogação o fez rebobinar: — Você vai se abaixar o mais rápido que puder e executar este movimento de torção com seu corpo. — Ele exemplificou com um giro. O negócio era muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Impossível! pensei, mas assenti com a cabeça.

— Vamos tentar novamente — pedi.

Eu não queria parecer fraca, muito menos desistir. Depois de umas dez frustrantes tentativas, minha determinação já tinha ido por água abaixo, juntamente com a minha paciência: — Que droga!

— Tudo bem. Você já fez muito para um primeiro dia — consolou-me ele.

— Não!

— Não o quê?

— Eu não vou embora antes de conseguir — rosnei e ele riu.

— Então vamos ter de acampar por aqui — brincou ele, e eu cerrei as sobrancelhas. —Nina, se este golpe fosse fácil, todos saberiam como se livrar dele, não acha? Você vai ter que praticar bastante até conseguir.

— Mas até eu conseguir...

— Calma. Vou lhe mostrar outros truques enquanto isto.

— Tudo bem. Mas deixe-me tentar só mais uma vez.

— Você vai ficar toda dolorida amanhã — advertiu-me.

— Por favor? — implorei.

— Só mais uma vez e depois você vai se recolher.

— Combinado!

— Aqui. — Desta vez ele não apareceu magicamente às minhas costas como David Copperfield. Lentamente, John se posicionou atrás de mim e imobilizou meus braços. — Concentre-se. Respire enquanto age, ok? Quando eu disser,... Argh!

Trapaceei. Antes mesmo que ele desse o comando, eu me abaixei e, sem conseguir acreditar no que acabara de fazer, girei meu corpo com desenvoltura e o desequilibrei. Ou será que ele se deixou desequilibrar? Bem, o fato é que nós tombamos e John caiu por cima de mim.

— Uau! — ele sorria, deixando seu rosto a poucos centímetros do meu. Suas sardas pareciam piscar para mim. — Acho que encontrei uma ótima aluna. Vou ter de acelerar nosso treinamento.

— Posso passar para as armas? — indaguei sem ter coragem de encará-lo, querendo que ele saísse logo de cima de mim.

— Talvez.

Sua fisionomia ficou grave.

— Talvez por quê? — Revidei seu olhar e senti uma inquietude dentro de mim.

— Porque...

John engoliu em seco. Nossas respirações ofegantes se cruzaram. Atordoada, não fiz menção de sair debaixo dele. John começou a se aproximar demais e suas mãos apertavam as minhas com avidez. Ele tremeu e meu corpo se arrepiou por inteiro. Arrepiar?! Claro! Como poderia ter me esquecido? Eles causavam este tipo de sensação em mim. Tremores, calafrios, até sugar minha energia vital.

— Não! — guinchei e o empurrei.

— Desculpe! Eu... Eu não sei o que houve.

Mas eu sabia. Eu os atraía. Eu era uma espécie de ímã para os zirquinianos e uma ameaça para mim mesma. Ao mesmo tempo em que os sugava para o meu campo magnético, atraídos pelas indescritíveis sensações que poderiam experimentar, eu acabava me colocando em perigo. Eles tinham a capacidade de sugar a essência da vida, caso ultrapassassem as barreiras seguras do contato com algum humano (ou com uma híbrida!). Desempenhavam uma única função que eu não poderia esquecer em hipótese alguma: todos naquela dimensão nada mais eram que a Morte, literalmente e em pessoa.

— Não, John! Nenhum de vocês tocará mais em mim! Não vou cair nessa cilada novamente, ouviu bem? — esbravejei, levantando-me rapidamente.

— Eu... eu sinto muito — retrucou e seus olhos se arregalaram. — Tocar? Novamente? Então é verdade?! — Sua voz saiu áspera.

—Hã?

— Sobre você e Richard? Nunca acreditei nos comentários... Que pudesse ter acontecido algo entre vocês dois... Não com aquele sanguinário! — bradou indignado.

— Não houve nada entre mim e Richard!

— Houve sim! — rugiu. — Você está mentindo!

— Não estou não! — rebati na mesma moeda.

Estava tão óbvio assim na minha cara?

— Tenho certeza de que está!

— Não estou!

— Então ele... Ele forçou você? Ele obrigou você a...?

O que era aquilo? Uma crise de ciúmes?

— Richard é um throniano, garota! Ele não tem escrúpulos! — Transtornado, ele continuava: — Nunca teve.

— Ele não me obrigou a nada e não houve nada, John. Nada que vale a pena lembrar! — perdi a força e soltei um murmúrio infeliz: — Eu que fui a idiota. Apenas isso.

John se calou. Acho que chegou a pensar em me abraçar, mas estancou quando me esquivei.

— É possível que você tenha sido vítima de algum poder oculto — disse com o olhar sombrio.

— Como assim?

— O número de mortes tão expressivo que ele possui só é possível por força sobrenatural, Nina. Corre por toda Zyrk que ele é o filho encarnado do mal, o demônio em pessoa.

— Meu Deus! — levei as mãos à boca e, sem perceber, me amparei na parede detrás de mim.

— Sinto muito se a assustei, eu...

— Não, John. Você fez bem em me contar eu... eu só estou um pouco cansada — soltei subitamente abatida.

— Venha! — disse ele sem me encarar. — Vou te acompanhar até o seu quarto.

John parecia desolado. Caminhamos em silêncio por todo o caminho de volta. Antes de me ver entrar, ele pigarreou: — Nina, em algum momento Kaller disse algo sobre ele...

Tímidas, as palavras dançavam dentro de sua boca, mas se recusavam a dar o ar da graça. John se retraiu.

— Sobre ele o quê?

— Nada. Bom descanso.

E saiu depressa, deixando-me intrigada. John estava mais que chateado. Algo o preocupava.