Não Olhe!
Capítulo 16
Abri os olhos e não enxerguei nada na abafada penumbra. Cocei os olhos e forcei a visão, que, aos poucos, aceitou meu estímulo e foi melhorando. Eu estava em um lugar fechado, sem janelas. Uma caverna. Mais precisamente, um quarto minúsculo esculpido dentro de uma rocha. A pouca claridade vinha da porta que se encontrava entreaberta. Pisquei várias vezes antes de tomar conhecimento do meu estado. Sentia-me bem, sem qualquer tipo de fraqueza, ardência ou dor. Temerosamente passei as mãos pelos meus braços e... nada! Toquei lentamente a minha perna direita e meus dedos entraram em choque muito antes de meus neurônios. A pele estava íntegra, sem qualquer cicatriz no lugar das horrorosas feridas. Como assim? Um misto de alívio, atordoamento e pânico me fez dar um pulo da cama. Eu não estava sonhando. Eu estava ali. Tudo ao meu redor era real. Cristo! Nem sinal do meu cordão e todas as queimaduras haviam desaparecido como mágica. Não era possível! Há quantos dias estaria ali? Pelo estado perfeito de minha pele, provavelmente há um bom tempo, meses talvez. Um discreto ruído batia à porta. Vozes. Pisando nas pontas dos pés, caminhei até ela e estanquei. Eu não. Meu corpo. Ele estremeceu por inteiro ao reconhecer a voz que fazia meu coração bombear mais sangue que o necessário.
Richard.
Ele conversava com uma mulher que, pela voz, parecia ter idade avançada. De onde estava apenas conseguia distinguir a silhueta dos dois corpos.
— Você não pode sair agora — implorava a senhora. Havia aflição em sua voz. — Está quase anoitecendo.
— Eu preciso ir.
— É muito perigoso, Rick. Você acabou de se recuperar.
— Foram queimaduras leves. Além do mais, você sabe muito bem que eu tenho os meus truques para as noites de Zyrk.
Apesar de sentir evidente preocupação no ar, a voz dele estava serena.
— Você conta muito é com a sorte, isso sim — bufou ela.
— Brita, Brita. Você não muda, né? — Havia rara candura na voz dele. Senti uma pontada de inveja ao escutar Richard conversar de maneira leve e gentil com aquela mulher. Aquele lampejo de ternura em sua voz usualmente grave me lançou direto à lembrança do nosso encontro naquele lago secreto em Thron e fez meu coração encolher no peito. — Não precisa se preocupar.
— Claro que eu me preocupo, ora bolas! Eu te criei. Já se esqueceu disso?
Criou ele?!
— Não, Brita — suspirou ele. — Você fez um ótimo serviço. Olhe como estou bem.
— Bem malcriado, isso sim — resmungou ela.
— Vai ficar tudo bem — respondeu calmamente.
— E o que vai fazer agora?
— Ainda não decidi. — A voz de Richard ficou dura, mas com uma pitada de preocupação.
— Não vai demorar até Shakur compreender o que aconteceu.
— Por isso não posso perder tempo. Tenho que falar urgentemente com Zymir. Ela precisa de proteção.
— Eu sei — a senhora soltou um muxoxo.
— Até a bomba estourar eu já pretendo ter tudo acertado, mas não me peça detalhes, pois não abrirei o bico.
— Von der Hess... — ela balbuciou o nome com nojo. — Ele não tem como ouvir nossa conversa. Estamos protegidos aqui, você sabe.
— Ninguém sabe até onde os escaravelhos conseguem chegar, Brita. Portanto, o que está na minha cabeça morre comigo — concluiu Richard de maneira sombria.
Aquilo era algum tipo de charada?
— Ela mexeu positivamente com você, não vê?
Ele não fez qualquer comentário, mas meu coração deu uma cambalhota dentro do peito. Era de mim que ela estava falando?
— Não percebe, Rick? Você não pode se afastar muito tempo dela. Sua razão pode vacilar, você pode... — insistiu a mulher.
— Shh! Eu não vou vacilar, Brita. Eu estou de volta, não estou?
— Por quanto tempo? Eu... eu não sei. — A voz da mulher saiu cambaleante. — Eu não quero te perder de novo, Rick.
“Perder”? Como assim?
— Você não vai me perder.
— Ele exerce poder sobre você. — Ela tornou a falar e parecia sentir algum tipo de dor.
— Não exerce, não.
— E todas as atrocidades que você realizou? — rugiu ela. — Foi porque quis e não porque ele te obrigou?
— Foi. — A resposta veio baixa.
— Não é verdade, Rick! Eu conheço sua índole como ninguém. Você não seria tão violento e impiedoso assim, você não...
— Eu seria! — Richard retrucou nervoso. — Olhe para mim, Brita! Por acaso eu me pareço com o menino que você viu pela última vez? Eu mudei, não enxerga?
— Não! Eu não acredito! — Havia dor nos soluços dela.
— Se não gosta de mim do jeito que sou hoje, sinto muito. Acho que cometi um grande erro em ter lhe procurado. — Poderia jurar que senti a voz dele vacilar por um breve momento.
— Não, filho. Você fez bem em ter vindo aqui. — Os soluços estavam cada vez mais altos. — Todos esses anos... Eu senti tanta saudade.
Novo silêncio.
— Eu preciso ir — arfou ele.
— Você promete que vai voltar?
— Vou, Brita — suspirou. — Até porque eles não podem permanecer aqui por muito tempo. É perigoso demais para você.
— Eu sei — murmurou ela.
— Ainda vou voltar para comer minha broa de milho — finalizou ele.
— Tenha cuidado, filho.
Eu pensei que a conversa já havia terminado, quando, inesperadamente, ela fez uma pergunta em alto e bom tom:
— E você vem me dizer que eu não o conheço mais? — A tal da Brita perguntou de maneira irônica. — Desembucha logo, Rick. O que quer saber?
— Ela... ela chamou por mim? — a voz dele saiu rouca.
— Não, filho. Ela ficou desacordada durante todo o tempo.
Uma porta bateu alguns segundos depois.
Onde eu estava? Que conversa era aquela que havia acabado de escutar? E John? Estaria morto? Por que não comentaram nada sobre ele?
Tentei me acalmar, abri a portinhola e deparei-me com uma pequenina sala de estar, como a de uma casinha de bonecas. Também não tinha janelas. A claridade vinha de alguns lampiões acesos dentro de nichos esculpidos nas rochas. Os móveis eram feitos de madeira escura e desprovidos de um bom acabamento. Apesar de rústico, o ambiente era aconchegante devido às inúmeras almofadas coloridas espalhadas por todos os cantos. Dentro da sala havia uma espécie de fogão a lenha e, de costas para mim, uma senhora de lenço na cabeça, baixa e bem gordinha, remexia no conteúdo de uma panela.
— Onde estou? O que você fez com o meu cordão? Quem é você? — desatei a perguntar, atordoada.
A senhora esfregou as mãos no avental e se virou para mim.
— Calminha aí! Uma pergunta de cada vez senão eu me enrolo — disse em tom amistoso.
— Onde está John? Ele está morto? — indaguei de estalo, rastreando rapidamente o ambiente. — Como cheguei aqui?
— Richard trouxe os dois. Só ele mesmo para aguentar tamanho peso em cima da pele queimada — confessou em baixo tom.
— Então onde está John? — guinchei. — Ele está bem?
Ela confirmou com a cabeça, enquanto parecia examinar minhas expressões.
— Siga-me — disse e me conduziu até um pequeno quintal na área externa. Ele era rodeado por minúsculas habitações de pedra. Separados uns dos outros por canteiros abarrotados de girassóis e rosas amarelas, os pequenos iglus de pedra tinham seus portões de ferro revestidos por heras. No centro do quintal destacava-se uma rústica mesa feita de toras de madeira ladeada por bancos compridos do mesmo material. Ao seu lado havia outro fogão a lenha. — Este é o coração do meu humilde lar, o santuário onde pratico as duas atividades que mais gosto na vida: culinária e medicina — explicou. — Como é a única área aberta da casa, aqui é muito agradável para descansar e conversar também.
— Você é médica? — inquiri desconfiada.
— Mais ou menos — ela soltou uma risadinha. — Este é o local onde cuido dos meus doentes, uma espécie de enfermaria com sua farmácia a tiracolo — piscou apontando para as plantas que nos cercavam. — O filho de Kaller está no quinto aposento. Venha.
— Por que eu também não fiquei nessa área?
— Porque eu precisava te vigiar de perto e ia ficar cansada em vir de dez em dez minutos até aqui. Preferi te deixar no meu próprio aposento na noite passada, mas hoje você fica aqui — explicou. — O primeiro quarto já está arrumado e é o mais indicado para a sua condição. Ele tem uma pequena lareira e é o mais quentinho. Vai ficar bem acomodada até a sua ida para Windston.
— E quando será isso?
— Assim que o filho de Kaller estiver recuperado.
Ao abrir a portinhola, não acreditei no que vi. John parecia dormir o mais sereno dos sonos. A parte de seu corpo que não se encontrava coberta pelo lençol azul claro deixava à mostra áreas descamadas da pele, como se estivessem em seus últimos estágios de cicatrização.
— John! — soltei, dando um salto em direção a ele.
— Shhhh! — ordenou ela num sussurro. — Ele não deve acordar. Senão atrapalhará o processo de recuperação.
— As queimaduras! — recordei-me do estado dele às margens daquele terrível pântano. — Por que John ainda está assim se eu estava bem pior do que ele?
— Ele perdeu muito sangue.
— Sangue?! Eu perdi mais sangue do que ele! — objetei.
— Ele já estava fraco, Nina. Foi isso que quis dizer. Deve ter perdido sangue nos últimos dias. A ferida que ele tinha na panturrilha reabriu de maneira muito incomum e atingiu vasos nobres. Por isso sua cicatrização está respondendo de forma lenta.
Sim! A panturrilha. Pobre John! Sacrificara-se por mim. Novamente. Senti meus pulmões inflando como um balão. Um sentimento bom os preenchia, um misto de carinho e gratidão.
— O que você fez com o meu cordão? — finalmente perguntei.
— Eu sabia. A marca no pescoço... — As palavras despencaram da boca da mulher. — Venha — acenou com o dedo gorducho para que saíssemos do quarto em silêncio.
— O que você disse? — indaguei assim que chegamos à saleta da habitação principal.
— Nada — ela roçou a garganta. — Você não tinha nada preso ao seu pescoço quando chegou aqui. Se havia algum cordão, não fui eu quem o retirou. Juro por Tyron.
Naquele momento me recordei de ter sido puxada pelo pescoço enquanto afundava no pântano. O stress do momento somado à violência do golpe poderia tê-lo rompido sem que eu percebesse.
— Ah, não — soltei desiludida. Havia perdido o único objeto que me ligava ao meu velho mundo, à minha mãe. Desabei entristecida em uma cadeira de palhinha ao meu lado. A senhora se aproximou de forma gentil e, colocando uma de suas mãos sobre o meu ombro, rompeu o silêncio:
— Fique tranquila. O que é para ser seu a ti retornará. É só uma questão de tempo. Quando menos esperar... — A pequena senhora tinha um olhar distante, quase aéreo, enquanto pronunciava aquelas últimas palavras. — Ah! Respondendo à sua pergunta — acrescentou, cheia de orgulho —, eu sou a Sra. Brit.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Um dia e meio.
— Impossível! — esbravejei. — Eu vi as enormes queimaduras!
— Puxa! Pensei que não gostasse delas. Se quiser, posso devolvê-las — respondeu fingindo desapontamento.
Que tipo de brincadeira sem graça era aquela?
— Eu estou em Windston?
— Mais ou menos — sorriu. — Não estamos propriamente dentro de Windston, mas temos acesso direto. Posso entrar ou sair quando bem entender. Somente quem eu quero consegue ver esse local — piscou. — Os demais passam direto e não me amolam, entende? Alguns truques para viver sossegada.
— “Truques”? — senti minha testa franzindo.
— Sim. Modéstia à parte, eu sou a melhor curandeira de toda a Windston e, quem sabe, de toda Zyrk também. Curei você rapidinho daquelas queimaduras horrendas.
— Em menos de dois dias? — indaguei debochada.
Ela fechou a cara e, aproximando-se, segurou minha mão esquerda com violência.
— O que está fazendo? Ai! — berrei ao sentir uma ardência crescer pelo meu pulso, como se estivesse pegando fogo. Empurrando-a, consegui me libertar e, no lugar onde ela havia me segurado, surgiram bolhas. — Droga! O que você fez?!
Indiferente às minhas reclamações, a Sra Brit tornou a segurar o braço afetado e me fuzilou com um olhar de advertência.
— Acabei de fazê-la acreditar em mim — rebateu de forma seca.
A ardência cessou. Olhei para baixo e a queimadura havia desaparecido. Como mágica! Ela achou graça de meu estado catatônico e, retornando a um semblante ameaçador, indagou:
— Como conseguiu se libertar do fogo?
Ela sabia.
— Que fogo?
— Não me enrole, filha. Até hoje ninguém conseguiu entrar tão profundamente naquele pântano e voltar para contar a história. Eu preciso saber: você se deparou com alguma visão ou coisa do tipo? — Havia urgência em sua voz.
— Eu vi uma mulher cadavérica, de longos cabelos negros e... — respondi hesitante.
— E?
Fechei os olhos e passei as mãos pela testa, forçando-me a recordar do que havia acontecido. Comecei a suar frio.
— Não precisa ter medo, meu amor. — Dei um pulo quando ela tornou a encostar em mim. — Eu só fiz aquilo para que não restassem dúvidas em você — suspirou. — Desculpe-me. Acho que exagerei, né? Todos sempre me dizem que os humanos são tão desacreditados...
— A mulher tinha o rosto e o corpo completamente queimados. Sua fisionomia era de dor.
— Oh! — A Sra. Brit cobriu a boca com as mãos. — O que houve? Como ela te libertou?
— Não sei. Lembro-me de tê-la tocado porque tive pena. Aí, de repente, ela me soltou... eu acho. Não sei ao certo. Eu já estava ficando inconsciente naquele momento.
— Por Tyron! A lenda é verdadeira! — Ela estava chocada. E, virando-se novamente para as suas panelas, desatou a pronunciar palavras incompreensíveis.
Uma bruxa! Como poderia ter curado aquelas enormes queimaduras tão rapidamente? Com certeza aquilo era o resultado de algum tipo de bruxaria, e das boas.
— Sra. Brit?
— Pois não, querida?
— Desculpe-me a franqueza, mas se a senhora é a melhor curandeira de Windston, por que não curou Wangor? — Estava difícil controlar a curiosidade que jorrava em minhas veias.
Ela parou de mexer a comida, tornou a enxugar as mãos no avental que envolvia sua larga cintura e, com a fisionomia pesarosa, virou-se para mim.
— Sabe, Nina, eu posso curar feridas físicas, mas a ferida de Wangor é bem diferente das que estou acostumada a encontrar. Acredito que esteja na sua alma... Se nós a tivermos — matutou. — Eu preciso lhe confessar um segredo porque sei que você é a única pessoa que pode me entender — acrescentou mordiscando o lábio inferior. — Eu acredito que Wangor tinha sentimentos diferentes.
— O que quer dizer com isso?
— Sentimentos bons, impossíveis para a grande maioria de nós, zirquinianos. Mas o sentimento que o vem consumindo há anos não é um desses, com certeza — suspirou pensativa. — Sempre acreditei que Dale, seu pai, também possuía tais sentimentos.
— Como pode saber? — questionei, protegendo-me atrás de um escudo de desconfiança. Ou seria medo do que poderia descobrir?
— Seu pai era um rapaz tão bondoso... Talvez um pouco instável, mas de ótimo coração, filha. E você é a confirmação da minha teoria. Como aconteceu ainda é um mistério para todos nós, mas o fato de você ter nascido é a prova mais contundente do amor de seu pai por sua mãe e vice-versa. Uma trinca surgiu nos céus cinzentos de Zyrk e eu vejo o sol entrar definitivamente por ela. Eu sempre acreditei na lenda. Acredito de todo o meu coração que, da forma correta, seja possível quebrar esta terrível maldição que nos assombra há séculos.
— Da forma correta?
— Deixa pra lá! São birutices da minha cabeça velha.
— Que tipo de sentimento você acha que vem consumindo Wangor? — voltei ao assunto.
— Hoje, eu diria que é de culpa. Mas quem sabe nós possamos transformá-lo em carinho, estima.
— Culpa do quê?
— De ter condenado seu próprio filho ao Vértice.
— Mas então ele... Você chama isso de bons sentimentos? Matar o próprio filho?! — rugi.
— Não, Nina. Seu avô não é mau. Pelo contrário, sempre foi muito justo. Porém, não se esqueça de que ele é um líder e, portanto, tem que seguir as normas impostas pelos nossos antepassados. Tais normas eram claras: os zirquinianos não podem se envolver com os humanos. Nunca. Ponto final — sentenciou e, pensativa, acrescentou: — Estas regras foram criadas há milhares de anos para manter o equilíbrio entre as nossas dimensões. No geral, isto sempre foi muito fácil, porque se não sentimos nada, não seríamos atraídos por nenhum dos seus. Sei sobre casos de zirquinianos que violaram esta regra e pagaram com a vida.
— Então meu pai traiu as regras?
— Em parte sim, em parte não. Veja bem — ajeitou o lenço em sua cabeça —, ele errou por se relacionar com a sua mãe, mas o problema é que ele não o fez só por diversão. Não! — respondeu agitada. — Ele se apaixonou por ela, Nina! Imagine vivenciar em seu corpo sensações que jamais sonhou que pudessem existir. Imagine sentir seu rosto esquentar, as pernas tremerem, as mãos suarem frio, o coração acelerar só em ver uma determinada pessoa. Deve ser enlouquecedor!
— Então, por que ele foi punido?
— Porque ele desobedeceu às regras. Porque ele devia ter contado a verdade a Wangor.
— E teria feito diferença?
Ela coçou a testa e após alguns instantes confessou:
— Não. Acho que foi exatamente por isto que ele não contou. Eu também não contaria se estivesse na situação dele. Posso imaginar o quanto Dale deve ter sofrido. Entretanto, eu acho que, se o sentimento do amor é tudo o que dizem dele, seu pai não deve ter se arrependido nem um pouco. Pelo contrário. Deve até ter morrido bem feliz. Ele usufruiu de algo que, mesmo por pouco tempo, nós não poderíamos sequer imaginar. Nem nos nossos mais ambiciosos sonhos. Posso presumir o choque e a felicidade que ele experimentou quando viu você, Nina. Que o impossível havia se tornado realidade e que ele tinha sido o instrumento para aquilo — soltou emocionada e, após observar minha expressão confusa, concluiu: — Acho que estou falando demais.
— Por favor, continue — pedi com forte emoção crescendo no peito. — Como você sabe de todas estas sensações tais como o tremor nas pernas, o suor gelado e o coração acelerar quando se está apaixonado?
— Através de informações que peço a alguns resgatadores. Sempre temos algo a trocar, não é mesmo? — piscou ela, lançando-me um sorriso torto.
— Trocar?
— Alguns me pedem que cure uma unha encravada, ou uma dor interminável na coluna, e eu o faço, desde que eles me deem algo em troca... Quero dizer, peço que se dirijam até a sua dimensão, adquiram todas as informações possíveis sobre um determinado assunto e me contem tudo direitinho, nos mínimos detalhes. Se fizerem o dever de casa de forma adequada, eu curo o que me pedirem — e soltou outra risadinha.
— Por que você mesma não vai colher estas informações?
— A nós, magos, é vetada a entrada em sua dimensão. Perderíamos nossos poderes, Nina, o que seria o mesmo que a morte para nós. — E me pegou de surpresa: — Eu senti a sua energia quando estava lhe curando. Mas não consegui mapeá-la porque ela oscilava muito — acrescentou com o semblante misterioso.
— Como assim? — questionei receosa.
— Debilitante, mas igualmente intensa. Sem controle. Poderosa.
— Hã?
Ela franziu a testa.
— Você está sofrendo, assim como ele.
— Ele quem?
— Eu disse ele? — arregalou os olhos e roçou a garganta. — Quero dizer... Seu avô! Mas sua energia é diferente daquela que experimentei em Wangor. — Seus olhos agora brilhavam de euforia. — Em alguns momentos eu senti através de você!
— Sentiu o quê?
— O tremor nas mãos e meu coração pular freneticamente.
Abaixei a cabeça e fitei o chão de pedras coberto por diversas tapeçarias.
— O que quer me contar? — indagou ela em baixo tom. A Sra. Brit era esperta.
— Eu ouvi a conversa — confessei ainda sem ter coragem de encará-la.
— Eu sei.
— Sabe? — perdi o ar. — Então ele também...
— Não — ela me interrompeu. — Richard não percebeu.
— Ele nos capturou a mando de Shakur, não foi? Qual é a próxima jogada? Já não me surpreendo mais com os joguinhos de sedução e traição de Richard — senti meus punhos se fechando e a raiva escapulir por entre os dedos. — É o meu corpo, não é?
— O quê?
— Richard já enganou e arruinou meu orgulho e espírito, Sra. Brit. É atrás do meu corpo que ele está agora, não?
— Ele fez isso? Então é verdade... — ela murmurava infeliz consigo mesma. Mesmo sendo pequenina, parecia que havia encolhido ainda mais.
— Anda meio desinformada para alguém com os seus poderes, não? — instiguei sem piedade.
— Eu... Oh, não! — Ela já não escutava nenhuma de minhas ofensas. Sua cor havia desaparecido. — Richard tem um temperamento difícil, mas não é mau — balbuciou num suspiro sofrido.
— Claro que não — ironizei. — Ele é um doce de pessoa, quase um anjo.
— Nina, eu sei que o que ele fez foi errado, mas — ela engoliu com dificuldade —, ele deve ter tido um forte motivo. Desde pequenino, sempre agiu assim. É da essência dele.
— Sete mil moedas de ouro e o reinado de Thron. Precisa de mais motivos? — indaguei sarcástica.
Ela se calou por um momento.
— Tem alguma coisa errada nessa história. Eu... Eu não consigo entender — murmurou abatida, enquanto sentava-se na cadeira ao lado. — Ele não é assim. Oh, não. Richard não pode estar me enganando — disse afundando o rosto nas mãos gorduchas.
— Oh, sim — repliquei debochada. — Ele pode e está te enganando, Sra. Brit.
Em questão de segundos a espevitada Sra. Brit parecia ter envelhecido cem anos. Um misto de decepção e tristeza espalhou por sua face, evidenciando as camadas de rugas até então disfarçadas em seu semblante vivo.
— Eu o criei até os doze anos de idade — confessou cabisbaixa enquanto remexia no próprio avental. — Conheço sua personalidade como a de ninguém.
— Doze anos? — engoli em seco e perdi a linha do raciocínio com aquela mudança brusca de assunto. — Mas as inférteis não ficam com as crianças até os seis anos de idade?
— Eu não sou uma infértil, Nina. Eu sou vetada de ter um filho porque sou uma curandeira — corrigiu-me. — Ninguém sabe que eu o criei. É expressamente proibido. Richard era um bebê quando Guimlel, o mago das geleiras do sul, apareceu aqui com ele nos braços. — Ela ficou aérea por um instante, perdida em pensamentos distantes. — Sua saída tempestuosa do Grande Conselho... Ninguém compreendeu por que Guimlel abriu mão de sua posição de prestígio, sabe? Se ele não tivesse renunciado, certamente seria o próximo líder. Sertolin é bom, mas não teria a mínima chance — explicou. — Pobre, Guimlel! Foi tachado como louco. Sei que ele é um homem difícil e cheio de ideias nada convencionais, mas é uma boa pessoa. Afinal, quem não carrega alguma loucura dentro de si? — suspirou e, tornando a ficar mais alerta, continuou: — Como eu ia dizendo, Guimlel chegou aqui desesperado porque não conseguia fazer Richard parar de chorar e nem se alimentar. Richard era um bebê tão lindinho, com suas bochechas rosadas e aqueles enormes olhos azuis. Eu me apaixonei por ele no mesmo instante. Aliás, todos nós.
— Todos vocês?
— Sim. Eu, meu guarda-caça e Guimlel. Ele era o nosso filho. O filho que nunca poderíamos ter — suspirou. — Richard foi crescendo e nos assombrando com suas habilidades acima da média. Aos três anos de idade ele já guerreava como um menino de seis. Aos seis como um de doze, só que muito mais ágil. Ele sempre foi mais inteligente que a média e muito resistente também. Apesar das minhas habilidades para cura, ele nunca se valeu delas. Pelo contrário, não gostava que eu o curasse. Sei que ele às vezes levou o próprio corpo a situações extremas só para sentir sua própria capacidade de tolerância à dor.
— Isto é muito mórbido! — retruquei, recordando-me imediatamente das terríveis cicatrizes que ele exibia. Tive de segurar a onda de esperança que ameaçou me invadir por saber que Richard não era o “filho do demônio”, como John mencionara, e que talvez houvesse algum bom sentimento em seu coração de pedra.
— Eu sei. Mas aconteceu em parte por nossa culpa. Ele nunca conheceu ninguém a não ser nós três. Richard foi criado como uma criança solitária e talvez esta fosse a forma dele dizer que estava infeliz. — Ela fechou os olhos e inspirou forte. — Nós o prendemos por tempo demais e, assim que ele conseguiu, ele fugiu. Tinha quase doze anos na época. E nunca mais voltou.
— Quantos anos ele tem hoje?
— Vinte e um.
— Por que o prendiam?
— Porque ele era especial demais. Veja, Nina, ele já era um guerreiro pronto aos dez anos de idade. Tinha uma astúcia acima da média e um talento inato para lidar com os animais. Sem contar com sua força descomunal. Seria completo se não fosse...
— Se não fosse?
— Pelo seu gênio instável.
Claro!
— Começou quando ele tinha uns nove anos de idade. Até então ele era uma criança fácil de lidar, dócil. Adorava conversar conosco e ouvir todas as histórias que nós tínhamos para contar. Até que ele sofreu um acidente pavoroso em uma caçada com Guimlel e, mesmo depois de curado, nunca mais foi o mesmo. A partir de então ele ficou um menino calado, mais fechado em seu próprio mundo.
— Para onde ele foi depois que fugiu?
— Pelo que fiquei sabendo, dias depois de sua fuga ele foi encontrado no deserto do norte por uma caravana de Thron. Quis Tyron que naquele dia Shakur estivesse entre os seus homens. Contam que, mesmo muito abatido, Richard foi capaz de enfrentar e matar três resgatadores adultos ao mesmo tempo, o que impressionou Shakur — ela contava com um sorriso de orgulho no rosto, os olhos perdidos em suas lembranças. — Dizem que foi a primeira vez que Shakur soltou um riso de satisfação depois de muitos anos. Ofereceu-lhe proteção e a promessa de torná-lo o principal resgatador de Thron assim que Richard chegasse à maturidade. Comenta-se que os dois eram capazes de se compreender apenas com o olhar e que ficaram inseparáveis desde então.
— Agora entendo por que Collin o odeia tanto — balbuciei.
Ela concordou com um tenso balançar de cabeça.
— O problema é que Shakur, além de ser muito carismático, tem uma personalidade violenta e uma forma muito estranha de ver o mundo. Como estava chateado conosco, Richard acabou fazendo de Shakur um mentor e aceitando tudo o que ele dizia como verdade absoluta. Shakur fez dele seu pupilo e transformou Richard numa lenda, no maior resgatador de Zyrk de todos os tempos. Nos seus cinco anos de liderança ele quase dobrou o tamanho de Thron. Pode imaginar a admiração e o respeito que Shakur tem por ele, não?
— Até uma híbrida aparecer na jogada — emendei com sarcasmo.
— Eu não tenho mais argumentos, mas, bem lá no fundo do seu coração — ela me estudava —, não consegue perceber que algo se passa dentro de Richard? O conflito que o consome?
— Tudo que percebi foi que ele podia ter ficado comigo se quisesse, mas preferiu o ouro e o poder — murmurei ácida.
— Não é verdade! — esbravejou a velha senhora pela primeira vez. — Por que acha que ele a salvou, Nina? O que tinha a ganhar se já possuía o trono de Thron e as moedas de ouro? Poderia ter deixado você e John morrerem lá naquele pântano!
— Porque ele deve ter outro objetivo em mente! — rugi. — Você mesma disse que ele não faz nada se não tiver um bom motivo. Eu sou esse motivo! Eu sou a híbrida que Zyrk tanto esperava!
Seus ombros tombaram e ela se calou por um momento.
— Nada disso faz sentido — murmurou, levando as mãos à boca. — Ele não teria retornado se algo não tivesse mudado dentro dele. Ele está perdido, não vê? Pela primeira vez, sinto que ele está questionando a própria existência.
— Não venha tentar me convencer de algo que até mesmo você tem dúvidas. Está na cara que a senhora não tem certeza do que ele é capaz ou não de fazer, Sra. Brit — retruquei entredentes. — Richard é um enigma!
— Assim como você, híbrida! — rebateu num rompante. — Mas ache o que quiser. Quero apenas que saiba que sua presença fez bem para ele. Eu sei disso. Como sei também que ele está com algum problema sério, algum fantasma o atormentando. Talvez esteja questionando Shakur pela primeira vez na vida. Tenho medo do que ele é capaz de fazer quando se sente acuado. — Fechou os olhos e levou as mãos à cabeça por uns instantes.
Quem poderia me garantir que tudo que ela dizia era verdade? Que ela não seria tão ou mais maquiavélica que Richard? Ela o havia criado, não? Eu precisava de John para me nortear. Ele saberia me explicar o que estava acontecendo.
— Em quanto tempo John estará curado? — questionei ao vê-la se levantar.
— John? — Ela enrugou a testa e tornou a me estudar. — Logo — ponderou, dirigindo-se para o fogão. — Sua energia ainda não está completamente recuperada, Nina. Você precisa descansar. Vá para o quarto que lhe indiquei. Amanhã conversaremos.
Dei de ombros e fui caminhando até o pequeno aposento que a Sra. Brit havia indicado, mas, no meio do caminho, um inesperado impulso me fez mudar a direção e seguir rumo ao quarto de John. Algo me dizia que eu estaria segura ao lado dele e que ele poderia precisar de mim durante a madrugada. John havia feito muito por mim e me sentia na obrigação de retribuir.
Em silêncio, entrei em seu úmido aposento e bati a porta de ferro atrás de mim. Uma tocha presa à parede de pedra era a única iluminação do lugar. John permanecia desacordado sobre uma cama também feita de pedra, que me fez recordar imediatamente de Thron. Em um canto do quarto uma pequena cabeceira de madeira escura acomodava um jarro de vidro com água pela metade e mudas de plantas enchiam uma travessa de porcelana. Fora isso, o único móvel a mais era um banquinho de madeira com o tampo rachado situado ao lado da cama. Sentei-me nele e, pela primeira vez, observei John com calma e atenção. Sua pele lotada de sardas, seu cabelo vermelho como fogo, seus traços bem interessantes.
— Nina — um murmúrio dele me fez dar um pulo e me aproximar ainda mais.
— John? Você está...
Não! Ele não estava acordado. Ele sonhava. E comigo. Sua fisionomia serena, quase feliz, me fez cambalear.
Pobre John! Tomada pela dor do sentimento de culpa, deixei meu corpo tombar ao seu lado da cama.
— Me perdoe por ter destruído a sua vida também, John. Você não merecia isso — murmurei infeliz e delicadamente envolvi uma de suas mãos. Tive que usar de todas as minhas forças para impedir que lágrimas brotassem.