Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 9 de 32

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Nietzsche

A aproximação do Último Homem

O niilismo incompleto é apenas uma transição. O avanço do nada é irresistível. Breve se impõe o “niilismo passivo”. Agora, a falta de fundamento se tornou uma evidência central e universal, e todos os antigos valores são tragados por esse abismo. Mas a lucidez da inteligência vem acompanhada por uma abdicação completa da vontade. Em vez de mobilizar a vontade para criar valores novos, renuncia-se; tem-se prazer no espetáculo da inanidade universal; ressurge um idealismo que serve para preparar a extinção do desejo. “O olho do niilista idealista en laid, ele é infiel a suas lembranças; deixa que caiam, que se desfolhem; não as protege contra essa descoloração pálida que a fraqueza espalha sobre as coisas distantes e passadas. E o que ele faz consigo mesmo, também o faz com todo o passado do homem: deixa-o cair” (Vontade de potência II).

Mas esporadicamente subsiste energia suficiente para que, ao lado da indolência desabusada do niilismo passivo, erga-se a revolta deliberadamente destruidora do “niilismo ativo”. Os decadentes mais ferozes e, ao mesmo tempo, mais clarividentes exigem uma derrocada universal dos valores; não se contentam mais em assistir à ruína dos antigos ideais e eles mesmos se tornam os incendiários. A festa da aniquilação, a fúria do terrorismo é sua última oportunidade. “A variedade humana mais malsã da Europa (em todas as classes) é o terreno de cultura desse niilismo [...] Esses homens não querem apenas se extinguir passivamente, e sim extinguir voluntariamente tudo o que nesta altura está privado de sentido e de finalidade, mesmo que seja apenas uma convulsão, um furor cego” (Vontade de potência II).

Até aqui, todas as formas do niilismo apresentadas tinham como característica comum o fato de ser uma capitulação diante do nada revelado pela morte de Deus. Mas eis que, com a última fase, desenha-se a esperança de uma autêntica superação do próprio niilismo. Agora entra em jogo a vontade de potência afirmativa, aquela que, optando pela vida contra o nada, decide criar valores em vez de se lamentar servilmente pela morte de Deus. Visto deste ângulo, o conjunto do niilismo aparece como a inevitável contrapartida de um novo e vigoroso avanço da Humanidade. É preciso saber que tal vontade afirmativa necessita ser despertada, educada, sustentada pela mais severa seleção. Estamos, pois, diante de um “niilismo clássico” ou “extático”, em que o rigor das exigências será a pedra de toque para distinguir entre os decadentes e os criadores e, com essa pedagogia da seleção trágica, produzirá “homens que terão todas as qualidades da alma moderna, mas que terão a força de transformá-las em saúde” (Vontade de potência II). Em suma, é preciso “comandar a humanidade para obrigá-la a se superar. Conseguir que ela se supere, por meio de doutrinas que a farão perecer, exceto aquelas que as sustentarão” (Vontade de potência II).

A aproximação do Último Homem

Quando Zaratustra, o porta-voz de Nietzsche, resolve sair de seu retiro para falar ao povo, seu discurso pretende justamente provocar aquele despertar da vontade que, para além do niilismo, permitirá alcançar o super-homem. Tal discurso ilustra bem essa educação da vontade de potência afirmativa que, espera Nietzsche, forjará as armas do “niilismo extático”. Zaratustra procura despertar a vocação criadora espicaçando entre os ouvintes o orgulho do desprezo. Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividade, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, “o que há de mais desprezível no mundo” é “o Último Homem” – o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catástrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da “felicidade”; em suma, o homem que se julga “esperto” porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente: “A terra então se tornará pequena, e se verá saltitar o Último Homem, que apequena todas as coisas. Sua laia é indestrutível como a do pulgão; o Último Homem é aquele que viverá mais tempo” (Assim falou Zaratustra). Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão – e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma irresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da “sociedade de consumo” moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.

Ora, Zaratustra se apercebe consternado que o povo, longe de desprezar o niilismo hedonista do Último Homem, reivindica-o a altos brados e mostra apenas indiferença pelo projeto do super-homem!

Sutil prova da perspicácia de Nietzsche. Pois Nietzsche nos adverte, com essa fábula, que a tarefa de vencer o niilismo será não só mal interpretada, mas abertamente sabotada pela modernidade, cujo princípio é a sacralização da felicidade de massa, a idolatria do “prestígio social”.

A “luta final” não será a que previa Marx; ela oporá o filósofo trágico ao niilismo da massificação planetária.