Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 10 de 32

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Nietzsche

Capítulo II: Superar a metafísica

CAPÍTULO II

 

SUPERAR A METAFÍSICA

O niilismo moderno é a consequência direta desse pensamento “metafísico” que se impôs como a ideologia de toda a civilização ocidental. Com efeito, é o pensamento metafísico que, na crise niilista, revela que seu fundamento não passava de um fundamento ilusório; um puro nada hipostasiado como “mundo suprassensível” e dotado de todos os encantos do Ideal! Para derrotar o niilismo, portanto, é preciso que haja uma libertação definitiva desse Idealismo metafísico. Nietzsche atribui a essa libertação a tarefa de “superar a metafísica”, dando ao verbo “superar” um sentido tipicamente nietzschiano, em que se concentram especialmente todas as significações inerentes à noção de “vontade de potência”: a negatividade da reflexão crítica, a força mostrada no próprio ato de superar, enfim – com uma nuance propriamente dialética – a ideia de que o impulso para superar mobiliza também um fator essencial daquilo que é superado, de modo que o resultado não é uma simples destruição, e sim a produção de uma verdade superior.

Analisemos em detalhe as principais características do Idealismo “metafísico”.

O dualismo moral

O pensamento metafísico se empenha em desconhecer essa determinação essencial da realidade: a mescla, pela qual os diversos elementos constitutivos de um ser real correspondem a negações e a afirmações indissociavelmente solidárias entre si. Ele pretende, pelo contrário, romper essa conivência, porque ela desconcerta, perturba e causa a impressão de que os valores mais altos se encontram “maculados” pela mescla com antivalores, por exemplo o espírito com a matéria, ou, de forma mais expressiva, o ser permanente com o fluxo do devir. Sobre este último ponto, aliás, ele é taxativo: o ser verdadeiramente ser não pode vir a ser; logo, é imutável e não pertence à mesma esfera de inteligibilidade a que pertence o mundo entregue aos caprichos da mudança. Da mesma forma, se os sentidos e a razão são discordantes, eis aí a prova de que não cooperam senão sob coerção e que visam a formas de realidade incompatíveis. O pensamento metafísico, por conseguinte, decreta que a ambiguidade, as modificações, as misturas do mundo que recaem sob nossa experiência são aparências enganosas, e que é preciso conceber para além delas uma organização totalmente diferente, onde os elementos aqui antagonistas são dissociados e reagrupados segundo suas verdadeiras afinidades, para constituir dois sistemas irredutíveis, um deles efetivamente real (o dos “valores superiores”) e o outro uma ilusão efêmera. “A crença fundamental dos metafísicos é a crença na antinomia dos valores” (Além do bem e do mal).

Qualificamos esse dualismo de “moral” para frisar não só que o terreno preferido em que ele se exerce é a Moral, mas também e principalmente que ele é gerado por uma interpretação moralizante do mundo. Segundo ela, o bem se opõe absolutamente ao mal, suas naturezas e suas origens nada têm em comum. Sua atual conjunção apenas manifesta um estado de corrupção cuja causa deve ser buscada numa falta ético-religiosa. É, diz Nietzsche, “o fanático moral que acredita que o bem só pode provir do bem, só pode crescer a partir do bem” (O viajante e sua sombra). Pelo termo “mal” deve-se entender tudo o que, direta ou indiretamente, provoca sofrimento, angústia, mudança e morte – em suma, o negativo, ao passo que o bem designa “um ideal que não deve ter em si nada de nocivo, mau, perigoso, ambíguo” (Vontade de potência II).