Nietzsche
O perspectivismo
Se o texto do mundo conserva uma parcela enigmática e nunca deixa de opor ao esforço de elucidação o desafio do caos, é também porque o conhecimento é sempre pluralista, e a multiplicação dos “pontos de vista” – o “perspectivismo”, no vocabulário de Nietzsche – proíbe a totalização que levaria ao triunfo de uma interpretação única. Nietzsche não se cansa de guerrear contra o fantasma da totalidade – esta “sombra de Deus”! “Parece-me importante que nos desembaracemos do Todo, da Unidade, de não sei qual força, de não sei qual absoluto; seria impossível deixar de tomá-lo como instância suprema e de batizá-lo como ‘Deus’. É preciso esmigalhar o universo, perder o respeito pelo Todo” (Vontade de potência II). Assim, não só o Ser consiste apenas num fluxo de relações, como ainda essas relações são assumidas a partir de uma multiplicidade de “centros” e cada uma delas desvenda certos aspectos do mundo segundo a perspectiva que cada centro abre sobre esse mundo. As significações decifradas no texto do mundo traduzem a compreensão, sempre particular, e aliás cambiante, que cada centro forma sobre a realidade, a tal ponto que essas significações se entrecruzam, se sobrepõem e se mesclam para produzir o estado presente do texto – com tudo o que esse texto então comporta de heteróclito, proliferante e contraditório. Sem dúvida algumas linhas acabam por se enrijecer, algumas constelações acabam por assumir relevo, de modo que certas interpretações se tornam dominantes, mas essas organizações não deixam de excluir o Uno em função do qual poderia se instituir a síntese totalizadora. O antagonismo com Hegel, neste ponto crucial, é irredutível: em Nietzsche, jamais as diversas perspectivas podem desempenhar o papel de “mediações” para programar um devir dialético do Absoluto! O pluralismo nietzschiano nunca é reabsorvido num circuito dialético, em que o Todo se alienaria na multiplicidade dos indivíduos; esse pluralismo é uma determinação primordial da realidade; sem dúvida tem comunicações, convergências e confrontações, sem as quais cada perspectiva ficaria fechada em si mesma e se erigiria automaticamente em absoluto; mas ela faz com que a Unidade de sobrevoo apareça como uma ficção perniciosa, pois “‘tudo compreender’ seria suprimir todas as relações de perspectiva; seria nada compreender, desconhecer a essência do conhecer” (Vontade de potência II). Não existe conhecimento a não ser interpretativo, e não existe interpretação a não ser no plural!
Os valores
A análise das estruturas da interpretação não estaria completa sem a presença do conceito capital de “valor”. Com efeito, é a ele que cabe colocar a ênfase, na operação de interpretar o texto, sobre a iniciativa criadora, sobre o projeto (como se diria hoje) do próprio intérprete. Com isso o conceito de valor assegura a esperada conexão com o tema geral, com o tema tipicamente nietzschiano da “vontade de potência”.
A relação onde se realiza a própria manifestação do texto não é sofrida por um intérprete que se limitaria a “refletir” passivamente as imagens e as significações cambiantes, ela é moldada em favor de uma atividade original de cada “centro de interpretação”, e portanto é, de certa maneira, uma produção; mais exatamente, uma construção de formas, de maneira que o sentido para Nietzsche é sempre o resultado de uma mise en forme – uma configuração expressiva; “o homem”, diz ele, “é um criador de formas e de ritmos; em nada ele é tão experiente, nada lhe agrada mais do que a invenção de formas e de tipos” (Obras póstumas). Se não nos esquecermos de acrescentar as ideias de domínio, anexação e comando mobilizadas pelo tema da vontade de potência, e em função das quais Nietzsche designa os centros interpretativos como “figuras de dominação” (Herrschaftsgebilde), não hesitaremos em falar aqui de interpretação imperativa, isto é, interpretação que alinha o juízo, por exemplo, pelo modelo da decisão autoritária. Prossegue Nietzsche: “Na origem, o juízo não significa apenas ‘isto ou aquilo é verdadeiro’, mas ainda mais: ‘Eu quero que isso seja verdadeiro de tal ou tal maneira’” (Obras póstumas). Por conseguinte, “é preciso reconduzir aquilo que se chama o instinto do conhecimento a um instinto de apropriação e de conquista” (Vontade de potência I).