Não Olhe!

FML Pepper · Capítulo 27 de 29

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Não Olhe!

Capítulo 27

 

O que eu não daria por um relógio? Há quanto tempo estaria ali aguardando? Minutos? Horas? Não ter noção do tempo é simplesmente enlouquecedor quando o que lhe resta de esperança se resume a alguns míseros e decisivos minutos. Some-se a isto o fato de que o pavor potencializa o pânico e a expectativa de uma forma incomensurável. Estava claro que meus neurônios em combustão seriam mais capazes de me incapacitar do que minhas pernas congeladas. Assim que amanhecesse, conseguiria correr rápido o suficiente para me desvencilhar de meus inimigos e chegar ao portal em segurança? E se eu não conseguisse identificá-lo? Um turbilhão de perguntas me açoitava com violência e não possuía resposta para nenhuma delas. Decidi não pensar mais, agiria por instinto. A lua de Zyrk estava alta e, apesar de brilhante, a claridade que fornecia era insuficiente e uma penumbra sinistra envelopava tudo. O céu desanuviado e sem estrelas me dava permissão para estudá-lo em seus mínimos detalhes, conferindo a cada segundo se realmente estava na direção da junção entre o cinza médio de Windston e o cinza escuro de Marmon. Inspirava grandes goles de ar tentando encontrar um meio de me acalmar enquanto aguardava o tempo caminhar a passos de cágado.

Devido a alguma mágica ou poder sobrenatural, eu estava relativamente bem: sem ferimentos e capaz de suportar o freezer que me envolvia. Mas John deixara claro que os zirquinianos não conseguiriam resistir àquela floresta assassina. Era verdade. Eu vi. Ela não tinha misericórdia com os intrusos daquela dimensão, eliminando-os sem hesitação, quer através das graves feridas, quer congelando seus corpos e almas até a morte. Paradoxalmente, ela era a minha guardiã agora. A macabra Floresta Fria me protegia deles. E se eu não saísse dali? E se resolvesse ficar escondida por mais alguns dias? Será que eles desistiriam de mim? De me procurar? A resposta veio tão rápida que quase atropelou a pergunta. Era óbvio que não! Eles nunca desistiriam! E, apesar de eu ser relativamente resistente àquele lugar macabro, sabia que o frio e a fome me debilitariam e minhas chances de fuga ficariam ainda menores.

Um ruído distante me resgatou do transe momentâneo. Forcei a audição e nada. Como tudo estava congelado ao meu redor, calculei que poderia ter sido um pedaço de granizo deslocado pelo vento. Três respirações depois, outro ruído bem mais forte que o anterior me fez dar um salto, deixando-me em estado de alerta máximo. Aguardando pelo pior, saquei o punhal que John me dera e me escondi atrás da carcaça de um tronco congelado. Em meio à penumbra e ao tenebroso silêncio que me envolvia, segurei a respiração, mas meu coração me traiu, incriminando-me com um batuque de tique-taques acelerados a altíssimos decibéis.

— Não! — berrei apavorada.

— Cuidado com isso!

Foi tudo tão rápido que mal consegui compreender o que se passou nos instantes seguintes. O tempo de apenas uma pulsação foi o suficiente para que me visse amordaçada e imobilizada. Uma voz grave e arrastada emergiu por trás de minhas orelhas descobertas, sacando meu punhal com agilidade. Senti minha alma regozijar dentro do peito e meu corpo ferver em sincronia. Era ele! Olhei por cima de meu ombro esquerdo e lá estava Richard, suas hipnóticas pedras azuis–turquesa imobilizando-me mais do que suas enormes mãos.

— Richard! Graças a Deus! — Eu me joguei sobre ele, abraçando-o sôfrega e desesperadamente. Pego de surpresa, ele arregalou os olhos e deixou os braços tombarem frouxos ao lado do corpo. No instante seguinte, repelia-me com olhar duro, tão congelado quanto tudo ao meu redor. Engoli aquela decepção em seco. Eu a merecia.

— Vim apenas escoltá-la até o portal.

— Você conseguiu! — arfei feliz.

— Não tão bem quanto você, não? — Ele me checava de cima a baixo, como se estivesse fazendo um check-list. — Parabéns. — A frieza de sua voz deixava o ambiente ainda mais gélido.

Passada a euforia inicial, fui trazida à compreensão dos fatos: Richard estava péssimo! Completamente pálido, havia sangue cobrindo a parte superior de sua camisa rasgada. Os cortes assimétricos em seus ombros e costas confirmavam que ele havia sido castigado pelo exército de gelo.

— Meu Deus! Você está ferido. Está tremendo demais! — constatei preocupada.

— Não é nada sério — retrucou indiferente, mas sua aparência dava sinais claros de exaustão. Respirando com dificuldade, ele se deixou afundar na neve fofa.

— Você não está bem — tornei a me aproximar. Ele encarava o chão. — Graças aos céus a Sra. Brit conseguiu te encontrar!

Ele abriu um sorrisinho irônico, mas não disse nada.

— Você veio só? — perguntei.

— Estava esperando mais alguém? — rebateu com o semblante ao mesmo tempo sarcástico e inquisidor.

Eu mordi a língua. Era óbvio que estava se referindo a John.

— Eu não quero ir — fingi não entender a pergunta e implorei enquanto me sentava ao seu lado. — Eu não tenho por que ir.

— E tem por que ficar? — suas perguntas estavam mais ácidas do que nunca.

— Tenho — confessei enquanto agarrava uma de suas mãos e olhava bem dentro de seus magníficos olhos.

— Se não for, morrerá — ele desviou o olhar de mim.

— E se for também! — grunhi.

— Sim, um dia. Mas não agora.

Novo nó em meu estômago.

— Você estará imune por algum tempo — confessou de olhos fechados e a cabeça inclinada para trás.

— Por quanto tempo?

— Não sei. Acho que Wangor está tentando algum tipo de negociação neste momento. Soube que seu avô é bom nisso. — Ele apertou os lábios. — Acho que Wangor pretende conseguir um encontro entre os líderes dos quatro clãs e o Grande Conselho para que decidam, uma vez por todas, quando deverá ser o dia de sua partida.

— Irão finalmente decidir o dia de minha morte?

— Sim. Seu tempo ainda não foi definido — Richard suspirou e tornou a abrir os olhos.

— Meu tempo...

— Não se preocupe com isto. Sua vida será igual à de qualquer humano: sabe-se apenas o dia de chegada e nunca o de partida — acrescentou. — Vou levá-la até o portal de saída. De lá em diante você tem segurança garantida. Já está tudo acertado.

O que estava camuflado na sua voz mais seca que de costume? Mágoa? Preocupação? Dor? Aquela sensação me deixou agoniada. Alguma coisa errada pairava no ar, pesada.

— O que está me escondendo? — envolvi uma de suas mãos e pude sentir o porquê de ele estar estranho. — Você está congelando, Rick! Você pode ter uma hipotermia!

— Eu aguento.

— Pare de bancar o durão! Você vai desmaiar e não vai demorar a acontecer.

Tremendo, ele se encolheu, mas não me contestou.

— O que você está fazendo? — Ele tentou rugir quando me viu levantar e retirar a manta, mas seu rugido saiu fraco. — Você precisa se manter aquecida. Recoloque a manta, Nina! Agora!

— Você não manda em mim e eu não quero mais esta manta. Estou com calor! — Tinha que saber a real gravidade da situação. — Se quiser, venha me impedir.

— Recoloque-a, Nina! — Richard ameaçou se levantar, mas suas pernas vacilaram.

Eu sabia! Mesmo sendo tão forte e destemido, ter sobrevivido à batalha contra aquela floresta assassina tinha ultrapassado o limite da sua resistência. Fiquei compadecida. Ele ainda lutava por mim, para me proteger. Ao seu jeitão cabeça-dura, esta era a sua demonstração de afeto, de carinho. Eu tinha que começar a entendê-lo melhor. Mesmo ali, quase desfalecendo de tanto frio, ele ainda pensava em mim. Preferia morrer congelado a retirar a manta que me protegia.

— Deixe-me aquecê-lo com ela. Por favor? — implorei, oferecendo-lhe a capa. Por incrível que pudesse parecer, eu não sentia frio naquele momento. Meu corpo estava mais quente do que nunca.

— Eu não preciso. Estou bem — objetou ele com os dentes se chocando incessantemente.

— Então vamos morrer os dois congelados porque eu também não vou usá-la.

— Pare de bobeir... — Sem me olhar, ele se encolheu e começou a reclamar baixinho. Sua força estava falhando, sua consciência ficando difícil. Era hora de agir.

— Ah, Rick! — sussurrei, precipitando-me sobre ele. Desta vez, ele não me repeliu. Abracei-o com desespero e envolvi nossos corpos com a manta. Coitado! Seu corpo parecia um picolé e ele tremia sem parar. Eu também tremia, mas era um tremor diferente, maravilhoso. O tremor que só ele conseguia gerar em mim. Fraco e sem opção, aceitou minha ajuda e, pouco tempo depois, senti que o abraço não era mais unilateral. Ele também me envolvia com vontade. O abraço que começou tímido foi ficando cada vez mais forte e... quente! Nunca poderia imaginar que teria uma aula de Física in natura. Eu estava praticando calorimetria na própria pele!

Ficamos ali, paralisados e grudados por alguns minutos. Richard mantinha os braços ao redor de minha cintura, enquanto sua cabeça estava afundada na minha clavícula. Eu me deliciava passando os dedos pelos seus fartos cabelos negros. O calor que emanava dos nossos corpos não condizia com o ambiente que nos cercava. Fechando os olhos, eu poderia jurar que estava em um lugar quente, uma praia tropical. Richard aos poucos foi retornando ao seu estado habitual: fervente.

— Desculpe, Rick. Eu não sabia, eu não fiz por mal, eu... — Eu o segurei pelo braço quando percebi que ele começava a se afastar. Ele fechou os olhos e franziu a testa, como costumava fazer quando estava contrariado. — Tem algo que preciso lhe dizer, eu...

— Obrigado — disse ele, libertando-se de mim e me devolvendo a manta. Apesar de já estar corado e alerta, seu semblante permanecia frio. — Não se preocupe. Está tudo acertado.

Ele fingiu que não me ouviu.

— Sobre o que você está falando? O que está acertado?

— Estou falando sobre passaporte, passagens etc. Os homens que aguardam você são de inteira confiança de Wangor. Será muito bem conduzida até a sua casa, seu país.

— Meu país? — soltei um riso cheio de ironia. Nunca pertenci a país algum. Era uma perfeita estrangeira, qualquer que fosse o mapa-múndi, qualquer que fosse a dimensão em que me encontrasse. Levantei-me também e, aflita, retornei ao assunto que me atormentava: — Desculpe-me, Rick. Se você tivesse me dito... — afoita pelo seu perdão, acabei engasgando e tropeçando nas próprias palavras. — Eu não tinha conhecimento sobre tudo que fez por mim, sobre o que aconteceu naquela noite horrorosa em Thron.

Ele estreitou os olhos de falcão em minha direção, mas nada disse.

— Collin... — continuei. — Você o matou por minha causa, não foi?

Ao ouvir aquela afirmação, seus olhos se arregalaram e as pupilas se contraíram.

— Foi por causa do que aconteceu com ele que você me tirou às pressas de Thron, não foi? Tinha medo de alguma represália de Shakur? Foi por isso que me mandou para Storm? — insistia.

Ele levou as mãos à cabeça e, ainda sem dizer uma só palavra, começou a andar de um lado para o outro.

— Eu não me lembrava de nada até ontem — confessei. As palavras saíram arranhando minha garganta. — Juro pela minha vida.

— Do que você se recorda, Nina? — Ele parou e me indagou com a voz rouca, olhos entreabertos e especulativos, a boca contraída formando uma linha rígida.

— Até hoje não consigo me lembrar com nitidez do que ocorreu naquela terrível noite com Collin. Depois que ele me atacou, recordo-me apenas de flashes, vozes aflitas, da sua voz bêbada... Lembro-me ainda de alguém esmurrando a porta do quarto onde eu estava e de Morris me carregando às pressas até outra pessoa. Era Max, não era? Você o pagou para me levar até Storm?

— Isso é tudo que você se lembra? — A luz da lua se intensificou e atingiu Richard em um ângulo perfeito. Rosto e músculos banhados em prata e tensão.

— Eu me lembro de Morris comentando algo sobre um “filho do deserto”. Ontem à noite Zymir deixou escapar que esse é seu apelido e...

— Zymir? O que ele lhe disse? — interrompeu com os dentes trincados. Droga! Minha boca enorme tinha que comprometer o Zymir! — Pelo visto, ele andou falando o que não devia!

— Não. E-ele não disse nada de mais — gaguejei. — Rick, por favor, só lhe peço que me escute.

— Não temos tempo para conversa fiada e não preciso de explicações. Aliás, você não quis conversar comigo quando eu lhe pedi. Por que ia querer agora?

— Desculpa, Rick. Eu lhe rogo, eu...

— Fique tranquila. — Hostil, ele mal me ouvia. — Eu não sou mais uma ameaça, garota. O “assassino sanguinário” à sua frente não pretende lhe matar. Não gaste sua energia com explicações desnecessárias.

Eu sabia! Ele estava magoado comigo! Magoado, e com toda a razão do mundo.

— Desculpa por ter lhe chamado assim, Rick.

— Não precisa. Eu sou um assassino mesmo — lançou-me um sorriso frio.

— Se eu soubesse...

— Se você soubesse o quê, Nina? — interrompeu impaciente, seu olhar tão perfurante que chegava a doer.

— Se eu soubesse que tinha sido assim, se eu soubesse que você havia largado tudo por mim, eu... — travei.

— Você o quê, raios? — rugiu.

— Eu não teria fugido com John! Eu teria ficado com você, droga! Mesmo conhecendo esse seu gênio difícil e inconstante e apesar do que aconteceu conosco lá na casa da Sra. Brit, eu teria largado tudo para ficar com você, Rick! — Eu tremia de nervoso, mas agora era a hora. Talvez não tivéssemos mais tempo. Talvez não o visse nunca mais. Ele tinha de saber. Precisava saber que eu o queria. Que o queria acima de tudo. — Você sabe que eu gosto de você, Rick!

— Eu vi o quanto...

— O que queria que eu fizesse, hein? Ficasse parada como uma estátua imbecil esperando você me levar de volta para Thron? Você me assustou!

— Pode parar, garota — rebateu num rompante. — Estou cansado disso tudo!

— O que está lhe magoando foi o que aconteceu ontem à noite, não é? Sobre John?

— Além do fato de você ter ficado fria como um defunto lá na casa de Brita e ter fugido duas vezes com ele? — indagou ácido. — O que mais poderia ser? — repuxou o lábio de um jeito provocativo. Em outro momento eu vibraria de emoção ao vê-lo se morder de ciúmes de mim, mas definitivamente aquela não era a hora e meu coração encolheu no peito, agoniado. — Foi uma linda cena de amor... Você se jogando para defender seu cavalheiro caído. Tocante mesmo.

— Você ia matar John e eu não poderia deixar!

— Já entendi.

— Você não entendeu nada! Eu não gosto de John! Não do jeito que gosto de você, seu cabeça-dura! — senti meu corpo todo enrijecer. — Quer me ouvir? Até ontem à noite eu não sabia de nada do que você havia feito por mim, Rick! — grunhi e agarrei seu braço com força. — Eu estava assustada! Você havia acabado de matar aquele soldado de Windston e na véspera você tinha ameaçado me levar de volta para Thron! Sem contar que eu não sabia que Collin estava morto! Suas atitudes dúbias e seu temperamento inconstante me fizeram imaginar que você livraria a própria pele e me entregaria para o filho do seu líder, droga! Eu preferiria morrer a permitir que Collin encostasse um dedo em mim novamente.

Visivelmente transtornado, Richard se soltou de mim e começou a andar de um lado para o outro, balançando a cabeça sem parar.

— Eu quis te esquecer... Ah, como eu quis! Mas quanto mais força fazia, mais eu me apaixonava por você — confessei baixinho e, oferecendo minha rendição, deixei meus braços tombarem ao lado do corpo, impotentes. — Eu ainda te odeio por alguns instantes, Rick. Mas eu sempre te amei. Desde o início.

Ele estancou o passo. O oceano azul e revolto dos seus olhos encontraram os meus.

— Não — murmurou com as sobrancelhas cerradas, a cabeça espremida entre as mãos trêmulas. Seu semblante de dor confirmava que ele estava sofrendo.

— Você não teria feito tudo isso se não gostasse de mim — cautelosamente me aproximei dele. — Rick, eu sei que você também me deseja.

— Mas não desejo te matar! E é o que vai acontecer se ficarmos juntos — soltou a respiração e me encarou com o olhar sombrio.

— Não quero ir. Não tenho mais nenhum motivo para voltar. É aqui que quero ficar. Com meu avô, com você.

— Você não sabe o que está dizendo. Eu não sou para você, Nina — desabafou com os dentes trincados e balançando a cabeça. — Apenas ontem à noite, após... após aquilo, entendi que você merece alguém decente, que tem direito a um futuro bem diferente do que eu ou qualquer zirquiniano pode lhe oferecer.

— Eu não quero um futuro sem você, Rick.

— Você ainda não sabe o que quer, Nina. — Seus olhos não conseguiam esconder a aflição que refletiam. — Você é muito nova e logo me esquecerá. É o que sempre acontece e... vai ser melhor assim.

— Eu não vou esquecer você. — Tentei tocar seu rosto, mas ele se esquivou. Um véu de angústia camuflava sua face perfeita.

— É melhor acabarmos logo com esse assunto — rugiu, mas seu rugido não me atingiu. Ele parecia querer se convencer e não a mim.

— Tem algo lhe afligindo — afirmei. — O que está escondendo de mim?

— Estamos nos enganando, Nina. — Ele afundou o rosto nas mãos. — Nós... Quero dizer, eu e você... Droga! — bradou. — Será que não consegue enxergar? Você viu o que aconteceu, raios! Nós não poderemos ficar juntos! Nem hoje, nem jamais! É torturante demais prosseguirmos com isto!

— A gente pode ir devagar. Você disse que esperaria — retruquei com o coração batendo rápido demais.

— Eu pensei que seria capaz de captar sua energia, mas falhei. Quase matei você novamente, Nina — disse com a testa talhada de vincos e as veias saltando de seu pescoço. — Não posso e não vou arriscar uma terceira vez.

— É você quem eu quero para mim, Rick. — Não percebi que uma lágrima rolava por minha bochecha. Ao visualizá-la ele titubeou.

— Você diz isso agora, mas, e depois de meses? Depois de anos em que eu não puder satisfazer seus desejos humanos, suas vontades de mulher? — retrucou com a respiração entrecortada.

— Eu não me importo — balbuciei.

— Como não? — rugiu. — Eu me importo!

— Eu só quero ficar com você, Rick — sussurrei cabisbaixa. Ele levantou o meu queixo com delicadeza e senti a corrente de eletricidade passear pelo meu corpo.

— Nós, zirquinianos, fomos moldados para ter essa existência fria, Tesouro. Mas você é capaz de sentir, de amar. Eu não posso lhe privar do melhor dom da sua raça. Não posso — sua voz estava trepidante.

— Você não estará me privando de nada, Rick. Eu sinto amor por você — rebati irredutível. — Se meus pais conseguiram, nós também podemos, e...

— Não, Nina! Nós não podemos, raios! — Ele me interrompeu tenso. — Seus pais foram uma... — Richard travou.

— Uma? — recuei.

Ele franziu o cenho.

— Uma o quê, Richard? — insisti.

— Uma aberração — confessou em baixo tom e sem me olhar, o rosto mirando um lugar distante.

Meu coração disparou. Atônita, segurei sua camisa e o fiz olhar de novo para mim.

— O que você quer dizer com isso?

— O que eles fizeram foi errado, muito errado. — Richard me presenteou com um sorriso sardônico. — E olha que eu não sou santo, muito menos alguém fácil de ser surpreendido.

— Errado? — indaguei atordoada.

— O que eles fizeram foi simplesmente abominável, Nina. Seu avô não sabe a verdadeira versão dos fatos. Ele não suportaria.

— O que meus pais fizeram? — Meus pensamentos entraram em total confusão, ricocheteando loucamente no interior de minha cabeça.

— Não adianta — soltou contrariado. Ele balançava a cabeça com um fervor irredutível. — Não vem mais ao caso.

Dentro de mim algo dizia que era muito sério o que acabaria por ouvir e que não havia tempo para mais desgraças naquele jogo. A partida terminaria em breve.

— Nós temos de aceitar a verdade, Nina. Foi um grande erro. Sem intenção, mas foi um erro terrível — ponderou. Seu semblante tenso deu lugar a um abatido.

— O que você quer dizer?

— Que eu me deixei levar pelo que você gerava em mim — disse com tom amargo enquanto esfregava o rosto com as mãos. — Apesar de já ter passado por situações que você não acreditaria, eu nunca havia vivenciado nada igual. O que você provocava em mim... — suspirou. — A sensação era... era...

— Era?! — Agora era eu quem o fuzilava. — Está me dispensando porque está com raiva de mim?

— Eu não tenho raiva de você, Nina. Eu tenho raiva... de mim mesmo — murmurou com dificuldade. — Na realidade, tenho raiva de tudo. De ser o que eu sou, de pertencer ao mundo que pertenço. Daria tudo para ter a vida que aqueles seus coleguinhas infantis da segunda dimensão possuem. Como os idiotas a desperdiçam! — confessou. — E, principalmente, sinto um ódio irracional por não poder querer você, não poder ter você para mim. — Sua voz estava pesada, sofrida. Richard parecia ter envelhecido mil anos. — Quem diria...

— O que foi? — perguntei com o coração apertado dentro do peito com o rumo que aquela conversa estava tomando. O frio ao redor tinha se intensificado ou eu tremia de medo?

— Finalmente estou sendo castigado. — Fechou os olhos e estampou um sorriso meio amargurado, meio irônico. — Eu tenho um passado e tanto, Tesouro — arfou. — Já me aproveitei de muitos e perdi a conta dos que matei, mas agora estou pagando pelo que não fiz — seus ombros curvaram — porque, de você, eu nunca me aproveitei. Ao contrário do que possa parecer, eu nunca usei você, Nina.

— Agora eu sei, Rick. Eu acredito.

— Acredita mesmo? — hesitante, ele tornou a levantar meu queixo e ameaçou um sorriso verdadeiro. Bastou. Eu me joguei em seus braços e afundei meu rosto em seu tórax quente.

— Richard, fica comigo — implorei num sussurro.

— Ah, Tesouro! — ele gemeu. — Meu tesouro.

Ele afastou minha cabeça de seu peitoral de aço e deixou que seus olhos ardentes mirassem os meus, azuis-turquesa dentro de castanhos claros. Uma rajada prata azulada preenchera todo meu campo visual e me fez estremecer. Como sua beleza selvagem conseguia ultrapassar as fronteiras da minha fértil imaginação? Ele era ainda mais bonito do que conseguia me recordar. A perfeição dentro da imperfeição. Percebi que suas mãos tornaram a tremer, mas não era de frio. Sua face estava rubra e seus poros conseguiam suar de maneira copiosa dentro daquele mar de neve. Ele fervia.

— Eu lutei muito para não querer você, Tesouro. Tyron sabe o quanto eu lutei. — Ele me fitava com ferocidade. — Em pouco mais de dois meses você virou minha vida de cabeça para baixo. Consegue ver que meu mundo ruiu? — Havia dor nas suas palavras. — É a primeira vez que falho em uma missão. Eu não sou confiável, Nina, mas eu nunca havia enganado Shakur ou trapaceado os meus próprios homens. Eu briguei até com o pobre do Ben! Por sua causa, venho brigando comigo mesmo, com tudo e com todos! — tornou a abaixar cabeça, o olhar perdido.

— Eu sei que prejudiquei você. Eu não queria que fosse assim...

— Shhhh! — Richard me interrompeu com candura e tornou a me encarar, seus olhos vidrados nos meus. — Não me arrependo de absolutamente nada do que fiz, Tesouro. — Sem que eu esperasse, ele delicadamente beijou uma de minhas mãos e me emocionou com o que confessou logo a seguir: — Pode não ser o suficiente para quebrar a maldição, mas o sentimento que tenho por você é gigantesco, Nina. Pode até ser pouco para um humano, mas lhe garanto que é forte demais para um zirquiniano. Eu jamais poderia imaginar que tamanho prazer causasse tanta dor — ponderou, mas havia urgência em suas palavras. — Nasci com uma qualidade incomum e, devido a essa característica, sou tachado de amaldiçoado por muitos dos meus. Talvez eu seja mesmo...

— O que você quer dizer? Que qualidade?

— Dor — deu de ombros. — Sou muito resistente à dor. E isto faz de mim um pouco... inconsequente em minhas atitudes.

— Onde você está querendo chegar, Rick?

— Veja todas essas cicatrizes no meu corpo. — Eu acompanhei seu olhar. Ele fitava as próprias mãos. — Por acaso acha que me fizeram sofrer? — levantou uma sobrancelha e tornou a olhar para mim, o olhar inquisidor. — Não, Tesouro. Foi você quem me fez conhecer a dor bem de perto — confessou e abriu um sorriso amargurado. Eu me retraí. — O que eu quero dizer é que, mesmo sendo resistente à dor, foi você, minha linda menina híbrida, o único adversário que realmente me fez sofrer.

— Eu não queria...

— Por que está se desculpando? — Ele me interrompeu novamente. — Eu sofri pela primeira vez e foi você que me presenteou com algo que eu julgava intangível e inimaginável: sentir! Eu passei a viver, Nina. Antes de te conhecer, eu apenas existia, mas não vivia.

— Por que está dizendo isso tudo? Isso... isso é uma despedida, não é? — murmurei segurando a dor que começava a me paralisar.

— Da minha parte é apenas um até logo, Tesouro. Não se esqueça de que sou um sujeito bem egoísta — respondeu, lançando-me uma piscadela marota após um momento de introspecção.

— Por que você não pode vir comigo?

— Os portais estão sendo fortemente vigiados. Sou um homem com sentença de morte decretada, esqueceu?

— Ah, Rick! — soltei, infeliz.

— Vou dar meu jeito.

— E se você não conseguir?

— Dê-me algum tempo. Se eu não aparecer...

— Se você não aparecer? — insisti, mas ele se calou.

O que ele quis dizer? Que estaria morto?

— Você me promete? — eu praticamente implorava. — Promete que irá atrás de mim?

Sua reação me pegou desprevenida. Com semblante modificado, triste talvez, ele afundou o rosto em minhas mãos por um instante e, após beijá-las com vontade, colocou um objeto dentro delas e as envolveu com carinho. Suas cicatrizes ardiam em minha pele. Aquele gesto me deixou agoniada. Ele não me respondeu e não tive coragem de perguntar de novo. O medo de ouvir o que aniquilaria todas as minhas esperanças me fez calar.

— Trouxe isso pra você — murmurou sem força e sem me encarar, liberando as mãos das minhas.

Atordoada, olhei para baixo: um fino colar de ouro com dois pingentes feitos de duas pedras marrons cintilantes pendia por entre meus dedos trêmulos. Ele era tão leve que as pedras pareciam ocas.

— Obrigada — balbuciei com o coração ameaçando sair pela boca e sem compreender o significado daquilo.

— É para proteção — ele explicou em baixo tom, como que adivinhando meus pensamentos. — Já que perdeu o seu cordão.

— Ah! — liberei um sorriso triste e o apertei contra o peito.

— Mas agem de maneira diferente — sibilou.

— Como assim?

— Elas precisam se chocar para produzir efeito. Assim que sair pelo portal, você deverá bater essas pedras entre si com a maior força que conseguir empreender, entendeu?

— Mas, eu...

Um ruído discreto. Apenas uma folha sendo deslocada pelo vento frio, o suficiente para deixar Richard em alerta.

— Ficará protegida dos nossos por algum tempo — interrompeu agitado. — Não temos tempo para explicações. É muito importante que se lembre disso.

Compreendeu?

Eu assenti com a cabeça.

— Por via das dúvidas... — piscou e, antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, Richard removeu o cordão das minhas mãos, passou por trás de mim e, com delicadeza, o colocou em meu pescoço. — Não posso correr o risco que o perca — acrescentou e sua respiração atingiu minha nuca, fazendo-me arrepiar por inteira. Um arrepio bom, excitante. Eu me virei e nossos olhares se encontraram, perdidos um no outro.

O azul em seus olhos escureceu e, sem que eu esperasse, ele me puxou pela cintura para junto dele. Jogando meus cabelos para trás dos ombros, bem lenta e delicadamente, começou a envolver meu corpo com seus braços de ferro e percebi que sua respiração estava tão acelerada quanto a minha. Então ele se afastou para me encarar e, tornando a aproximar, tocou levemente seus lábios nos cantos dos meus. Senti sua respiração penetrar em meus poros e me inundar de um calor entorpecente. Richard fazia com que eu sentisse coisas dento de mim que jamais poderia imaginar que existissem. O calafrio de prazer se espalhava, impiedoso e arrasador. Assim como ele, assim como tudo nele. Mas aí ele estancava e me matava de agonia ao interromper seus carinhos para me estudar com fascínio, observando atentamente cada detalhe de minha face. Seus dedos gentis abandonaram o cordão e começaram a percorrer meu pescoço, meu queixo e pousaram em meus lábios.

— Ah, Tesouro! — suspirou. — O que você fez comigo?

— Me beija, Rick — pedi agitada e cada segundo mais aflita pela espera daquele beijo.

— Eu disse que não ia arriscar sua vida novamente — relembrou-me com o olhar transbordando malícia.

— Se não me beijar, quem vai estar correndo risco de morte é você — ameacei sedutora e mordisquei o lábio inferior. — Beije-me agora!

Satisfeito, ele abriu um sorriso travesso. Agarrou-me com cuidado e seu olhar se transformou naquilo que eu mais desejava: voraz. Faminto, para ser mais precisa. Ele me fuzilava, deixando desejo ardente fluir em suas expressões. Eu me senti como uma aguardada sobremesa antes de ser abocanhada. Aproximei-me ainda mais de seu rosto perfeito, mas não fui adiante. Queria que ele desse o passo seguinte e ele entendeu meu desespero. Lentamente, mas muito lentamente, ele me prendeu com firmeza entre seus braços, deixando seu corpo quente me cobrir por inteira e se inclinou sobre mim. Seus beijos ardentes inundaram meu pescoço, foram subindo sem pressa até a base de minha mandíbula e deslizaram pelas minhas orelhas. Ele estava me deixando agoniada e, quando nossos olhares se cruzaram por um instante, percebi que era isso que ele queria: preparar-me para o beijo que estava prestes a me presentear. Talvez quisesse preparar meu corpo contra um possível desmaio ou tonteira, mas se ele soubesse que estava me deixando mais louca ainda...

— Quieta! — murmurou de repente, tentando abafar meus suspiros.

— Hã? — quando reabri os olhos, vi que suas pupilas estavam verticais. Ele estava em estado de alerta máximo. Ah, não! Fui arrancada de maneira abrupta daquele mágico momento.

Novos sons de neve rangendo.

— Shhh! — Richard fez um gesto com o indicador de uma das mãos, enquanto com a outra ordenou que me deitasse na neve. — Aqui! — Apontou para que me acomodasse ao lado de um amontoado de troncos retorcidos. — Cubra-se com a manta e não se mexa em hipótese alguma — sussurrava, enquanto encobria parte de meu corpo com a neve fofa. Então ele se levantou e, como um animal que percebe a caça no ar, parecia farejar o lugar.

— Rick, não me deixe — pedi apavorada. Não podia imaginar ficar sozinha ali. Não naquele momento.

— Eu vou estar por perto. Fique tranquila — sussurrou e se afastou. Paralisada, eu o vi caminhar até a margem da floresta como um felino.

O tempo passou e não ouvi mais nada desde então. Richard desapareceu e foi substituído por um silêncio e frio angustiantes. Eu comecei a congelar. Tudo por ali começou a ficar frio demais. Gélido. Queria pular para me aquecer mas, como ele ordenou, não me mexi. Nova tempestade de neve desabou sobre mim. E vinha violenta. Imóvel, senti os flocos de gelo cobrir meu corpo mais do que o necessário. Na verdade, começaram a tampar meu nariz e boca. Eu estava sufocando! Raios! Eu precisava respirar! Desobedecendo à ordem de Richard, e quase em câmera lenta, limpei a neve do nariz e dei uma enorme tragada de ar. Berros nervosos fizeram meu coração pulsar desenfreado no peito. Eles vieram do lugar para onde Richard havia se dirigido. O que poderia estar acontecendo? Aflita, resolvi desobedecê-lo por completo e corri em direção à margem da floresta. Levei um susto ao me deparar com um cavalo preso a um tronco congelado. Ele bufava nervosamente e arrastava uma das patas no chão. Passei por ele e, ao abrir caminho pela densa neblina, quase tombei ao identificar o motivo dos ruídos.

— Rick! — berrei ao vê-lo comprimir a coxa esquerda. Havia sangue em suas mãos. Meu coração veio à boca ao detectar os corpos de dois homens caídos a poucos metros de onde ele estava. Estavam retorcidos de uma forma estranha e poças de sangue cresciam ao seu redor. Uma discreta claridade azul-alaranjada surgia no horizonte. O sol de Zyrk espreguiçava-se de seu sono profundo e me permitia distinguir o vermelho vivo do sangue ainda quente espalhando-se rapidamente pela superfície branca e congelada próxima aos corpos. Identifiquei o brasão em seus braços: Thron. Richard havia matado dois homens do próprio clã, ou melhor, do antigo clã, para me proteger. Pobre Rick! No que eu havia transformado a vida do homem que eu amava?— Meu Deus!

— Está tudo bem. Foi só de raspão — explicou ele acelerado, balançando a cabeça de maneira inconformada. Olhei para o sangue que jorrava em abundância de sua coxa esquerda e vi que ele estava mentindo para me acalmar. — Eu sabia! Se algo der errado, juro que vou acabar com John por ter nos colocado nesta situação estúpida.

— Não faça isso, Rick. Foi o que ele pôde fazer, ele...

— Você ainda tem coragem de defendê-lo? Só um idiota para trazer você para cá sem a cobertura de um número decente de homens! — trovejou enquanto limpava as mãos ensanguentadas na camisa rasgada. — Provavelmente vários grupos de soldados estão margeando esta floresta, Nina.

Ele levou as mãos à cabeça e, após um tempo de introspecção, disse com a voz sombria:

— Vamos ter que alterar o plano.