Nietzsche
Capítulo V: O super-homem
CAPÍTULO V
O SUPER-HOMEM
A seleção
Nada falsearia mais a significação conferida por Nietzsche à ideia do “super-homem” do que tratá-la como eixo de uma doutrina evolucionista similar à de Lamarck e Darwin. Não nos deixemos enganar neste ponto por algumas fórmulas de aparência “evolucionista” que Nietzsche coloca na boca de Zaratustra! Elas têm apenas um valor de imagem e, portanto, não despertam as ásperas objeções que Nietzsche, por outro lado, dirige às teorias transformistas de sua época, prejudicadas, segundo ele, pela crença no progresso. Pois, a seus olhos, a humanidade como espécie não representa um progresso em relação aos animais (Werke XVI 147), e tampouco, dentro do grupo humano, é constituída por uma elite duradoura que marcaria um progresso em relação às massas. Seria até mais honesto, aqui, falar em regressão. Pois a humanidade moderna não é degenerada em comparação aos heróis da civilização da Renascença ou aos antigos gregos (O anticristo)? Particularizando sua polêmica, Nietzsche contrapõe ao darwinismo estas duas observações: as formas inferiores são incapazes de produzir as formas superiores (Werke XVI 150), e – mais lamentavelmente ainda – muitas vezes são os fracos e os medíocres que vencem a “struggle for life”. “A regra estabelece que os homens superiores, as almas de elite, sucumbam e naufraguem” (Além do bem e do mal). Quanto às teses de Lamarck, ele as critica por exagerarem demais o papel do “meio” na seleção vital.
Em suma, a crítica da noção de progresso ultrapassa o quadro da biologia para chegar à concepção da História, impossibilitando de antemão qualquer tentativa de fazer do super-homem o resultado necessário de uma pretensa “lógica” da História. Sem dúvida, a partir do momento em que rejeita qualquer Transcendência suprassensível, Nietzsche deve situar o eventual surgimento de seu super-homem exclusivamente na imanência histórica. Mas, se ele se preocupa em encontrar na História os precursores do super-humano, detectando aqui e ali os êxitos individuais ou coletivos que são seus primeiros esboços (por exemplo, o povo grego, a aristocracia da Índia antiga, Napoleão), por outro lado não compartilha a confiança de Hegel, de Comte e de Marx no desenvolvimento racional de uma História que resultaria normalmente no triunfo dos valores mais elevados; e não se limita a recusar essa fantasmagoria da racionalidade histórica, indignando-se com ela como uma funesta mentira idealista: “Ver na história a realização do bem e do justo é uma blasfêmia contra o bem e o justo. Essa bela história universal é, para utilizar uma expressão de Heráclito, um ‘amontoado de sujeira’. O que é forte abre passagem, tal é a regra; se pelo menos não fosse também, com tanta frequência, o que é tolo e maldoso!” (Fragmentos sobre a energia e a potência ). Nietzsche manterá inflexivelmente essas reflexões críticas que, já na segunda Consideração intempestiva, dirigia à filosofia hegeliana e que se encontram resumidas nesta breve citação: “É um pensamento paralisante e contristador considerar-se um retardatário chegando atrasado nos tempos, mas o que é terrível e destruidor é que esta filosofia, numa despudorada inversão, divinizou o tipo do retardatário como se fosse o sentido e a finalidade de toda a evolução anterior” (Considerações inatuais I).