Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 3 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 3

 

— Finalmente! — disse a tal Tori assim que acordei. Ela estava sentada num banquinho de madeira ao lado da cama. Barulho de algazarra preenchia os corredores do lado de fora do aposento.

— Há quanto tempo estou desacordada? — perguntei sobressaltada porém com certo alívio de perceber meu corpo respondendo aos meus comandos.

— Desde ontem à noite.

— Apaguei por vinte e quatro horas? — Fiz a pergunta sem olhar para ela. Naquele momento eu estava sentada e mais preocupada em checar os movimentos de pernas e braços.

— Sim — respondeu. — O sono é reparador. Vejo que está melhor, híbrida. Vista isso.

— Para quê esse vestido? — Finalmente lhe dei atenção.

— Você vai para a festa — respondeu Tori de forma enérgica. Ela era uma senhora miúda, com os cabelos curtos e o rosto repleto de rugas.

— Eu não vou a festa alguma — rebati no mesmo tom, pondo-me de pé pela primeira vez.

— São ordens, híbrida. — Suas pupilas tremeram e eu vacilei. Por um instante, havia me esquecido de onde estava. Observar um ser semelhante a mim era tão assustador quanto hipnotizante.

— De quem? — balbuciei.

— Shakur. Ele quer que você se alimente.

Ele não manda em mim!, é o que eu queria berrar, mas tive a sensatez de me manter calada.

— Eu não estou com fome.

Pura mentira. Eu estava faminta e ao mesmo tempo apavorada com meu trágico destino e o sinistro mundo que o envolvia.

— Está sim — constatou. — Sua energia está inconstante e um pouco de comida lhe fará muito bem. — Levando as mãos à cabeça grisalha, acrescentou sem paciência: — Shakur disse que quer vê-la se alimentar. Aproveite o raro bom humor do líder e não o aborreça, garota. Você não imagina como sua tolerância é curta e do que ele é capaz de fazer se for contrariado.

— Do que ele é capaz?

— É melhor não procurar saber, híbrida — respondeu enigmática. — Tome. Deve caber. — Ranzinza, ela jogou um vestido sobre mim. Sem mangas, a parte de cima era justa e a parte de baixo terminava em uma saia longa e volumosa. Ele era negro e se mesclava perfeitamente com tudo ao meu redor.

Tori nem precisaria me acompanhar até o grande salão. Bastaria seguir o estridente som da música e das risadas altas. Em meio à animação da festa, para meu alívio, minha chegada passou despercebida.

— Vá — disse ela, empurrando-me agitada em direção a uma pomposa mesa onde o líder se encontrava. — E cuidado com o que fala. — Assim como o trono mais adiante, ela era feita de uma pedra negra e brilhosa. Shakur estava sozinho e olhava em nossa direção.

— Sente-se aqui — Shakur mostrou a cadeira a seu lado assim que me aproximei. A mesa ficava na parte superior do salão, próxima ao altar. Não me recordava de tê-la visto ali na véspera. — Coma — mandou. Olhei para a comida disposta e, mesmo estando faminta, não consegui segurar a ânsia em meu estômago. Cobras, lagartos, ratos, pombos e outros bichos que eu não consegui reconhecer jaziam praticamente crus nas compotas à minha frente. Ugh! Aquela era a comida dos zirquinianos? Nem porcos se atreveriam a tocá-la! — Coma. — Impaciente, ele tornou a ordenar ao ver meu estado catatônico.

Aquele era seu bom humor?

— Eu não estou com...

— Coma, híbrida, antes que eu enfie a comida em sua boca — ameaçou.

Um déjà vu! Os modos rudes de Richard espelhavam-se nos do sinistro líder a quem ele admirava. Apavorada, procurei algum pedaço entre as carnes que estivesse mais cozido, ou melhor, menos cru. Detectei uma coxa meio queimada de uma ave pequena e a puxei. Prendendo a respiração, enfiei os dentes nela enquanto Shakur me observava, indecifrável, por detrás da máscara negra. O sabor não era ruim, mas também não era bom. Insosso. Se aquela era a comida de festa, estava na cara o porquê das pessoas por ali serem loucas por bebida. Para minha sorte, o líder se deu por satisfeito depois de algumas mordidas e parou de me encarar.

— Estou com sede — afirmei, e ele levantou o braço. Num piscar de olhos, um homem colocava uma caneca de alumínio transbordando um líquido vermelho-amarronzado bem na minha frente.

— Não exagere — determinou intransigente e eu assenti com a cabeça.

Que tipo de bebida era aquela? Fui surpreendida com o sabor e a textura. Ela era espessa, adocicada e esquentava minha garganta de uma maneira muito suave. Seria alcoólica? Pouco importava agora. Após alguns goles, era a bebida mais deliciosa que já havia experimentado na vida!

— Chega! — ordenou Shakur ao ver como eu sorvia o líquido com avidez. Ele fez outro gesto com as mãos e a caneca desapareceu da minha frente, sendo substituída por uma cheia d’água.

Percebi que as pessoas não tinham autorização para subir até a área onde eu e Shakur estávamos, mas isto não as impedia de se aproximarem até a base da escadaria para me observar. Constatei que quase não havia mulheres por ali.

Atordoada com o ambiente que me rodeava e sentindo a coxa daquele maldito pássaro estufando em meu estômago e ameaçando voltar pela boca, só não me levantei e saí gritando que queria ir embora porque naquele exato momento senti um calafrio arrebatador percorrer minha pele. O mesmo calafrio que costumava esquentar e atordoar a minha alma.

Richard.

Entre as numerosas risadas que pipocavam pelo salão, uma delas me atingiu como um tiro certeiro. Meu coração deu um disparo, sentia mais sangue correndo em minhas veias e minhas pernas ameaçaram bambear. Sorrindo e descontraído, Richard apareceu abraçando a tal Galega e mais duas garotas, até que chegou um rapaz, que logo depois reconheci: o tal do Morris.

Que ótimo! Não havia quase mulheres por ali e as poucas presentes pareciam disputá-lo à tapa.

Um ódio enlouquecedor me queimou por dentro. Eu não queria admitir, mas sabia que, bem lá no fundo, eu estava louca da vida comigo por estar morrendo de ciúmes de um rapaz que eu deveria odiar. Como se lesse meus pensamentos, Richard se virou e me encarou por um instante. Eu não desviei o olhar e mantive minha postura firme e interrogativa. Sua fisionomia se modificou, ficando imediatamente séria. De repente ele disse alguma coisa ao pé do ouvido delas, que a seguir soltaram novas risadas e, para minha surpresa, todos eles começaram a caminhar em minha direção. Ah, não! Mais sangue pulsava em meus ouvidos e um latejar furioso reverberava em meu crânio. Ele não vai subir. Ele não vai subir.

Mas ele subiu.

Droga!

Os cinco o reverenciaram em uníssono: — Shakur!

— Sentem-se! Estou de saída — retrucou o todo-poderoso.

Boa! Eu encontrara minha saída estratégica. Iria embora com o líder.

— Ela não devia estar descansando? — Richard questionou o líder.

Você não manda em mim, seu cretino. Agora eu fico.

— Já descansei bastante — rebati sarcástica. — Quero explorar um pouco mais o meu “novo lar”.

— Você ainda está fraca — respondeu ele entredentes, estudando-me com seu olhar felino. Ele não parecia estar bêbado. — Precisa dormir.

— Dormir? Ou você quer dizer “ficar apagada”? Se for isso, acho que já “dormi” suficiente para os próximos dez anos — retruquei com tom de voz desafiador. — Da próxima vez que eu quiser dormir, eu mesma fecho os olhos, não se preocupe. A não ser, é claro, que algum de vocês resolva sugar minha energia antes.

As pupilas de Richard tremeram por um segundo e acho que somente eu captei. Eu o estava tirando do sério. Perfeito!

— Que bom que já se entenderam! — gargalhou Morris, descontraindo o clima.

— Você fica encarregado de conduzir a híbrida para o seu aposento, Morris — finalizou Shakur, saindo dali sem olhar para trás.

— Eu a levo — intrometeu-se Richard, e meu coração tornou a tamborilar no peito.

O líder parou e, girando o rosto sobre o ombro, respondeu com a voz modificada: — Não. Você ainda está muito tenso, Rick.

— Ele bebeu muito pouco até agora — explicou uma das garotas. Ela era bem morena e tinha longos cabelos negros.

— Acho que ele não está muito animado com a nossa companhia — disse a mais baixa, fazendo falso beicinho. Ela tinha o rosto delicado, como o de uma boneca de porcelana, só que bêbada.

Algo dentro de mim adorou aquele comentário.

— Richard veio diferente desta missão — confessou a tal Galega. Ela parecia me estudar com seus grandes olhos azuis. — Mas... nada que uma boa massagem não cure, baby — suspirou.

— Morris leva a híbrida e ponto final — ordenou o líder fazendo uma breve varredura nos nossos rostos antes de sair.

— Vamos dançar, baby — ronronou a Galega para Richard.

— Agora não.

— Você está muito parado, Rick — reclamou a morena.

— Venha cá. — Ele ordenou e ela obedeceu na mesma hora. — Vá dançar. Eu já te encontro — disse, tascando um tapinha no bumbum dela. Safado!

— Você promete?

Ele sorriu, debochado: — Não, mas vou fazer o possível.

— Ah, Rick! Você não presta!

Finalmente ouvi uma verdade.

— Vá e leve Sony com você.

— O quê? — guinchou a baixinha. — Ah, não! Deixe-me ficar com você, Rick!

— Amanhã.

— Não vou pedir para você jurar — respondeu ela, fazendo-se de ofendida. Richard e Morris gargalharam. — Você dois são impossíveis! — reclamou.

— S-sobrou pra mim? — Bêbado, Morris achava graça de tudo. — Sou inocente nesta história.

— Ninguém é inocente aqui, Morris — adicionou a Galega, satisfeita por ter restado apenas ela.

E eu.

— Você não comeu — constatou Richard olhando para o meu prato intocado.

— Estou satisfeita — enfrentei-o.

— Sei — murmurou. Então se virou para a loura e disse com entonação modificada e sedutora: — Galega, vá e prepare minha cama. Vou precisar de você.

— Por que não vem comigo?

— Porque ainda tenho alguns assuntos para tratar com Morris.

— Você pode fazer isso amanhã.

— Não me conteste! — ele rugiu, e ela se encolheu no mesmo instante.

Quarta constatação: seu humor continuava instável.

— Tudo bem. — Ela se retraiu e saiu, mas não sem antes me analisar da cabeça aos pés. — Não demore.

Ele não disse nada e apenas meneou a cabeça. Assim que ela se afastou ele se dirigiu a Morris.

— Eu levo a híbrida, Morris.

— N-negativo — soluçou o colega. — Q-quer arrumar problema para o meu lado?

— Você é que vai arrumar problema caso aconteça algo de errado com ela. E isso é bem possível no seu estado.

— Que estado? E-eu estou ótimo. Veja! — Morris quase caiu ao tentar se levantar. Richard gargalhou.

— Está sim. Além do mais, aproveite suas últimas horas de descanso. Eu sei que você ficará de plantão nas próximas noites.

— O-obrigado, Rick. Você manda!

— Venha — disse Richard autoritário, puxando-me pela mão. — Está na hora de você comer alguma coisa.

— Quer me soltar!? Eu já comi — respondi apavorada só de imaginar o que ele pretendia me fazer comer.

Ele não me deu ouvidos e, comigo a tiracolo, saiu de lá a passos largos. Mesmo contra minha vontade, o simples contato de sua mão aprisionando a minha foi o suficiente para provocar uma corrente de arrepios por minha pele contrapondo-se à onda de calor que subia pelo meu pescoço.

— Para onde está me levando? — indaguei enquanto percorríamos um corredor escavado nas pedras carbonizadas. Carregando uma tocha acesa, Richard abria caminho pelo sombrio ambiente. Um odor desagradável, uma mistura de fumaça, umidade e mofo, entranhava-se por minhas narinas. Aquele castelo parecia ter saído de um filme de terror.

— Shhh! Você verá — respondeu sem olhar para trás, o que me permitia admirar seu andar altivo e ágil ao mesmo tempo, suas costas largas e os fartos cabelos negros. De banho tomado e com roupas limpas, ele estava mais lindo do que nunca.

Richard me conduziu para um lugar de onde vinha alguma claridade e o som de pessoas conversando. Ao entrar, percebi que se tratava de uma cozinha. Como todos os demais aposentos do castelo, era escura, e o chão e as paredes feitos da mesma estrutura vulcânica da qual Thron era constituída. Para variar, não havia janelas e quatro enormes fogões a lenha ocupavam as quatro paredes do lugar. Apesar de todos eles terem chaminés que canalizavam o vapor para alguns pequenos buracos que se viam no teto, pouca diferença fazia. Uma fumaça claustrofóbica impregnava o ambiente. Sentadas ao redor de duas rústicas mesas de madeira que se destacavam no seu centro, senhoras depenavam aves de todos os tipos e tamanhos. Elas ficaram paralisadas com a minha chegada, quase em choque. Eu estava no mesmo estado. Ah, não! O que seria agora? Um urubu cru ou um falcão guisado?

— Fique aqui — disse ele e eu obedeci, a náusea ameaçando retornar com força total.

Richard se afastou, cochichou no ouvido de uma delas que olhou para mim e, sorrindo, apontou para um nicho esculpido na parede de pedra. Nele havia jarros de vidro, uns com água outros cheios de uma bebida marrom, provavelmente a que estava sendo servida na festa. Potes de barro redondos encontravam-se dispostos aleatoriamente. Richard pegou o menor deles e veio em minha direção. — Vamos — comandou animado, puxando-me pelo braço e deixando as mulheres perplexas. Com passadas rápidas, Richard me levou para um pátio que acreditei ser bem afastado do grande salão porque a barulheira ficara para trás, e um silêncio ao mesmo tempo sedutor e perigoso se fez presente. Estar a sós com ele não me parecia uma boa ideia.

— Tome. — Ele me entregou o pote e me apontou um banco de pedra. Tochas iluminavam o ambiente.

— Não, obrigada — respondi temerosa e ele achou graça.

— Você vai gostar — piscou para mim. Aquela postura amistosa fez meu coração ameaçar uns passinhos de dança, mas minha razão deu-lhe uma rasteira. Sem nada a perder, destampei o pote e o que vi instantaneamente me fez salivar: tâmaras, nozes e amêndoas frescas.

— Obrigada — soltei aliviada e, sem hesitar, enfiei uma tâmara na boca.

Ele sorriu.

— Imaginei que você detestaria nossa comida — disse com a fisionomia leve e desarmada. — Por enquanto, é tudo que tenho para lhe oferecer. Assim que reabrirem as muralhas, vou buscar comidas mais apetitosas.

— Por que está me tratando bem, Richard?

— Nina, vou lhe explicar, mas não agora. Isso tudo faz parte de um jogo.

— Sei. E ganha quem trapaceia mais? Se for isso, sua vitória já está garantida — comecei ácida.

— Se você quer enxergar por esse lado...

— O que planeja fazer comigo?

— Nada. Você está a salvo. Nenhum clã tem condições de nos atacar.

— Por que não me levou para Kaller?

— Porque fiz Shakur enxergar o quanto era importante ter você em nosso poder, não eliminar você. E Kaller... Bem, ele... — Richard titubeou.

— Kaller o quê? — insisti.

— Ele podia mudar de ideia e querer algo mais — retrucou impaciente.

Ah!

— Thron é tão mais forte assim que os demais clãs? — continuei.

— Sim. E, com você em nosso poder, Thron se tornou imbatível.

— “Em nosso poder”? Entendi... — soltei sarcástica. — Eu me tornei uma prisioneira.

— Se quiser ficar viva, sim — fechou os olhos e uniu os lábios em uma linha fina.

Raiva e impotência cresciam dentro do meu peito.

— E se eu não quiser?

Ele franziu a testa.

— Nina, eu arrisquei minha cabeça por sua causa!

— Conta outra! Você arriscou sua vida por sete mil moedas de ouro e pelo trono de Thron, isso sim! — vociferei.

— Eu sei que está brava e com razão. Mas existem mais coisas do que você é capaz de imaginar. Se eu não tivesse feito o que fiz, você não teria sobrevivido.

Richard ameaçou se aproximar, mas eu me esquivei. Ele estancou.

— Mentira — rebati.

— Você ainda não conseguiu entender? — ele trovejou e segurou meus braços com força. Tremi. — Tudo que eu fiz foi por você, droga!

— E o que você planeja agora que conseguiu o que queria? — indaguei no mesmo tom. — Desfrutar de uma sensação que só uma híbrida é capaz de lhe oferecer?

Ele arregalou os olhos, imediatamente soltou meus braços e recuou. Pronto! Eu havia tocado na ferida.

— Nina, eu não tive a intenção, eu...

Ele parecia arrependido, mas eu estava escaldada. Teria de ser tola o bastante para cair novamente na sua conversa fiada. Tornei a atacar:

— Ainda não consegui contabilizar, Richard, quantas personalidades você possui?

Ele fechou a cara e, após um momento de hesitação, respondeu com semblante sombrio: — Muitas. E talvez você não goste de algumas delas.

— Por acaso alguma delas tem certeza do que sente? Ou são todas instáveis e cheias de dúvidas como essa que está diante de mim?

— Eu não tenho mais dúvidas. Quero dizer, eu...

Senti uma angústia imediata com a reação dele.

— Viu? Você nunca teve certeza do que sentia por mim, Richard. E ainda não tem — murmurei recuperando a respiração.

— Não é tão simples assim — rosnou. — Eu sou a escória de Zyrk, Nina. O pior exemplar zirquiniano, e você... você é... — ele travou.

— Sou o quê?

— Você é o nosso milagre — balbuciou sem me encarar.

— Milagre? — debochei.

— Não importa.

Ele fechou os olhos e abaixou a cabeça.

— E agora? O que Shakur pretende fazer comigo? — voltei ao ponto que me incomodava.

— Não sei, mas ele me prometeu que não lhe faria mal.

— Shakur é uma pessoa de palavra? — alfinetei-o ao relembrar certos comentários do único zirquiniano que merecia minha confiança até então: John. — O que aconteceu com John? Ele está vivo? — inquiri com súbito aperto no peito.

Richard se enrijeceu no mesmo instante.

— Por que está preocupada com ele?

— Responda! — guinchei.

— Acho que sim — respondeu com a testa franzida.

— Acha?

— Não ouvi nenhum comentário contrário. Sim, ele deve estar vivo.

Fechei os olhos, aliviada. Ao menos não carregaria comigo a culpa de ter sido a causa da morte dele também.

— Não fosse o John, eu estaria morta há muito tempo!

— Eu sei. Por favor, me perdoe. Eu não tinha noção, eu não... — suspirou. — Nina, a gente precisa conversar, mas não devemos ser vistos juntos — acrescentou gentil e, no momento em que ele ameaçou tocar meu rosto, novamente me afastei. Ele franziu o cenho.

— Pelo que vi, isso não vai ser problema para você, Richard. Com a quantidade de companhias que você tem, por que perderia seu tempo comigo?

— Hã?

— Olha, eu quero dormir e, se não me falha a memória, você já está atrasado para seu compromisso com a Galega, não?

Ele tentou camuflar o sorriso travesso, mas emitia um brilho malicioso em seus olhos. Droga! Tinha dado na cara que ainda gostava dele!

— Ela pode esperar — sussurrou. Sua expressão cafajeste me tirou do sério.

— Você nunca me contou que tinha um harém de zirquinianas esperando por você em Thron.

Cale a boca, sua tonta!

— Harém? — Ele ergueu uma sobrancelha e apertou os lábios. — Elas não significam nada.

— Pois não parecia. Você estava bem animadinho agora há pouco — retruquei feroz. — Aliás, você estava... Hum, qual era a palavra mesmo? Ah, sim, você estava “faminto” por elas.

Ele finalmente escancarou o sorriso, fazendo-me perder a razão. Não tinha antídoto contra seu sorriso deslumbrante.

— A fome que eu tenho só uma pessoa pode saciar.

— E aquele papo de que os zirquinianos não sentem nada? Que só fazem... — calei enrubescida. — Que só se encontram para procriar?

O sorriso dele se foi e sua postura altiva foi substituída por uma pesarosa.

— É a pura verdade, entretanto...

— Entretanto? — imprensei-o.

— Nós temos curiosidades e a bebida nos permite sentir alguma coisa — confessou ainda sem me encarar enquanto passava os dedos pelas cicatrizes das mãos.

— O álcool?! Então é isso! — exclamei, finalmente compreendendo o motivo do alvoroço em Thron.

— Mas nem de longe se compara ao que eu sinto por você, Tesouro.

Havia urgência em suas palavras.

— Eu vi como você olhava para elas, Richard — rebati. — Ninguém me contou.

— Se foi capaz de ver isso, será que ainda não conseguiu enxergar que me enfeitiçou, Nina?

Ele me olhou profundamente, um olhar incandescente. Perdi a linha do raciocínio.

— Eu? — quis parecer sarcástica, mas a pergunta soou como um assovio fino.

Ele apertou os olhos e, após um momento de introspecção, confessou de forma séria e cadenciada: — Elas não significam nada para mim. Você, sim.

Senti meu escudo tombar e fiquei desarmada. Aquelas últimas palavras mexeram com algo bom dentro de mim. Eu era importante para ele?

— Agora não faz mais diferença o que você sente ou não por mim, Rick — quis bancar a durona, mas minha voz saiu fraca. Levantei-me rapidamente, certa de que, se não saísse logo dali, acabaria cedendo aos seus encantos e me arrependendo amargamente depois.

— Você não me quer mais? É isso? — Richard segurou meu braço e também se levantou. Estávamos perigosamente muito próximos.

Com uma fisionomia indecifrável, ele envolveu carinhosamente meu rosto entre suas enormes mãos, deixou seus olhos arderem nos meus e, antes que eu pudesse notar, já estava aprisionada dentro deles. Foi o suficiente para fazer minha respiração vacilar, minha pulsação acelerar, meu rosto corar. Fervi por dentro. Jesus! Eu tinha de aguentar. Eu precisava ter domínio sobre minhas emoções! Consciente do poder que ele exercia sobre mim, ele deixou seu nariz deslizar lentamente pela minha pele, gerando novos e enlouquecedores arrepios. Seus lábios úmidos passearam pelo meu pescoço, roçaram minha orelha e deslizaram delicadamente pelo meu rosto até pararem frente aos meus que, por sua vez, estavam trêmulos e inseguros. Continuávamos nos encarando, paralisados naquela arriscada posição. Seus olhos azuis pareciam ímãs e me sugavam para seu campo magnético. Deles emanava uma energia voraz, hipnotizante e intimidadora. E agora? Sim. Sim. Sim. Ele vai me beijar! Aplaudia meu corpo, exultante de felicidade. Ah, não. Droga! Nina, reaja! Berrava a voz da razão, mas meu corpo não conseguiu resistir, aliás, tudo em mim já havia derretido por dentro. Eu estava entregue.

— Você sabe que ainda me quer, Tesouro. E muito — sussurrou cheio de convencimento em meu ouvido. Com um sorriso torto no rosto, comandou assim que se afastou de mim: — Respire, Nina.

— Hã? — traguei o ar com dificuldade. Filho da mãe! Ele estava me testando! — Nunca mais faça isso, seu... seu...— rosnei com o orgulho em frangalhos.

— Venha, sua energia está instável — disse displicentemente, como se nada tivesse acontecido. — Vou levar você até seu quarto.

— Energia! — desdenhei num rugido. — Rá!

— Nina, eu sou a sua morte. Esqueceu-se disso?

— Ah! Então ainda pretende me matar? — impliquei.

— Deixe de ser infantil! — retrucou impaciente. — Eu sou capaz de sentir a sua energia vital. E vejo que já passou da hora de você descansar.

Como eu odiava aquele jeito mandão!

— Eu não quero ir! — rebati e, segurando a lágrima que insistia em rolar, deixei cair a máscara de durona e soltei infeliz: — Será que não vê que minha vida virou de cabeça para baixo, Rick? Eu perdi minha identidade e não tenho respostas para as perguntas que me assombram incessantemente. Que mundo é esse? Quem sou eu? Que futuro me aguarda?

O azul-turquesa de seus olhos cintilou. Ele passou as mãos pelos fartos cabelos e veio lentamente em minha direção.

— Eu sei — sussurrou com suavidade, encostando a testa na minha. Ele parecia sincero. — Eu vou lhe dar todas as respostas, assim que a sua energia estiver restaurada, ok? Agora você precisa descansar.

Por mais que eu não quisesse dar o braço a torcer, ele tinha razão: uma sensação de fraqueza tornava a se insinuar. Sem perder tempo ou pronunciar uma única palavra, ele me levou até meu quarto. O alvoroço no castelo em nada diminuíra.

Antes de eu entrar no aposento e sem que eu esperasse, ele me puxou para junto dele, envolveu uma de minhas mãos com suavidade e beijou-a num gesto rápido. Rever suas cicatrizes tão de perto era ao mesmo tempo delicioso e assustador.

— Lembre-se: nós não podemos ser vistos juntos — sussurrou ele.

— E as respostas? — indaguei. No fundo, eu não sabia se minha agonia era pelo fato de não poder estar com ele ou por não ter acesso às respostas que eu tanto precisava.

Ele apenas piscou para mim e se foi.